quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Além Da Cerveja

Porto E Outras Cidades De Algibeira

Quando se escreve a olhar para uma parede branca, ou um bando de abutres,
Têm que se fechar os olhos e regurgitar um pouco dos passos que a chuva já lavou,
Têm que se ressuscitar a cor do batom e o sabor da pastilha elástica daquele beijo
De dentes nos lábios, até o taxista tem que ressuscitar, ele e o bigode mal humorado
A levar estudantada até cemitérios de periferia, têm que se acender outras noites,
Com menos ainda do que uma parede branca, uma parede suja e barulhenta
De um quarto alugado numa cidade com calçadas gastas pela fome dos saltos
Das prostitutas, e dos ladrões viciados em agulhas e os outros viciados no vício,
Não se pode esperar muito, ou nada dos dias que correm, parece que só a água
Que correu é que marca, a que corre só molha, incomoda, como andar à chuva,
Dizia o outro, lá do ombro, e nada vale 15 segundos de vida, nada traz quinze segundos
De vida, mas fazem tantas vezes falta, para iluminarem a parede branca,
Ou os olhos fechados num dia que se quer no fim já já, e que arrependimento,
Tocar-se-ia por tantos outros bem piores, venham aqueles dias perdidos
Entre a areia e o sol, a cerveja baptizada pela saliva escocesa, venha o banco de jardim
À beira do rio de madrugada, e a mão de olhos azuis a acordar e dizer, andei à tua procura,
As mãos em cima da mesa, sem se tocarem e uma fome imensa de grãos de açúcar
Sobre a mesa, ou aquela cerveja horrível e quente com a melhor companhia daquele mundo,
Tem que se trazer isso tudo, até as promessas que se ouviram sabendo que seriam mais
Bolsos rotos de mão bem apertadas, igrejas estéreis no centro de uma cidade
Ao lado de uma clínica de engana tomates e carteiras fartas da absolvição de domingo,
E dos beijinhos na testa do cheiro da almofada ao lado, dando décadas por
Quinze segundos no banco de trás do carro, com a cadeirinha a incomodar as pestanas
Postiças de um travesti, tem que se trazer tudo, até a pasta de papel higiénico
Nas tardes a cheirar a alcatrão com o abcesso a latejar na visita à ETAR e nem um,
Estás bem, nem um, não dizes nada, nem merda nenhuma com merda à farta por todo lado,
Só o medo à pila do estudante francês, quando fora, quando dentro, ai que filme francês,
E depois o açúcar na mesa e o batom, só lábios e a pastilha debaixo da mesa,
E o taxista a estas horas a levar mais um onde o esquecimento se fossiliza
Nas revelações das paredes brancas em noites cheias de abutres e dedos.

29.10.2015

Turku

João Bosco da Silva
“3:16 e …” Versão De Um Poema De Bukowski

Aquelas músicas que não chegam lá, já não chegam lá, como se o caminho
Se tivesse tornado mais longo, até às cordas, ou a parede ficou mais espessa,
E não tenho sono de tarde, não é sono o que tenho sempre,
E não é que esteja melhor a dormir, ou com a luz apagada concentrado
Apenas no som que não chega lá, já não, mas acaba-se mais
Facilmente, parece que o que vibrava dentro está
Agora como as asas das moscas presas entre os vidros das janelas,
Agora que o verão se foi e já se varreram os copos de plástico
E o fígado cicatrizou de todas as madrugadas que se engoliram
Em músicas que já não chegam lá, perdem a força pelo caminho
Que se percorreu em direção à aniquilação, ainda não se chegou,
Engulo o sol possível de um copo nórdico fabricado na França
E lembro-me da morte lenta de Bukowski e na sorte que ele teve no azar,
Para quem não tentava, trabalhou bem o seu caminho até à imortalidade,
Agora, 03:16 e nem mais um segundo, sem sono, ouço mais uma vez
A mesma música na esperança de acordar as moscas de outros verões.

29.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Esquecimento Entre Dois Sonos

“Existence – well, what does it matter?
I´ve existed for the best use I can
The past is now part of my future
The presente is well out of hand.”

Ian Curtis

Quem levou os teus verdadeiros sonhos, foram os anos que somaste
E não os vês em mais nenhum lado a não ser no espelho e nos calendários inúteis,
Os outros foram-te injectando novos sonhos, não enquanto dormias,
Hoje a casa debruçada sobre a vinha íngreme no monte, longe, vazia,
As portas escancaradas, as janelas sem vidros, as cortinas bandeiras de um país
Conquistado pelo esquecimento ao vento, e todos os livros que se queriam
Ter lido, por ler, também esses foram sido substituídos por adiamentos
Intermináveis, por interrupções de tropeço, a casa uma ruína antes de ser construída
Fora da fábrica dos dias, agora comes os sonhos estranhos, vestes-te de ilusão
E invejam as conquistas pelas quais não lutaste nos dias vazios, os dias vieram
E trouxeram o que quiseram, todas as victórias postiças, aceitaste-as como
Uma medalha que não mereceste, enquanto os sonhos originais e pequenos
Amareleceram, caíram e foram levados pelo esquecimento, ou porque cresceste,
Hoje, longe, desejas tudo menos aquele olhar que te matava e se tornou inócuo,
Invisível, como tu, desejas o mundo nas mãos cheias que se diluem no excesso
De perdição, sobes alto, cada vez mais alto, mas lá em cima há cada vez menos,
E não está lá ninguém, ninguém que interesse e é só altura, como tempo somado,
E os olhos são cada vez mais insuficientes para lembrar os sonhos originais,
Ela também te esqueceu e a sombra do castanheiro centenário só te toca nas
Pálpebras nos dias mais pesados e saturados de todas as vozes que nunca convidaste
A entrar e te convencem que queres, que deves, que és e cada vez menos és tu.

28.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 27 de outubro de 2015

o pintor 

ele veio até ao alpendre 
com um tipo anormal sorridente 
e lá ficaram 
bêbados de vinho. 
o pintor tinha algo embrulhado no seu casaco, 
então tirou o casaco –  
era um capacete de polícia 
completo com distintivo. 
“dá-me 20 dólares por isto,” diz ele. 
“desaparece, meu,” disse eu, “para que quero eu um 
capacete de polícia?” 
“dez dólares,” disse ele. 
“mataste-o?” 
“5 dólares . . .” 
“que fizeste àqueles 6 mil que ganhaste 
na tua exposição o mês passado?” 
bebi-os. tudo no mesmo bar.” 
“e eu nunca bebo uma cerveja,” disse eu. 
“2 dólares . . .” 
“mataste-o?” 
“encurralámo-lo, socámo-lo um pouco . . .” 
“isso é treta. não quero o capacete.” 
“faltam-nos 18 centavos para a garrafa, meu . . .” 

dei ao pintor 35 centavos 
mantendo a corrente na porta, entregando-lhos 
com os dedos. ele vivia com a mãe, 
batia regularmente na namorada 
e na verdade não pintava assim tão 
bem. mas suponho que muitos dos personagens obnóxios 
trabalham o seu caminho até à 
imortalidade. 

eu próprio estou a trabalhar nisso. 

Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nojo E Vergonha Na Primeira Classe

Uma vez na primeira classe, saímos mais cedo, já a aldeia estava toda acordada,
O nevoeiro tinha levantado, aquilo parecia-me um crime, pela rua, aquelas horas,
Eu e o Zé Pequeno, perto da mercearia onde a mãe uma vez comprou cereais
Muito bons mas caros, de chocolate, com um urso na caixa, uma rapariga grande
De uns doze já, ou quinze, mais do dobro da nossa idade de certeza, chamou o Zé,
Tinha um bolo na mão, cravou-lhe uma dentada e deu ao Zé o resto, ele aceitou
Todo contente e ofereceu-me, eu recusei repugnado e ele atacou o bolo,
Provavelmente a primeira coisa que comia em todo o dia, senti vergonha por ele,
Nojo do bolo e ódio pela rapariga, aquilo pareceu-me uma afronta, aquela dentada
Antes da esmola, como cuspir na comida antes de a dar a quem tem fome,
Como afastar as nádegas de uma pobre para pagar a ilusão do favor que se lhe fez,
Como dar um tiro num cão vadio, porque coitadinho, não tem quem tome conta dele,
Só mais tarde perdi nojo ao que as raparigas grandes tocavam com a boca e davam como esmola.

13.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

poema pela voz de Marlene Babo

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

os poetas negros

os poetas negros
jovens
vêm à minha porta –
“és o Bukowski?”
“sim. entra.”

eles sentam-se e olham em volta do
quarto destruído
e para
mim.

entregam-me seu poemas.
leio-
-os.

“não,” digo eu e entrego-os de
volta.

“não gostas
deles?”

“não.”

“’roi Jones veio ver-nos ao nosso
atelier . . . “

“detesto,” disse,
“ateliers.”

“ . . . Leroi Jones, Ray Bradbury, muitos gajos
grandes . . . eles disseram que isto era
bom . . . “

“ é má poesia, meu. estão a beijar-te o
cu.”

“ há um grande escritor de cinema também. Ele teve a
ideia: Watts Writers’ Atelier.”

“ oh meu deus, não percebes? eles estão a acariciar-vos os
cus! devíeis ter incendiado a cidade
toda! estou farto!”

“tu não compreendes
os poemas . . . “

“percebo sim, rimam, cheios de
vulgaridades. escreves má
poesia.”

“olha cabrão, já estive ao rádio, fui publicado no L.A.
Times!”

“oh?”

“bem, já fizeste
isso?”

“não.”

“o.k., cabrão, ainda não viste tudo o que posso
fazer!”

deduzo que não. e é inútil dizer-te que não tenho nada contra os
negros
porque aí
de alguma forma
é quando o tema se torna

doentio.

Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva
os poetas brancos

os poetas brancos geralmente batem bem cedo
e continuam a bater e a tocar
a tocar e a bater
mesmo que as persianas estejam fechadas;
finalmente ergo-me com a minha ressaca
julgando que tal persistência
deve trazer felicidade, um prémio
qualquer – feminino ou monetário,
“já vai! já vai!” grito eu
procurando algo para cobrir o meu corpo
feio e nu. às vezes tenho que vomitar primeiro,
depois gargarejar; o gargarejo só me faz vomitar outra vez.
esqueço-me disso – vou até à porta –
“sim?”
“és o Bukowski?”
“sim. entra.”

sentámo-nos e olhámos um para o outro –
ele muito vigoroso e jovem –
roupa último grito da moda –
toda cores e seda –
“lembras-te de mim?” ele
pergunta.
“não.”
“eu estive aqui antes. tu foste bastante seco. não gostaste dos meus
poemas.”
“existem bastantes razões para não gostar de
poemas.”
“lê estes.”
põe-mos à frente. eram mais lisos que o papel onde estavam
escritos. não tinham nem carraça nem
chama. nem um som, nunca li tão
pouco.

“hum”, disse, “hum-hum”

“queres dizer que não GOSTASTE
deles?”

“não há nada aqui – é como um pote de mijo evaporado.”

Ele pegou nos papéis, ergueu-se e andou
às voltas. “olha, Bukowski. eu arranjo-te umas gajas de Malibu,
gajas como nunca
viste.”

“ai sim, querido? Perguntei.

“sim, sim”, diz
ele.

e saiu porta
fora.

suas gajas de Malibu eram como os seus
poemas: elas
nunca chegaram.

Charles Bukowski, in Mokingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Síndrome de Wernicke

Sigo-te depois das aulas, ou das obrigações do dia, ou lá o que era,
Atravessámos um túnel como aqueles em miniatura que se faziam na areia
Da praia, aparecemos do outro lado da montanha, havia nevoeiro e eu seguia-te,
Na berma dois miúdos tocavam-se, tu deste-me a mão e eu comecei a tocar-te
Também, sorriste, aceitaste, levaste-me até casa, à entrada no portão dizes-me
Que o homem que regava as couves era teu pai cego, regava-as nu,
Eu disse que se calhar era melhor não, ela disse anda e olá ao pai,
A casa era como as casas típicas da minha terra, de pedra, com uma escada para uma varanda
De entrada, debruçada na montanha, coberta de nevoeiro, vinha e fetos,
Aquilo eram as minhas terras, a minha infância, deixo-te entrar e fico
A respirar aquilo tudo, nunca haverá suficiente verde nos olhos,
Quem te terá posto neste lugar, a ti e ao teu pai cego, tenho tomado
As vitaminas b, não será disso, chamas-me e entro no ranger de madeira do soalho,
Beijas-me e arrancas a roupa apressadamente, provo-te as aréolas rosadas,
A tua pele pálida, deixas-me as calças que apertadas e risinhos por ficarem
Presas nas ancas, lá se arrancam e tu a tremer, os teus lábios da cor das aréolas,
Tu transparente como a tua vontade, ou um espelho da minha,
Tanta que não sei que te fazer, eu de calções no fundo dos joelhos,
Mergulho em ti e levo-te aos lábios o teu sabor, procuro-me e entro
Em ti quando vejo passar na janela o teu pai e mais dois homens,
Continua ele não vê, e eu a pensar nos cheiros a gritar naquela casa,
Não vem só e saio, encosto-me a um canto e vejo-te a ti, a recebê-los, nua,
O teu pai não dá por nada, os outros parecem imitá-lo, é o meu tio e o meu
Primo, e eu encolhido no canto, com as nádegas nuas encostadas à parede fria,
Acabo de puxar os calções para cima, tu deitas-te num colchão que estava encostado
Na parede enquanto eles falam, nua, de barriga, finges dormir, e o teu primo
Curioso, deixa a conversa dos homens e começa a acariciar-te as belas nádegas,
Como as primeiras nádegas, vejo que sorris de olhos fechados, então ele
Penetra-te com um dedo, sinto o som de pregas húmidas no ar, mordes o lábio inferior,
Abres os olhos e sorris-me, saio e engulo o nevoeiro na varanda como se tivesse estado
Em longa apneia, desço as escadas para o vazio, e não, não acordo.

07.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Fim do Verão - Haikus

A água da chuva
Evapora da rocha quente,
Eu também estou aqui.

Também se passa fome
Para se chegar
A um museu.

Queremos ser sagrados
Por isso vestimos
Palavras.

Enquanto o mundo passa
Nas minhas costas
Como-o um pouco mais.

Bebe, bebe amigo,
Que a sede é coisa
Da vida.

Enquanto o poeta não
Chega a Edo,
Constrói-se dentro.

Deitado na erva seca
A macieira arrancada
Permanece.

As pétalas rosadas
Escondem o fruto
Do suspiro.

O tamanho não corta
A intensidade, a faca
Corta tudo.

Sabes que a cerveja
Arrefece, como tudo bom,
Que esperas?

Na janela da casa abandonada
A teia de aranha
Espera um olhar.

No rio da infância, só
Na companhia das
Cobras curiosas.

08-10/2015

Finlândia

João Bosco da Silva

sábado, 3 de outubro de 2015

Na Vadiagem

Depois da escola fui pela aldeia, por ruas que nunca tinha visitado antes, um mundo novo,
Tão grande o lugar onde vivemos, cheio de ruas e casa diferentes, o sol
Quase se punha lá do alto, por trás dos eucaliptos, devia apagar-se no rio,
Ia atrás do meu colega que conhecia toda a gente, quem é o teu amigo,
Anda comigo na escola respondia, eu branquinho e envergonhado, uma florzinha
De estufa num canteiro de couves- galegas, distraído das horas, com a lata numa mão
Decidido a salvar o mundo, ignorando qualquer consequência,
Quando já arrefecia lá me levou a uma rua conhecida e de lá fui até casa,
Passando pelo cão mau e atravessando a estrada dos contrabandistas,
Cheguei a casa e a mãe ralhou-me, que por onde tinha andado até tão tarde,
Que meninos da primeira classe não podiam andar a vadiar por aí até tarde,
Eu estendi-lhe a lata e disse-lhe, andei a salvar gente leprosa, dás-me uma moeda.

03.10.2015

Turku


João Bosco da Silva