terça-feira, 3 de março de 2015

Canção De Embalar Chouriças

Se não fosse o sono, pousava o copo e ia ter contigo ao acaso,
Não tivesse esgotado já aquilo que leva alguém a correr até
À estação de caminho de ferro, contando chegar a tempo,
Como nos filmes e ela desiludida na cidade berço à espera,
Quando era a daquela semana, já não tenho olhos para
Olhar para carruagens que se afastam, nem dentes para levar
Com portas fechadas, desculpa o cansaço, mas é que tenho
Tanto tédio para aturar amanhã, sabes como os anos
São leveduras e a carne onde estiveste incha, esquecida
Do cheiro do teu nome, e não compreendes como a morte
É possível, mesmo que te tenha passado ao lado durante
Toda a vida, ainda acreditas em beijos roubados, ainda acreditas
Nas madrugadas da Primavera, que Primavera, esquece,
As rãs morreram todas esmagadas pela inocência,
Os grilos todos pipocas em Setembro, não restou nada
Dos silvados, agora queres amoras, deixa-me pousar o copo,
Acho que ainda consigo picar com a língua, deixa-me ver,
Acho que ainda sou capaz de cinco minutos em queda-livre,
Espera, acho que ainda me sinto bater, a pulsar, queres-me sentir
Afinal, o pulso, com a palma da mão, aperta, estou cansado
Do conforto analgésico da responsabilidade dos dias,
Não deixes a porta fechar, entra, vamos até ao último andar disto,
Para dormir temos todo o tempo que não será nosso.

03.03.2015

Turku

João Bosco da Silva

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