sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Ronco II

Um gajo esfarrapa-se todo por estes gajos e nada, esta gente toda,
Que vive e pensa e sonha e teme e deseja e fode, engole, fodia mais
Se lhe baixassem as calças por serem todos tão especiais, mas nada,
Um gajo pode ser grande, mesmo muito grande, mas não existe
Enquanto não entrar em alguém, precisámos de olhos como do corpo,
Com o tempo fala-se com árvores, pedras, deus até, a água
Engole-se , mas antes agradecemos-lhe a frescura, é isto, mas um gajo
Esfarrapa-se todo, arma-se em mutante dos nervos, nem um pássaro
Se levante, abre-se a janela, um frio terrível, nem dá vontade de grandes
Gritos, abre-se mais uma garrafa e grita-se ao contrário, engole-se pronto,
Não vale a pena, são todos umas putas armadas em santas,
Uns miseráveis gordos de fome e solidão, querem é beiça
E prepúcio retraído, nem é papel, é mesmo fome de um sovaco azedo
Que os abrace, anda um gajo a esfarrapar-se por isto,
Há fomes piores, o musgo seca, o menino jesus do presépio
Não tem mãos, os olhos parecem que enrugaram e o menino
Que não morreu, parece apodrecer no colo que rejeita
Porque agora é homem, anda um gajo neste negócio de pérolas,
Para os porcos dormirem sossegados nos palácios que os burros admiram.

07.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

Poema lido por Marlene Babo: https://soundcloud.com/mar-babo/poema-joao-bosco-da-silva
Fumo E Espelhos

Fujo porque todos sabem sempre tudo e conhecem-se todos
E a mim que me custa tanto equilibrar nas palavras que se me soltam
Dos lábios demasiado finos para levar um murro a sério,
Fujo antes da diarreia tomar conta da minha alma e não conseguir
Nada mais que fulminações de um castanheiro velho num dia
De tempestade, a fazer de conta que faço portas de inferno,
Fujo porque não consigo contar mais os estilhaços do espelho
Onde me verto, para lá do reconhecimento possível após
A transição dimensional em cantos escuros com bruxas receptivas
A insultos em forma de ejaculações, dizem que manchas da cinza,
Fujo porque sei de cor a coreografia dos olhos e a vibração
Dos dentes espantados por ruminâncias desesperadas de colo,
Fujo porque o Kerouac assim aconselhou, provavelmente quando
Já demasiado tarde e longe num delirium tremens loiro,
Fujo porque tenho sede e não se pode escrever com tanto ruído
E também este poema deve valer uma cerveja, fossem os gostos de lúpulo,
Fujo porque estou a mais e sei que estou a mais, porque somos tantos,
Todos desnecessários nos olhos dos muitos que têm o direito de estar,
Fujo porque me esqueci de rapar o pêlo e não gostam de macacos
Dentro de bibliotecas, mesmo que escrevam com a própria merda,
Fujo antes que fujam de mim, porque é pior quando escolhem esquecer,
Ou não esquecem, mas desviam os olhos do espaço que ocupámos,
Fujo porque não é que não goste deles, mas prefiro que estejam quando
Não estou com eles, e há tantos, legiões, fujo porque tenho medo de multidões
E os olhos mudos são avalanches de acusações que esmagam quem os ouve.

06.02.2015

Turku


João Bosco da Silva
Radiação Hawking

Deixai-me os tomates em paz, não ando aqui para cheirar, respiro e vai o
Que se arrasta, não faço disto carreira, só tiro, deixai-me estar a barba,
Bem piores são as unhas e tenho que me preocupar em mantê-las  sempre
Demasiado curtas, incomoda escrever com as unhas compridas,
As palavras rasgam carne suficiente, sem deixar marcas, às vezes,
Quem diz que o órgão maior é a pele, é porque vê muito pouco,
Está dito, que engula quem quiser, no fim ao menos pergunte-se
O que aconteceu ao futuro, engoli, com orgulho, é um gesto de reconhecimento
Perguntar, engoliste, tudo, até o luar pareceu desmaiar durante um momento,
Se há um buraco negro no centro da galáxia, não sei, mas tenho conhecido
Alguns, bem luminosos e de lábios vermelhos, vai tudo, por todo lado,
Os versos são o que sobrevive ao horizonte de eventos, o futuro limpa-se
Do batom, puxa as meias e as cuecas para cima e acende um cigarro,
Supostamente a luz não devia escapar, mas nem os tomates,
Há abismos que os olhos não podem esquecer e com isso
Trazem-se sempre dentro, no fundo, nunca se escapa verdadeiramente,
As unhas continuam a crescer e a incomodar, mesmo que os restos
De epitélio alheio sem perigos de rastreamento, deixai descongelar o inferno,
A vossa hora chegará e a salada estará pronta para quem estiver de dieta,
Ou quiser parecer bem, ou não houver mais nada que escape, aos buracos negros.

06.02.2015

Turku


João Bosco da Silva