terça-feira, 24 de julho de 2018

Distâncias 

Para a Tatiana Faia e o Vítor Sousa, 

Quando um gajo está que nem se sente, é quando se encontra, 
Seja no vazio de uma página em branco com um tracinho vertical a piscar, 
Ou num corpo pálido com um tracinho rosado e pupilas a piscar 
Na escuridão possível de uma noite nórdica, 
O cansaço ajuda-nos a extrair o maior orgasmo, aquele em que já 
Nem se acreditava e quando vem, parte-nos a alma vendida 
Por meia dúzia de batatas fumegadas pelo motocultivador, 
Numa mão cheia de ressentimento, quanto aberto foi deixado 
Por entrar, quanto descoberto era já uma ilha da Páscoa, 
Todas as conquistas um naufrágio mais certo, 
Todos os sonhos uma almofada babada, todas as amizades 
Meia-dúzia de lágrimas engolidas pelo ralo, num duche longo, 
Mais longo do que o que muitas vidas merecem, 
Burroughs afina mais a gravata do que a mira, 
O isqueiro acerta sempre no prego, haja amizade e cidades comuns, 
Mesmo que tão estrangeiras quanto o castelo do berço, 
Saúda-se o vazio, onde é mais provável encontrarmos 
Tudo aquilo que uma vez amamos, ou nos amou, 
Quantas vidas cabem afinal no mesmo ukiyo-e, 
O mesmo bloco de madeira para tanto papel, de onde a árvore, 
Não vale a pena, cogito ergo sum uma merda, 
Sou mais quando menos me sinto, quando me afasto, 
Ou me afastam, entre um copo com a desculpa da amizade, 
Ou o esforço da solidão maior para encontrar o caminho na página em branco. 

25.07.2018 

Turku 

João Bosco da Silva 

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