sexta-feira, 29 de abril de 2016

Caminhada Catártica

ao meu amigo carpinteiro,


Não sei se era o Sol que se punha, se éramos nós que caminhávamos
Para detrás da montanha por aquele caminho rodeado de castanheiros
No fim de uma tarde quente, seria verão, pela recordação em tons cinzentos
Parece que não, se calhar o calor só o da tua voz soprando o fumo de um cigarro
Que acreditava que eterno, afinal não, afinal também tu como o meu avô,
Não me lembro do que falávamos, mas parecias contar-me uma verdade
Sobre a vida e a morte, provavelmente falavas-me da guerra em África,
Ou da falta de sapatos nos dias frios, ou então do calor de um perfume francês,
A cova do meu avô ainda não tinha afundado e cada passo me parecia um abraço,
Eu garoto, ainda com tempo para tudo, goza a vida João, dizia-me,
Quantas vezes não a poupei só para não te deixar mal, mesmo que não
Te tenha contado tudo, a vida não é para se poupar, é comê-la à dentada
Antes que se estrague, depois nem dentes há para o pão duro em que se torna,
Entretanto o Sol pôs-se, a terra arrefeceu, passaram anos desde aquela
Caminhada na aldeia do meu pai, e agora tu além da montanha onde o Sol se esconde.

29.04.2016

Turku

João Bosco da Silva



quarta-feira, 27 de abril de 2016

Iluminações

Quantas vezes olho pela janela com fome de relâmpago,
E espero a porta aberta numa tarde de fim de Verão,
A chuva quente caindo na terra sedenta, e um raio sobre
O poste de alta tensão encravado entre uma fraga e um freixo,
E não ter medo do fim do mundo que se apresenta tão puro
Quanto a violência dos dias cinzentos e quentes,
Um salto na escuridão de um rádio que se desliga
Nos ouvidos surdos de tanta luz desperdiçada,
Quantas vezes olho pela janela como quem pede um raio
Purificador, que parta do ar este peso dos dias vazios.

27.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 24 de abril de 2016

Trás-Os-Montes

Trás-os-Montes sempre foi a colónia mais longínqua do império,
Mas quando chegava a fome de carne para canhão, todos eram filhos
Da pátria, mesmo que fossem com pouca carne por causa das fomes
E dos invernos que a capital nunca viu em Portugal continental,
Não havia sapatos para todos, mas balas para matar os inimigos
Da nação nas suas próprias casas, à farta, depois houve uma revolução,
Eu continuava a ter que acelerar no Inverno a bicicleta,
Se fosse demasiado devagar, parava no meio de um charco de lama,
E enterrava-me lá todo, lá na aldeia, mas eramos só uns garotos,
E ninguém se importava muito em acender mais umas velas
Quando um de nós atirava contra os cabos eléctricos descarnados
Uma vara de sombreiro desde um arco improvisado
Com um pau de castanheiro e um baraço dos fardos,
Tractores, sim, tive um, o meu pai fez as rodas de cortiça,
Eu improvisei o resto e foi a inveja da povoação,
Os de plástico vi já andava farto de bater punhetas em palheiros,
Trazidos das feiras da vila, parecia a capital na altura,
Sujos não andávamos porque a pele das mães se tinha habituado
Às geadas, e que sorte não ter havido uma guerra no nosso tempo,
Só ouvíamos as histórias deste que veio maluco da Índia,
Tinha sido a droga e eu a pensar que a Índia lá para além de Bragança,
Depois da Espanha onde uma vez por ano íamos comprar chocolates
E meias, até o meu avô era conhecido na Espanha, traficante,
Na altura dizia-se contrabandista, de meias, um criminoso perigoso,
Um inimigo do Império, claro, não foi a nenhuma guerra,
Uma vez enfrentou um javali por fome com um machado,
Fartou-se durante uma semana, mancou o resto da vida,
Mas nada disto interessa, amanhã é dia da liberdade
E eu aqui longe de todos os que me queriam fazer pedir,
Longe de todos que me diziam não me querer ouvir,
Porque senhor doutor lá de uma fortuna na Suíça,
Longe de todos os que filhos deste e daquele, que julgaram
Que podia roubar-lhes o poleiro, longe do acordar
Para poder ir dormir, para voltar a acordar e no fim
Pouco mais sobrar que para o bilhete de autocarro
Para ir ver a família em Agosto que veio lá de longe,
Do estrangeiro, coitados, quando eu podia ir ao café todos os dias.

24-04-2016

Turku


João Bosco da Silva
Rua Do Almada

E hoje que te podia contar tanto quanto o que as unhas agarram dos dias
E não tenho palavras que morem nos abismos dos lábios,
Estou encarcerado nesta espera sem vez à vista, já incarnei em tanta carne
E cada vez mais me afastei de ti e do fim dos tempos, o café já não arrefece mais,
Torna-se nos cristais de açúcar que espetavas na ponta dos dedos
E olhavas com a doçura de uma boneca partida e eu queria ser aquela
Pequena dor que te rasgava um pouco a pele, não interessa que não te voltes
Quando te peço um último olhar na despedida, basta-me beber as últimas gotas
Do teu caminhar pela rua suja fora até virares a esquina como da última vez.

Turku

23-04-2016


João Bosco da Silva

sábado, 23 de abril de 2016

Quanto De Ti É Já Defunto

Quanto de ti é já defunto ou rua escura numa aldeia quase deserta do interior,
Quanto de ti te deixou e já não és senão o esquecimento da tua voz nos outros,
Procuram-te no degrau que falham nas escadas de um prédio sem luz,
Quanto de ti ficou nas páginas que visitaste sem o toque da saliva
E dos dedos engordurados pelos dias, a quem te deste, diz-me e dir-te-ei quem és,
Não te procures nos espelhos partidos dos outros, leva antes umas flores de plástico
Que duram mais e com os olhos fechados contra o Sol de Agosto,
Revisita o som do teu nome nos lábios que já secaram de ti,
Quanto de ti é já defunto, o suor na testa do pai e terra revolvida no quintal
E te dizem que agora ali o teu gato, o teu cão e todos os sonhos que não levaste.

Turku

23-04-2016


João Bosco da Silva

sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Morte De Um Mestre

“oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta
um nó penas duro”

Herberto Helder

Sei que chovia, digam o que disserem, chovia e anoitecia em todo lado,
Isto da terra ser esférica não é para todos os casos, até o coração
Se estende e fica fino como um mapa para lado nenhum
Quando morre um mestre, os amores esses duram sempre enquanto
A carne não arrefece do pecado ou a promessa que se arrasta tiver olhos,
Também chovia naquele fim de tarde escuro debaixo da tua varanda
Enquanto degustavas mais um cigarro e me contavas que a vida
Nem sempre cheirou a uma carpintaria num dia húmido,
Sempre que podias, mostravas-me o segredo do teu cabelo branco
E sentia-me mais cheio, com tempo, coisa que afinal tu não tinhas,
Naquele dia, sei que chovia, sei que ainda chove, cá dentro onde moras.

22.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Sobre Poesia

Mais uma folha
que cai – mal
começou a Primavera.

Comecei a escrever poesia quando me apercebi que vinha uma avalanche
De nada contra mim, quando cai sobre nós algo assim, não há nada a fazer,
Ou há a poesia, escrever poesia é tentar engolir a água toda do mar
Quando se leva com a maior onda do mundo nos olhos,
Um poema é uma necrologia, de um momento, de um beijo, de um amigo,
São as palavras escritas nas lápides do cemitério interminável que somos,
Sem vida não existiria poesia, sem mortalidade também não,
Não acredito que os deuses tenham escrito um verso sequer,
Para mim a poesia é muito mais que uma desculpa para ir
Ter com uns quantos poetas e ser visto, geralmente acontece quando
Já quase nem eu me vejo a mim próprio no quarto vazio,
É mais que vento no ego de um nome qualquer que tenta, tenta,
É mais que uma justificação às pestanas queimadas em nome das palavras
Ou dos caralhos engolidos em nome do nome,
Para mim a poesia é a única forma de estar vivo realmente,
De manter vivos em quem está vivo os que perderam todas as palavras,
É o meu martelo possível contra a invencibilidade da morte.

20.04.2016

Turku


João Bosco da Silva
Adeus Amigo

ao senhor Tomé,

Que posso eu fazer agora que o teu corpo já arrefece da partida,
Os teus olhos tratavam a morte por tu, sei que não te assustou quando chegou,
Desculpa a minha memória, tentarei guardar todas as histórias que me contaste
Da guerra, sei que muito de ti ficou por lá, ao lado dos teus amigos caídos,
Finalmente a paz absoluta, já não tens que ter medo das emboscadas,
Já não tens que caminhar descalço pelas ruas geadas, com os pés pequeninos,
Já não tens que te lembrar da fome e da miséria daqueles tempos de ditadura
Na região esquecida do império por que lutaste, agora são os meus miolos que ardem
Com a pólvora de uma granada, o hálito sabe-me a enxofre, metal,
E deito-me na cama armadilhada, nem quero saber, bebemos mais uma das verdes,
Que sempre tinhas em casa porque pensavas que eu gostava mais delas,
E as francesas, nunca se esquecerão do teu sorriso malandro, tu da minha idade,
Dizias e eu já com 30 anos, fazias-me sentir um garoto sempre, fazias-me sentir
Que ainda havia tempo, que ainda estava a tempo, e com a tua tosse por perto
Não me lembro de haver sequer um segundo em que me sentisse triste,
Não sei como pode falhar o coração a quem o coração nunca falhou,
E agora, que posso eu fazer a não ser encontrar-te em cada pedaço de madeira,
Em cada cigarro que fume e que se lixe, vamos todos, em cada copo de vinho
Para empurrar o presunto, que tu preferias grosso, em cada rapariga nova
Quando o meu cabelo for todo branco, e eu da tua idade a tornar os outros jovens
Mais uns anos, eu da tua idade, eu da tua idade, agora serás sempre da tua idade,
E não te preocupes, levar-te-ei comigo enquanto cá andar, meu velho amigo.

Palavras . . . queria era beber um copo de vinho contigo, só mais um.

20.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 18 de abril de 2016

marina :

majestosa, mágica
infinita
a minha menina é
sol
no relvado –
lá fora
colhendo uma
flor, ah!,
um velho homem,
naufrago de guerra,
emerge da sua
cadeira
e ela olha para mim
e só vê
amor,
ah!, e eu acordo
para a vida
e amo de volta
como fui destinado
a fazer.

Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrow Press, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva

domingo, 17 de abril de 2016

Chuva, Papel e Outras Fronteiras

“a escrita seria, ouça,
silenciosa,
como os passos claros da neve,
o frio

aroma dos sentidos.”
António Franco Alexandre

Enquanto leio um livro velho, com cheiros de décadas impregnados no
Papel, a chuva cai lá fora e nos versos cinzentos das páginas amarelecidas,
Então ouço uma motosserra distante, rasgando a carne de um eucalipto,
O serrim torna-se numa polpa húmida aos pés do meu pai abrigado
Dentro do baixo da casa, quando a corrente pára o vento traz as vozes
Dos vizinhos espanhóis, o poema termina e no ar que a página empurra
Surge antes do primeiro verso aquele casaco de bombazina castanho
Que cheirava a outono, atrás da porta do quarto onde dormia,
Então também nos olhos cai a chuva e nas mãos que sentem no papel fino
A vida toda, com ou sem palavras, a motosserra continua até o cepo cair,
Vencido como os olhos que sentem o que não veem e aceitam
A derrota do tempo como a chuva que nunca mais cessará.

Turku

17-04-2016


João Bosco da Silva

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Abril

Abril sempre foi um mês difícil, dedos à procura de carne nos cemitérios à noite,
Ela a dizer que sangue, enquanto noutras noites, ainda com o cheiro fresco,
Carros partem para o anal com gosto e um fica a ler mensagens a dizer que
Preferia que fosses tu, em Abril procura-se nas madrugadas o perfume que partiu
Naquela bicicleta com o ondular do vestido em despedida, mais cinzento que
Qualquer mar em Novembro, o Sol brilha mas não aquece, a água está fria,
Contudo às quartas-feiras à tarde vai-se até ao rio na esperança de umas cuecas molhadas
E uns soutiens de Domingo, Abril sempre obrigou à poesia, os poemas florescidos
E outras revoluções menos violentas, o gelo é perigoso na despedida em Abril
E a sede de carne torna-se pesada no ar poeirento, cada música é uma exumação
No coração, há um moribundo a cada batida, um morto com cara de saudade incurável,
Abril é um mês fodido como a certeza da última foda com quem se amou sem se saber,
É quando a neve revela o que Inverno escondia na escuridão fria, as saudades.

Turku

13-04-2046


João Bosco da Silva

sábado, 9 de abril de 2016

Estátuas De Berlim

Já reparaste bem nas estátuas de Berlim, crivadas de buracos de bala, apontando
Com o coto de um braço ou uma mão sem dedos, decapitadas algumas,
Alguns buracos à altura da cabeça de um homem, enormes pedaços de pedra
Arrancados pela violência, não me impressionou tanto a majestosidade
Daquelas colunas com pequenos quadrados de pedra mais clara, por todo lado,
Nem o fascínio dos conterrâneos pelos supercarros ao passar pela galeria
Onde estava o Mural de Jackson Pollock, a ideia de uma cidade dividida
Em dois por esquerda e direita, custou-me, mas não tanto quanto aquelas estátuas,
Aquelas famílias de carne, cujas marcas nunca sararão, as mãos serão dores fantasma
Na memória colectiva, tanta violência contra a inocência, que culpa teriam as estátuas
Para merecerem aquelas balas, aquele desejo de morte, aquele ódio contra a pedra,
Contra os nomes, no fim, quando já não há sangue para alimentar os impérios
E por fome eles caem, o que fica são as pedras e foram tantos e foram todos,
O sangue secou, a chuva lavou-o, só as marcas ficaram nas estátuas, nos muros,
E na memória dos que não tombaram, mesmo que sem um braço, tantas vezes
Sem cabeça, à sombra das árvores de um parque que floresce no meio da cidade,
Quando lá voltares, olha-as bem de perto, olha-as nos olhos e vê, as marcas das balas.

09.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Segredo Esmeralda

Podia falar-te daquelas manhãs à beira da última cerveja da noite,
A apagar cigarros à chuva com uns desconhecidos apaixonados pela insónia,
Podia contar-te da aspereza dos sofás alheios nas nádegas brancas
E daquelas púbis arruivadas que não contavam com o mergulho de barba,
Podia revelar-te ainda a idade em que os anos deixam de passar e passam a desabar,
Mas eu sei o que queres realmente saber, o segredo do meu olhar,
O brilho por trás do dente canino pronto à perdição da carne,
Pois bem, enquanto o Sol se punha, sentava-me na mesa da cozinha
E escrevia poemas ao ritmo das trindades, enquanto olhava o horizonte
Pela janela com a luz a bater-me nos olhos e da porta aberta
Sentia o cheiro da terra a arrefecer, o meu pai rachava lenha
E pelo alvoroço a minha mãe escolhia uma galinha para o jantar
E dos dedos saíam-me versos sobre saudades futuras e amanheceres
Longe dos olhos que à noite se fechariam,
Adormecendo depois do ladrar do último cão vadio.

04.04.2016

Turku


João Bosco da Silva