segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Houve Um Tempo

Houve um tempo de longas viagens para longe do Verão
E da infância, sentia-se algo como um elástico a esticar
E dentro tudo a ficar mais fino, a fronteira era a montanha
Do poeta, a lareira a tornar-se numas brasas que a memória
Sopra para se aquecer um pouco, o autocarro frio,
Cheio de gente invisível e barulhenta, houve um tempo
Em que se vivia dos ecos do Verão nos quartos vazios
No meio de uma cidade doente e prostituída,
Em que o chão mais confortável que a cama fria,
De olhos fechados a relembrar as fragas quentes
Ao fim da tarde com o céu incendiado pela noite
Que acendia no ar o cheiro dos jantares humildes,
Houve um tempo em que se esperava o toque
Para o intervalo daquelas ruas, voltar ao tudo que
Se tinha naquele pouco de ruas familiares,
Houve um tempo em que se dava o futuro
Por se ouvir um cão a ladrar à noite ou
Um galo a quebrar a solidão azul da madrugada,
Os sonhos não mudaram muito, só a importância
Que se lhes atribui, houve um tempo em que
A neve era sinal de liberdade e mais tempo à lareira,
Olhava-se e nela o futuro, página em branco,
Não a distância e a fronteira cada vez mais espessa,
Houve um tempo de longas viagens que duravam
Três horas na eternidade de um purgatório
Nas companhias menos óbvias,
Yasunari Kawabata, descendo a montanha do poeta
Em direcção à cidade dos quartos vazios.

Turku

20.10.2014


João Bosco da Silva

sábado, 18 de outubro de 2014

Regresso Ao Admirável Mundo Novo (Não o de Aldous Huxley)

Ficção paranoide e distopia sem enforcamentos,

Ainda as manhãs de Junho eram possíveis sem despertador, o negrilho estava
Longe de secar, e cada moeda era quase tudo, o quiosque ainda não tinha sido
Arrancado pelo progresso, e no jardim antigo ainda se via gente,
Num bolso as moedas que se juntaram da mesada para o pequeno-almoço
Na escola, é para comeres um bolo, dizia a mãe antes de sair,
No outro bolso um saco de plástico preto para esconder o pecado,
Dentro do quiosque aquele cheiro a papel delicioso como a pão fresco,
Lá fora as revistas penduradas com molas da roupa e os jornais sob
Pedras para não tomarem asas, ignorava os horrores que aquelas
Páginas revelavam diariamente, ao fundo, numa caixa de cartão
Lá estavam, as revistas de banda-desenhada, quinhentos escudos,
Compro duas e sinto-me com uma estranha culpa ou medo,
Terei que me confessar, só pode ser pecado, o dinheiro que era
Para comer, gasto num luxo, num vício, despeço-me do senhor J,
Enfio as revistas no saco preto, não antes de as abrir e inspirar
Fundo aquelas páginas frescas, mostro uma à mãe, a outra
Escondo-a directamente debaixo da cama, junto das outras,
Sei que ela não aprova, mas a sombra do negrilho não se interessa,
Os deuses esperam, o futuro espera, cheio de traficantes de órgãos,
De implante de chipes de crédito, raptos para te transformarem num
Actor do teatro da dor, o futuro que tem chegado tem teatros do ridículo
E teleimplantes de futilidade aumentada, lobotomias por reforços positivos
Que resultam no desenvolvimento do volume do indivídio inversamente
Proporcional à capacidade cognitiva, o uso do endeusamento de figuras
Destituídas de valor para disseminar a alienação usando a receita de Watson,
 A venda pelo medo, do medo, oscilações do mercado de acordo com o pânico
Pandémico, as competências artísticas herdadas geneticamente
Ou injectadas em salões de ópio e casas de putas pedantes e eruditas,
Neste futuro presente, tão pouco de ciberpunk, hoje, aquele outro futuro distópico
Parece-me uma utopia, não se perseguem mutantes porque ainda não surgiram,
Perseguem-se uns aos outros, por pensamentos, actos e omissões,
Por culpa e sem culpa, escravos das ideias de líderes e fanáticos, escravizam,
Séculos depois de Libertatia, este futuro, onde andam os vírus informáticos conscientes,
Discórdias cibernéticas, bites desperdiçados em vez de sangue derramado,
O transplante de cérebro é uma das poucas previsões certas,
Bastante eficiente para erigir exércitos de idiotas consumistas,
Hamsters no moda, correndo numa roda, uma fonte energética
Vital para o funcionamento do movimento de rotação da terra,
O Miguel O´hara tão real quanto o Super-Homem de Nietzsche,
O superação do animal e do humano pelo corporativo, eis o futuro,
Hoje é quase inverno, as revistas acumulam humidade, o papel
Cheira a mofo, se o inspiro fundo arrisco-me a uma pneumonia,
Se vivo muito, arrisco-me a morrer, estava bem melhor além,
Naquele Junho, longe deste futuro, não tão longe assim, apesar de tudo,
Debaixo do negrilho que secou, a ver o futuro aos quadradinhos,
Que apesar de distópico, não se aproxima da palhaçada
Em que isto tudo se tornou, faltam cabines de suicídio para aqueles
Que se julgam eternos e uma indução da ideia para bem e alívio
Dos que são perseguidos por esta geração de inquisição mutante
E transvestida  pelos ares da modernidade e do progresso,
Camuflando-se e confundindo-se com os nossos desejos
E necessidades, somos um mutante híbrido, um apêndice iludido
Com ideias de livre-arbítrio, revejam-se os ensinamentos de Tyler Durden.

18.10.2099

Nova Prospekt


João Bosco da Silva

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Espremer O Sumo

A polpa que sobra, é uma sensibilidade inversamente proporcional
À resistência por motivação à virilha, uma sensibilidade à paranoia
Induzida por sorrisos e outros sinais universais que se tornam cada vez
Menos óbvios e indecifráveis, sabe cada vez melhor comer sozinho,
Beber sozinho, já o aconselhava Jack, é uma golfada de ar fresco
Entrar num bar deserto, num restaurante fora de horas,
Custa cada vez mais respirar profundamente, as noites deixaram
De ser suficientemente escuras, a língua queimou-se demasiadas vezes,
Lamberam-se também algumas lâminas com sangue seco,
A isso obriga quando os beijos se tornam secos, a polpa azedou,
Já não está boa para lhe misturar bolachas maria, o sumo
Já se digeriu há muito e foi esquecido pela sede que matou,
Agora nem sede, nem vontade, só aquele cansaço encostado
À experiência, aquele já estive lá, mas noutro lugar, aquele
Já passei por isto de outra forma, tudo toma uma forma familiar,
Os padrões aumentam com os anos e tudo parece ter uma ordem
Demasiado cruel, impossível fugir à passagem, às omissões
E às escolhas, tu espremido pelo pulso invencível do tempo.

Tallinn

13.10.2014


João Bosco da Silva

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Vejo Gente

“weirdness feeds on itself”

Hunter S. Thompson, Screwjack


“Spilled your fat looks
Smoked out cow pokes
Sequinned mountain ladies
I love you all”

Frank

Vejo gente com hormonas a saltitar, com os filhos dos outros, armados em fofinhos,
Eu coleciono latas vazias, livros lidos, quase novos, quem quiser comprar, levam o
Meu nome e data de compra, tudo literatura de urinol, abre olhos, no pior dos
Casos conjuntivite por clamídia, a gente também podia ser mais limpa, não digo
A nível de moral, mas pelo menos, menos hipócritas, limpos em assumir aquilo que
Querem e são, de cá, parece tudo melhor e pior, quem veste é pago para parecer bem,
Como quem lê para agradar ou espera um lambidela nos tomates ou no grelo,
Eu espero o Inverno e sei que será fodido, como é sempre, mas também o Jim
Era fodido e passou, ainda há ecos, claro, e pés frios, mas nada que a solidão
Não aqueça no desespero dos cabelos brancos e nas lágrimas desperdiçadas
Porque se julgou que era a hora, a última hora e agora é esperar para ver,
Vejo gente com o pito aos saltos, com bebés alheios no colo, esperando piças,
Esperando mamar leitinho quente do amor dos outros, porque sabe sempre tão bem,
Chupar no amor alheio e sair ileso, apenas com a marca de um pecado e uma
Consciência lavável à máquina, até ao micro-ondas pode ir, em caso de alergia
A roupa interior arrefecida na varanda, também escreves poesia, pergunto,
Andaste a aprender demasiado com outros, esquece tudo, compra um tractor
E deixa-o abandonado contra uma acácia numa reserva qualquer para turistas
Lá para os lados do Quénia, alguns verão aquilo como uma lição de surrealismo,
Tu se fores eu, verás aquilo como um dedo no cu, uma lição de decadência,
De vida, se fores eu,  ficará marcado na tua alma como aquela tarde
Pelo Chiado e barracas, quando eras novidade, torga fresca, arrancada do
Gelo nórdico na esperança de olhos e menos subordinação às raízes apodrecidas
Pelo amor ao caruncho e fungos amantes da humidade sem uso,
Isto é isto, e eu amo-vos a todos, como diria eu se fosse cantor e louco,
Mas não posso, tenho vidas todos os dias além da minha e sem saberem,
Agradecem a minha lucidez e a minha sublimação sem arte nenhuma. Amén.

07.10.2014

Turku

João Bosco da Silva