domingo, 26 de julho de 2015

Arte De Ser Fodido


Já me foderam vezes que cheguem, tu sabes, acreditar na amizade de certa gente,
Acreditar na cona crua cheia de fominha, acreditar nos dentes desconfiados da confiança,
Nos copos cheios dos amigos vazios, nas manhãs de Sol que prometem dias longos,
Nos bagaços antes de dormir com o cheiro nos dedos por lavar, no estômago,
O meu e dos outros, nos olhos e na experiência, que nos diz sempre que não sabemos
Um caralho e é verdade, nem o caralho sabe bem a quantas anda depois de certa andança,
A pele apesar de cada vez mais enrugada, manchada, seca, habituando-se a eternidades
De terra nos olhos, cada vez mais à prova de dedos no cu com sorrisos amarelos nas beiças
E pior, nos olhos, aprende-se a ignorar a íris e a ler a pupila como quem olha a bóia enquanto
Pesca de cana, os olhos já não se enrugam por tudo e por nada, não se rasgam em cegueiras
Sinceras, não, chegaram as madrugadas infelizes a tentar roer raízes nos tascos da terra,
Nunca desças ao nível dos tristes que se alimentam da promessa de um ridículo maior,
Engole, engole, a garganta habitua-se depois de todas as fodas, de todos os ácidos
E venenos que engole, os piores são os dos melhores, mas a pele endurece,
Os anos não se esquecem, os dias prometem cada vez menos, cada vez pior,
Já me foderam vezes que cheguem, contudo, continuo vivo , não me falte saliva para aguentar.

27.07.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Na Sauna

Na sauna um encontra-se com ele mesmo, como numa câmara de energia orgone,
Sente-se a energia universal a subir, a tomar conta do corpo e nada melhor para
O desmame da vida pesada, está-se em comunhão com a própria gaita,
Em mais nenhuma ocasião se está tanto tempo a olhar para ela,
Sente-se orgulho e vergonha dependendo da companhia, sente-se até inveja,
Já esteve em países que nunca visitei, entrou em carne cujas almas nunca conheci
Realmente, nem compreendi, foi mais tantas vezes, fez gemer, fez perder universos,
Ameaçou a criança de uns quantos, há sempre um lugar para todos, e o tamanho
De uns não influência o dos outros, não há que se sentir ameaçado, só o ego
É susceptível a ameaças territoriais, há galhos para todos se o ego não for muito pesado,
Na sauna com William Burroughs com a colher de madeira na mão a contar como o mundo
É mais estranho que qualquer capítulo que lhe saiu dos dedos, as rugas sentem-se
Vir, quantas vezes nos vimos numa vida e quantas fazemos vir, retrai-se o prepúcio
Como na primeira vez, com a mesma inocência curiosa, e os dedos outros viajantes
De almas e carnes, os dedos que provam tudo, sangue que estranhamente espesso
E gorduroso, merda que às vezes granulosa, e se os olhos fechados aqueles lábios
Enormes, impossíveis, um desfolhar infinito em busca do centro de tudo, da resposta
De boca aberta e olhos perdidos, os dedos que entram tanto dentro como fora,
Que abrem sem tocar, que traduzem as loucuras que os olhos só prometem,
Que seguram a colher e atiram água nas pedras rojas, o ar torna-se quase insuportável,
Como quando o orgasmo se aproxima e nos diz, que se foda, vem-te, e sobe,
Respira-se o vapor quente a penetrar até aos alvéolos mais profundos, roça com a alma,
Sente-se no cu ensaboado, um quase desconhecido que se torna tão presente e familiar,
Na sauna aliviamos aquela saudade primordial, reencontramos a nossa primeira companhia
Num útero de madeira, pedras escaldantes, humidade quente e a nossa carne nua.


Turku

24.07.2015


João Bosco da Silva

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Plantação Nocturna

Surge assim com uma vontade

Não sai, que esperas, não fodes, usas os dedos para compensar o tesão que se te afoga
Em sonhos, agora não sai nada, é mau sinal, não para ti, a senhora doutora
Exibindo o diamante do enforcamento recente procura a tua opinião desnecessária,
Há cada vez mais poetas, cada vez mais fome, cada vez mais ateus assumidos nas sombras
Da bebedeira e dos lábios abençoados que se abrem num sorriso perfumado e libertador,
Sei mais eu da Grécia na ponta da língua que o vosso amor de cu apertado,
Não sai, não puxes, nem vás abrir nenhum livro para espremer o abcesso
E chamar o pus teu, também para beber muito é preciso um cérebro cansado do mundo,
Capaz de enfiar a moral no bolso mais sujo das calças e continuar a batida arrítmica
Dos dedos que pulsam poesia, não sai, deixa, há quem salpique o desconhecido
Com futuros impossíveis, não sai, vai dormir, pousa o copo, não te trará nada,
Deixa de cheirar os dedos à procura de velhas glórias, és apenas do tamanho
Das pupilas que te engolem por favor, não sai, melhor, já há muita noite semeada.

diarreica, o poema de merda.

24.07.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 14 de julho de 2015

Limpar As Unhas Recém Cortadas

Enquanto limpo as unhas recém cortadas encontro o sangue seco dos dias que se me
Tornaram alheios, vejo quem beba o mijo julgando que ouro nos olhos, nádegas
Beijadas à procura do favor de um cu demasiado umbigo, tenho gente nas unhas,
Não há sabão que cure tanto génio, não há espaço suficiente para os sonhos,
Já pouco cabe na possibilidade, dá-se um pouco de ar aos pulmões por caridade,
O resto é olhar fotografias com outra cor e o mesmo olhar, mas com vida,
O que resta é o que certas músicas enterradas despertam na língua e nos cílios
Que nos envergonham as narinas, dizem que o nariz e as orelhas não param de crescer,
Digo que é o que nos afasta de nós mesmos, como a mandíbula alargando o ângulo,
As manhãs frias no recreio ao sol, um ângulo quase impossível, o beijo atrás do carro
Do padeiro, um ângulo impossível, a felicidade, impossível, de vez em quando,
Lá se encontra um sorriso limpo de cores quando se limpa uma unha suja de terra,
Mas os dias são o pó que nos torna a carne bíblica, somos a desilusão dos deuses
Que inventamos, demasiado fracos, demasiado pobres, demasiado mortais,
Com a vontade para o futuro roído pela fome que nos é sempre presente,
Enquanto limpo as unhas, olho-me ao espelho, vejo-nos, cansados, batidos por tudo,
Por todos, todos tão bons e premiados, com amigos de mãos cheias e olhos
Bem abertos, quanto existimos, quanto somos, sangue seco nas unhas desiludidas
E cortadas à noite na esperança de uns espigões que façam sangrar um pouco
O tédio dos dias limpos, das palavras demasiadas, desenterrando o cadáver
Da inocência aos bocados, apodrecido como as línguas que me passaram nos tomates
Um dia, o sangue seco das unhas, vai-se pelo ralo abaixo, de nós pouco fica.

14.04.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Acto De Contrição

As latências do passado regressam de madrugada para manifestarem universos paralelos
E outros, e ses, o saco mais cheio, as mãos mais vazias, porque o vazio das mãos mede-se
Pelo que passou por elas, há quem se enforque de mãos cheias em romances de província,
Vale também a pena o que não foi, à medida que os anos passam é cada vez mais
O que se deixa passar e ao contrário de nos tornarmos o que nos toca, somos o
Vácuo da nossa cobardia, o passado envelhecido, coberto por anos a esticar números,
Com a felicidade mais recente e desta também para sempre , a ressonar ao lado,
Com a cabeça de vinho branco num Verão que se arrasta entre promessas e adiamentos,
A arte de se tornar um cadáver ressentido está no cansaço das mãos, na aversão
Às taquicardias consentidas, perde-se um universo a cada decisão que não se sente tomar,
O passado quer ensinar um fóssil inocente que habita uma gaveta qualquer no sótão
Da alma, quer ensinar-lhe o afogamento da carne em vontades e submissões ilícitas,
Quer ensinar como a felicidade é fazer malabarismo com o coração à beira de abismos,
Mas o anjo do apocalipse olhou demasiadas vezes para trás, tornou-se pedra de sal,
Faltaram-lhe muitas vezes lágrimas e a força para despedidas, deixou-se ir e vir
Demasiadas vezes como se uma vingança passiva e mal dirigida, agora dorme como
Quem foge, as ruas tornaram-se em pastelarias quando os bolsos vazios e os olhos
Uma fome maior que o estômago pode imaginar, ao lado a sua felicidade dorme
E ressona sossegada, ignorando o que à almofada se acrescenta por omissão.

10.07.2015

Turku


João Bosco da Silva