segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Boa Noite

aos velhos amigos,


Realmente, ficamos bem aquém daquilo que esperamos de nós mesmos,
Ao menos ainda esperamos mais que ter alguém que se interesse por nos fotografar
As mamas, esperamos viver de nada e não ser reconhecidos por nada,
Houve um tempo em que uma cabana, numa vinha, onde o Sol permanente,
Com as paredes recheadas de todos os livros, que não se teve tempo de ler,
Hoje espalhados entre a falta de vagar e as horas de pirataria e salivação
Condicionada, hoje a cabana vazia nos sonhos arquivados nas resignações,
A vida é assim, sim, alguns tiveram que ir para longe, outros para mais longe
Ainda, e tudo passou a valer a pena uma ou duas vezes no ano,
No tasco da terra, quando se bebem umas cervejas até aguentar o Sol
Da manhã durante umas horas, jogando ao xino com uma das últimas figuras mitológicas
Da vila, por isso, és um borracho, não dos que mostram orgulhosamente
O vazio da sua caixa óssea nos bares e discotecas da periferia, e são pagos por isso,
Ainda houve quem criou uma possível metade numa sueca,
O que pior sabia jogar nos intervalos, enquanto uns semeavam sonhos menores,
Sem contar com os medos da descendência gerada em pântanos nórdicos,
Ficámos por aqui, entre filhos, casamentos porque teve que ser,
E até se é feliz, entre cornos, e filhos, melhor nos casamentos dos amigos,
Até se vai andando bem na língua dos outros, também é o que é,
A vida, trabalhamos oito horas por dia, muitas vezes não se sabe bem
Para quem, nem onde tantos segundos são transformados em riqueza,
Não a nossa, não, ninguém sabia cantar, houve ilusões de câmara na mão,
Mas de actores, nem de gaita na mão de madrugada a fingir medo
E fodas em tendas na mira da foice de um psicopata serial-killer,
Que nem sempre o são, nós nem uma coisa, nem outra,
Morreremos e seremos apagados em menos de cinco décadas
De cinco cérebros no máximo, tudo o resto foram cinzas de sonhos
Levadas pelo vento do tempo, ficámos aquém, mesmo assim,
Nunca ninguém esperou que fizéssemos aquela curva na estrada de província.

24.02.2015

Turku


João Bosco da Silva
A Relatividade Dos Passos

Ponho-me uma vez mais a caminho, saio da festa, levo um copo de plástico,
Foi um tio de França que mo deu, dentro vão uns litros, em nenhum gole
Consegui encontrar o sabor daquela cerveja bebida às escondidas
Em casa da avó, quando não estava ninguém em casa, em mil novecentos e noventa
E um, mais uma vez, ponho-me a caminho, em direção à Lua, os castanheiros
Gigantes  prateados, árvores mitológicas da infância e baldes de plástico
Na época das castanhas, o lameiro do avô já não está longe, que estranho,
Como as distâncias encurtam e a gente se torna cada vez mais distante,
Os grilos denuncia-me com o silêncio que a minha presença irradia,
Há uma palavra para isto, a saudade não chega, há algo parecido
Ao caminhar num lago gelado no norte, só, ao regressar a um lar cansado,
Onde ninguém, mas agora é Agosto, estão cá todos, cada vez menos,
Nota-se o peso da ausência nos olhos, é a tristeza que nos envelhece,
O azul foi-se, as estrelas esperam no lameiro, algumas no poço
Onde caí de cabeça quando me inclinei para beber, põe assim as mãos,
Em concha, ele que nunca viu uma concha na praia, põe assim
As mãos, não quero pensar nas mãos dele agora, as eternas, nodosas,
Esculpidas de uma cepa centenária, a erva mesmo nestas noites
Quentes é fresca, fecho os olhos e lembro-me de um deus grego,
Anteu, lembro-me do Miguel Torga, eu também já devo ter morrido,
Pelo menos uns quantos em mim, nunca nos encontraremos numas
Águas-furtadas em Paris, cada vez me lembras menos, desculpa,
Hoje é só porque luar e as rãs coaxam no poço, mas pronto, a vida
Este caminho onde vamos caindo e nunca é o mesmo quem se levanta,
Só quem levamos dentro, as mãos em concha, o sabor da cerveja às escondidas,
Chega-se, mas já não se está lá, há muito tempo, e o copo também ele vazio.

23.02.2015

Turku


João Bosco da Silva