segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Americana

Os tempos de incendiar peidos e escrever cartas de amor depois de bater
Punhetas à pala de filmes encontrados em cima do guarda-fatos dos pais
Dos amigos em alemão já lá vão, agora esperam filhos para substituir
Sei lá quem, não, nem vai lá com poesia duvidosa, desrespeitando
A, não me lembro, que raio, não interessa, perdeu o gás esta merda toda,
É melhor deixar andar quem tem certificado para poder, mortos
Todos, apodrecendo, porque caralho não arranjais um trabalho decente,
Seja como for, não vou longe garoto, dizem os corvos e outras aves
Sábias, nunca aprendi a tocar outro instrumento além disto e o prepúcio,
Abraças-te envolvida em tatuagens que parcialmente fodi,
Lembras-te, depois de a esfregar na tua excitação, enfiei-ta no cu,
Nem precisei de ter andado pelos montes em busca de restos da minha alma,
E agora estás casada, tens filhos, morres como eu, mas preocupas-te
E não consegues aguentar isso de fingires todos os dias que és feliz,
Cada vez pareces mais cansada, já não partes costelas nas noites de geada
Só porque esperas mamar num elevador duvidoso, faltam aqui figuras
De estilo, mas também, ninguém me toma por poeta, sou só um cabrão
Que verteu esperma na areia de ilhas quase africanas em tempos
De iluminação, agora toda a gente é feliz após muitas fraldas e países,
Eu continuo a destilar álcool em versos, chegando a lado nenhum,
Morrendo a cada poema, como se a alma fosse algo com salvação possível.

Turku

11.11.2014


João Bosco da Silva
Após Cinzano E Evangelhos Segundo Anos 90

Os dedos depois cheiram a azedo e o copo de vinho tinto com as luzes apagadas
Não se vê até se sentirem as meias molhadas se te descalçaste antes de entrar,
Se não, é porque não entraste em casa de botas de elástico ou no norte,
O resto é apenas fascínio ou tendência pelo relativamente mórbido,
Já morreste, perguntar-te-ão, e o teu tamanho dependerá do tamanho do silêncio,
Em vida, houve gente que teve o trabalho de me transcrever, não foi mau,
A maioria morre sem que um pensamento seja transferido seja da forma que for,
Mas há os génios que são inventados por necessidade ou pura propaganda,
A Rússia está a acordar, outra vez e é Inverno, o Napoleão e o amigo não-alemão
Ainda se lembram, só os pequeninos cheios de tomates aguentaram a pastilha
Pesada da massa, no fundo todos procuram apenas uma rima, ou uma cona,
Que não lhes lembre da mãe, precisam de encontrar uma vagina mutagénica,
Bandeira branca, um dia, sentirás deus nas cuécas e o cemitério será
Tão excitante quanto um caixote do lixo ou um saco de estrume,
A tua própria morte será demasiado pesada com o peso do infinitamente
Não tu, depois dos vinte e mais que sete e oito, mais uma punheta será
Uma vitória barata, menos uma nota roxa também não será assim tão mau
Se embalares o míssil em direcção à erudição transcendental da foda
Sem idioma comum, percebes, não, não leias mais, santa pu rificadora
Das tuas frustrações ao lado do autoclismo, engole então os sofismas,
Admira as eulógias de quem sempre conheceu paralelos, continua
A evitar o poder de quem caminhou no sangue e corpo do golem,
Tu que por bruxa, sempre te quiseste freira ou uma merda mórbida qualquer.
A estas horas não acordes, continua a fumar e a escrever para a admiração
Dos hereges, convencidos do seu lugar ao lado de lado nenhum na verdade.

11.11.2014

Turku


João Bosco da Silva
La Bohème

Não se faz de gasolina isto, faz-se de despedidas, de sonhos abandonados
E escondidos sob o falso esquecimento, portanto, prolonga a tua ausência
Até à eternidade, torna-te no combustível que engole todas as ruas de todas
As cidades em todos os anos, à mesa de um hotel, ou de uma cozinha com
As paredes escurecidas pelo fumo, onde se cura o fumeiro e se ouvem galinhas
Quando a madrugada chega, todas as cidades e as suas ruas e os seus anos,
Condensam-se no passos primeiros e regurgita-se uma noite galega,
Para os lados do sétimo dia, quando todos os rios o mesmo, dando voltas
Pelo mundo fora, todas as pedreiras a mesma ferida na terra,
Cavalgando um pastor alemão que entretanto morreu tantas vezes,
Enquanto a dona, vestida de luto, mostrava os dentes de ouro,
Numa gargalhada tão fresca como a água da nascente perto das ameixeiras,
Portanto, se quiseres ter utilidade além da carne, já que a minha saliva
Secou dos teus lábios e a minha língua se esqueceu do sabor do teu batom,
Continua a regar a tua ausência com a disciplina de um freira ou uma viúva,
Não me mostres mais os dentes, deixa fermentar o toque que me deixaste,
Acende mais um cigarro como se uma vela pela minha alma, como se a língua
Nunca mais, nem a promessa silenciosa de um olhar esfíngico de pecado
Libertador na casa de banho, no dia de aniversário e do nascimento do encanto
Por Almada, cordas fumadas apesar de nunca na cozinha ao lado do galinheiro,
Porque o processo é o mesmo, tens que te fossilizar, tornar-te realmente
Pré-histórico, reduzir as ruas às origens, às tribos primeiras, as palavras como mãos
Marcadas nas paredes das cavernas, não são tão facilmente lavadas pelo tempo
Como as pessoas que nos tocam, não se faz de gasolina isto, mas queima,
Consome como se a tinta fosse de cinza, ouvi dizer que a de carne e sangue
Tem mais óleo e parece ser a que resiste mais ao esquecimento e ao tempo,
Quando o dia der em nós, seremos o que restou do pó das estrelas.

06.11.2014

Praga


João Bosco da Silva