sábado, 31 de agosto de 2013

Speramus Meliora; Resurget Cineribus

Não sei o que me trouxe a Detroit, provavelmente o facto de estar familiarizado
No sangue com impérios afundados, sejam barcos, ruínas, abandono, tradições
Baseadas na obscuridade, nos becos esquecidos por tudo menos pelo oportunismo
Parasitário, o sangue escravizado pela terra ou pelas máquinas, trabalhar para viver
Para trabalhar, não sei se as casas abandonadas, se os abandonados nas casas, à espera
Do golpe final, um corte, e a ténue película entre aqui e a bancarrota letal, a miséria
É a desculpa para as oscilações do humor frio das bolsas dos bolsos abstractos dos deuses
A quem ninguém reza e toda a gente deve, paga-se com a vida e está-se finalmente
Descansado, que o coveiro não nos enterre muito fundo, temos que incomodar
Ao menos os narizes, já que este mundo é de surdos, mudos e idiotas feitos pinguins
No ar frio com que engolem o peixe miúdo, nunca serás ninguém enquanto não tiveres
Praga ou Budapeste, dizem-me entre dentes numa fotografia, pensei pedir equivalência,
Afinal tive boa nota na sueca e noutras cartadas internacionais, os certificados entretanto
Foram lavados com sabão e horas de suor e cerveja, outros desfizeram-se quando acordaram
De manhã e o lençol já frio, um manto de neve sobre Detroit, pisado por um rapper
De outros tempos, no tempo em que se podia ser ainda tudo, sabendo o mundo,
Desde logo, que nunca permitiria grandes voos, uns cruzeiros para um futuro naufrago.

31.08.2013

João Bosco da Silva


Coimbra
Intermitências De Fogo E Gelo ou Pasteurização Do Material Anti-poético

Passa-se o dia à espera de um poema, um que sacuda o pó e dê brilho ao cadáver
Que nos habita, um de muitos, uma madrugada que foi esmagada por uma centena de noites,
O cheiro de alguém entranhado nos dedos, que mal se lembra da cor dos nossos olhos,
Ressuscitar fantasmas, quando a carne já apodreceu há muito, pega-se então num livro de
Poemas, enquanto o próprio não vem e encontram-se lugares comuns onde nunca se esteve,
Pedaços de vida, como pedaços de carne numa canja, coincidências felizes que cobrem
A cereja de melancolia, tudo perdido, tudo, quanto muito, um poema que ninguém
Vestirá completamente, ou de nenhuma forma, uma ilusão entre um sono e um sonho,
Até que os olhos orbitem no universo próprio das ligações entre neurónios, esquecem-se
Do transdérmico e os anos todos a entreabrir os dedos, as recordações areia, perdeu-se
O balde e a pá e os caranguejos agora só o seu exoesqueleto verde a lembrar uma lenda
Japonesa qualquer que se ouviu em infância ou num sonho, que é a mesma coisa,
Mesmo que se escreva, aquela boca quente que pedia e engolia o esperma, na esplanada
Das traseiras de um café fechado numa cidade do norte, com as meias e as cuecas descidas
Ao nível dos tornozelos, não voltará a dizer, com hálito a futuros perdidos, que vai para o
Inferno por isto, com um sorriso de levantar o pau de seguida, tudo engolido, é a fatalidade
De tudo, tudo por aí abaixo, ampulheta abaixo, estômago abaixo, terra abaixo, ponteiros abaixo,
Bota abaixo, já nem a casa dos avôs na aldeia se reconhece, um quarto onde era outro, uma varanda
Onde antes uma janela, voltada para a montanha de onde o Sol saía, não nascia,
Tentam-se imortalizar as loucuras ordinárias, esbatidas pelo próprio combustível da loucura,
Mas não vale a pena, no fundo, são só palavras, o batom não se espalha à volta dos tomates
Latejantes, ela não se abre em cima da sanita e pede para a foder, anjo aberto para abraçar
O pecado, que dizem que é pecado e portanto, que se fodam, enquanto o amigo de ímans
Meio desmaiado no sofá com a lata de cerveja na mão, fode-me fode-me, mais, adoro
Os teus tomates, como pode um anjo loiro de olhos de céu ter uma boca tão vermelha,
Mas nada, da varanda da casa dos meus avós, agora, só o Sol se põe enquanto um cigarro
Se consome, na companhia do tio que noutros tempos partilhava cinquenta escudos
Numa arcarde de aldeia fronteiriça, eu agora sempre na corda bamba, entre o tédio e a loucura,
À espera de um poema indecente, sobre as indecências da minha vida, enquanto
Passo um dia à espera que acabe, sem saber bem porquê, para quê, mas siga, que venha,
Tudo o resto, foi engolido, digerido, cagado, e não passa agora de material anti-poético.

31.08.2013

João Bosco da Silva


Coimbra