domingo, 28 de agosto de 2016

Não Me Cruzei Contigo Em Shibuya

Não me cruzei contigo em Shibuya, apesar do que dizem das probabilidades,
Nem em nenhuma garrafa que espremi até ao verde do vidro vazio,
No Porto encontrei apenas a tua sombra nos bares em que entramos
E nos que hoje, podíamos entrar não fosse a morte ou isto que é
Parecido mas não mata, separa apenas, para sempre, até à verdadeira,
Nunca teremos Paris, nem sequer o aeroporto de Lisboa,
Eu tenho apenas aquela tarde no salão de chá onde me pareceu ver-me
Finalmente nas tuas pupilas, onde anos mais tarde, na mesma rua
Poetas gritariam a vontade que eu tinha de ti, mas não, nem isso,
Nem me lembro do que bebi, enquanto te engolia toda na certeza
De sempre a última vez e nunca mais, andamos a cruzar continentes
Para isto, enquanto hoje se iluminam águas furtadas no Porto
Longe dos nossos sonhos já apagados pelos anos e a submissão à vida.

29.08.2016

Turku


João Bosco da Silva
AGOSTO

I – Torre de Dona Chama

O gato abandonado
atravessa o restolho
do fim da tarde.

A passarada canta
ao anoitecer –
são os vizinhos que restam.

O tractor regressa –
leva a fome
que contra o calor lutou.

Noite quente de Verão –
as rãs acordam
do seu sono molhado.

Os dedos soltam a corda –
naquele instante
nasce um poema.

Já no ar leva traçado
o seu lugar no alvo –
a flecha.

O rio passa
quer a cigarra
cante ou cale.

O Sol põe-se,
as cobras procuram
a companhia das sombras.

Pinheiro ao Sol –
do fundo do vale
olha-se a distância.

No cimo da fraga
acumulam-se
as fezes do gineto.

Quantas folhas caíram hoje,
não interessa –
o rio leva-as todas.

Reflectido no rio
o poeta vê-se mais nítido
que no poema.

Portas fechadas –
o Sol ainda beija
com a língua afiada.

Por cima da fraga dura
passa leve
a borboleta.

Debaixo do carrasco
eu também
onde as folhas caíram.

No crepúsculo do Verão
os grilos acendem
a noite.

[1]No carro do padre
cagaram
as pombas.

É quando o Sol
se põe que os juncos
mais crescem.

no mantra da noite quente
balança o passado
e o presente.

As pedras ainda quentes –
há anos que ela
partiu.

Os escorpiões em álcool
ainda duram –
quantos amores esquecidos.

O açúcar seca no fundo
da chávena –
o hálito a café permanece.

Noites quentes
de ausência –
confabulação.

A Lua segue
as gotas púbicas
na carne quente.

Caem-lhe dos bolsos
gordas larvas –
ninguém irá comer.

A macieira solitária
no lameiro verde
tem a sombra mais bela.

A brutalidade passeia
vestida de incêndio
na canícula.

Contra o rigor da natureza
e a crueldade do homem –
desabrocha a flor.

Quanto menos se tem
menos se
cala.

Ignoram as moscas
que o vidro frio
as espera na janela.

Ainda hoje procuro
o Sebastião Alba
longe do cemitério.

Não há cegueira
que trave
a visão da mão.

Escreve-se melhor
à sombra
dos teus beijos.

II- Figueira da Foz

Só as ondas
insistem
no regresso.

Estamos à distância
de um sorriso
ou de uma palavra?

Não é a partida
da andorinha
que traz o Outono.

Eles procuram ser
os sonhos
uns dos outros.

III- Porto

Acende-se um cigarro
e sopra-se
no fumo.

À beira do rio
outra vez
como nunca antes.

Entre séculos de fome
esperam inquietos
os fartos.

A loucura alimenta-se
de gritos
e solidão.

Nem o espelho
me reconhece
a desilusão.

A cerveja aquece –
mais rápido
a saudade aparece.

A gota de Porto
caiu-me na pele –
o teu suor.

Os turistas
na minha terra
como eu.

Instala-se o cansaço
como um
pôr-do-sol na montanha.

Um porto entre
cigarros –
o sabor da tua língua.

O rio corre
quer haja lágrimas
quer não.

Dói o luar
Desta noite –
Quebra-se um prato.

Babel –
é aqui que me sinto
em casa.

Agosto 2016

João Bosco da Silva



[1] Versão do haiku de Yosa Buson: “Sobre a imagem santa/defecou/uma andorinha”

sábado, 27 de agosto de 2016

Sleep Over

Com as mão cheias do vazio desta noite quente,
Deitado na cama já fria, lembro as pregas húmidas
Daquelas miúdas com a pele da cor do desejo,
Tão salgada sempre com os pêlos dos braços descolorados pelo Sol
E pela leveza dos tenros anos, lembro os meus dedos brutos,
Estes mesmo que os anos a habilidade aguçou cirurgicamente,
Procurando a lógica do prazer naquelas coxas apertadas
Enquanto lutavam com a minha língua contra a algazarra
Que os insectos impunham janela adentro,
Hoje todas elas esperam, certamente, uma cama vazia
Como esta, onde se deitam memórias à flor da pele, estreladas,
Onde possam fechar os olhos e afastar os joelhos e humedecer
Lentamente, sem a saliva apressada da sua besta ressonante
Que lhes consumiu os últimos anos bons,
E num toque de dedos hábeis, resolver o caminho de um orgasmo
Primordial.

Torre de Dona Chama

04.08.2016


João Bosco da Silva
Apocalipse

Terá já acabado o mundo, sei que a última folha ainda tarda,
Ninguém me entrou ainda porta adentro com baionetas de certeza
E me perguntou de que lado queria morrer ou pela mão de que deus,
A manhã amadureceu fresca e as cortinas das janelas
Dançam perdidas neste fim do mundo,
Será que onde me sento nasceu uma fronteira nova,
Quantos novos nomes terá a fraga da minha infância
Debaixo do mesmo Sol de sempre, pelo que sei o rio corre
Ainda e se houve sangue já o levou até à foz
Onde tudo se esquece apesar dos nomes cravados nos muros
E das estátuas sem nome, prova que não há nada tão inútil
Quanto a morte, tanto quanto sei, pode já ter acabado o mundo,
Contudo aqui me sento metralhando em paz, entre fragas e giestas,
Na única fronteira que reconheço, entre o esquecimento e a eternidade.

Torre de Dona Chama

04-08-2016


João Bosco da Silva

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Volta À Canícula Do Mundo

Cá estou eu entre a certeza do fim e a ilusão da novidade,
Dando voltas ao mundo no quintal e regressando sempre
Aos quinze ou dezasseis anos, aos versos certeiros fora de linha,
Aos pêssegos maduros antes da descida dos ramos da figueira,
Ardeu tudo tantas vezes, no fim o que resta é o monte rasteiro
E aqueles beijos acesos no rescaldo das noites do fim do Verão,
Resta também a palha que incomoda as costas nuas numa paz
De ruminância e fermentação do leite contaminado pela fome
Fulminante de alívio, custa-me crer que tanto azeiteiro
Com oliveiras tão magrinhas, de onde nascem as saudades
Ao canelho, à pinga da água quando o vento puxa a chuva,
Ao rio que o Sol e os espanhóis amassaram, à má vontade
De braços abertos, só as raízes que persistem agarradas
À terra estéril, depois de há muito ter tombado o tronco
Sem testemunhas, poderão dizer de onde nascem aqueles ribeiros
Que durante o Verão secam e passam o resto do ano
A abrir a terra mais funda, a aproximar o fim da ilusão,
A meter quilómetros ao que a um passo, por fim o vento
Separa-nos com um roçar quente de flor seca,
Nos cemitérios ninguém nos espera, só na vida se consente
O que ainda não está, como evitar a porta de um amigo
Que nunca mais estará do outro lado, só para não se confrontar
Essa ausência nos olhos da sua viúva, por isso aqui
No quintal, entre a certeza do fim e a ilusão da novidade,
Dou voltas ao mundo enquanto o sino anuncia mais uma partida.

Torre de Dona Chama

04.08.2016


João Bosco da Silva
Half Life

Acordo e passaram quinze anos,
Ninguém diz que me espera na pizzaria para tomar um tango,
Parece-me que nasceu mais gente do que os que morreram
E no entanto menos pratos na mesa nos dias de festa
E mais casas abandonadas nos bairros antigos,
Acordo e só o Sol e as moscas me parecem iguais,
O ar cada vez mais pesado e o horizonte
Cada vez mais fino, ninguém me diz,
Deixa lá isso e anda comer,
Deixa lá isso e vem ter comigo atrás da junta,
Deixa lá isso e vai viver a vida ainda a meia distância desta
E o Verão tinha o tamanho proporcional ao futuro,
Hoje que se celebra a sua chegada com tom de despedida,
Acordo num sobressalto, será que
Alguém me mandou aquele tão esperado toque,
Terei puxado o autoclismo,
Haverá manchas nos lençóis,
Será que a neta da vizinha me viu,
Mas só os buracos nos vidros das janelas
Espreitam cheios de ecos de olhares,
Acenando num abandono de cortina
Em reconhecimento à nossa passagem fantasmagórica de canícula,
A que horas passará aqui o melhor amigo,
Queria mostrar-lhe até onde cheguei neste desperdício de vida.

Torre de Dona Chama

12.08.2016


João Bosco da Silva
Regresso

Parti há tantos anos e no entanto o horizonte recebe-me sempre
O olhar com força de granito, reconhece a seiva filha
Que me corre quente nas veias dilatadas pela saudade
E os sonhos evaporados pela distância irmã que tudo amadurece,
Há gatos novos no bairro que atravessam as fronteiras dos muros
Como noutras noites que foram mais minhas, sem promessas
De regresso e todas as casas velhas partem e delas apenas fica
A ausência das boas noites, a água fresca na pele familiar
É a verdade que resta, embalada pela brisa quente nas ervas
Aromáticas, haverá sempre roupa que seca esquecida das geadas
Dos últimos invernos, um dia contarei aqueles segredos
Que não encontraram as palavras, que só aos dedos pertencem,
Com a mesma inocência com que, com a palma da mão,
Se cobre aquela serra ou a Lua ou os pesadelos dos olhos
Das noites dos que se tornaram eternos na ausência.

Torre de Dona Chama

29.07.2016


João Bosco da Silva
Distâncias e Areia

Há distâncias que os quilómetros não medem, nem o tempo as justifica,
Crescem tanto dentro da medula como o sangue e os sonhos vívidos,
São distâncias de areia na sede e de fastio nos banquetes que se repetem
Na celebração da distância e nunca seremos os que trazemos dentro
E todas as suas madrugadas de ampulheta acelerada e fome com a complexidade do fogo,
Há distâncias que separam a concordância entre as aurículas e os ventrículos
Como o alcance da vontade das mãos, desculpa-se tudo com o esquecimento
De quem está menos a distância que se impõe nos dias de Sol
Dos verões cada vez mais curtos e secos.

Figueira da Foz

16.08.2016


João Bosco da Silva