quarta-feira, 30 de julho de 2014

Testamento

Estou muito contente hoje, porque hoje não encontrei nem um amigo, vi um acidente
E não era eu, estou a acabar mas ainda não foi hoje, ainda, as palavras cansam-se de mim
E eu canso-me delas, estou farto porque não vale a pena, como nada, os ecos continuam,
O passado continua a dizer-me que sou e ainda existo, mas cada vez mais sou menos capaz
De ser eu, vou regressando aos poucos à inocência das primeiras vezes, à ilusão
Consciente da ilusão, à fome dos dias quentes, à sede desses mesmos dias, onde me afogo
Pelo simples prazer de me desencontrar de mim mesmo e de todos os que me refletem,
Páginas e páginas para o vazio dos olhos que rejeitam e aceitam todos os dejetos
Etiquetados, isto não é um cachimbo, é um cagalhão, Sol, o lago exausto no futuro
E é onde me agarro a estas horas de canos para a comunidade do digerido, sabes,
Podia ter sido mais se tivessem havido olhos capazes, mas também escrevo contra
Tudo, escrevo contra todos, espero apenas o esgar dos enjoados, a traição
Da minha inocência, a dor gratuita nas demasiadas horas latentes entre o tédio
E o fim do mundo, cada dia, um buraco negro inelutável, onde anda o Miguel Torga
A estas horas, que distâncias semeei desde os primeiros passos neste chiqueiro
A que tantos chamam de poesia e tratam vestidos de senhores e doutores
E impostores, se ao menos ainda houvesse uma Paris solidária, com homens violentos
Na vida como nas palavras, irmãos das garrafas e das putas, dos perdidos e dos desesperados,
Juro que me sento e me deixo ser gárgula esquelética ao Sol dos dias cinzentos,
Não espero mais a não ser a derrota inevitável do meu tamanho melindrado pelo nome.

Turku

30/07/14


João Bosco da Silva
O Valor Das Coisas Pequenas

A poesia é construída com coisas pequenas como a vida e a vida é feita do que se prende
À memória e trazemos para sermos o que somos, o esquecimento é morte, a vida é feita
De cheiros, como de uma t-shirt de marca nova, como aquela azul, a primeira t-shirt de marca
No dia febril do aniversário dos catorze anos, os amigos à espera, na sala, à volta das
Batatas fritas, do bolo da mãe e do refrigerante espanhol barato, os amigos de infância,
Hoje, um a um, absorvidos pelo acaso, abraçando cada um deles como que por obrigação
Do destino o bom e o mau que a vida lhes trouxe, ao lado dos sonhos e de tudo o que
Se esperava, sabendo-se no fundo, que não se poderia ir mais longe do que a vida,
Além do que tinha que ser, porque é a vida, a febre a tentar ser mais forte que a vontade
De brincadeira, mesmo assim, correr, descer e vê-los juntos por mim, sempre tão pálido
Nos dias felizes, sei que fui a depressão daquele corpo tatuado pela dor e pela celebração
Da perda, hoje também casada e feliz ou iludida, que é quase o mesmo, não há alegria
Que seja lúcida, nem felicidade que veja claramente, e a melhor poesia é aquela que se despe
Da lucidez e é suja como os joelhos de um garoto, dos de antes, que se sujavam na terra
E tinham as unhas encardidas e passavam as tardes em palheiros a bater punhetas
E fumar cigarros de papel, sonhando com o ovo Kinder do próximo fim-de-semana
E um beijo da prima favorita depois do banho semanal e da camisola nova do foguetão,
Em segunda mão, claro, mas nova e quase do tamanho certo, a vida, tudo isto e o resto que
Se tenta imortalizar em palavras, esperando o reconhecimento dos leigos, dos que vivem com
Os olhos para fora e tornam tudo mais real e mais importante, esvaziando garrafas de vinho
Em Montmartre numa noite de luzes e paredes de cemitério, o corpo tatuado em celebração
De uma noite engolida pela medusa e todos os medos, o cheiro de uma t-shirt nova,
De marca, imaginem, de marca, três vezes mais cara que a dos catorze anos,
Arrumada entre as outras, à espera de um dia qualquer em que esteja à mão, a vida é poesia,
Também é merda, é feita de coisas pequenas, porque tudo o resto é insignificante.

Turku

29/07/2014


João Bosco da Silva

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Não Me Chamo

Não me chamo Artur, se me chamasse assim, estava a atravessar o Canal da Mancha
Com asas de pau a sonhar com tiros na mão e empurrões por trás, mal vistos
Pela sociedade da aldeia, contudo sonho com o mar dos olhos frescos e não invejo
A impossibilidade de dois átomos de hidrogénio e o seu sucesso, chega-se a um ponto
Em que basta cagar ameixas que o deslumbramento dos fascinados pela imortalidade
Das rugas persistentes, com algum acto de alquimia, transformam em ovos de ouro,
Sou a inocência desesperada do gajo que troca a vaca pelos feijões e o sonho,
No final cresce demasiado , torna-se desilusão, proporcional ao tamanho da ilusão
Fermentada em sonhos acordados à luz do desencantamento de poemas
Neorrealistas, enquanto vacas velhas endurecem a carne para a fome dos dentes
Cada vez mais fracos, vence sempre quem nasceu para humilhar, berços de ouro
Rodeados da felicidade esforçada que é o estrume da vida da maioria, não me chamo Artur,
Nem acredito que a salvação esteja numa amputação após pecados alucinados
Por fadas verdes e africanas, o meu nome é o que me dão e nenhum é o meu, deixo correr
A vida e o cansaço desvia-me do leite amargo, duro, gasto-me em pragas e outros gafanhotos,
Desisto de mim todos os dias e é tudo o que posso fazer, é tudo o que tenho,
Essa possibilidade de desistir e persistir na corrosão do coração pelo sangue ácido e pelo
Esperma venenoso, continuar a pedir mais um dia após a inutilidade evidente do último,
Deixo isto escrito para os alquimistas da merda, que com as suas vidas ocupadas
Encontram sentidos que não percebem na agonia dos moribundos, a caneta é mais fiel
E real que a própria vida e no entanto está sempre afiada e pronta para um ponto final.

Turku

15.07.2014


João Bosco da Silva

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Hipocampo

Há perfumes como sorrisos, mas os lábios vermelhos não bastam, nem o afogamento
Dos dedos num desejo sem sal, há viagens que mais valem ficar na solidão ou em casa
Que é onde geralmente se dão as maiores voltas, é difícil viver no meio de tanto,
O corpo, os olhos, ainda não se habituaram a grandes aglomerados de pedra, carne
E hormonas, há cores que ainda não foram traduzidas no cérebro, vivem encriptadas
No nosso fascínio ignorante, só os cheiros nunca se estranham, tudo pronto para receber
E atravessar o etmoide a velocidades primitivas, onde se ilumina a sinceridade básica
Até lá baixo, até à origem do mundo e o fim de tudo, o Sol revela tanto quanto as sombras,
É tudo uma questão de olhar e inspirar fundo perto da virilha, tentar decifrar a magia ou
A química possível, destilar do vento o rumor de uma possibilidade, alguém Lolita,
No meio de uma confusão de monóxido de carbono e náuseas que ecoam na ruas
De uma tarde esforçada por vida numa facilidade quente de revelação e carne fresca.

03.07.2014

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 9 de julho de 2014



David Cronenberg E Rãs Transmutantes

Foi preciso um sonho para compreender a tua coisa por sapos, Panero, apesar
De não ter percebido a transpiração irónica do recalcamento, depois de ter
Assassinado uma chinesa velha num salão de ópio, e sentir aquela culpa que é medo
E ao mesmo tempo desejo de ser apanhado, ao estilo de Raskolnikov, se te dissessem
Que doze anos passavam e tu ficavam quase na mesma, esmagado por tudo o que
Entretanto deixaste para trás e te faz, mesmo que passado, não foram sapos,
Mas foram rãs, que não são o mesmo, não repugnam todos, tem algo de erótico
Na silhueta e na forma como estão húmidas, não fosse o sangue frio,
À beira de um rio que apesar de não o ser, em Portugal, a erva alta, mas fresca
Como nos Verões nórdicos, e rãs armadas em gatos pretos, atravessando um caminho
Sem destino, ao lado do rio, o rio sim, o mesmo onde o velho e o peixe, há doze anos,
Quando te armavas em Bandini de dezoito anos aos dezasseis, centenas de rãs,
De todos os tamanhos, de pernas bem torneadas em todo o comprimento no ar,
Cruzando o teu espaço à distância temporal de um passo, um deslumbramento quântico,
Num entardecer de floresta com o Sol ainda violento entre as folhas e a promessa
De uma Lua vermelha, ou amarela, as rãs, verdes, amarelas, verdes e amarelas, azuis,
Vermelhas, todas apetitosas, estranhamente apetitosas e repugnadas pela
Minha intromissão no meu próprio sonho, cogumelos venenosos nos olhos,
Já a velha chinesa esquecida, nunca aconteceu, não nesta linha electroencefalográfica,
Foi um sonho, isto sim, é, o reflexo demasiado distorcido de um dia abusado pelo excesso
Dos olhos pela carne, ou da carne pelos olhos, numa clareira, uma exposição de raras rãs,
Enormes, homúnculos em frascos e redomas de vidro, rãs transmutantes, subitamente
Todas elas brinquedos antigos, a sorrir para um baú de sonhos partidos e esquecidos
Debaixo de tanta página arrancada à vida, ao ler a descrição da espécie, lembrei-me
De uma vez ver num Domingo de manhã, depois dos desenhos animados, uma ave
Que reproduzia todos os sons que ouvia, mesmo  os artificiais, uma máquina fotográfica
Por exemplo, fez-se noite e tudo se tornou dentro, num divã, num quarto pequeno e escuro
Em Moledo, a tornar-se grande à medida que a escuridão crescia, e o medo, a morte,
A velha chinesa de volta, o medo tão grande, tão pesado quanto o vazio, asfixiante,
Tem que se acordar para respirar, inspirar fundo o fumo tóxico da realidade
Para lavar as cirvunvoluções do excesso de serotonina e da culpa por defeito.

Turku

09.07.2014


João Bosco da Silva