sábado, 27 de agosto de 2016

Sleep Over

Com as mão cheias do vazio desta noite quente,
Deitado na cama já fria, lembro as pregas húmidas
Daquelas miúdas com a pele da cor do desejo,
Tão salgada sempre com os pêlos dos braços descolorados pelo Sol
E pela leveza dos tenros anos, lembro os meus dedos brutos,
Estes mesmo que os anos a habilidade aguçou cirurgicamente,
Procurando a lógica do prazer naquelas coxas apertadas
Enquanto lutavam com a minha língua contra a algazarra
Que os insectos impunham janela adentro,
Hoje todas elas esperam, certamente, uma cama vazia
Como esta, onde se deitam memórias à flor da pele, estreladas,
Onde possam fechar os olhos e afastar os joelhos e humedecer
Lentamente, sem a saliva apressada da sua besta ressonante
Que lhes consumiu os últimos anos bons,
E num toque de dedos hábeis, resolver o caminho de um orgasmo
Primordial.

Torre de Dona Chama

04.08.2016


João Bosco da Silva
Apocalipse

Terá já acabado o mundo, sei que a última folha ainda tarda,
Ninguém me entrou ainda porta adentro com baionetas de certeza
E me perguntou de que lado queria morrer ou pela mão de que deus,
A manhã amadureceu fresca e as cortinas das janelas
Dançam perdidas neste fim do mundo,
Será que onde me sento nasceu uma fronteira nova,
Quantos novos nomes terá a fraga da minha infância
Debaixo do mesmo Sol de sempre, pelo que sei o rio corre
Ainda e se houve sangue já o levou até à foz
Onde tudo se esquece apesar dos nomes cravados nos muros
E das estátuas sem nome, prova que não há nada tão inútil
Quanto a morte, tanto quanto sei, pode já ter acabado o mundo,
Contudo aqui me sento metralhando em paz, entre fragas e giestas,
Na única fronteira que reconheço, entre o esquecimento e a eternidade.

Torre de Dona Chama

04-08-2016


João Bosco da Silva