segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Comparação Da Dimensão Do Espaço Depois Da Subtração Da História

“You can´t escape the past in Paris, and yet what´s so wonderful about it is that the past and presente intermingle so intangibly that it doesn´t seem to burden.”
Allen Ginsberg

Tens razão quando dizes que Montmartre é como a aldeia do meu pai, mas a aldeia do meu pai
Sempre comeu e bebeu  o que o suor e a terra lhe deu, lá se plantava e lá se colhia, em Montmartre
Há uma vinha cujo vinho quase ninguém prova, mas tanta gente conhece e viu, não me parece
Que comam as heras que crescem na paredes das casinhas, nem vi galinhas a correr pelas ruas
Ou debaixo das mesas dos cafés, vi sim uma ou outra pomba, aves citadinas essas, que raras vezes
Vi na aldeia do meu pai a pedinchar um pedaço de pão, na aldeia do meu pai não há pedintes
De nenhum tipo, só portas abertas e a partilha do pouco que se tem, mas Montmartre respira
Ainda, mesmo que o sangue seja vinho daqui ou dali, as casas brilham e no seu tamanho são
Maiores do que o desprezo dos descendentes que herdaram telhas que apodrecem e cedem
Tudo, colapsando todas as noites à lareira, todos os gemidos nos partos em colchões de palha,
Todos os gatos que entravam por buracos pequenos em baixo das portas, como o frio
Entrava nos ossos da gente, Montmartre tem ainda luz, tem olhos, tem gente, gente que
Procura nas ruas a presença de quem já lá não está, mas tens razão, as ruas são tão largas
Num lugar como noutro, apesar da macadamização ser bem recente num lado e estar
Já bem polida noutro, falta gente e uma cidade inteira aos pés para se poder comparar,
Mas mesmo assim, não sei onde me sinto mais em casa, se onde as memórias são minhas,
Se onde as memórias são as que queria que fossem minhas, noutros tempos, as mesmas pedras.

Coimbra

10-02-2014


João Bosco da Silva
Morte De Francesca de Rimini E De Paolo Malatesta

Lanciotto Malatesta depois de vestir a mulher e o irmão, sacode o sangue dos cornos
E mancha levemente as roupas dos dois amantes, que tinham estado a aquecer
Os ânimos com literatura pornográfica, o cabrão, quando viu o irmão a penetrar tão fundo
A sua bela esposa, desembainha a espada, já que o choque lhe encolheu a capacidade de
Desembainhar outra coisa, e portanto a possibilidade de um ménage à trois, ferido no orgulho,
Trespassa os dois que, provavelmente, nem notaram o metal que os espetava, só poderiam
Estar a partilhar um intenso orgasmo simultâneo para não repararem na presença chifruda,
Dizem que da rua, não se ouviram gritos de dor, só gemidos, há ainda quem diga, que
Estavam abraçados a ler, ou que estavam a dar o primeiro beijo, mas só estando numa
Foda desenfreada é que não se nota no brilho de uma espada contra a luz do Sol,
É de mau gosto, comer o que é dos outros e nem partilhar, foi isto que deixou o gajo fodido
E o fez decidir pela espetada, agora o que os poetas disseram sobre, é pura especulação poética.

10-02-2014


Coimbra

João Bosco da Silva
“Em Busca Do Tempo Perdido”

“You belong to me and all Paris belongs to me and I belong to this notebook and this pencil.”
Ernest Hemingway, “A Moveable Feast”

Nem cheiro de Hemingway, e de Miller só um toque nas costas lá para os lados da descida da torre,
Enquanto se espera, arrisca-se, de Pigalle muitas promessas de dildos e bolinhas no cu, as luzes
Lá estão e as adolescentes bêbadas, sem necessidades, só vontade de vomitar nas ruas, ecos
De avós e visavós, deslumbramento precoce das traças pelos candeeiros e a alienação da massa,
Demasiada gente enlatada à espera dos mausoléus, disto ou daquilo para chegar a tão pouco ou nada,
Ou apenas a sinceridade real de uma desilusão, só nos copos de vinho excessivamente espremidos
Se encontra o bigode de Django Reinhardt e o brilho de outros tempos que só as paredes conheceram,
Sonha-se na viagem, as ruas encerram tudo, o copo vazio desmistifica a neblina, o vento frio entorpece
A caneta e os dedos, não há outra aventura além do risco da violência inocente na madrugada da metrópole,
Metropolitain e muito barulho das luzes, vende-se a ilusão a pratos cheios e quentes, diferentes
Da Dobrada à Moda do Porto e no final as casas de banho só escondem cheiro a mijo e ecos do que cada
Um pode imaginar segundo as suas experiências, o cansaço eleva razões para o salto nas cidades
Virgens de libertinagem, apesar de tudo, sente-se a vibração latente nos olhos dos que procuram
A possibilidade de um filme de Woody Allen, mesmo que patológica a nostalgia como a saudade,
Um dia também a poderá conhecer e explorar numa cidade onde arrefecem pratos, onde renasceu
Zombie poeta um aldeão viciado na passagem e na paisagem, imediatamente se esquece o verdadeiro
Sabor e fica apenas a recordação do gosto quente, nas palavras nunca arrefece, por isso sonho
Com Paris dos livros, aqui, neste Paris onde os copos se esvaziam, adiando o sono e a visita a ecos de génios.

08-02-2014

Montmartre


João Bosco da Silva

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Transcrição Da Saudade

ao meu avô Jorge,

A caneca sobreviveu-te, ainda há copos que vibram na recordação dos teus lábios
Pintados pelo vinho , as cartas evaporam-se num canto onde o pó se esquece,
O teu canto à beira da chaminé nunca será preenchido, venha quem vier, até eu
Me sinto esmagado pela ausência de ti todo, quando concentro o meu peso e o meu
Sofrimento na lareira que crepita com o gotejar da gordura de uma chouriça que nunca
Irás provar, a mim tudo me pareceu gratuito, sabendo que a mim, nem a caneta me
Sobreviverá, do que são feitas hoje as tuas mãos nodosas e onde estão as batatas
Que tu arrancavas da terra, não serei egoísta ao ponto de dizer, morreste-me,
Porque na verdade, morreste-te, a ti e a tudo o que era teu, com eu, uma
Extensão do que extraíste da terra e apesar da tua surdez se ter tornado no
Eco da eternidade, cá me estás, mesmo que nem uma palavra, nem uma só história das
Que tanto gostavas de repetir, só a sombra da tua presença, à lareira, nas noites frias
Destiladas a fogo e vinho, pela vida fora, até que nem o cansaço te cedeu, só a vida,
Tu sempre maior e mais forte que tu próprio, nem te sentiste, nem te acreditaste,
Ainda hoje estás certo que eterno, também eu, aqui te sobrevivo, entre um vazio
E outro, que a vida é isto, esvaziar, despejar no nada tudo quanto se é, até não haver
Mais que se seja, tudo tão certo como a garrafa que se encerra na mão e já vazia,
Tão seguro como a mão que a empunha e sem se perceber a larga por um instante
E a garrafa partida, a tornar o seu vazio do tamanho do mundo, aperta-me a mão,
Mesmo que tu já nem mão, tu todas as mãos que nunca serão a tua, como foram
As mulheres aquela que nunca foi, percebes-me a estas horas antes da primeira caneca,
Falemos na linguagem das cartas, deixo-te roubar, contigo perder nunca será perder,
Só perdendo-te, eu parto, baralha tudo como se fosse a minha cabeça, tu sabes,
Sempre decifraste bem a cor dos meus olhos e o sofrimento da minha carne dissecada
Pelo vício dela própria, digo-te que nunca chorei, porque nunca te vi chorar, os homens
Que vivem na vida, não choram, sangram, aí eu falho-te, sou muito espectador,
Toco demasiado sem tocar verdadeiramente em nada, crio tanto sem direito a espaço,
Nem uma fruta, só a vontade, talvez, um corte, uma fatia de queijo de manhã, na transição
Da ressaca, na morte da juventude, enquanto o Sol, lá fora, indiferente a todos os ossos,
Nos envelhece, nos separa com dias, tempo, invejoso do tamanho da memória,
Acreditaste mais no poder da terra e da carne, mesmo que a cara salpicada de água
Nos Domingos e o adro na tua presença, a olhar para as mulheres de lenço na cabeça
Certas dos pecados, decorando um arrependimento para a representação de teatrinho,
A caneca sobreviveu-te, o vinho é que não será nunca a mesma coisa depois do inferno.

05-02-2014

Coimbra


João Bosco da Silva