terça-feira, 25 de março de 2014

Golden Axe

Uma tosta mista às quatro da tarde à beira maldição e o que queria mesmo era jogar
Golden Axe até aos olhos em bico, cinquenta escudos, era tão barata a felicidade,
Longe de putas e outras vendidas, hoje tão distante, não me vejo sorrir em lado nenhum
E o meu nome é ignorado como tudo o que é comum e silencioso, vendia a alma por
Um nome barulhento e um espírito ordinário, nem sei se hoje há jogos de futebol,
Nem li o último livro daquele que dizem ser grande poeta, fecho-me e ouço cá dentro,
Além dos ecos de todos os gemidos em forma de promessa, a música do Final Boss,
Tão longe se chegou há tantos anos para agora isto, uma tosta mista às quatro da tarde
Numa cidade que me desprezou tanto quanto o que me apercebi dos dias cinzentos,
Não falhei nem um, mesmo assim, não fui batido, meto mais cinquenta escudos,
Continuarei a saltar em cima da merda e a salpicar burgueses e donos dos direitos,
Engolirei todo o nojo e seguirei em frente enquanto espero, um dia, diz quem lá está,
Eu escondo-me na fome e na solidão, em páginas amarelecidas e no cadáver dos sonhos
Cobertos por pó e indiferença, sou o undertaker dos meus próprios desejos, enterro-me
Na solidão dos outros e trago comigo os murmúrios da única sinceridade de que são capazes,
Agora chega, isto não é Earls Court, lá fora está Sol e tudo é o fim de alguma coisa, vão-se
Acumulando pequenos-almoços tardios como poemas indigestos, vamos a mais uma tentativa,
Menos cinquenta escudos, o gordo tombará e o machado será dentro dele entre tripas e
Todas as palavras que calará, os melhores poetas são os que calam quando têm mais que fazer.

Coimbra

20/03/2014


João Bosco da Silva
Chá Verde E Bolachas

Sonhei contigo e com o teu imaculado desprezo pela vida, senti meu o teu desespero
Iluminado e gritado por mil e uma alienações anarquistas, até me sorriste, como só
Tu conseguias fazer, rasgar da melancolia um esboço de felicidade, tu todo dentes,
Demasiados dentes na parede e as palavras a escorrerem de volta onde já não moravas,
Sonhei contigo e escrevo-te ao Sol da tarde, apanhei medo às auroras, as madrugadas
Encerram todo o mal dos dias, embriões metálicos à espera da desculpa do azar ou uma
Distração da sorte, agradeço-te a presença nos dias cinzentos e nas noites claras e dou-te
A razão, aqui só se dura depois de uns anos e a loucura é a própria vida, sonhei contigo,
Um morto, eu um pé atrás, tímido na medida dos impossíveis, na sombra do buraco
Que vou vivendo e ainda esperam que caía, as toupeiras, é lá que te encontro, na memória
Preenchida por carências básicas, sabes, eu também não me interesso, mas a minha música
Morrerá antes de mim, já o mijo secou todo no que um dia conquistei e já não consigo
Fingir mais, a pele de camaleão avariou naquela noite em que acordei e me vi com os olhos
Dos outros, era um espelho ridículo, tu foste a cura para todos os espelhos, irrepetível,
Um Sol amargo numa vida que toda a gente ressente por saber lá no fundo, não a merecer.

Torre De Dona Chama

15/03/2014


João Bosco da Silva