quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Bukowski

Bukowski, para ti foi fácil, os metros tresandam a mijo pela manhã,
Dorme-se bem na rua de certeza, a areia é bem confortável, raramente faz frio,
É impossível estar só, aí compreendo o teu sofrimento, o Sol,
O Sol é sempre o das manhãs em Agosto, mesmo em Novembro,
Há sorrisos por todo lado, mesmo que de plástico sujo,
A maioria apaga-se depois da consumação da gorjeta, mesmo que das boas,
Há promessas de violência em cada olhar, há fome pela comida na mão alheia
Com a mesa posta em casa, há tanta sujidade com música nas ruas,
O mar silencioso parece não dar por nada, daqui ninguém teria vontade
De descobrir o velho mundo, depois de um dia, bastava sentares-te à máquina,
Fechado num quarto pequeno e vomitar tudo o que o dia te fez engolir,
Quando finalmente só, mesmo assim, não te invejo a sorte.

Los Angeles
(Santa Monica)

17-11-2016


João Bosco da Silva
Até Aqui

Quantas madrugadas entre um fim alheio e o limite salvador
De umas mãos que tanto salvam como se condenam,
Quantas manhãs arrastadas até à corrosão lenta do estômago vazio
Vizinho da dor do seu irmão que arrefece rapidamente,
Quantos sonhos adiados para outra vida,
Quantos cafés diários por tomar no café que sempre espera
O regresso do filho adoptivo perdido,
Quantas semanas encerradas entre um triângulo gelado
De trabalho, cerveja e cansaço e tudo por este momento,
Esta cerveja gelada ao lado da velha casa da cidade dos sonhos,
Como num pôr-do-sol à beira rio noutra cidade decadente.

Los Angeles
(El Pueblo de Los Angeles)

15-11-2016


João Bosco da Silva
Na Biblioteca De LA

A biblioteca de LA estaria mais vazia se não fossem os que lá vão para se lavarem,
Com as toalhas penduradas entre os joelhos e as mãos em concha nos sovacos,
Enquanto, desiludidos da loja de recordações, os turistas saem repugnados
Por encontrarem demasiada realidade entre as paredes da biblioteca,
Esquecendo-se que num mundo perfeito não haveria literatura.

Los Angeles

15-11-2016


João Bosco da Silva
Ao Zé Mário

Estás aqui comigo, topas, se te conto que quase tropecei num Picasso
Quando me passou a tua morte nos olhos e o quadro a encolher,
A tornar-se insignificante, num lixo adiado, e no lugar do quadro
Uma Coca-Cola que não se esquece, num Verão quente da adolescência,
Depois das aulas de computador, em Mirandela numa ruela
Enquanto se fazia tempo para apanhar a carreira podre
De regresso à terra, através da canícula e muitas curvas
Num autocarro de portas abertas, eu com sede
E nos bolsos o dinheiro contadinho para o bilhete,
Andas por aqui sozinho meu filho, anda beber um copo comigo,
E aquela Coca-Cola preciosa, uma obra de arte num lugar especial
Do meu museu interior, que levarei comigo, quando for aí ter,
Esquece todas as falhas, todos os rascunhos que acabaram em erro,
Aquela Coca-Cola, naquela tarde quente ao teu vizinho,
Foi mais uma chave para a eternidade, podes entrar, topas?

Los Angeles

21-11-2016


João Bosco da Silva