segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013


Dança Das Moscas À Volta De Um Poema

Sinceramente, a quem interessa o que tu esperas que passe, onde te sentas e o que te
Escorre desse órgão de emoções a que alguns dizem imortal, o Panero parece obcecado
Com sapos, sapos ao luar, numa noite húmida, as mãos negras de sangue, a química
Cerebral ou algum fio fora do lugar, ainda se compreende, agora os cheiros que te
Tocam no hipocampo, só porque está bem perto do nariz e é de ligação directa,
Quem se interessa quando não se podem cheirar palavras, que magia julgas tu ser capaz
De fazer com palavras que todos os dias se limpam com papel higiénico, esperma uns,
Sapo outros, o mesmo nojo da vida, as moscas dançam no ar cheio de merda, numas
Revistas amarelecidas repousa um cagalhão ressacado, tudo sépia e séptico, a vida,
E sinceramente, quem se interessa com a mesa posta, o teu cão morto, o teu avô
Que morreu num hospital onde nunca te deixaram entrar por seres criança e agora,
Farto da morte dos outros, esperando uns dias que o cansaço vença, mas a vida um
Cansaço que nunca vence até vir o raio que nos parte a todos, mais vale sacudir a garrafa,
Não deixar nada a azedar, que no fim sopra-se e o som o mesmo, o vazio e o impossível.

18.02.2013

Turku

João Bosco da Silva

“Não Toques Nos Objectos Imediatos”

Quantas vezes, me sento naquele banco de jardim à geada, à espera de a ver passar
E agarrar-lhe uns versos, naquele mesmo banco de jardim, enquanto as luzes da vila
Se acendem aos poucos e o ar se enche de convites para jantares e eu só com uma fome
Dentro, entre a pele e a carne, uma sede no pericárdio, quantas vezes me sento,
Com um livro no colo, só para me impôr uma presença defunta apreciada por muitos,
Afinal, nem tantos entre os que às vezes me emprestam o reconhecimento de um olhar,
Naquele mesmo banco onde beijei contrariado, onde me deitei num colo indesejado,
Onde descasquei as lágrimas de uma tristeza cujo sumo nunca mais consegui secar,
As unhas lascam a madeira, os dentes batem, dizem que tremo à geada, mas é outro
Frio, da mesma natureza da fome, e ela não sai, não passa, se calhar nem está,
De certeza que não me existe, só eu estou preocupado em dar-lhe uma alma ao corpo
Que nunca se sentará naquele, neste banco de jardim, sempre vazio, onde nunca estou
E onde tantas vezes me sento, à espera, mas só o sono vem, e a derrota e a morte.

18.02.2013

Turku

João Bosco da Silva