sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Out Of Space

Não vale a pena este cansaço, estes dedos de fome e unhas de carne passada,
Até a pele já se esqueceu do que é chamar a alma para o ralo da vontade,
Não vale a pena esta memória de um dinossauro de plástico num talho
Duma aldeia que se preferia esquecer como a pele esqueceu à força da cicatriz,
Nem sequer que aquele livro vermelho de poemas nos lembre do cheiro a carne crua
E nos joelhos um cheiro parecido misturado com água oxigenada,
Nada disto vale a pena, expor as costelas à vontade dos olhos que lhe cospem no arreganho,
Antes poder acordar numa manhã clara entre montes e bruxas que enrolam pó e folhas,
Receber o Sol com outro livro vermelho em cima de um muro descarnado
Como as mãos que o construíram, antes poder engolir um copo como uma primeira vez,
Resta esperar que a última vez tenha um sabor tão revelador como a perda da inocência,
Agora isto, queimar madrugadas e sono, como quem quer evitar a chegada de mais um dia,
Isto de cuspir para o ar à espera que alguém apanhe antes da queda com arte de cão
E lhe dê importância a este esgarro, agora encontram novos planetas habitáveis
Porque a solidão já não deve caber neste, como não cabe nos dias
Que passam enrolados numa avalanche de possibilidades que ficam agarradas
Ao cansaço, ao medo, ao espelho e às reminiscências em muros rurais e urbanos,
Engole-se, engole-se tanto que a vida torna-se numa garrafa que se leva ao fim
Só por pena do desperdício, a língua saturada, o estômago a saltar, engole-se até ao fim.

25.02.2017

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Haikus À Beira Mar

A chuva lavou o sangue
do alcatrão
não da memória.

Queixam-se os seixos
quando o mar
regressa.

Batem-se os seixos
pela água
que ao mar regressa.

Ninguém se vira
antes da
tempestade.

Até as pedras
cheiram a lavanda
em Nice.

Em cada ruela
um rumor
de lavanda.

Que dia
gloriosamente
azul.

Não chovem pérolas
das varandas –
Carnaval.

Bem barata se vende
a russa
com o velho na praia.

Amassam as ancas
o pão
que não se come.

Engole-se o pastis,
ouve-se o mar –
nem uma cigarra.

Estes miúdos agora
toda a vida
que me passou.

“Aqui dormiu James Joyce” –
ando há anos
para pegar no Ulysses.

Nem só de fome
vive
o pão.

Ao Sol o mar azul
sonha poetas
verdadeiramente dignos.

Esculpe os sonhos
a sorte
como os termina a morte.

Caminham os sonhos
para o esquecimento
ou para a perdição.

Há sempre uma desculpa
na partida
como na chegada.

Nice


Fevereiro 2017

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

La Mer

Do outro lado da rua a vizinha dá de comer ao gato, aos dois gatos, aos três gatos,
Assim se alimenta a solidão logo de manhã, no corredor do hotel os confetes
Da noite anterior silenciosos à porta do quarto, muitos futuros foram poupados
Contra a moral de latex, outros enfrentados de cara e peito contra a bala,
Quem esteve só esteve apenas só, os restantes somente quando abriram as cortinas
Ao mundo se deram conta da verdade universal, estamos todos juntos na solidão,
Naquela noite, enquanto muitas vidas se apagavam pela mão da loucura,
O mar continuou o seu trabalho de eternidade, nem uma onda ficou por se desfazer
E de manhã, contra toda a dor e medo, amanheceu não vermelho, mas azul-turquesa.

15.02.2017

Nice


João Bosco da Silva

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Melancolia

Lambo da chávena uma gota de café que escorre, parece-me impossível
Que ainda há minutos acordava só naquele quarto escuro,
Apagando sonhos e um poema que estava a nascer-me sem dedos ou papel,
Devia ter posto mais açúcar, já me tem amargado a vida o suficiente,
Cada vez que corro a cortina, sei que é cada vez mas certo um cogumelo
Armado em Sol que o próprio, cada vez é mais raro encontrar-me num livro
Ou ler um livro que me encontre, apesar de tudo não esqueci tantos
Quantos me esqueceram a mim, tento não deixar escorrer nada para a mesa,
Mas no fim é o que restará de nós, o que deixamos cair, o que ficou por lamber,
Nunca um sonho onde se cravaram os dedos até se acordar com as mãos cheias
De almofada, um poema que só a imagem dos versos se lembra e nem uma palavra,
Como é que no sonho, sem pernas vamos mais longe, sem mãos agarramos o que queremos,
Sem dentes mordemos mais fundo, e acordados a língua mal acompanha
Umas gotas amargas de café que arrefece mais rápido que os lençóis.

04.02.2017

Turku


João Bosco da Silva