sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Encher Chouriças

Enquanto o sangue pinga para o chão da garagem, já tenho as tripas lavadas
Com a água fumegante do rio numa manhã de geada, é o que isto é,
Um poema nos olhos dos outros, as palavras não perderam a cor com os anos,
Continuam as mesmas a gozar com as têmporas nevadas pelos desgostos,
Ou nem por isso, só a vida, os dias somados a fazer anos e aqui se está,
A engolir segundos atrás de segundos sem gelo, porque chega o frio que está
Fora a reflectir a distância glaciar do que dentro se esgota, ambos sabemos
Que não há salvação, por isso continuamos, olhamos o rio num dia de Verão
E somos nós, tentamos ignorar os sacos no fundo que foram arrastados
Desde a ponte e agora só ossos de cães e gatos mal nascidos, nós aquilo tudo,
Aqueles cadáveres inocentes e indesejados, frascos de herbicida, pneus,
Uma pá enferrujada, peixes asfixiados pelas oscilações dos vizinhos,
Gota a gota, o caudal engrossa à necessidade de pontes, de abraços,
Ou apenas a vontade deles, porque a distância, sempre a distância
E somos todos uma cambada de hipócritas, porque quando perto,
Todos cheios de espécies e cerimónias, bichos brutos com talheres de prata,
Às vezes é preciso parar na ponte romana para respirar um Kentucky,
Ou esperar pela noite para revelar a amizade sincera, é o que nos salva
Do ruído, tanto ruído, cada vez mais ruído, nem se consegue fazer barulho
Nos ouvidos dos outros, dos que merecem ouvir, dos que precisam ouvir,
Mas não conseguem, tal é a saturação da diarreia bem sustentada
Por nomeações de direitos entre eles, a estas horas devem estar
A banhar a carne em vinho, tu conheces bem o meu hálito, apesar
De lavar os dentes com a cinza dos anos e ela ser sempre fiel ao irrepetível,
Ambos gostamos à nossa maneira dos grilos no Verão e dos urinóis
Em horas de aperto, apesar de o cheiro a ureia me fazer lembrar
Grades de snappy e de tupperwares quentes envolvidos por panos
Da cozinha, em postos da guarda-fiscal em mil novecentos e noventa,
E da boleia do padeiro a quem dava um Fernando Pessoa por pão
Quando a mãe me dizia que já era um menino grande,
E as geadas sempre foram tão grandes nas mãos pequeninas,
Mesmo com luvas que esticam, e sangue que pinga, uma última gota,
Confunde-se com a cor do vinho, seja como for, agora é cortar,
Curar, seja à força do sal, da distância ou do fumo da memória,
Nós sabemos o segredo, só ainda não o conseguimos trazer à consciência,
Traduzi-lo em palavras, mas estamos mais perto, hajam pulmões
Para deixar anéis de sangue nos lábios dos brutos, as tripas das chouriças
Estiveram em vida, cheias de merda, existe algo de delicioso nisto tudo,
Tudo é, morte e vida, engolir e deixar passar, até cair, como tudo em nós.

19.12.2014

Turku


João Bosco da Silva
Entrelaçamento Quântico Das Saudades

Enquanto aperto a cafeteira alguém diz, não queres fazer um café, longe,
Depois do jantar, com o crepitar do lume, as brasas a saltarem para o sofá
E as pantufas, quando a lareira ainda era aberta, ainda o é, mas não aqui,
Neste caminho, a minha mãe aperta a cafeteira e eu tenho saudades
Quando o cheiro do café começa a despertar-me o hipocampo do processador
Quântico de tempo, a memória tudo, o que se consegue evocar no momento
O que somos, ou seremos um reflexo distante e distorcido, inverso ou paralelo,
De uma mão a segurar uma chávena, e a levá-la aos lábios, despertando
Nos lábios distantes uma saudade de calor específico,
Defina-se inspiração, vontade, epifania com uma colher cheia de incerteza
Numa chávena de café, sem pires para ajudar na viagem independente
De todas a leis realistas, da saudade, não queres café, algo move a vontade,
Nas faces do dodecaedro, a mesma, de forma diferente, a infinita mesma,
Também a saudade não é prevista pela mecânica que faz subir o café.

19.12.2014

Turku


João Bosco da Silva