domingo, 24 de janeiro de 2010


Ode à Merda

É boa esta hora, é boa, muito boa!
É a hora que tenho, a hora que me resta,
Até às horas que as mãos nunca tocarão.
É boa, é, uma boa merda, é o que é.
Despejado, esquecido de que cano de esgotos,
De qual a sanita, de que cu de deus.
Eu, uma hora com corpo, uns sessenta relativos,
Um clarão de consciência inútil na noite universal.
Venham-me com horas boas, venham-me com momentos
Que fazem valer a pena e se vão cobardes,
Tornando-se pedras no saco da melancolia!
Venham-me com mais dessas mentiras contadas às crianças que procriam!
Mandem-me dessa merda à cara!
Pelo menos sente-se que é mentira, que é algo.
É hora é, é hora, mas já não é mais a mesma.
O tempo como uma puta que nem acaba de foder um cliente e já tem outro no cu,
Por todos os lados a entreter, a entreter, a consumir e mandar pelo cano dos esgotos
A merda sagrada dos deuses que somos nós,
Não deuses, a merda da sua impossibilidade,
Digeridos por uma imortalidade improvável,
Caídos num monte maior, sempre convencidos de que especiais,
De que únicos, com parte de um pedaço dentro que se confunde,
Dentro de outro pedaço parte que nos faz confundir...
Todos um grande pedaço de merda!
É boa hora é, uma hora para fingir de deus e cagar um poema.

13.11.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Trás-os-Montes


A Miguel Torga e Sebastião Alba.



Das fragas quentes, cobertas de musgo como esfregão verde,
Dos horizontes turvos pela canícula do meio da tarde,
Onde as montanhas rasgam a monotonia e penetram na atmosfera,
Do monte rasteiro e tímido que resiste como os avôs,
Dos rios pequenos que se tornam no grande e se corrompem no fim,
Dos castelos esquecidos nos altos do presente,
Disto e de muitos com quem partilho o magma quente da vida...
A minha terra.

Dos toscos berlindes dos deuses, esquecidos desde o tempo da criação,
O meu olhar tem o tamanho do mundo,
Um mundo maior que as páginas impressas com o atlas mundial,
O meu olhar mais forte que Atlas,
O meu olhar mais rápido que qualquer pedaço de lixo ordenado para voar,
Viajando à velocidade da luz de aldeia a aldeia, montanha a montanha,
De Portugal onde me sento à Espanha, que o calor da distância cobre de cinzento quente.

Nenhum rei tem um trono como eu tenho!
Granito dos gigantes, esculpido pelos milénios de erosão,
Antes de qualquer deus ou ideia de o inventar.
Tenho pena dos que não existem no meu mundo,
Ignorantes da grandeza disto tudo, tão grandes se julgam na sua jaula de betão,
Apertados contra uma existência de horários e monóxido de carbono,
Com tanta pressa de chegar que se esquecem que é o caminho que vale a pena.
Serei torgueiro, mas livre e dono do meu caminho,
Desprezando qualquer fim e acumulação de inutilidades no nada.

Incapaz de produzir o prodígio de um carvalho inesperado
Que nasce de uma ínfima fenda na rocha granítica,
A abre como a mais difícil das mulheres,
E dela se torna existência,
Escrevo, tentando acompanhar, lado a lado,
Os passos que o vento não apaga, do conterrâneo que o espaço apagou,
Mas o tempo não apagará, enquanto houver gente,
Fragas inconscientes, giestas inocentes, torgas resistentes,
Palavras persistentes na dureza desta terra maravilhosa.

09.11.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Lixeira

Aqui perduro, sentado neste monte de lixo,
Olhando as memórias e os tesouros que foram,
Hoje merda, hoje longe, só o cheiro...
Rei do universo que apodrece,
Nesta montanha fumegante, bêbedo, confuso de tanto que me pintou.
Perdi a cor, entre pedaços lascados, pinceladas aleatórias, obras delinquentes,
Temporais de arrancar a pele à alma.
Tenho a cor de uma lixeira a arder.
Montanhas da acumulação de anos,
Ondulando à minha frente, vales pequenos à minha frente,
Onde se esconde o que ainda virá.
Aqueles boxers que de tanto os usar se abriram nos elásticos,
Com os ursinhos que a minha avó achou adequados,
Que abriram pernas como se fossem cuecas de homem,
Naquela vareta de guarda-chuva, como uma bandeira de ejaculações gloriosas no vazio.
Aquele boneco que alguém me enterrou por maldade, como se fosse a minha infância,
Ali à vista, com a sua presença inalcançável,
Como todas as tardes de cabra em cima das fragas, sentindo a liberdade na brisa do sol,
O mundo todo à volta, ao alcance dos olhos verdes.
A bicicleta que me abriu a carne tantas vezes,
Hoje castanha, ao lado dos patins da minha rebeldia, hoje sem rodas,
Com os posters das actrizes a cobrir-lhe a miséria, esfarrapadas, abertas, como as de carne.
As revistas de banda-desenhada, mais preciosas que bíblias, com os heróis mais verdadeiros,
Mais presentes, mais vivos que todos os escritores, de cores em punho,
Prontas para me dar cor à vida, mãos que moldaram a massa quando ainda era moldável.
“Com grandes poderes vêm grandes resposabilidades.” e eu sem poderes para poder com isto tudo.
Hoje sou rei deste monte de merda preciosa,
Que se confunde, que perde o brilho que teve nestes olhos cansados.
Há anos que devia ter deixado de tentar.
Já sou imortal, só falta vir a morte e que olhos se abram para esta lixeira,
Esta merda que me habita, onde me sento sentado,
Com o olhar de horizonte limitado pelos fumos dos anos perdidos,
Com a vida a deixar de consumir e a consumir-me.
Perduro, duro, seja o que for que é preciso, frio, fórmula do homem,
Iludido... com os vapores do seu lixo que fermenta.
Sou o rei deste universo, o seu único habitante,
A única testemunha que lhe cria a existência,
Numa quase impossibilidade dando vida a esta massa viscosa que se arrasta pela realidade.

João Bosco da Silva

Savonlinna

22/10/2009

Quando era pequeno gostava de dinossauros,
Depois percebi que as pessoas também morrem
E passei a gostar de pessoas.
Percebi que deus não pode morrer
E deixei de acreditar nele.

João Bosco da Silva

10.10.2009

Rantasalmi