segunda-feira, 30 de maio de 2016

Botar Enxofre À Vinha

para o meu pai,

No ar daquela manhã o cheiro do Inferno, o Sol acendia o alvoroço
De asas e roçar de patas, Nietzsche no colo, nádegas sentadas
Sobre um banco improvisado de xisto azul e o pai a misturar suor
Com enxofre, enquanto eu, do cimo da vinha, procurava tornar-me
No poeta que só mais tarde conheceria, ali ainda entre o bem e o mal,
O pai jovem longe das dores nas cruzes, eu um garoto bem alimentado
A punhetas extraídas dos olhos fechados, a séculos do passo seguinte
E de todas as distâncias progressivas e irreversíveis,
Além do bem e do mal perfumado pelo roçar das folhas da videira
No ar expectante da manhã, o meu pai contente só por eu estar ali
A procurá-lo de vez em quando entre as cepas e mais um parágrafo.

29.05.2016

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Perdição De Jerónimo Bosch

Estou perdido, o aço japonês pede-me ao menos a salvação da honra,
Mas ficou-me esquecida na mesma gaveta onde deixei a fé,
Pedia só mais um pecado à beira do abismo onde fomos paridos
Para extinguirmos uns quantos antes do suicídio dar resultado,
Dá-me a mão, suja, o quer que seja, um olhar com um pingo de vontade,
Uma corda que não seja à volta do pescoço, estou perdido numa cidade longe,
Num corpo estranho, num ano quase impossível que um dia futuro,
Ao menos grilos na erva seca de uma noite de escorpiões
E tendas à espera dos amigos perdidos e das punhetas ressuscitadas,
Só a barba cresce e os cabelos brancos e o potencial para fracassar,
Campónio, sim, campónio, em liberdade nesta prisão a céu aberto,
Neste berlinde cósmico, estou perdido neste saco de estrume por abrir.

Turku

25.05.2016


João Bosco da Silva
Ela

Ela passa com mil pés, nádegas de todos os tamanhos e feitios,
Marcando passos em todas as direcções,
Vai-se a rir, a fumar, lambe um gelado, fala com alguém ao seu lado,
Vai só, tem os olhos de todas as cores e leva com ela todos os sonhos,
Todo o prazer, basta uma palavra.

Turku

25.05.2016


João Bosco da Silva

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Inventar Sorrisos

“This is our last embrace
Must I dream and always see your face
Why can´t we overcome this wall
Well, maybe it´s because I didn´t know you at all”

Jeff Buckley

E agora quê, agora que cada passo teu me sabe a derrota,
Por ser mais um ano a caminho de uma década perdida,
Cada sorriso que apenas te imagino, um corte na ferida da distância,
Agora que cada gota de ti me dói tanto quando evapora
E as palavras que quando às vezes me pousam na fome
Me parecem ter sido lidas num livro que não me lembro,
Nunca serei um Hemingway, só na sede ao chumbo,
Só por dentro te agarrei naquele jantar antes das férias do Natal,
Aquela noite sim, foi a despedida e só anos depois encontrei
No livro do Caeiro que me deste, uma dedicatória nas últimas páginas,
Serão essas as nossas páginas, tantos livros perderam o significado
Agora que os teus olhos há tanto tempo, tanto, longe das páginas
Amarelecidas da minha vida, abusadas pela passagem dos anos,
E agora quê, fomos um beijo violento contra todos estes anos
E quilómetros, momentos antes do bater de uma porta,
Um subir de escadas, o bater de outra porta e logo
O primeiro sorriso que te inventei antes de acenderes a luz,
Enquanto esperava lá fora a olhar para os pés indecisos,
Ela ainda volta, mas só o táxi chegou e lá fui inventando sorrisos
Nos teus lábios até ao cemitério de Paranhos e de lá até hoje.

18.05.2016

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Anoitecer De Madrugada

Não posso ir agora, assim, já, ainda é cedo para me continuares
A contar histórias da guerra e do caralho, ainda acho que tenho
Uma carta ou duas, mesmo que pareça que já está tudo queimado,
A cama parece-me a coisa mais apetitosa do dia, daí gostar tanto
Do café das quatro da tarde na varanda enquanto o resto do mundo
Regressa já cansado da vida, dos cornos, dos trocos para o papel higiénico,
Eu ao menos, apesar do cu limpo no esquecimento, sei que salvei alguém
Para mais uns dias neste aquário de piranhas com milhões de peixinhos dourados
Para serem comidos pela fome das barrigas maiores, mas caralho,
Eu não posso ir assim, já, nem o raio de um bastardo se anunciou,
Tantos bancos de trás de tanta boleia, e nem um bastardo,
Vomitei tantas vezes na fome de cadelas, ninguém terá engolido
A minha vontade, terá sido tudo mentira, vou cortar no quê agora,
Até me apetece um ponto de interrogação num palheiro
No dia da festa de uma aldeia em Agosto, não posso ir assim agora,
Mas já amanhece e eu pouco mais tenho a dizer a não ser palavras
De revolta que só o poeta da capital vê, mal sabe ele o que é a vida
Seja onde for além da capital de um império fossilizado.

12.05.2016

Turku


João Bosco da Silva
Para Os Vossos Filhos Bastardos

Arranco os óculos antes da madrugada, fica tudo como está,
Sinto a chuva de Tóquio a tocar na pele da minha infância
E eu nunca usei chapéu amarelo nem fui levado de carrinho
Para a escola, levei na bentas, sangrei dos joelhos, rasgaram-me
As calças favoritas em segunda mão, tive medo de morrer
Afogado em merda numa fossa, não fosse uma velhota
Debaixo do que hoje me parece uma oliveira e tinha engolido
A merda do medo todo e nem um verso hoje, longo ou o que seja,
Hoje os filhos desses merdas têm o mesmo medo,
Eu não, eu nem me perdi em Tóquio, apesar de me ter perdido
Em muitas madrugadas, loiras, ruivas, da cor da madrugada,
Nem óculos tinha na altura, era por ser de longe,
Sempre fui de longe, por isso agora aqui e tão em casa,
Agora és o glaciar onde mijei na Noruega, o teu amigo é só
A carcaça morta de uma zebra numa tarde aborrecida na savana queniana,
Eu o garoto a quem custou demasiado caro um sorriso,
Desejei-vos a morte tantas vezes, e que triste que o maus durmam bem,
E no fim nem o comboio do destino poupa a vingança dos pobres,
Só espero um dia que os vossos filhos bastardos tenham que estudar
As merdas que escrevo por causa daquelas calças rotas naquele
Dia de chuva depois da escola na segunda classe.

12.05.2016

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 8 de maio de 2016

Como Uma Bic Entre Os Dedos

Nesta madrugada, enquanto estrio esta Bic preta,
Quantas adormecerão com o esperma de outro no estômago,
Será que alguma se lembrou de mim, um segundo que fosse,
Quando o primeiro filho nasceu delas, lembro-me bem do poema
Que começou isto tudo e nem fui eu quem o escreveu,
Foi um acto de terrorismo, também eu o tenho sido
Mesmo que a erva em Agosto por mim adentro,
Agora sem pinga de fanatismo, além da fome pelas madrugadas
Pouco mais me resta, tenho a tinta quase toda ainda
E já se digerem as palavras num hálito adocicado de sangue ácido
Pela manhã num acordar longe dos meus olhos,
Serei ainda um nome, um raio de sol no cabelo,
Um grão de areia que se trouxe da praia nos lábios,
Uma companhia nas insónias, um gato morto cuja cor
Se esqueceu, a tinta arrasta-se como se a implorar misericórdia
Ao esquecimento, também a mim me engoliram,
Mas de certeza que hoje não passo de um sabor familiar
Como esta Bic entre os dedos enquanto amanhece.

08.05.2016

Turku


João Bosco da Silva
Highlanders - Haikus

Anoitece na cidade
de pedra, o fumo
dos séculos.

Um dia com o peso
de um ano –
dia de aniversário.

A espada japonesa
no museu de Edinburgo –
ossos esquecidos longe.

A cada cerveja
o Mr. Hyde vai-se
revelando.

Os ibéricos olham-se
como estranhos –
Napoleão está morto.

Os britânicos sozinhos
venceram no Buçaco –
diz no museu.

Hoje regresso
sempre à beira
do rio.

A humidade no cabelo
a enrolar os
nossos corpos.

Em frente ao
Banco da Escócia,
dorme um homem no chão.

Ouvir Jim Morrison
na Morrison´s
Street.

No Loch Lomond
o líquen fala
a minha língua.

O vento sempre
um velho conhecido
onde quer que vá.

Quanto verde derramado
entre as duas
pontes de pedra.[1]

Escócia

2-4/05/2016

João Bosco da Silva


[1] Stirling Bridge

sábado, 7 de maio de 2016

Quantas Vezes Me Vim Com Medo

Só não se cura o desencanto, aquele que é o abandono cicatrizado,
Quantas vezes me vim com medo, fugi daqueles úteros férteis
Em promessas de casa de banho, desperdicei no chão o castigo
Dos deuses que não veio, tremi à luz das velas sem medo de cemitério,
Desviei-me das curvas perigosas dos lábios sibilantes,
Contudo o desencanto um dia chega a todos,
Uma luz verde que se apaga, uma boca que pede demasiada presença
Onde alguém se perdeu tantas vezes, a sede dos dias quentes
Sem início traz de volta os sonhos incompletos
Entre o aperto dos olhares pedintes e a boca aberta em chamas,
Rasga-me novamente, tem pena de mim.

07.05.2016

Turku


João Bosco da Silva
Castelo Em Ruínas

Quando olhares para um velho, não vejas as rugas na cara,
As cataratas nos olhos, a lentidão na marcha, o cheiro à morte,
Ao cansaço, ao sono e ao mijo cristalizado dos anos,
Olha e vê um castelo em ruínas, coberto de silvas e ervas,
Algumas flores silvestres, uma torre ainda imponente
Com vista para o horizonte passado, o reflexo de umas
Muralhas um dia o dobro da altura que têm hoje,
Uma cisterna que matou a sede a tantos,
Podes ver os nós dos dedos, esses a árvore centenária
Que resistiu ao esquecimento e aos cercos da solidão
No Inverno, vê os sonhos inquebráveis nas pedras
Que tombaram no fosso antes da entrada
Onde entrarás se arriscares um sorriso e aí se tiveres sorte,
Viajaras no tempo e serás mais jovem
Que as nuvens que hoje a noite escondeu.

04.05.2016

Edinburgo (Grass Market)


João Bosco da Silva

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Escrevo-te Da Montanha

Escrevo-te da montanha onde todas as madrugadas se encontram
E os sonhos são pedras que tocam o impossível,
Onde o vento é um deslumbramento da alma, a alma possível
Nos raios de Sol que amanhece e traz vida à vida,
Onde os corvos esperam pelo abandono e o esquecimento,
Por isso te escrevo e eles batem asas em direcção ao mar
Onde por vezes adormecemos e com sorte renascemos
Todas as manhãs com o sal de uma pele morena
Nas papilas cansadas dos dias vazios,
Daqui te escrevo, trasmontano, amigo, amante, carne universal,
Em comunhão com o vento dos tempos,
Escrevo-te da pedra com a delicadeza possível de uma primavera,
Sem medo ou vergonha porque ambos conheceremos a morte
E sabemos do amor e outras indelicadas erupções do desejo,
Escrevo-te sem fome ou sede, nada mais que um arauto dos sentidos,
Escrevo-te neste instante no extremo oposto à criação e saúdo-te
Amigo, amante, carne universal desde a montanha
Que é onde quer que seja o meu berço e o meu lar.

Edinburgo (Arthur´s Seat)

03/05/2016


João Bosco da Silva