quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Selma Park

Enquanto engulo este vinho californiano, com um final
Que dizem pimenta, mas parece-me café, lembro-me
Daquelas garrafas embrulhadas em sacos de papel, ao Sol,
Daqueles homens e mulheres esquecidos do mundo
À procura de uma resposta à altura, no fundo da garrafa,
No bolso vazio, no êmbolo, no isqueiro debaixo da colher,
Na unha cheia, no cachimbo de vidro, na fome, no Sol,
Com os carrinhos de compras cheios de um lixo que lhes é tudo,
Estacionados ali ao lado das mesas onde se acumulam
Papeis engordurados e manchas de ketchup e maionese,
Evoco Schubert para me equilibrar na corda bamba do poema
De copo em riste e lembro-me daquele parque em Hollywood,
Minúsculo, a coisa mais parecida com uma prisão a céu aberto
Que já vi, só que lá dentro cada um preso à sua própria liberdade,
Imagino o Bukowski a acordar ali numa manhã quente,
Mas já ele estava longe da vida dos parques e da vida da vida
Quando abriram o Selma Park, o vinho californiano é-me sempre
Demasiado doce, deve ser do Sol e de misturarem a miséria
A céu aberto com a pouca vergonha do luxo à beira do abismo.

Turku

26-01-2017


João Bosco da Silva

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