quarta-feira, 24 de junho de 2015

Da Nossa Morte Nos Outros

Ainda me fala de boca cheia, a pedir futuro, agora, quando me diz olá e me pergunta
Como estou depois de tantos anos, apetece-me dizer-lhe que estou igual apesar
Do cansaço e que não lhe invejo nada que não seja meu, tento lembrar-me do sabor
Que tinha nos lábios, sei que não era a tabaco, não me lembro do que a língua me disse,
O beijo de manhã a sono, alguns sentem-se como um sonho muito quente que seca antes
De se acordar, ainda te lembras, pergunto-lhe na pausa de um silêncio, com os dedos
Pendentes e nos dentes os seu pescoço branco em forma de memória, não me esqueci,
Só tudo confuso, espalhado pelos anos onde não pertence, eu a fingir que também,
Apesar dos números, uma festa, aquela vez, a última vez esta e aquela, se calhar nem Lua,
Ou nuvens em vez de estrelas, mas o teu cabelo a enrolar-se na língua que procurava
Apagar-se no fogo da outra, quando te despedes, sei que fica por dizer que nunca acabaria
A fome entre nós e que estava tudo condenado à distância e à saudade envergonhada
Pela luz da idade agora, sempre estivemos bem um para o outro no excesso em doses
Moderadas, sem intimidades caseiras, só fogo e carne, onde calhava, porque o mundo
Só nós quando nós, não faz mal que te esqueças um bocadinho, sabes que a carne se lembra.

Lahti

23.06.2015


João Bosco da Silva

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