quarta-feira, 27 de maio de 2015

Sinos, Tascos E O Que Passa

“You are fucked up, fucked up
This is fucked up, fucked up
Be your black swan, black swan
I´m for spare parts, broken up”
Thom Yorke

Estranhamente, quem deixou a marca, foram os paralelos em mim, descendo o caminho
Da igreja, em direcção ao esquecimento, até de manhã alguém me pedir, pedir,
Para descer e ir almoçar, na televisão nada, nem o Garfield enquanto os que comiam
Na escola jogavam ao sete e meio ou à bola, por isso a minha personalidade
Se tornou mais parecida à de um gato cor de laranja em vez de um típico amante da bola,
O sino, já são as seis e tu agora a multiplicar paralelos a caminho das mantas e da humidade,
Dos fungos nas bandas desenhadas, dos livros lidos uma e outra vez na esperança de uma
Iluminação depois de se apagar a luz inventada pelo homem, vai tudo com o caralho,
Eis o além, já nem na tasca me suportam, tenho coleccionado demasiadas garrafas
Vazias, mas mesmo assim, não compensa a sombra escura da minha alma nos bebedores
De vinho encornados com os bolsos leves pelas putas, pego no carro e atiro-me contra
O último lugar onde fui puro, e mesmo ali, onde foi lido aquele poema número dez,
Aquele que me fez poeta, bêbado, com uma grade de cervejas para acabar,
Despi as calças enquanto a professora trancava a porta, e entre a apneia
De língua em lábios e eu algures na fome, batendo à porta alternando ângulos,
Lá me vim na pureza, na geada que caia lá fora, assinando o regresso à perdição
Sem retorno, hoje restam-me as cerejas, em cima das cerejeiras herdadas pela
Gula aldeã que separa os irmãos, hoje resta-me, nada,  que se foda,
Apesar de ter mergulhado em merda, tenho as mãos vazias, venha ela, o sino tocará sempre.

28.05.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ensaio Sobre O Ridículo De Durar

Que vais fazer agora que todas dormem nos braços de alguém com alguém novo nos braços,
Se és do tamanho de tudo o que perdeste, és enorme, agora numa mão, seguras apenas
O esquecimento, na outra tudo o que poderias ter conquistado, rei do agora e já,
De ti mesmo, só, cansado, cheio do vazio dos outros, lutando contra as memórias que se vão,
Incapaz de impedir o amarelecimento dos dentes e o empalidecer do cabelo, aprisionado
Entre folhas de papel e tinta preta o pouco que te ficou de quem fez de ti quem és e mais
Do que isso, o que és, agora aperta com força o esquecimento antes que arrefeça, o vazio,
Pode ser que consigas sangrar na lembrança de alguém, pode ser que ressuscites nos sonhos
De alguém, ou à beira do rio num dia de aniversário, ou num grão de areia num lábio irritado,
Ou numa almofada numa manhã de Natal quente, quanto muito no sabor de uma tosta-mista
Com os vidros do carro embaciados, que vais fazer agora que todos os sonhos cresceram
E se tornaram ou ridículos ou impossíveis, agora que engoles o esquecimento e naufragas.

Turku
20.05.2015

João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de maio de 2015

No Tempo Das Cerejas Quando Chove

O cheiro da serradura, da erva cortada ao Sol, uma folha a passar no rio,
O Verão de Vivaldi, o sabor daquelas primeiras cervejas num dia de sede e cansaço,
Tudo o que nos faz fechar os olhos e nos arranca do agora por um segundo que seja,
E nos leva de volta à inocência, à leveza, a uma tenda atravessada no caminho dos
Sapos pequenos, aos sonhos antes de se apagarem, antes das velas pelos avôs,
Ao tempo dos olhos da avó nas paredes, como os de deus que seguem nos quadros
De Jesus com o peito aberto e um coração no esterno, e as primas um enigma
Irresistível, assim como as cerejas um baú de pirata em cima de uma árvore
Altíssima, as vacas um exemplo de paciência e estupidez, o sabor doce do feno mastigado
Numa torre de fardos num palheiro, nas mãos o cheiro a masturbação seca,
O cheiro a monte no cabelo, o cheiro a monte na pele, o cheiro das saudades a monte,
Inspirar fundo a terra quente quando as primeiras gotas se apagam no primeiro alcatrão
Da aldeia, no último dia de aulas, o relógio lento na lareira em casa da tia, enquanto
O primo acabava o pão com manteiga, os dedos besuntados, e agora os olhos azuis
Da nova geração, o meu corpo de dezasseis anos na fita magnética das câmaras
Dos tios de França, antes de provar pela primeira vez cona e Hemingway,
Deus levado pela corrente, como a inocência, como o exemplo das vacas que pastam,
O sabor do vinho quando o avô dorme, o sabor da aguardente quando o alambique
Foi vendido, o sabor dos salpicões quando se deixou de poder criar porcos, os foguetes
Da festa quando o bidão a fazer de casota de cão vazio, as revistas do homem-aranha
Em vez de gelados com o dinheiro para a festa, a manhã depois da festa no tasco
Ao lado do quiosque das bandas desenhadas e dos gelados que ficaram,
Com os dedos segurando uma chávena de café cheia de aguardente e a lubrificação
De quem dorme comigo dentro, os estrelas e os satélites nas noites que encolhiam
Tudo o resto, os livros que ficaram na lista e aqueles que se intrometeram,
Os que se engoliram só para perspectivar, as batatas que se apanharam da terra fria,
Se comeram, os dedos que se tiraram da carne quente e se chuparam,
Os sonhos que morreram e assombram os sonhos do sono, com beijos no pescoço
E unhas nas costas, e seixos e rãs e medos que se ultrapassaram quando acordado,
O Inverno de Vivaldi, a dor de frio na ponta do nariz, o cheiro da cera das velas no cemitério,
A cebola que fica no prato, o sabor metálico do peixe do rio vivo, quase como do sangue
Das feridas nos joelhos das quedas de bicicleta, o quartzo e a mica dos paralelos de granito,
Tudo o que nos faz fechar os olhos e nos arranca do agora por uma eternidade que seja,
Aprender a ser areia numa ampulheta e esperar que cada grão valha sempre a pena.

20.05.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 12 de maio de 2015

Licor De Morango Silvestre

De Cidões

O rio, lentamente, aquece, os peixes renovam-se, os que engoli, querem esquecer-me,
A cara depois de escurecer, empalidece com o que teve que levar, quem diria, que a língua
Bruta capaz de obrigar à mudança dos lençóis e da cama para o sofá, os tios já não podem
Comigo para atravessar o rio, nem eu com eles, ficamos do lado de cá, espero que por muitos
Anos e bebemos as garrafas de vinho que o meu avô deixou para o meu pai engarrafar,
Armamos uma tenda entre os medos ancestrais e os gritos histéricos, porque os lobos
Algures entre o nosso medo e a sua extinção, meu tio, aguarde agora, tenho que falar
De uns gajos que ninguém realmente conhece, o Hunter chega com as meias das raquetes
E o copo cheio, pede gelo, dizemos claro, que não há, estamos no rio, o Hemingway
Pergunta de onde vieram os cartuchos, o meu avô inocente, já não enche cartucheiras,
O único que tem razão a esta hora antes de cairmos nas tendas é o Jim, quando somos
Estranhos arrancamos amieiros para fazer café, confessamos o gosto por cu fresco,
E encontramos adeptos da estrela do mar de chocolate, umas semanas nisto e acordava
Tão iluminado numa manhã de garrafas vazias quanto o Jack, a mula venderam-na,
Ou então foi para o mesmo lugar dos cães de caça do avô, chumbo, veneno,
Só enforcam quem usa botas, é triste, contudo, o rio não parece tão fundo
Antes do entardecer, nem o céu parece tão longe, nem o infinito aguenta a dúvida,
E agora, que fazer, quando ninguém pode comigo para me levar às costas para o outro lado do rio.

Turku

13.05.2015


João Bosco da Silva
“Love Will Tear Us Apart”

Quando o amor arrefece, abre a porta e sai, deixa-te levar chuveiro da cona mais
Nojenta que encontrares, desde que não te lembres do seu nome, mas sai,
Quando o amor arrefece, foge, salta pela janela, descola-te da almofada,
Esquece o teu calor nos lençóis, corre, o inferno aquece inversamente proporcional
Ao arrefecimento do amor, e é verdade, há coisas piores que a morte,
Uma delas é seres apanhado pela resignação, seres mordido por um amor morto,
Frio, tornares-te um zombie embalado pelo furor do rastilho, mais vale
Engolires uma corda que te fica presa na garganta que o fígado, constantemente
Comido pelas aves que sabem que a paciência morreu há muito, mas também a alma,
Foge do amor que arrefece, não queiras saber do frio que só existe em equações.

12.05.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 11 de maio de 2015

“Waiting For The Sun”

“This is the strangest life I´ve ever known.”
Jim Morrisson

Sai de casa, bebe mais, mas paga pelo que bebes com o que trocaste pelo teu tempo e esforço,
Beija menos cus, lambe-os em vez disso, lê os mortos, esses sobreviveram ao esquecimento,
Passaram o teste, não esperes nada de ninguém, muito menos do futuro, o mais certo é o
Teu nome não durar na memória por mais de duas gerações, dorme muito quando possível,
Sabe-se lá quando será a última vez em que acordas para o último dia, nunca te esqueças
Dos joelhos manchados com erva, das unhas sujas de terra, do sal da pele no Verão,
Dos dentes de leite, dos peixinhos do rio, dos castelos de areia e das histórias que a tua mãe
Te contava antes de dormires, a barba nunca te esconderá os olhos, nem os cabelos brancos
Poderão encobrir-te o sorriso sincero, os dentes podem escurecer, os amigos podem
Tornar-se nomes distantes, mas nada te substituirá, não tenhas vergonha de esperar,
Mas não te sentes nem te submetas, faz da tua vontade a corrente, passa porque te levas.

11.05.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 8 de maio de 2015


Air Strip

Já ninguém me espera com toalhas frescas e um refresco depois de quilómetros de pó
Dentro da virgindade próxima, ninguém me respeita o silêncio da caneta a sujar o papel
Com pecados que fermentaram em versos, nem uma aranha desconhecida a tornar
O papel higiénico um luxo necessário embalado por um milhão de diamantes e
Elefantes curiosos inocentes do medo a que a escuridão obriga, no bolso do casaco
Um postal em branco com uma morada, mas como dizer a um amigo que nos conheceu
O brilho da loucura nos olhos, que a terra já não incomoda mais e que o nome estará
Enquanto ele quiser nas suas saudades, se tanto, ele tão orgulhoso do meu requerimento
Para ser poeta, quando tinha dezasseis anos era sem ter pedido reconhecimento de ninguém,
Lé terei que depilar o cu e perder o nojo na língua, admiro a indiferença das hienas e dos leões
Saciados, tenho mais medo dos hipopótamos, sempre enfiados com os cornos na água,
Sim cornos, entre amigos, todos territoriais, mas é o medo das manchas de um leopardo
Que se esconde antes de focarem os canhões, sem desculpas, que está frio
E não estava preparado, eu atravesso pedantes em cima de um tractor com quilos de merda
Fundida pronta a sair-me dos poros, temos que aguentar a própria vida, mais nada,
Cada um que engula os seus dias como quiser, que trate da digestão como dos amigos
Se quiser, o pó não pára de se fazer quilos nos quilómetros e a toalha seca, áspera, ao lado
De um copo de água-ardente numa manhã de ressaca de vinho tinto em Agosto,
Longe das andorinhas em Fevereiro, antes da despedida da lareira solitária,
Das pinhas que nunca se queimaram, das noites de ausência e cemitérios cada vez mais apertados.

Gdansk

04.05.2015


João Bosco da Silva

quinta-feira, 7 de maio de 2015

No Restauracja Goldwasser

À beira do rio, podia começar assim, outra vez vez, ser o título de mais um poema,
Longe, sempre longe a aproximação do entranhado nos poros das sinapses
Onde se escondem as almas, shots de gold strike na pizzaria da terra no dia da festa
Da fogueira eterna, o antigo melhor amigo a dormir com a cabeça sobre a mesa,
Em cima da caixa da pizza para levar e comer no jardim ao pé do quiosque
Das primeiras literaturas de cyberpunk distópico, o futuro uma desilusão,
Tudo isto entre os escombros de mais uma cidade violada pelos russos
Antes da vitória, a vitória é sempre uma questão de destruição na casa dos outros,
A destruição das memórias, o gosto amargo na boca na manhã ressacada,
A resignação aos cabelos brancos, o elogio das rugas, os pecados que já não se sentem
E a vida um aborrecimento sem aquele peso que se aliviava no senhor padre, umas omissões,
A confissão de uma língua suja, sem lamber cricas contagiosas, e fui mau senhor padre,
Até bebi ouro, dizem que ouro, mas tão bom, sabe, deve ter ficado preso à alma,
Não o vi quando caguei, sabe, às escondidas, como você com as divorciadas, as novinhas
E as mulheres dos outros que estão fartos delas e passam a vida nas putas ou no café,
Hoje a mão já nem se deixa fascinar pelos centímetros encontrados na carne dos outros,
Leva mais um copo de goldwasser aos lábios cansados de tanta secura, tanto ar frio e vento,
Tanta solidão húmida e mal aparada, tanto fumo em segunda mão, tanta fome alheia
E anónima, engulo, sinto a ilusão quente descer até mim, mais verdadeiro e purificador
Que qualquer hóstia, sinto a distância diluir-se entre mim e o líquido, contudo
O meu estômago ainda conserva alguma sensibilidade antiga, acho que não escrevo
Com o coração, é o estômago que me guia a mão, a fome que me inspira,
Por hoje, à beira do rio, é tudo o que o papel merece de um estômago dourado.

04.05.2015

Gdansk


João Bosco da Silva

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Buraco De Verme

Sento-me, espero, olho a parede e passado algum tempo, vejo-me,
A olhar outra parede, com outro vazio nas mãos, outros caminhos
Com a poeira ainda assente, mais chaves no bolso, que nunca cheguei
A saber o que abriam, no quarto ao lado a estudante polaca parou de gemer,
Agora fala com o seu amigo espanhol, disse uma noite que eu não a conseguiria
Acompanhar a beber, se calhar agora não teria razão, entre uma foda e outra,
Escrevo mais um poema, é tão difícil rimar enquanto os outros vivem,
É ridículo o amor sem carne, sem cheiro a mijo, a cu, é como acordar
De um sonho e olhar para a mesa de cabeceira e lá em vez de umas cuecas,
O mesmo livro de sempre, nem uma carta a confirmar que sim, só um sonho,
Volta a dormir que ainda me apanhas, enquanto sobe a rua com o namorado barbudo,
Tanta fome e o frigorífico cheio de comida estragada trazida no fim de semana,
A amiga da polaca queria ver o meu quarto naquela noite em que acompanhei como pude,
Mas tive vergonha dos desenhos que tinha colados nas paredes, a minha fome revelada,
Ela com uma sede azul nos olhos de olhos verdes, soubesse eu ler, mas dá o destino olhos
A quem não sabe ler, ficou a parede a olhar para mim, amarela, e a estudante polaca
Recomeça naquela celebração universal ao ritmo da cabeça na parede,
Olho-me do outro lado da parede e digo-me, deixa, se não tivesses deixado de viver tanto,
Nunca lhe pegarias com a fome nos dentes e o inferno nos olhos, um anjo do apocalipse,
Deixa, apaga a luz, terás amanhãs em que mal reconhecerás o teu cheiro na pele da manhã,
Terás olhos que tornarão impossível acreditar que tu o menino da tua mãe,
Beberás o sumo do agradecimento anónimo e sentirás a alma tão suja que te sentirás
Maior neste mundo de promessas esterilizadas entre paredes de quartos pequenos
Em cidades decadentes, deixa, ganharás tão bem o inferno que até os santos terão inveja.

04.05.2015

Gdansk


João Bosco da Silva