quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Quantum

Às vezes quando passo pela minha antiga janela, daquela casa de madeira perto da catedral,
Evito olhar para dentro, ainda posso lá estar a olhar para o monitor ou por cima dele,
Para os ramos da árvore em frente, nus, à espera da Primavera como eu espero o próximo
Verso, o próximo Verão, só no Verão vivo realmente, o resto é congelar ou descongelar,
Às vezes olho e afinal as cortinas diferentes, outro monitor, nunca alguém, parece impossível
Alguém, depois de tantas horas a consumir vazio ou a tornar a vida em nada, a não ser numas
Palavras e um horizonte sempre longínquo, um dia pode ser que passe por lá
Ao mesmo tempo de uma dessas ondas de Einstein, ou na hora da sesta de deus,
Aí olharei para mim e sorrirei como quem quer mostrar que está tudo bem, tudo melhor,
Mesmo que não esteja, sorrirei para os olhos que procuram o verso e a eternidade
E continuarei em direcção ao esquecimento ou o próximo bar.

Turku

24.02.2016


João Bosco da Silva

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Quando a vida é
Apenas uma sucessão
De desencontros,
Que bom é dormir e
Ver-te à espera no sonho.

24.02.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016



O Poeta, Andreia Pires. 16.02.16
(A2 - grafite, guache)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O sabor dos teus lábios
também se tornou
na cinza fria daqueles
cigarros apagados
na certeza da eternidade.


Ainda vês no luar
o brilho dos nossos
corpos perdidos
na fome infinita
dos momentos extintos?

10.02.2016

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Compensação Escatológica

Lembras-te da puberdade no cimo daquela fraga
Com as hormonas a roer-nos tanto que até
Nos serviam as ligas pretas da velha viúva
Que passava com um feixe de lenha?

08.02.2016

Turku


João Bosco da Silva
A Viúva Finlandesa

“Há quanto tempo não dizes o meu nome? Apagaste-me de vez? Nunca pensei que me apagasses de vez, tive esperança de ser, ao menos, uma luzinha vacilante mas teimosa em qualquer ponto da tua memória, que se pode ignorar mas não se esquece, uma silhueta, mesmo difusa, um fragmento de cara(…)”
António Lobo Antunes

Ela disse-me que tinha ficado viúva aos 30 anos
Com dois filhos pequenos e que teve durante 10 anos
Um namorado português que passava os Invernos em Portugal,
Morreu há sete anos, e nos olhos uma humidade onde
Se adivinha o sabor a saudade, mesmo que na língua dela
Não exista tal palavra, imagino o português, como
Alguns portugueses que conheço e que tiveram uma
Amiga finlandesa, a falar da viúva com os olhos
Secos e a malícia nos lábios, muito depois
Do tesão se tornar numa saudosa memória,
O amor das mulheres será sempre o mais real.

31.01.2016-08.02.2016

Turku


João Bosco da Silva