segunda-feira, 25 de agosto de 2014



Reminiscências Circadianas


Lembras-te do rio no crepúsculo lento daquela cidade antiga, quando passo perto dele
Nunca sou o que conheces, também esse ficou algures entre as portas do elevador,
Que se fechou atrás de mim e encerrou até o para sempre de hoje, o teu cheiro misturado
Com aquele perfume, que tantas vezes encontrei depois, nunca exactamente o mesmo
Ao Sol, será que hoje me pagavas o jantar antes de me encerrares contigo numas águas
Furtadas com vista para o castelo, ou darias pelos anos no meu cabelo, o que me fez o tempo,
Naquele tempo lia Kierkegaard no comboio e passava horas a tentar equilibrar o humor
Na almofada, levava as fodas contadas e depois era tudo um risco que aceitavas também correr,
Tinha mais medo à falência hepática que hoje, apesar de ter mão para tudo, que me fez o tempo,
Tornei-me demasiado amigo dos sofás vazios e dos dias somados aos sonhos rasgados,
Hoje de certeza que não me pagarias um jantar, nem me deixarias adormecer exausto na tua cama,
Sem saberes dizer bem o meu nome, não me chuparias antes do látex, quase desajeitada,
Tu que rejeitaste o senhor arquitecto e deixaste entrar quem te levou uma garrafa de vinho
Do porto, barato, simples, uma cerveja também, em copo de plástico enchendo-se
De pôr-do-sol, tudo fica a brilhar quando se apaga nos olhos, longe, o que me fez o tempo até aqui,
Não sabias que te escrevia, hoje sabes e continuas a não poder ler-me, é pena,
Tantos que me preferem as entrelinhas e os espaços em branco, o tempo que me gastou
E me afastou dos comboios e das cidades antigas, redescobertas na carne exótica,
Será que pensas em mim de vez em quando, e se tivesse ido pelas escadas, teria passado
O tempo como passou, hoje os meus olhos são cansaço, desilusão e uma fome de quem
Comeu sempre demasiado e ficou sem dentes num mundo cada vez mais farto de confusão.


Turku 

24/08/2014


João Bosco da Silva