domingo, 25 de agosto de 2019

Polvo Assado às Portas da Biblioteca de Adriano 

Afinal o Jack Kerouac era pedófilo, tive que chegar a páginas muitas 
Do sexto ou sétimo livro, para o ver escolher a prostituta mais jovem 
De um bordel mexicano, catorze anos, os tempos eram outros, está bem, 
Mas naquele tempo uma garota de catorze anos ainda tem tetinhas de bezerra, 
É uma escultura medieval, a pentelheira uma centopeia tímida sobre a púbis, 
Uma criança ainda, gostos não se discutem até que se trate de arrancar asas a anjos, 
Aqui também era normal ter um miúdo bem queimado pelo Sol 
Para enrabar depois das lições, o polvo estava bom, obrigado, faltou o alho. 

Atenas 

10.07.2019 

João Bosco da Silva 

sábado, 24 de agosto de 2019

Em Cima da Mesa 

Em frente, esquecidos, uns óculos de sol roubados 
A uma personagem proibida de Nabokov, ao lado Walt Whitman 
Com um boné florido e uns clubmaster, bebe uma cerveja grega, 
Uma lolita olha-me com um azul ainda inocente 
Que meia-dúzia de anos irão apagar, o vinho aquece e Whitman 
Fecha um livro de esculturas pálidas e desmembradas, 
Deslumbradas com o atraso do esquecimento, 
Não faltam as pombas e o azeite e os pêlos nas costas da irmã 
Mais velha da lolita, o vinho é branco e já está quente, 
Devia ter começado pelo vinho, mas a sede era outra 
E deixei-me distrair pelas lentes cor-de-rosa em forma de coração 
E a barba grisalha quase em cima da mesa, o resto são pardais, 
Sombra e uma cambada de ovelhas vindas de Babel, Sodoma e Gomorra. 

Atenas 

09.07.2019 

João Bosco da Silva 

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Vestido Vermelho 

Nunca serás aquela loira de vestido vermelho a desaparecer na distância 
Como uma brisa fresca, apesar dos quase quarenta graus atenienses, 
Nunca terás todos os nomes possíveis, nem serás a manic pixie dream girl 
Que o tempo desfez, ama-se mais a ilusão que a verdade, 
Nunca te vi de vestido sem estares toda cinzenta, uns minutos e depois, 
Não tu,  um sol impossível nos metálicos invernos nórdicos, 
Nunca serás o que te sonhei, mas a culpa dos sonhos é de quem os sonha, 
Não de quem com um olhar, planta ilusões, que crescem em vazio, 
Maior ainda do que antes da semente, nunca serás aquela loira de vestido vermelho, 
Porque os filmes acabam sempre antes do roer das unhas se entranhar nos nervos, 
Antes do nome carregar toda a frustração e desprezo que os pós-créditos trazem, 
Se se esperar tempo suficiente, nunca serás aquela loira de vestido vermelho, 
Mesmo que tenhas sido aquela loira de vestido vermelho, mesmo que isto 
Quase seja um poema de amor, que nunca será, porque tudo uma vela curta, 
Numa noite de incêndio. 

Atenas 

09.07.2019 

João Bosco da Silva 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Disforia 

Em cada promessa uma dor que se planta, 
O vazio é dono de todas as verdades 
E os sonhos não passam do confronto  
Dos nossos animais com as páginas 
Dos livros sagrados que nos foram 
Rasgando na carne, hoje existe apenas 
A certeza dos beijos para nada 
E tudo o resto são noites que sempre 
Acabam em arrependimento 
E evidências que fermentam 
Em remorso de pernas abertas 
E abraços sem despedidas, 
Que diz o asfalto frio onde os passos 
Solitários caminham em direcção 
À manhã triste, nada, nada mais real 
Que o eco de um copo vazio, 
Ainda em cima da mesa onde 
Por momentos se acreditou 
Que não é possível ser-se invisível, 
Fazem falta os cães vadios 
Nas cidades desertas, a companhia 
De um ladrar anónimo nas páginas em branco, 
Tudo acaba na certeza de umas mãos 
Vazias, nunca se tem nada de verdade. 

Turku 

02.07.2019 

João Bosco da Silva