sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Nada De Ti Ficará Quando Eles Se Forem

Que será da cidade agora que todos se foram, agora que só as recordações
A definem, inseguras, seremos um delírio, em que vida, terás sido tu,
E o rio também na dúvida, já nos tínhamos visto antes, uma ruiva contigo,
Agora não, as janelas fechadas escondem um mundo que aos poucos
Se volta a desconstruir, os bares agora sem palavras, só ruído e a solidão,
A certeza de estares longe do tempo, também um dia deixarás de te pertencer,
A cidade agora é dos que acabam de chegar, dos que ainda têm as malas
Por desfazer com a roupa lavada no fim de semana, a cidade é dos pombos
E dos que os alimentam com cada dia do ano, gastando calçadas,
Gastando quem não ficou e estendendo a mão como se a primeira vez,
Quando tantas vezes à hora do almoço, ou ao fim da tarde antes
Do refúgio de paredes finas a bater nas teclas com força para
Que soubessem que ali alguém, a ser esquecido noutros lugares,
Em qualquer lugar, quando se está só, está-se sempre longe,
Não há dedos suficientes para tapar tanto buraco e não se pode
Ser para sempre em ninguém, só a cidade é eterna, mesmo que
Troque de carne como quem troca de pele, resta a memória, insegura,
Terá sido com ela, ou já teria passado o deslumbramento, as paredes
Não respondem, nunca respondem, e a cidade cresce com o vazio
Que deixa, agora que todos se foram, agora que tu te foste,
Mesmo que julgues cruzar-te contigo mesmo, nas ruas que já te esqueceram.


30.01.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Bucólica Com Latas De Conserva

“Não te deixes invadir por essa ternura delicodoce, fanada, a saudade à portuguesa; endurece ou sucumbes.”

Sebastião Alba

Palmilhavam-se as ruas lamacentas, os amontoados de lixo entre giestas
Ou em pinhais dos vizinhos à procura de latas de conserva vazias,
Roubavam-se pequenos pedaços de tábuas, umas rolhas de cortiça,
Ou cortiça bruta, quem tivesse coragem nos dedos tenros,
Uns pregos baratos, alguns transplantados das mesmas tábuas
E faziam-se carrinhas de caixa aberta, cada lata uma marca,
DQW as melhores latas de sardinhas em molho de tomate,
E depois disso procuravam-se os ossos de um guarda-chuva e das varas
Faziam-se flechas para atirar aos cabos descarnados que cortavam
O céu de um poste ao outro e lá tinham as mulheres que ir de lenço na cabeça,
Porque o frio da serra é gelado, buscar velas porque os garotos
Provocaram um curto circuito que apagou a aldeia,
Tocavam as trindades, e lá íamos comer arroz de tomate
À luz da vela, lá fora as carrinhas de latas de conserva
Estacionadas à espera do amanhã e do resto do futuro, quem
Tinha sorte tinha tractores de cortiça que o tio ou o pai esculpiu,
Os ricos tinham-nos de plástico comprados na feira da vila,
O arroz, lá se comia, porque apesar de não se gostar de tomate,
A luz da vela não era suficiente para se lhe sentir o sabor,
O pior eram os trabalhos de casa, que desencarrilhavam
Naquela curva perigosa entre amieiros a caminho da cidade.


26.01.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

“Allen Ginsberg at Home.”

Abrir um livro de Allen Ginsberg e logo ali, na cara, a impossibilidade do regresso,
A constatação da perdição, “Home I´ll never be”, o poeta sentado à esquerda,
Mão direita na barba e em baixo a descrição impossível, para mim, eu que me sento
Na mesa da cozinha enquanto a minha mãe faz o jantar, tão longe de mim, “Allen
Ginsberg at home.”, com um horizonte que me parece familiar, em casa, como posso
Estar onde não me encontro, inspiro dentro de uma revista de banda-desenhada
De mil novecentos e noventa e quatro e o cheiro agora a velho, húmido, cansado,
Um reflexo da minha testa, têmporas e motivação, só os escorpiões, de patas para o ar,
Se mantêm e eu ainda tenho pesadelos com os pés descalços em fragas cheias deles,
O meu quarto agora impossível de mão esquerda na barba durante horas, a arrefecer,
Tudo a arrefecer em direção à entropia estável dentro, o Ginsberg em casa,
Num descampado qualquer, com um monte no horizonte, podia ser no lameiro do meu avô,
Onde me procuro sempre que tenho oportunidade de fugir e só me encontro
De olhos fechados, por instantes, como um orgasmo que quase quase e dentes a derrubar
Tudo, aquela fotografia é o meu poema favorito do poeta barbudo, a perdição da casa,
A progressão irreversível do afastamento próprio até a memória de nós se perder
No horizonte, casa tornou-se no lugar do regresso impossível.

Torre de Dona Chama

15.01.2015


João Bosco da Silva

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015



Eu Monstro


"Direi da minha vida
não é plena mas contém-me."

Sebastião Alba


Tenho em mim a ressaca de todos os livros que li,
Não culpem a inocente cerveja do arraial,
Não sou má pessoa, mas sei que a gente é ruim,
E lá no fundo só esperam um aberta para te foderem,
Dizem-me paranoico, eu digo que tenho memória,
Vão perguntar ao Kurt enquanto engole toda a dor
Na eternidade, em forma de chumbo derretido,
Nada melhor para as cãimbras da madrugada do que
Uma violência dirigida ao alvo de toda a realidade,
O corpo que a constrói e que se gasta no processo,
O Rimbaud escrevia entre galinhas, outros escrevem na
Companhia dos figos e das recordação agarradas aos muros
Cansados das longas ausências, nunca te vendas
Ao ponto de deixares de te poder dar sem interesse,
Evita a missa e ri-te dos hipócritas das procissões,
Hoje não é a lucidez que fala, mas o pó acumulado
Ao longo dos anos que se levanta, ganha formas no ar,
Espadas, reis, outros homens de barba, fantasmas,
Delírios de aldeia, quantos pecados devem ter alguns
Devotos, para se verem na necessidade de levarem
Um golden shower de um padre pestilento e hipócrita
Como as fundações da moral cristã, que sujos
Se devem sentir para se levarem no esperma
Amaldiçoado do homem de deus dos homens mascarados,
O deus das figueiras e das galinhas não perdoa,
Nem chega a condenar, limita-se a não existir
Na certeza de que o amanhã não será geral,
Tal como a ressaca e os suores nocturnos dos perdidos.

Torre de Dona Chama

09.08.2014


João Bosco da Silva