quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Rio Tuela Revisitado

Ao longe através das giestas ouvem-se carros a passar numa estrada para uma aldeia
Quase deserta, os peixes bicam-me os pés, as cobras sem medo aproximam-se
E uma apoia-se-me no hálux, faz-me saltar como se alguém de repente apagasse
As luzes e eu ficasse novamente criança, como quando atravessava o rio nas costas
Dos tios e à noitinha se iam buscar as redes para jantar peixe frito e na rede uma cobra
E bastante água engolida, perdoo-vos tudo, perdoai-me não vos evocar todos os dias,
Torna-se cada vez mais difícil manter o universo todo consciente, quase nem se dá
Pela cobra apoiada no dedo do pé, não fosse um toque mais frio e o salto,
Porquê se inofensiva, a morte em tantos outros lados, será que o meu avô saltava
Ao ver um copo de vinho, não, mas o copo voava e vazio, umas pingas no chão
E envergonhado pelo garoto não saber nadar, agora sei, e quero lá saber das cobras,
Coexistimos com tantas de sangue quente, que se apoiam calorosas sem pingo
De inocência, pode ser que um pouco de curiosidade, a cobra toda ela um risco curioso
Serpenteando a água até ao fundo do rio, escondendo-se do medo de sangue quente,
Subo a fraga do outro lado do rio e seco ao sol, a pele sente-se cada vez mais,
Como conseguiu tão pouca pele esticar tanto, a cona da irene do outro lado
À sombra, a única companhia silenciosa além dos gritos e risos de outros verões
Levados por mil brisas atrás, mil sonhos esquecidos em almofadas alheias,
Sou agora a testemunha do rio que corre, sou um salto de medo, só ele permanecerá.

17.09.2015

Turku


João Bosco da Silva

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