quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Cemitério Judeu

A mesa está suja, é branca, mas sinto-a quando lhe passo os dedos,
Antes de escrever, um último pedido aos sentidos, sentir algo recente,
A sujidade da mesa, branca, deve ser cerveja seca, ou açúcar da chávena
De café, ou o resto de um sonho que salpicou para aqui, estava no Brasil
Mas não havia sotaque e a cidade parecia do norte da Europa com
Um clima tropical, uma utopia, como sonhar África num Inverno eterno
Uma distopia, não me interessam os sonhos que me querem contar
Hoje, é a minha vez, sonhei tantas vezes com um cemitério a transbordar
De lápides, a verter ossos das costuras, num estranho crepúsculo
Entre o cinzento e o vermelho agónico de uma estrela moribunda,
Lápides cheias de anjos e santos e esperança na ressurreição,
Afinal, o homem que dava vida ao barro ali, noutro cemitério bem real,
Judeu, em Praga, acordado, num cemitério vazio à espera de almas vivas,
Únicas possíveis, atolado de corpos e lápides, um mar de lembranças desesperadas,
Onde estará o golum, ou o barro que resta dele, a estas horas,
Em que todos os sonhos se revisitam acordado e perdem a doçura
Da impossibilidade, a segurança do sono, a mesa está suja,
Sinto-a com estes dedos despertos, estes dedos fora de qualquer
Corpo, neste momento, olho-os e vejo-os, sinto-os, longe de mim,
As unhas, sempre curtas, a acumular epitélio, secreções, muco,
Sonhos despertos no toque, agora cemitérios, desses corpos,
Mesmo que as almas ainda neles, e este poema uma vala comum,
Como outros poemas têm sido, escavados com estes dedos,
Estes assassinos de sonhos, estes imortalizadores de ilusões,
Estes espadas de anjos a expulsar de paraísos impossíveis,
A mesa é branca e está suja, não me lembro de ter lá escrito nada.

Turku

14.11.2014


João Bosco da Silva
Náusea Apetecível À Sombra Da Sinceridade

No fundo é tudo um canibalismo disfarçado, camuflado, escondido com medo,
Se acabas por ser apanhado com os rins de alguém entre os dentes, a vergonha
Suicida-te, porque não acreditas que os olhos que não comeste por respeito
Aguentem tal petisco, é universal a sede humana pelo leite alheio, hajam
Intolerâncias para revelar o que de melhor há dentro de cada um, líquido
E rápido como uma narrativa ao ritmo da consciência, sem o catalisador
Químico que desculpa a liberdade comportamental, não, há quantos anos
Acordas tranquilo por o sonho ter sido apenas um sonho, cortem as amarras
Que te mantêm agarrado ao esperado e aceite e veremos onde adormeces,
Existe tanta fome além da fome, tanta sede além da sede, o sangue não chega,
Nunca haverão guerras suficientes, nem últimas violações, temos tanta necessidade
De inferno que na dúvida de haver espaço no vazio da morte para ele,
Criamos um bem melhor e possível onde a carne o pode sentir plenamente,
No final, se a coisa correr mal para o indivíduo, há sempre uma corda
Dentro dum guarda-fatos , uma boa vista empurrada pelo peso dos nossos pecados,
O sabor metálico e uma pintura nova na parede até alguém nos encontrar
E culpar o mundo doente, porque a culpa é do mundo estar doente, não da doença
Que somos nós, canibais com trelas feitas de ideias, movido a desejo e loucura.

13.11.2014

Turku


João Bosco da Silva