domingo, 24 de abril de 2016

Trás-Os-Montes

Trás-os-Montes sempre foi a colónia mais longínqua do império,
Mas quando chegava a fome de carne para canhão, todos eram filhos
Da pátria, mesmo que fossem com pouca carne por causa das fomes
E dos invernos que a capital nunca viu em Portugal continental,
Não havia sapatos para todos, mas balas para matar os inimigos
Da nação nas suas próprias casas, à farta, depois houve uma revolução,
Eu continuava a ter que acelerar no Inverno a bicicleta,
Se fosse demasiado devagar, parava no meio de um charco de lama,
E enterrava-me lá todo, lá na aldeia, mas eramos só uns garotos,
E ninguém se importava muito em acender mais umas velas
Quando um de nós atirava contra os cabos eléctricos descarnados
Uma vara de sombreiro desde um arco improvisado
Com um pau de castanheiro e um baraço dos fardos,
Tractores, sim, tive um, o meu pai fez as rodas de cortiça,
Eu improvisei o resto e foi a inveja da povoação,
Os de plástico vi já andava farto de bater punhetas em palheiros,
Trazidos das feiras da vila, parecia a capital na altura,
Sujos não andávamos porque a pele das mães se tinha habituado
Às geadas, e que sorte não ter havido uma guerra no nosso tempo,
Só ouvíamos as histórias deste que veio maluco da Índia,
Tinha sido a droga e eu a pensar que a Índia lá para além de Bragança,
Depois da Espanha onde uma vez por ano íamos comprar chocolates
E meias, até o meu avô era conhecido na Espanha, traficante,
Na altura dizia-se contrabandista, de meias, um criminoso perigoso,
Um inimigo do Império, claro, não foi a nenhuma guerra,
Uma vez enfrentou um javali por fome com um machado,
Fartou-se durante uma semana, mancou o resto da vida,
Mas nada disto interessa, amanhã é dia da liberdade
E eu aqui longe de todos os que me queriam fazer pedir,
Longe de todos que me diziam não me querer ouvir,
Porque senhor doutor lá de uma fortuna na Suíça,
Longe de todos os que filhos deste e daquele, que julgaram
Que podia roubar-lhes o poleiro, longe do acordar
Para poder ir dormir, para voltar a acordar e no fim
Pouco mais sobrar que para o bilhete de autocarro
Para ir ver a família em Agosto que veio lá de longe,
Do estrangeiro, coitados, quando eu podia ir ao café todos os dias.

24-04-2016

Turku


João Bosco da Silva
Rua Do Almada

E hoje que te podia contar tanto quanto o que as unhas agarram dos dias
E não tenho palavras que morem nos abismos dos lábios,
Estou encarcerado nesta espera sem vez à vista, já incarnei em tanta carne
E cada vez mais me afastei de ti e do fim dos tempos, o café já não arrefece mais,
Torna-se nos cristais de açúcar que espetavas na ponta dos dedos
E olhavas com a doçura de uma boneca partida e eu queria ser aquela
Pequena dor que te rasgava um pouco a pele, não interessa que não te voltes
Quando te peço um último olhar na despedida, basta-me beber as últimas gotas
Do teu caminhar pela rua suja fora até virares a esquina como da última vez.

Turku

23-04-2016


João Bosco da Silva