quarta-feira, 14 de abril de 2010


Caminho De Olhos Fechados

até Mirandela

Caminho, sentado ao longe, caminho de olhos fechados,
Bem fechados, apertando com força até que anéis brancos,
Até que caminho de verdade, longe do caminho.
Caminho sobre cheiros de portas abertas a dizer que papel,
Comida quente na hora do almoço, roupa nova saída de caixas e plásticos,
Cabelo no chão com a quarenta e sete onze das barbearias,
Relva aparada, a ser mais verde com o sol que a rega, do outro lado,
O asfalto quente e os pneumáticos a dar-lhe razão de ser,
O fumeiro e outros aromas familiares das lojas de comida regional,
Caminho sobre os cheiros da cidade até que a luz vermelha quando atravesso.
Paro e olho. Tão longe! Sentado, num banco de jardim,
A olhar o rio que passa e eu que passo, longe do rio,
A ter pena dele, para não ter pena de mim,
Porque espero que os outros tenham, porque eu longe,
Afinal esquecido, só pernas quando olhos fechados,
Asas quando longe e pernas quando olhos fechados.
Verde. Pés no caminho, no cheiro do café,
A frescura da água que rega a relva, a ponte velha,
Com cheiros inesperados em noites quase impossíveis, lá longe,
O cheiro que se adivinha vir da farmácia, mais roupa,
Gente de plástico atrás de vidros quentes, com gente a vesti-la,
Real, do outro lado da rua,
O quase cheiro da sombra que me cobre por momentos,
O fumo do cigarro de quem passa apressado e eu longe com saudades.
Paro e olho um pinheiro por perto e bronze a ser figura de gente, verde,
Olhos abertos e o branco salpicado de negro,
À espera que um carro pare, que o asfalto quente para pés por momentos,
À espera de poder atravessar.
Estou do outro lado, longe, uma vez mais de olhos fechados,
Apertados com a força de quem quer regressar a um sonho bom,
Caminho. O cheiro do dinheiro que sai das paredes,
Do ar portiço que se escapa do interior do banco e gravatas,
Mãos de papel, a vida a vida aqui, mentira,
Eu caminho, fora sobre a doce realidade das pastelarias,
Um pastel de nata e um café, se faz favor, longe,
De olhos fechados, na esplanada, com o sol lá fora,
Como um estranho que passa e me olha pela janela,
Caminho sentado na esplanada, passo por borracha, pele,
Pés que provam o tamanho para passos, na sapataria ao lado.
Atravesso, sem abrir os olhos, já não passam por aqui sentados sobre pneus,
Só sentados de olhos fechados, bem apertados, até que sol,
Do outro lado, o cheiro impossível da visão, do ouro,
Até que papel, útil para olhos que se fecham e caminham,
Entro na Lusitana, onde conheci Vergílio Ferreira, longe, tão longe.

14.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

terça-feira, 13 de abril de 2010

Mini Antologia Poética 2003


Árvores, águas e pontes

Neste parque, sempre verde,
Sinto-me a voar.
Quebro a dura parede,
Que me obriga a pensar.

Devoro o verde, bebo a luz,
Corro pelas pontes,
Minha alma reluz.
Sou a criança de antes.

Não sinto o corpo maior,
Nem actuais conhecimentos.
Sinto-me melhor,
Longe de todos sofrimentos.

Nem dou por mim a rir,
Com toda a sinceridade,
Dali não quero sair.
Quero viver lá toda a eternidade.

16-09-2003

João Bosco da Silva


#


À noite a luz da Lua,
Despe-me de toda a razão.
Minha alma fica nua,
Calmo é meu coração.

Se uma nuvem por ela passar,
Não tenho nada que temer.
Sinto sua presença no ar
E sua luz o vazio encher.

E aqui na noite serena,
Meu coração é domado.
Nesta terra agora morena,
Vem a mim o passado.


25-06-2003

João Bosco da Silva


#


À beira do rio

Sento-me à beira do rio,
Vejo uma frágil folha a passar,
Fecho os olhos e rio,
Da nossa efémera vida a voar.

E a folha vai tão pequena
Levada pela água, soprada pelo vento,
Sua fraqueza é meu descontentamento.
Minha alma já não é serena.

O vento dá-lhe uma forte rajada,
Ela estremece, mergulha, emerge,
E aí prossegue sagrada,
Na sua simplicidade herege.

O rio que a leva inconstante ,
Sereno aqui, turbulento ali nos rápidos,
O vento é suave e constante,
Ouvem-se gritos e risos.

Quando irá parar a folha?
Será que é além na parte baixa?
Ela não se importa nem olha.
Para quê se o fim é uma caixa?

É agora um pontinho ao fundo,
Sempre diferente e sempre na mesma,
Envolta de um verde profundo,
Não pensa, nem sonha, nem cisma.
02-06-2003

João Bosco da Silva


#


A Origem

No inicio, escuridão,
Silêncio, infinitamente vazio;
Matéria imaterial,
Nada que tudo é.

Então fez-se Luz,
Imensa, fulminante,
Infinitamente quente,
Dilacerante, destruidora;
Nada destruído pela luz.
Luz material sem se ver,
O agora é Agora.
O que é, ainda não é.

Água, substâncias em folia,
Trovões, moléculas − Vida.
Milhões de tempos. Reinados;
Conquistas marítimas, terrestres,
Aéreas. Gigantes mortos,
Nobres por terra, imortalizados,
Na pedra. Rato ancestral,
Cresce, torna-se primata.
Primata pica pedra, mata,
Come carne, rouba fogo.
Então fez-se Deus,
Aquele que tudo fez,
Aquele que tudo criou.
Criou o Homem, o amor,
As guerras, a morte,
A dor angustiante − o Inferno.

A Luz em fim apagada,
A matéria imaterial,
No inicio escuridão

20-01-03

João Bosco da Silva

quinta-feira, 8 de abril de 2010


Criança

Existe uma criança que te segue para todo o lado.
Segura uma faca ensanguentada, com a qual se matou,
Pinga, pinga e deixa gotas de sangue no teu rasto.
Existe uma criança tão pálida quanto o dia,
Que te olha perplexa como a um estranho familiar.
Existe uma criança que te odeia quando não sabes sorrir
E te puxa a manga do casaco para que vejas de verdade.
Tem as calças rotas nos joelhos,
Está suja como quem brincou na terra dias e dias,
Ou foi desenterrada. Tens terra nas mãos?
Existe uma criança no reflexo das tuas mãos,
Onde te vês e quase não te reconheces.
O cabelo é castanho claro, descolorado pelo sol,
Pelas tardes antes da terra nos olhos,
Antes dos olhos fechados que agora te seguem.
Existe uma criança que tem as órbitas vazias
Da cor do desespero, com lágrimas negras como tatuagens,
Que não escorrem. Tens um lenço impossível?
Existe uma criança que te dá a mão
Que tu sacodes com vergonha, finges que não a conheces,
Mesmo que ela desde que tu nasceste.
Existe uma criança que leva um mochila aberta e vazia,
Só com uma alça no ombro, com a outra pendente e descozida,
Vai eternamente atrasada. Tens um tempo para ela?
Existe uma criança que é tua irmã,
Que eras tu e que abandonaste com uma faca na mão,
Numa tarde de sol, mesmo antes do crepúsculo lançar o cheiro fresco a noite
Sobre a terra, a terra que lhe pinta a palidez,
Que te esconde a vergonha, que lhe cobre os olhos agora cegos e
Lhe suja a mão que tu recusas. Tens vergonha de quê?

08.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 7 de abril de 2010


Canção Lógica ou Ode A Vós

Encheram-me com o entulho da civilização
E agora chamam-me gente.
Tive profundidade no olhar espaço dentro
Com braços até ao infinito, capaz da novidade,
De sentir a luz de outro dia como nova.
As flores tinham cor para que eu as achasse belas
E essa era a razão de todas as coisas serem como são.
Os rios tinham pontes para eu ter medo ao atravessa-los,
Medo de abismos sem fim com criaturas possivelmente reais
E por isso tão fantásticas.
Dizem que vazio, que incompleto, que página em branco,
Eu digo que sim, agora sim,
Mãos que só conseguem o vazio, que nunca chegam, página onde se desistiu do impossível.

Obrigaram-me a tudo, até a um deus.
Nem isso me deixaram criar, já o tinham criado,
Há muito tempo, quando a civilização também criança, prestes a perder a inocência.
Queria tantos deuses, dos que sorriem e não têm a agonia nos olhos,
Dos que vivem porque é bom viver e há flores,
Deuses sem madeira nas costas a criar símbolos, futilidades.
Tinha o poder criador capaz de deuses novos, frescos,
Com mais sentido, mas obrigaram-me ao deles,
Acima do homem e de todas as coisas visíveis e invisíveis, impossível,
Capaz pela mão do homem de atrocidades cegas.

A tradição, a tradição criança, mata-te.

Obrigaram-me a matar completamente a crianca em mim
Para conseguir livrar-me do vosso crucificado
E outros símbolos irracionais, ridiculamente mais importantes que a vida.
Lá por terem os pêlos todos no corpo
E a culpa de se tocaram na alma,
Não quer dizer que a criança que acredita tenha morrido.

As crianças sem inocência, das que carregam armas e ignorância,
Acorrentadas a uma cegueira adulta.

Deram-me tudo, tudo já feito, já inventado,
Já imaginado, já criado,
A mim que era o inventor de um novo mundo,
A matéria-prima para um universo melhor.
Cortaram-me a infância, amputaram-me a inocência
E tornaram-me em gente triste.
Crescer é tornar-se triste e sem imaginação.
Os olhos tornaram-se duplos vendo segundas intenções em tudo,
Significados em tudo além da verdadeira significação,
Símbolos por todo lado a provar que somos gente.

Meteram-me tudo em caixas, rotularam-me tudo,
Fizeram-me negar o que lhes parecia errado,
Só porque estava na caixa errada,
Na caixa onde alguém muito morto colocou.
Ergueram-me paredes com leis escritas,
Ecos de regras ridículas, enforcaram-me a liberdade,
Para que fosse gente.
Crescer é perder a liberdade original e real.

É porque tem que ser, dizem-me.
É porque também os outros, obrigam-me.

E um dia eu terei que lá chegar,
Onde eles não esperam, eles sempre um passo à frente,
A serem sempre maiores, mais sabedores das verdade que criam,
Donos das leis que criam para os que vêm atrás.
Eu cada vez mais a invejar os cães,
Até os que me morrem e os choro como mais um pedaço da minha infância perdida.

Tudo o que me sabia bem,
Tornaram-no em pecado, trancaram-no com a culpa.
Ofereceram-me o cinto de castidade da liberdade,
A culpa, obrigado.
Até as flores quase pecado olha-las.
Até os rios quase pecado senti-los no corpo,
Inferno se sentir o corpo no corpo à beira-rio.
A gente é falsa e dissimulada,
Come às escondidas a luxúria da sua gula
E tranca-se em portas grandes e frias.
Sê gente, dizem-me. Precisam de companhia nos seus jogos.
Para quê a culpa e a invenção do pecado?

Tudo em caixas.
Quem comeu os chocolates para deixar as caixas vazias?
Torna-te gente, gritavam-me.

Eu, que só queria que me deixassem estar, a ser,
Sentir porque me sabia bem,
Sem querer saber que tinha um nome aquilo,
Se tinha uma etiqueta, um lugar numa caixa.

Nunca pedi a ninguém o manual de intruções para a vida,
Mas vieram logo entregar-me um, com uma página nova todos os dias,
Como se alguém já me tivesse vivido.
Como me querem ensinar a viver a minha vida,
Se nunca ninguém viveu a minha vida?

Eles a quererem que me torne neles,
Me junte a eles naquela massa disforme,
Onde já não há indivíduos, só pedaços de um monstro maior.

Encheram-me com o entulho da civilização
E agora chamam-me gente.

Eu como a gente a fazer o que esperam de nós,
Como animais amestrados e eles a chamarem-me inteligente e esperto,
Só porque macaco de imitação,
Só porque dou passos atrás deles, cego.
Até deus criaram à sua imagem e semelhança
E o que não for semelhante a eles não é gente.

Não te mates, é pecado.
E o suicídio é a única carta de liberdade que me resta.
Na verdade, já morri, só o corpo a acolher o entulho,
Que pelos anos fora me foram lançando,
Asfixiando o que realmente fui e viveu,
Antes de me obrigarem a ser gente.

Obrigaram-me a ser gente
E nem me deixaram despedir de mim,
Daquele com o infinito no olhar,
Com mãos capazes de tocar na vida como se a primeira vez,
Todas a vezes.
Adeus ó não-gente que fui,
Coberto pelo entulho da civilização,
Civilização lixo de civilizações mortas,
Monstro de retalhos putrefactos e nós nisto,
Eu nisto.

Deixo cair a alma,
Uma mancha pequena e negra,
Um ponto-final.

07.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 2 de abril de 2010



Hoje


Hoje...sou eu como tenho sempre sido
E muitas vezes odiando ser.
Sou mais um nada, não um desses grandes nadas,
Que comigo e com inúmeros outros nadas,
Constituem a humanidade, que não passa de uma palavra.
Hoje encerro em mim um universo,
Como ontem encerrei, e encerro a cada segundo que passa.
Um universo tão grande, ou maior que o que me contém,
Tão cheio de sonhos que sufocam
A realidade impedindo a sua materialização.
Sou aquele que tudo tem, que tudo é,
Mas que não sai de si, nada mostra
E o mundo não vê, ignora e por isso é nada.

Hoje vou esmurrar violentamente um muro de granito
E pintar nas pedras o meu desespero com sangue,
Até secar e se tornar mais uma mancha do tempo que passa.
Só para sentir dentro deste crânio outra dor
Que não a de respirar e sentir o ar dentro dos pulmões,
Sentir o peso da minha realidade nos ombros,
Na coluna e no resto dos ossos,
Sentir o ar frio, quente ou ameno que não sou eu,
Sentir-me eu, a mim e a separação do que sou
E do que não sou.
Hoje vou estirar todos os meus músculos...
Vou correr até o ácido láctico queimar as terminações nervosas
E aí vou correr ainda mais
Até aos níveis de toxicidade serem fatais...
Mas não vou correr, porque estou trancado em mim,
Não saio deste muro ósseo.

Fecho os olhos e voo para longe,
Respiro o ar fresco das alturas,
Absorvo a cor fria de uma montanha gelada no topo,
Sorvo a frescura do brilho do sol na água...
Abro os olhos e vejo a inutilidade e a mentira
Das minhas imagens mentais.
Abro os olhos e tomo consciência da estupidez
De estar sem sentir,
Viver sem viver!

Contraio um músculo só para me sentir vivo,
Sinto-o duro, sinto-o meu, penso-o a separar-se dos ossos,
A ficar laxo e podre...alimento para outros que vivem
Uma vida, talvez mais digna que a minha.
Sinto-me vivo, penso-me morto.
O sentir é coisa de agora, do já, deste momento...
Mas eu sempre fui do que foi e do que será.
Sempre fui do que está dentro e não se pode mais viver, nem sentir
E do que não existe, porque não se passa e nem se passará.

Já não bebo pela sede, pela comunhão,
Pela estranha sensação de liberdade e pelos episódios maníacos,
Bebo só para me não sentir dentro,
Mas com isto, não sinto o de fora,
Nem os de fora que não viram o abismo do eu sóbrio.
Sóbrio penso e não tenho espaço para sentir,
Ébrio nem penso, nem sinto, nem sou...
Passo, embalado pela embriaguez libertadora do que sou e do ser,
Dormindo num estado acordado, esquecido de mim.

Mas hoje não bebo... hoje escrevo!
Hoje sou eu dentro de mim e esboço o que sou
Nestas palavras inúteis e sem significado para quem não sou.
Escrevo e tenho aquele diálogo impossível
Que nunca ninguém me proporcionará.
Estou eu, sozinho a falar comigo,
De dentro para fora... e de fora para dentro.
Como um cão que vomita
E depois come o que vomitou... assim sou eu.
Cão, mas sem a felicidade de não saber sequer
Que é feliz.

Hoje queria sentir o sabor metálico
De um sangue que não fosse meu...
Água de uma fonte cardiaca diferente
Do meu taquicárdico músculo.
Hoje...queria dormir, sem sentir a inutilidade que isso é
Perante toda a eternidade em que o farei.
Hoje... agora... queria ouvir alguém a bater-me à porta,
Alguém que me quisesse pedir desculpa
Por me olhar e me fazer com isso existir de outra forma
Daquela que não experimento;
Que me desse as mãos e mas apertasse como quem ama,
Ou seja, daquela forma como ninguém faz.

Lá fora ouço os ruídos de uma cidade prestes a adormecer.
Ouço as pessoas que se apressam para chegar ao seu sossego,
Ao seu descanso, ao seu ocioso bem estar e estéril calma.
Mas nesta hora em que o sossego me devia visitar e embalar,
Chega-me a melancolia e a insatisfação de ter vivido mais um dia
Para a inutilidade de um outro dia que se repetirá.

Se ao menos fosse especial de alguma forma,
Se fosse importante, essencial...
Mas a ironia é que sou apenas um saco pequeno
Que encerra o mundo todo;
Um saco a que ninguém tem acesso ao conteúdo,
Nem o conhece, nem o pode ver...
A minhas pupilas são buracos negros
Para dois universos que se fundem e me fazem quem sou.

Hoje sei que o que quero está na outra margem
E que a minha vida passa entre a margem onde estou
E aquela onde está o que quero
E nunca poderei alcançar enquanto a vida passar.
Sei isto, mas sonho formas de construir uma ponte
Que me permita alcançar...
Mas o que construo são ilusões e mais ilusões
Que se amontoam no sótão das desilusões.

Hoje o que sou, será parecido ao que muita gente pensa que é...
E como se sente...
Não se enganem, nem se iludam,
Só sentem o que estão a sentir ao me ler,
Não o que eu senti ao escrever.
Por mais que me esforce o que sou realmente,
O que sinto, ou penso dentro desta tigela de miolos
Nunca passará para a experiência dos outros.

Se hoje fosse o último dia da minha vida,
Tudo o que restaria de mim
Seria um nada adiado
E umas pinturas abstractas de palavras
Que cada um interpretará à sua maneira muito única e errada.

Por agora vou beber um copo fresco de água
E sentir o que não sou refrescar-me as entranhas,
Fazendo perdurar mais uns momentos a minha dolorosa existência,
Sem razão para ser,
Mas também sem razão para não ser.

07/10/2006



Porto

João Bosco da Silva

quarta-feira, 31 de março de 2010


A Casa Que As Heras Esconderam


entre São Gregório e Pontes Barxas




Quase irreconhecível, com as suas paredes escondidas
Pelas heras do esquecimento, com o seu verde escuro e brilhante se sol,
Mas só o cinzento no céu a dizer que o ar húmido,
Quase à beira lagrimas, quase a fazer-me entrar pela porta entreaberta
De casa abandonada, com uma escuridão cor de pó no interior ,
À espera de ser redescoberta dentro, anos de distância que se acendem.
Anos de heras a esfarelar as paredes de granito,
Erguidas no tempo da ditadura e das fronteiras fechadas,
Como se as linhas dos mapas muros reais feitos por gente com línguas diferentes,
Com o mesmo ritmo dentro, quente, vermelho, orgânico e visceral.
Envelheceram, morreram, foram levados para longe do fim do mundo,
Os que ali viveram, antes do esquecimento cobrir aquelas paredes,
Com histórias de contrabandistas, noites longas entre dois mundos,
Que se encontraram para nunca mais.
Só o rumor do rio o mesmo, a vibrar também nas paredes,
Como ossos roídos pela osteoporose,
Com a rua lá fora cada vez mais estreita, agora que não há quem lhe dê passos
Na calçada a dizer que gente, que olhos nas janelas e olhos atrás das janelas,
Entre cortinas, hoje esquecidas do branco que foram, amarelecidas,
Pelo tempo e pelo esquecimento, à sombra das heras,
Que cobrem de verde com uma esperança irónica e inocente de natureza.
Só dentro as paredes limpas, se os olhos fechados,
Só dentro as vozes dos vizinhos, se só o rumor do rio que corre perto,
Tudo ecos de pedras que agora caídas, aleatórias e quase sem sentido,
Paredes cobertas pelo esquecimento.

31.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

terça-feira, 30 de março de 2010


No Metro


inspirado no amarelo e cinzento


As portas abrem-se e atrás das minhas costas o desconhecido,
Vazio como a escuridão imensa da minha ignorância.
Passos de quem entra também, um toque de quem tem pressa,
Um empurrão de quem não me sente como verdade.
Procuro um lugar, sento-me e espero pelo movimento que dá início à viagem.
Espero, com o meu monólogo interior, passeio dentro,
Enquanto vejo o espaço lá fora, quase cores, a passar,
Quando na verdade sou eu que passo, o metro passa,
Eu que passo no metro.
Gente a falar com a gente se dois que se conhecem lado a lado,
Ou de pé se a viagem for breve, ou porque não havia lugar.
Uns que se beijam além, jovens que ainda acreditam no para sempre.
Outros que se beijam ali, sabendo que nesta cidade ninguém os conhece,
Fugindo da prisão dos seus dias em direcção a um hotel barato.
Aquele com a mão no bolso do outro, sem carteira,
Com uma surpresa à espera na hora de pagar o café.
Uma mulher com uma criança nos braços a ser mãe,
Enquanto ao seu lado um idoso se curva sobre si mesmo,
Com o peso da dor acumulada sobre as costas frágeis.
Este aqui a ler, a ser dentro o que o dentro de outro lançou para fora,
À sua maneira.
Eu nada. Olho, faço desenhos no ar com a cabeça, sem me aperceber,
Os olhos como se um nistagmo horizontal a tentar seguir as cores lá fora,
Que fogem sem ter percebido ao que dão a cor.
Eu nisto, a olhar, à espera até que o metro pare,
Até chegar à estação onde terei que sair.
Pára, levanto-me, abrem-se as portas, saio e chego ao Nada.

30.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

Ao Pai

ao meu pai

Quando chove e nem uma gota na cabeça,
Levado pela mão com o casaco dele a cobrir menos os pés,
Apenas o cheiro da sua roupa nos olhos e uma escuridão segura,
Porque a mão a guiar-me os passos molhados.
Eu tão perto da sua cintura, um dia que serei maior, mas nunca tão grande.
Nunca terei umas mãos capazes de guiar no escuro de uma tempestade,
De abrir a terra e sempre com a timidez de uma carícia que só dentro,
Longe do granito áspero que as cobre.
Aquelas mãos e o cheiro do único deus real e possível debaixo do seu casaco,
Numa tarde de fim de verão, depois de deixar as armadilhas aos pássaros.

Queres vir comigo aos pássaros,
Porque ele quando pequeno gostava de ir aos pássaros.
Eu pequeno, eu um ele pequeno que nunca serei,
Cá dentro outro, que ele estranha, alguém novo na sua vida,
Eu que sempre o tive desde que abri a cor dos olhos.
Um dia com o filho
E eu a pensar que era por ele,
Porque ainda gostava de ir aos pássaros.
Subir montes, rasgar urzes, estevas, giestas, silvas,
Cruzar pinhais onde se adivinham cogumelos,
Levado pela mão criadora, que todos os nomes sabe.
A chuva a dizer que nunca mais e a tornar um só dia
Num dia maior.

Aquelas mãos que nunca lançaram comentários ao vento,
Nem críticas ao silêncio,
Incapazes de ferir por dentro.
Um muro de pedra a cercar um lameiro verde.

Pões isto na cabeça que ainda apanhas uma pneumonia,
Vindo de outro tempo, de outro mundo mais fatal,
Em que se ia aos pássaros, já que não havia muito mais para fazer,
Nem sobrava a carne na mesa.
Aquelas mãos forjadas na dureza,
Capazes de guiar uns pés pequenos, inseguros, no início de uma caminhada,
Que não se sabe se longa, até à escuridão inodora.
Pai é quando chove e nem uma gota na cabeça.

30.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 28 de março de 2010


*

Dizes que vês a vida na água
Que corre fresca e limpa na agueira.
Na agueira só vejo folhas de salgueiro
Que passam e estão mortas,
Insectos que lá caíram e ainda lutam,
Outros que lá vivem com outros animais
E um fundo de terra através da fina transparência da água.

Bebe um golo fresco de água
Sente a ponta do nariz dentro da frescura,
Todo o teu peso nos joelhos enquanto te ajoelhas
E te inclinas para beber.
Não vejas a vida,
Sente a vida!

Se vês a vida na água,
Bebe-a,
Mas bebe-a com goles lentos.
Sente no esófago a passagem refrescante a cada trago,
A água a descer,
A aquecer na descida até se tornar parte de ti.
Tu és a vida!

28.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

Poema para “Disse-me António Montes”

quinta-feira, 25 de março de 2010


Fazem Falta Lameiros

Fazem falta lameiros, frescos, verdes,
Dos que se inspiram pelas costas quando deitados,
Os becos escuros com o cheiro a mijo,
Onde o sol se esquece de visitar, na cidade,
Uma terra lavrada e o castanho no ar,
Antes do estrume nos cortes que o ferro lhe abriu,
Antes da ferrugem, do verde cobrir todo o trabalho do homem,
A chuva levar o cheiro a mijo dos becos escuros,
Os homens de verde levarem os preservativos esquecidos
Nas escadas antes dos olhos se abrirem, de manhã,
O musgo das fragas onde se dorme de olhos abertos dentro,
Com o peito a aquecer os olhos,
Antes do rio ter uma cor de mortos e meter nojo à pele,
Antes das ruas cinzentas de tantos passos sem sentido,
Sem serem sentidos em direcção a um nada,
Que mais tarde não dá lugar a arrependimentos,
Só o vidro do carro a abrir e um preservativo apressado
Nos bancos traseiros pela janela fora,
Dissolvido na escuridão, na água do rio que passa,
Em direcção a ruas com becos e cheiro a mijo,
Só porque fazem falta lameiros e o cheiro a cavalo suado,
Com o latex entre o indicador e o polegar,
Como um lenço dos de dizer adeus, e adeus mesmo a muitos impossíveis,
Antes do cheiro dos cafés a abrir o dia,
Quando para muitos se fecha até às quatro da tarde,
Com a pele cheia de cheiros a peles e a vícios,
Contra a escuridão de um beco,
Só porque fazem falta lameiros onde o peso dos corpos fica,
Até a erva se erguer de novo a dizer que ali ninguém nunca,
Nem a chuva que obriga a mão no vazio além do interior,
Com cemitérios a deixar luzes tristes e frágeis para lembrar a vida
Que se deve inspirar sempre que se pode,
Mesmo vazio num beco escuro, com o mijo a picar o nariz,
Como a água dos rios da cor dos mortos vinda de terras onde vacas e lameiros,
Carros parados até pelo menos um orgasmo, um indicador e um polegar,
Um abraço de prache e um beijo de rotina antes de se levar a casa,
Porque o coração não precisa de carnes quando há lameiros,
Só dentro o peso a quere
r sair, no beco escuro se ninguém a ver,
Quando o mundo todo da cidade a dormir, menos os homens verdes,
Que piscam, pirilampos a acordar os padeiros para o pão,
Mesmo que as searas longe do trigo que se vende irreconhecível,
O fumo de dois corpos, invisível a encher o espaço pequeno do interior do carro,
A espalhar-se pelo ar quando se tocam e um derrete para outro se perder dentro,
Para depois um indicador e um polegar a dizer que humanos,
Numas luvas amarelas a dizer “estes caralhos”,
E nem um lameiro onde se sintam vacas suadas com o sol a fazer brilhar o sal da pele,
Que se lambe em desespero para sair por momentos,
Do inevitável cemitério inadiável,
Quando basta um lameiro rasgado e um esquecimento mais sincero,
Longe de becos a cheirar a mijo e vida que não se faz,
Só se fode com um egoísmo de “se pudesse, só me vinha eu”,
Mesmo que os pirilampos digam que “estes caralhos”,
Sem ver o recibo a factura, aquilo uma factura perdida no escuro,
Tanto sol no lameiro, vazio de gente, verde, fresco,
A fazer lembrar pernas abertas com a mesma vontade do sol a brilhar.

25.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 22 de março de 2010



Uma Cerveja No Cemitério

O rumor de umas chamas que persistem nas velas,
O cheiro do ar quente na terra que arrefece a sua cor,
O quase silêncio, não fosse a vida a fazer festa ao longe,
Esquecidos disto aqui, onde me refugio das luzes,
Da minha cara na cara dos outros.
Trouxe companhia para vos acompanhar,
Já que estamos sós se só eu convosco.
Trouxe a companhia que traz a quase felicidade,
Não fosse engolida a golos desesperados,
Como quem apaga a luz para se afogar nas trevas.
Aqui estou, porque só vós me ouvis quando grito em silêncio,
Só vós nunca me conhecestes, nem conhecereis,
Eu que vos tenho dentro, apesar de incompletos,
Da falta de nomes, as faces que só um círculo pequeno no granito,
A de um dia que não esperava que ficasse para os do futuro,
Que ficasse para um sempre relativo.
A pedra ainda quente, a tocar-me de granito,
Onde me deito, de onde normalmente ninguém se ergue,
Com o copo na mão, apertado, a fazer-se sentir, ainda fresco,
A mão que quase pende, quase perdida no vazio cintilado por velas
Que insistem em marcar presenças ausentes.
Ergo-me em provocação, com a cruz de pedra atrás a ser pequena,
Ergo o copo e bebo, bebo à vossa, à minha por que vós possíveis um dia,
Apesar de hoje a tornar-me esta solidão quase impossível.
A vós vos trago dentro, atrás, no passado que não vivi na vida.
Não me conheceis, mas sou um daqueles que muitas vezes imaginastes,
Se um dia chegásseis lá, aqui, onde me sento,
Com a vida a correr por entre os dedos,
A sentir-se nas têmporas a cada segundo do tempo do corpo.
Sou o resultado sensível da vossa actual insensibilidade,
O orgão que toca a realidade, o que vos não deixa morrer por completo.
Hoje, dia de festa, esquecido o mundo do mundo que foi,
Dos que inventaram as festas para esquecer o silêncio,
A escuridão entre paredes nuas, debaixo de pesadas pedras,
Ou pequenos montes de terra de onde arrancam o verde,
Por que ali já não há esperança,
Bebo a minha cerveja antes que a vida a aqueça,
Na companhia dos que nunca conheci e foram vida antes de eu a conhecer.

22.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sábado, 20 de março de 2010



Bom Dia

ao Carlos, César, João, Sebastião, Paulo e Rui

Com o peso de todas as preocupação nas alças de uma mochila,
A manhã que começa com o cheiro a café, torradas e leite.
Bom dia e sente-se de verdade, porque se sente a frescura de mais um dia,
Naquele momento nunca poderia ser mau dia,
Ainda se espera algo de novo, é certo ter-se algo de novo no dia,
Quando as preocupações todas dentro de uma mochila.
A manhã abraça-nos, fresca, cheia de portas abertas, de sonhos,
Como se fossemos os especiais, a esperança de um mundo que não cresce.
Dos paralelos até à rua principal, passando pelos cafés que acordam,
Com as vassouras a dar os primeiros retoques,
Como o pente e dedos molhados a dar os últimos,
A deitar aqueles cabelos que insistem,
Porque há sempre quem insista, quem queira fazer a diferença,
Quem vá contra, até que vem uma mão cheia de gel, marcas do tempo.
Com pedaços de felicidade à espera no átrio,
Para mais bons dias sinceros, de coração cheio e inteiro,
Com o cheiro branco da geada a fazer doer as orelhas e o nariz,
E eram todas as dores que tinhamos.
Pedaços de nós que ainda não reconhecemos,
Mas um dia, esta parte de mim é dele,
Aquela dele é minha, até que o pó vem e cobre tudo,
A tinta passa e faz-nos esquecer o que fomos, o que somos, por baixo,
O que eramos quando a mochila era o único peso a fazer peso na vida.
Entra-se pela porta com menos vontade do que com a que se sai,
Apesar de se saber que se vai sair a ser mais por dentro,
Aos poucos mais pesados, com um peso que não nas alças,
No pescoço, irradiando para os ombros, para as costas, para dentro,
Onde se começa a duvidar que more lá uma alma.
Aos poucos e com o tempo a inocência que torna tudo leve,
A esvanecer-se, a ser apagada pela luz que nos apontam aos olhos,
Como num interrogatório, a ver se somos gente.
Que venha o toque e uma pausa para falar à vontade,
Para completar o que somos com os que somos também,
Aqueles primeiros, os pedaços de felicidade com quem partilhamos o mundo,
O que se espera dele, sem saber que pouco nos espera.
Bom dia, e ainda temos muito pela frente,
Um dia inteiro de cada vez, até chegarmos lá,
E uma vez lá... onde é lá?
Aulas constantes onde é tão difícil acompanhar as vozes,
Testes todos os dias, tão difíceis, tão inúteis,
Para poder ter isto, que nunca quis quando o Bom dia sincero,
Isto que nunca sonhei quando acordei uma manhã para enfrentar mais um dia,
Tão igual e tão diferente aos dias anteriores,
Com o cheiro a café, torradas e leite,
Em baixo na cozinha à espera, com um Bom dia sincero à espera,
A manhã depois da porta à espera, com um abraço de Bom dia,
Os que me são no átrio à espera, com um Bom dia em coro,
A sala à espera, com um Bom dia sábio,
O intevalo à espera e nós à espera dele, é um Bom dia.
Intervalos que se tornam cada vez mais curtos,
Cada vez mais raros, de semana a semana,
De mês a mês, de meio em meio ano, de anos a anos,
Até que só um nome, uma doce recordação, um pedaço de nós,
Cada vez mais longe, cada vez menos visível, debaixo de tanto lixo,
A pesar no que somos, a esmagar o que fomos,
O que fomos capaz de um Bom dia sincero, com esperança,
Com as mãos cheias de nada, esperando com elas agarrar a vida,
Conquistar o mundo, que afinal, não vale a pena conquistar.

20.03.2010

Savolinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de março de 2010



Liberdade

a Christopher McCandless

Não sei o que me dizem os olhares silenciosos,
Que se cruzam comigo sempre que estou na rua.
Não me chamam pelo meu verdadeiro nome,
Não sabem o meu real tamanho, mas continuam a afirmar,
Que eu isto e eu aquilo, quando eu nada do que dentro deles.
Não me dizem para ser livre,
Dizem-me que esperam que eu seja assim e de outra forma,
Porque esperam que assim seja,
Como se deuses, eles todos, uma massa a fazer de deus,
A enganar-me com um livre-arbítrio falso,
Quando só posso escolher entre o que eles oferecem.
Não sei o que os olhares esperam,
Não sei por que eles esperam algo de mim,
Eu que não lhe vivo dentro.
Querem que eu preto ou branco,
E eu cinzento no vazio dos seus olhos sem fundo,
Que não conseguem reconhecer a minha cor real.
Não sei o que me dizem aqueles dedos barulhentos,
A desenhar no ar realidades que não exitem,
Que não podem existir.
Não me apontam para o caminho que eu quero,
Eu que não quero nenhum caminho,
Não quero ter que escolher,
Simplesmente porque não tenho que escolher.
Continuar está bem, basta a interrupção inevitável.
Cumpri com o que esperavam
E nunca me senti fiel aos meus desejos,
Cumpri e nem os conhecia,
Aos dedos, aos olhos, tantos, a fazerem de deus,
De lei que não está escrita em nenhum lado,
Nem faz sentido algum,
Mas tem que se cumprir,
Porque assim esperam.

19.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 18 de março de 2010


Vozes Que Crepitam

Vozes amigas que crepitam como a lareira
Nas noites solitárias e frias de Inverno, na vila,
Com a geada a congelar todos os problemas até à manhã,
Ou durante o Inverno, onde o Sol não chega.
Vozes amigas que crepitam, mesmo que caminhe só,
No dia frio de fim de Inverno,
Quase noite, com a noite a cair como um véu púrpura.
Um cheiro invulgar a lareira no ar,
Já que a cidade de cheiros viscerais poucos.
Ouço-os, como nas noites de festa no Verão,
Todos a subir por cima do som da música do baile,
Para chegar uns aos outros, depois de tanto tempo,
Depois de tantas saudades,
Depois de um Inverno tão longo e distante,
Tão parecido com uma morte que se sente.
Vozes amigas que dizem que está tudo bem e contigo
E nós também, obrigado, queres beber um copo
E vamos lá por que o Inverno vem, lá ao longe
E a distância, nem se pensa nela, quando se está perto.
Venham elas, que nós agora as bebemos todas.

18.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 14 de março de 2010


Caretos

A máscara a abrir a porta para a liberdade,
Grotesca, a pôr um véu no humano coberto de franjas,
Que já não o é, porque é mais: É sagrado porque é pagão.
É o fim de um ser e o início de outro.
É a porta entre dois mundos.
É o que vem e o que foi, neste que é.
Um nu colorido e barulhento a chocalhar pelas ruas
Da terra atrás das raparigas férteis e disponíveis.
É a festa da renovação, uma oração à natureza,
Um pedido à terra para que traga um ano bom.
As chamas levam o passado,
Por que tudo o que já não, é inútil, não faz crescer,
Há que purificar a terra para o devir.
O Inverno não dura sempre, mesmo que volte,
Cá estaremos para o ano.
Um presente eterno, mesmo que longe do início,
Mesmo que os avós mortos e os filhos por nascer,
Também eles foram, também eles serão.
Hoje nós o presente, a eternidade mascarada,
Protegidos do mundo dos outros dias,
Donos da porta que é o tempo.
Amanhã os facanitos a olhar-nos por detrás da máscara,
E nós à espera que nos abram a porta,
Mas hoje nós o que eles querem ser um dia,
Os que têm as chaves todas a chocalhar.
Hoje somos os arautos da natureza,
Da vida que ela dá e tira.
O animal preso durante todo o ano,
Finalmente livre, como um diabo aos saltos,
Com licença sem pedido concedida, porque hoje é o dia eterno.
Hoje duas caras. Hoje as chaves para todas as portas.
Hoje dia da liberdade mais pura.
Com uma paz violenta a fazer mal sem maltratar,
Ninguém pode levar a mal aos deuses por um dia.
Venha o barulho e a confusão,
O caos de uma rajada de vento a levantar as saias,
Ou uma vara se ele faltar,
Porque hoje somos nós que abrimos a porta.
Venha a geada e o frio a despedir o ano,
Que nós de um mundo entre mundos,
De um tempo entre tempos.
Donos e senhores de todas as chaves do universo,
Do universo comum, da ruralidade de onde a humanidade nasceu,
Fiel e transcendente, com origem na origem,
Nas fornalhas do tempo, quando o homem nu,
Com franjas e uma máscara de madeira ou couro,
Atrás das portas para abrir o futuro à humanidade.
Hoje os males dos homens e dos deuses longe,
Protegidos por uma mística imunidade,
Com uma misteriosa força que faz as pernas saltar,
A garganta gritar, livremente, pelas ruas da terra fora,
Atrás do que se gosta mais:
Raparigas solteiras.
Hoje fazemos a regra: haja liberdade!

14.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sábado, 13 de março de 2010


Miranda do Douro

Do alto de uma escarpa, a ser pequeno aos ombros do gigante,
A ver a água que passa, lá em baixo,
Entre a pedra serrada pelos milénios da vida: o Douro.
Entre um país e o outro, a mesma água, a que interessa,
Onde quase se reflectem as muralhas erguidas pelo medo de outros tempos,
Levados pela água que passa e sempre a mesma.
Mudam-se os tempos e a água corre a ser Douro, a cortar muros de pedra,
Que o homem aproveitou para chamar o país de cá e o país de lá.
Entre uma escarpa e a outra o que corre, o que é fluido e leva a vida,
Entre a aridez da pedra, com as rugas do tempo e o verde inesperado.
As aves no limiar do abismo a fazer a vida,
Para buscar a vida na vida que passa,
Entre dois terras, só porque o homem lhes deu nomes distintos,
Para depois ter que erguer outras muralhas,
Erguer outros medos, quando o do abismo basta,
Com a água lá no fundo a ser morte vista de cima.
E para onde vai? Onde se meteu?
Foi visitar vinhas, ondas verdes que escorrem pelos vales,
Até chegar ao dominó irregular e multicolor que entre pontes se equilibra há séculos,
Pontes das que tornam um lado parte do outro,
Porque nem tudo muros e medos a separar.
Vejo-o a passar, porque estou condenado a um lado,
Porque não posso fingir ser o tempo,
Desde a aridez da pedra, à terra de onde o vinho se espreme,
Às casas vizinhas da casa onde nasceu a ideia de um mundo global,
Como se a história da humanidade no correr das suas águas.
Os sinos da sede, até aqui, a lembrar-me que eu pequeno entre gigantes
Que não adoram nada, porque a água passa e é sempre a mesma.
As muralhas a envergonharem-me e eu a querer fingir ser uma ave que vive no limite,
Que atravessa fronteiras sem nome, sem papéis, sem medos, universal.
Do alto desta escarpa, a do meu lado, impossível ser o que corre entre,
Unindo o que os nomes separam,
Por que afinal, não há linha nenhuma entre a água que passa,
Sinto-me tão pequeno, aos ombros do gigante que vê a vida a passar,
Levada por um gigante maior que se estende pelo tempo, criando história,
Sem dar por isso, porque só o homem do lado da escarpa a ser pequeno.

13.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 11 de março de 2010


Chuva

Chove, mas não cai nada que se sinta.
Chove, mas nada húmido, nada se molha.
Chove, mas não chove nada,
É algo dentro a partir como se uma nuvem,
Só por que o peso demasiado,
Só porque tem que chover.
Silêncio. Nem gota se ouve contra a chão seco,
Contra uma folha de verde sedento,
Contra um insecto e o seu caminho interrompido.
Só o silêncio de algo a quebrar por dentro
E uma gota a querer ser,
A escorrer, quem sabe se salgada,
Quem sabe se sumo do que se partiu, por dentro,
A querer cair, mas a escorrer,
A rasgar um sorriso numa linha brilhante dos olhos aos lábios,
Que lambida e não chove,
Mesmo que por dentro.
Nada cai, ninguém vê, ninguém sente,
Só por dentro quem sente a chuva que fica
E pesa e faz com que o sal se canse de estar,
Faz com que o sal se case e se derreta em sorrisos tristes,
Diluído na desilusão, só porque não cai,
Só porque não se sente a ser algo húmido,
Que quase não molha,
Que chove, mas não chove,
Só porque demasiado peso a quebrar,
Sem olhos para dizer que também chove para mim,
Que eu te vejo essa chuva,
Que eu te sinto a chuva.

11.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 8 de março de 2010




Formigas de Asa

ao meu primo Rafael


Ainda as formigas na terra onde não formigas,
Só passos que lhe caem, ainda no ar, sempre,
Com as formigas sem estarem mais, só porque foram tantas no crepúsculo,
Só porque a atenção para as asas se as tinham,
Para enganar os pássaros com uma fácil morte, mas para eles.

Agora nada. Formigas, só as sombras que elas deixaram,
Algures, na região occipital, como um teatro de sombras
Contra uma parede de osso onde tudo, o meu tudo e o tudo que é possível ser,
Quando os meus olhos se abrem e o mundo entra e fica...
Até quando? As formigas agora que o Sol já não se vê em lado nenhum,
Só as sombras crescem e um resto de calor no ar a permitir os passos,
Que caem na terra onde não formigas,
Só a antecipação de mais um passo,
Mais uma marca onde nada,
Sem formigas apesar das sombras dentro a confundirem-me.
Para quê? Já não interessa, a cabaça está cheia,
Amanhã os pássaros cairão no engano e serão formigas a fazer sombra.
A morte é só uma sombra que fica em nós quando não é a nossa sombra que nos cai nos olhos.
As formigas, tantas, enquanto caminho, eu com medo de as pisar,
Apesar de levantar os pés, a marca do passo e as formigas ainda a viver,
Cá atrás, dentro, onde a comichão me pede os dedos de uma mão,
Na nuca do embaraço quando uma palma, porque não há formigas e eu a vê-las.
Olha tantas, também as vês? O escuro a crescer e o tempo a ir-se,
Os olhos ou quem lhe diz o que ver, enganados.

As formigas de asa a crepitar dentro da cabaça,
Como um fogo vivo, colectivo, negro,
Num roçar de asas transparentes, reais e eu seguro que elas ali,
Na cabaça que na minha mão suada e eu sem a sentir,
Vendo as formigas que ainda insistem em se mostrar,
Sem estarem mais.


Rantasalmi

09.03.2010

João Bosco da Silva

sábado, 20 de fevereiro de 2010


Os Ecos Que Nós Somos

A acumular. Sempre a acumular ecos
E nunca nada é agora e quando o deixou de ser, só dentro.
Tantas vozes dos momentos a ecoar,
Tantos passos dados a ressoar dentro,
Tantos mortos ainda a dizer-nos que estão vivos,
Usando-nos para estar vivos, nas paredes que somos dentro,
Os ecos que somos e não são da nossa voz.
Não temos voz.
Ouvimos e já é eco dentro a cheirar a mofo,
Respondemos e usamos ecos que há tanto tempo que como se a nossa voz,
Mas não temos voz.
A acumular. Sempre cá dentro, todos, cada vez mais,
A tornar-se peso na cabeça, a pesar-nos no caminho,
Que julgamos nosso e afinal,
Só para passear ecos de caminhos que já passaram.
Se o caminho fosse nosso não tinhamos que o devolver no fim.
A acumular ecos enquanto atravessamos a ponte entre o nada e o nada,
Para nada os ecos. Queremos gritar,
Mas a voz não é nossa,
Só o desespero é nosso e temos que usar ecos para dizer que o temos,
Para que acreditem que o temos,
Para que nos ignorem, sabendo que nós na ponte.
Todos ao mesmo tempo,
Cada vez mais, cada vez menos silêncio.
Ninguém é página em branco,
Todos quartos vazios, cheios de ecos a fazer que somos,
Mesmo que sem voz, porque as paredes mudas.
A acumular, os ecos que tomam peso dentro,
Que se tornam uma voz dentro, além da nossa, que não temos,
Uma voz de inferno, onde todos a dizer que lhes dói,
A dizer que estão arrependidos,
Mas afinal só querem é deixar de ser de uma vez,
Só querem silêncio e que os ecos se dissipem,
Só querem atravessar a ponte e chegar como se nunca tivessem partido.
Abrir as paredes e deixar o universo regressar, levando os ecos.

20.02.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sábado, 13 de fevereiro de 2010


R.I.P. Joãozinho

Que interessa o que o mundo,
Quando o teu mundo só teu?
Cumpriste como só tu podias cumprir,
O que esperavam de ti era só o que eles esperavam.
Só porque um caminho menos escolhido, errado?
Putos idiotas, todos, porque tu da idade do tempo.
Quantas gerações se tornaram aborrecidas,
Enquanto tu ainda a festejar, bêbedo mas a festejar.
Putos parvos quando crescem e se tornam sérios,
Sérios amargos cheios de ressentimento porque o tempo os obrigou
A ser adultos sérios e responsáveis.
Sérios são os mortos quando não morrem a sorrir.
Amanhã não quero morrer que é festa,
Haverá a festa, mas tu já não estarás,
Porque a tua festa, que foi a vida, acabou.
Puto, diz-me ele, vós é que estais todos mortos.

13.02.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


Carta Ao Filho Que Nunca

Escreves sobre a dor dos espinhos da rosa no coração,
A dor do coração quando não dizem que eu também.
Escreves sobre uma dor sem ausência do prazer,
Uma dor que só da ausência é filha,
Uma dor ignorante, ignorante do doce que nunca provarás.
Escreves com a inocência de quem pensa que é especial
Por escrever, por ser poeta e tão jovem,
Ignorante de que há tantos idiotas como tu,
Com as mesmas dores sem presença,
As mesmas esperanças sem futuro,
Com as mesmas palavras a tentar ilustrar o que vai dentro,
Dentro e que a ninguém interessa.
Escreves para ti e para as rosas,
Como se isso lhe tirasse os espinhos,
Como se ao escreveres tocasses a pele de alguém.
Só tu realmente sentes o que realmente querias dizer que sentias
E isso a ninguém interessa,
Nem às rosas a quem escreves.
Não te irás picar nos espinhos só com palavras.
Escreves e deixas o que realmente sabes fazer,
Que é viver e fabricar memórias para um dia teres saudades
Quando cabelos brancos e netos a pensar que és um velho,
Que nada sabe da vida. Nada sabes da vida.
Deixaste de ser o primeiro, o primeiro a entrar, a saborear,
Tremer com a novidade tão excitante que parecia que ias explodir.
Deixaste isso para ser o único idiota, entre tantos idiotas,
A escrever porcarias que nem a ti te interessarão no futuro.
Escreves sobre a dor. Nada sabes sobre a dor.
Escreves sobre lábios que nunca beijaste
E deixas secar a tua saliva naqueles que ainda te esperam.
Escreves sobre uma morte que nunca viste,
Nem a tua que nunca irás ver, nem a dos outros.
Nada sabes sobre a morte.

Agora escreves sobre as árvores que não há porque semáforos,
Semáforos em todo lado a controlar o passo apressado
Que nem te deixa respirar o ar pesado pelo fumo, tanto fumo.
Agora escreves sobre saudades, porque as saudades deixaram de ser os tios,
Que só em Agosto vinham do estrangeiro,
Escreves sobre saudades porque tens saudades de semana ou mais,
Dos teus pais que estão tão longe ali ao lado, da lareira porque nem é preciso,
Do caminho até à escola com o amigo de todos os dias,
Sempre e agora só ao fim-de-semana, quando ele também está,
Da gente que conhece o significado do teu nome,
Dos fracassos da vida que ficou e dos medos que hoje tão ridículos.
Agora escreves sobre o mesmo amor que não conheces.
Nada sabes sobre a saudade.
Escreves sobre a tristeza que sentes dentro
Por estares fechado nas paredes desconhecidas de um quarto pequeno
No meio de uma cidade que parece querer cair-te em cima,
Porque tu nada sabes sobre nada.
Escreves sobre a tua tristeza, que a ninguém interessa porque a deles chega.
Escreves o quanto sentes falta do fácil que era a vida.
Nada sabes sobre a vida.
Escreves ou tentas escrever algo novo,
Ignorando que tudo o que faças será uma colagem de retalhos,
Uma cópia à tua maneira, uma tentativa de criar algo real,
Quando o real já existe e não pode ser criado.
Tentas ser verdadeiro e profundo, mas só conheces a tua verdade e a tua profundidade,
Pelo menos a que conheces de ti,
E nem essa. Nada sabes sobre ti.
Escreves sobre os mundos que crias e deixas para o nada devorar,
Escreves sobre as vidas que vives e que não ficam na vida,
Escreves para acumular o sem sentido que te preenche
Em palavras que ninguém quererá ler, nem isso te interessa,
Apesar da ilusão que um dia, mas nunca um dia.
Nunca serás alguém.

08.02.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010




A Canção do Que Nos Leva




ao “alambique”




A gente que não quer sair do mesmo lugar,
Só para parecer que o tempo não passa,
Mas os cabelos brancos a lembrar-nos que sim,
Os avós a morrer a dizer que nós também,
Os pais a tornar-se avós porque o tempo a obrigar-nos,
A vida a ser encostada à parede até ao outro lado,
Aos poucos, mesmo que no mesmo lugar.
A gente que pensa que o tempo para passar
Precisa que o espaço mude,
Então ficamos, iludidos, sempre no mesmo lugar,
Diferente nem a cada dia, a cada momento.
Uma flor nova, uma árvore que morre e se corta
(Para sempre nas tarde debaixo da sua sombra),
Uma adolescente que agora mulher e os olhos que já a vêem
(Ainda no baloiço de sua casa, protegida do mundo, pequenina).
Uma casa que ainda ontem era nova e hoje vazia
(Com os emigrantes que nunca estão de verdade),
Outra que sempre velha e vazia e hoje com pequenas pessoas
Que ontem não existiam, mas que ontem?
Seremos sempre o de há momentos,
Sempre o acumular do que já passou,
Contra a nossa vontade.
Se tudo fosse para sempre quando tudo perfeito...
O tempo a desorganizar, a tornar o mau pior,
A sujar a inocência e a torná-la pecado,
Como se a culpa fosse nossa!
Os amigos de todos os dias, que se tornam de todas as semanas,
Se tornam de todos os anos... até que depois só recordações,
Longe no tempo, impossíveis no espaço,
Sempre presentes no que somos, sempre o de momentos.
Como retalhos de gente a gente,
Retalhos do que já não é nem nunca será.
A gente que não quer ir, que quer ficar,
Mas o tempo empurra, o tempo a empurrar,
Até as palavras, para o fim, para o início da eternidade...


01.02.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva


As Memórias Do Amanhã Longínquo


As memórias, os sonhos cumpridos que perduram no momento,
Sempre incompleto, sempre o único possível.
Deixo o roupão cair e continuo a caminhar em direcção à água,
Entro no lago do esquecimento e o roupão vazio de quem o usou.
Assim seja, assim será e eu sem deus, eu sem esperança no vazio.
Eu que me dispo tantas vezes contra os olhos
Que me olham com repulsa e como desnecessário,
Que insisto em mostrar a ferida ridícula,
Crónica que naturalmente se esconde,
Que se me calo morro e se falo sujo o nome da minha morte,
Eu que não sei onde quero chegar porque não sei de onde vim,
Não serei algo?

Afunila-se o horizonte, apesar de ser o mesmo,
Invisível aos olhos, tão grande nos que estão voltados para dentro.
Morreram-me todos e fiquei só no passado que trouxe escondido nos bolsos...
Rotos, enganos que no fim me dão o vazio.
Iludo-me com o meu tamanho
Enquanto me canso a olhar para cima, para os deuses que não existem,
Tão leves e vazios que o ar os eleva.

Entro em mais um café e é a mesma história que se esquece e nunca parece repetir-se.
Tomo as cores do que bebo e sou mais os outros que eu,
Encostando com uma avalanche de euforia o estúpido racional que me rói a vida dos dias
Aos confins da alma onde não chego.
Sento-me até me sentar em cima de mim, sem querer saber das aves de rapina
Que me querem comer os cadáveres sem futuro.

Deixo-me entrar como se tivesse escolha.
Deixo-me ir como se houvesse outro caminho.
Deixo o roupão e sou só os ossos pouco cobertos que me dão a ilusão de uma estrutura.
Viagem sem destino, pelo caminho que não passa,
Onde se acumulam os fantasmas das virgens belgas stripers,
Dos avôs amarelecidos pelo tempo,
Dos pais longínquos a tornarem-se nevados contra a nossa vontade
E as feridas das garras do tempo que nos empurram para lado nenhum.

06.11.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 24 de janeiro de 2010


Ausência Presente

a ti na Rua da Boavista


Hoje dei-me conta que tu não estavas.
Olhei para lá do que via e tu não estavas.
Longe no espaço, distante no tempo,
Presente só a tua ausência.
Senti o recorte na minha alma com a tua forma
E tu, longe de mim, do meu corpo que não te sente.
És uma ausência que dói como uma morte que sinto,
Um sonho fracassado porque o espaço levou o tempo,
És frio porque o teu corpo deixou de me aquecer,
Aquecer com a tua presença marcada pelo teu olhar no ar,
O ar que foi nosso e partilhamos e ambos respiramos,
Dentro de mim e de ti, hoje frio, sem a luz dos teus cabelos.
Hoje vi-me só entre eles, porque tu nenhum e tudo.
Tivesse eu dito que sim ao que a vontade de ti me pedia...
Tivesse eu ido ao café onde não me esperavas,
Porque eu um cobarde sempre como o não é cobarde...
Hoje lancei mão ao vazio a pensar que tu em vez do vazio de ti.
Perdi-te, deixei que te transformasses numa ideia com nome.
Deixei que vivesses tempo demasiado na minha memória
E agora és só passado de um futuro onde não te vejo,
Onde te quero, um futuro que não quero.
Se o caminho não ficasse no nada depois de ser caminhado,
Voltava atrás, voltava ao nada se possível.
Porque não me disseste que eras minha,
Que eras a minha e que afinal há alma na gente?

24.01.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

Se

Se conseguisse lavar os meus pecados com palavras inúteis
E pudesse continuar a chamar poesia a isto,
A isto que não toca nem uma gota da sombra do abismo,
Onde a alma não ocupa espaço nenhum e aí vive.
Se conseguisse tocar a ignorância dos outros com a ignorância de mim mesmo,
Porque os fascino com tanta confusão ao dizer o meu nome,
Que ficam a olhar para mim a pensar que eu tanta coisa e eu...
Nem um nome, nem coisa nenhuma a não ser...
A não ser um pedaço de quase nada que se vai
Na ilusão de uma luz que não se sabe se chegou a ver-se,
Ao longe, lá onde a escuridão habita no horizonte das noites solitárias.
Se ao menos eu um nome, nascido de um nome,
Sem ter que criar nada à minha volta para impedir o vento de me derrubar,
Sempre a derrubar-me, sempre a impedir-me que tente,
Porque nem eu gosto de ser um derrotado,
Mesmo que o seja, derrotado adiado.
Se ao menos as fibras do meu coração fossem capazes de uma música
Que não lembre que um dia o silêncio, eternamente o silêncio,
Se ao menos o ar ficasse com o meu cheiro depois de eu expirar,
Se ao menos não fosse tão menos, quase nada, para que isto não fosse tão ridículo.
Se ao menos chamas neste inferno e outra dor menos real,
A consciência de que o pecado levou a isto,
Mas o que levou a isto que é pior que o sono eterno,
Antes de se conhecer que depois sono eterno, outra vez,
Só para provocar as pobres pedras que falam quando o vento passa.
Se ao menos o fim fosse tão fácil como uma palavra...

23.01.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

A Cerveja

Em casa dos meus avós
A cerveja sabe sempre melhor!
Sabe à cerveja às escondidas
Com os meus primos,
Mesmo sem o açucar.
Sabe às primeiras antes do excesso,
Como a vida sabia antes dos anos a mais.
Tem o sabor verdadeiro,
Sem a intenção de esconder a dor de hoje.
Sabe a lombo assado na brasa
Com batatas arrancadas da terra
Pelas mãos nodosas do meu avô,
Regadas com ouro do esforço do ano que passou.

Eu ainda à volta da mesa,
Mais baixo que ela,
Nos olhos da minha avó.

A mim tudo isto me parece gratuíto,
Seguro, garantido, como a garrafa que aperto na mão...
Até a uma caixa de madeira de pinheiro,
Ou de cerejeira, de onde caí,
De onde cai a garrafa e se estilhaça no chão,
Com a ilusão de o que sempre foi, será para a eternidade.

20.01.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

Casa

Tanta expectativa nos alicerces,
Ainda a poucos metros do chão!
Tanta festa quando terminada a placa,
Com metade do trabalho ainda por fazer!
Tanta ilusão e depois a casa uma merda!
Os quartos vazios e frios,
Onde vida, só a do mofo das paredes
E a do bafo da saudade de quem lá entra
Para inspirar o passado de quem lá não está.
A mobília que se foi acumulando,
Deixando de fazer sentido,
Acumulando-se estilos, cores e materiais,
Que ninguém vê.
As paredes começam a ser sulcadas por fendas,
As primeiras infiltrações inesperadas
E a culpa dos vizinhos, sempre dos vizinhos, sempre dos outros.
Os armários demasiado grandes nos quartos pequenos,
Sempre de tamanho insuficiente para o muito lixo que se acumula:
A roupa de Inverno de quem já não está no Inverno,
À espera;
Os brinquedos que não se chegaram a partir
Da criança que partiu para um interior fundo e escuro, além do tempo.
O eco das vozes nos dias de festa,
Longe, no tempo das paredes rebocadas a secar.
As paredes agora mudas,
Confidentes fiéis dos momentos que morreram.
As camas frias esperam quem partiu,
Ignorando que quem partiu não é quem voltará,
Ignorando tudo, porque já não range a madeira dos corpos juntos.
A lareira mais só com o olhar de quem espera que as chamas aqueçam por dentro,
À espera que seja hora.
A mesa que hoje nunca se usa,
Porque não há quem a vista de vida.
Domingo deixou de ser o dia dos paralelos até ao adro da Igreja,
Em família, até ao regresso ao almoço de domingo,
Domingo passou a ser o dormir até não se poder esconder mais.
A casa mais só, porque existe a solidão de quem a pode sentir vazia.
Tanta expectativa nos alicerces...
Cresce e sente a derrota do tempo!

20.01.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

S

Como um copo de vinho apressado,
Contra o estômago vazio de gente.
Fome de gente quando a casa deixa de estar só.
Fome de mim e dos outros que me povoam.
Como um baque seco de alguém que morre subitamente
Contra o pó vazio que se levanta.
Fome de presença na presença.
Fome de ignorar os segundos que o relógio come.
Como uma presença vazia
Contra a nossa existência vaga.
Fome de não ter que lembrar porque presente.
Como um amigo que se inverte
Contra a nossa vontade impotente.

Sei que passa.
Sei que é pela presença da ausência.
Sei que é por estar condenado a mim,
Como o esquecimento de mim
Contra tudo o que aparentemente construo.

22.12.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Árvore de Natal

ao que está Longe.

Galhos como veias negras que se perdem
No vazio cinzento do céu de inverno,
Ao lado da casa de dois andares com o poço gelado,
Longe do frio que hoje me habita e não sou eu.
Não sei quem são os donos,
Mas pode ser que os conheça.
Não me conheço!

Sei que não gosto de dióspiros!
Comi um verde, certa vez,
No jardim do meu último amor
Que foi o primeiro e não gostei.
Passem-me uma lixa na boca!

Como uma árvore de Natal,
Com umas bolas laranja, simples, quase visceral,
Doce rudimentar para os meus olhos.
É bonito ver gente feliz dentro de uma casa iluminada e com uma lareira,
Acreditando que podia ser eu, que fui eu,
Aquele que vejo da rua onde habito,
De sorriso aberto ao vazio que ignora.
É bonito ver os outros apaixonados,
Enquanto caminho sem sentir mais que a minha dor do caminho.
É fácil ver nos outros, sem ter que o meter à boca.

Longe a casa que não sei de quem é,
Com o seu poço inútil, com a água estéril, congelada,
Com a sua árvore de Natal permanente...
Permanente até que se cansem de esperar os dentes da serra
Pendurada do lado esquerdo, na garagem, ao lado do carro,
Longe de mim, longe de quem deixei de ser e finge que continua.

As veias a levar o que alimentou os meus dedos,
Enterrando-se na terra onde sou o original,
Invertendo-me de forma desigual,
Alimentando os frutos solitários, sem folhas verdes,
Prontos para a boca que os apreciam,
Para os meus olhos que não os vêem,
Por que Longe.

18.12.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Lista


ao menino jesus


Quero correr pelos montes até o meu cheiro se confundir
Com o das giestas, das urzes, da resina dos pinheiros, dos pinheiros,
Do musgo fresco, da terra aberta, dos carvalhos, das rochas húmidas,
Dos animais que deixaram rasto, dos que se cruzam comigo,
Do húmus, dos cardos e dos fetos,
Do covil escondido, dos ninhos, das asas que se abrem no ar,
Do que ardeu no verão passado e renasce!

Quero jantar com os amigos que me fizeram,
Comer uma posta mal passada de vitela ainda a sangrar, criada nas redondezas,
Pelo avô de alguém conhecido, com batatas fritas arrancadas pelos dentes metálicos
De alguém honesto e por isso com calos nas mãos,
Perto da lareira do restaurante da beira da estrada!
Quero arroz doce para sobremesa, quase como o da minha avó,
Quase como o da minha mãe, mas sem os desenhos com o pó de canela!
Quero acabar com a cerveja fresca do tasco de uma aldeia pequena,
Fazer dela o mundo todo de uma noite!
Quero gritar sem camisa no meio do asfalto, ignorando outras presenças que não
A dos que me fizeram.

Quero entrar numa mulher portuguesa e que ela me entre dentro,
Me sinta além do corpo, além do verde dos olhos que por vezes mentem,
Como todos os olhos de gente e goste de mim porque sou tão vulgar!
Quero dar-lhe o mundo todo numa noite e se sobrar algo de mim,
Deixar que cresça no amanhã para quem vier!

Quero estar no café da terra até fechar, beber e conversar com os que bebem e vivem,
Comungar de uma cerimónia mais sincera e real pela noite dentro,
Conversando sobre o que vagamente conhecemos e é o que temos,
Gozando com a miséria que é a mais miserável das coisas,
Mestres das coisas simples da vida!
Quanta sabedoria desconhecida numa cerveja entre amigos,
Da que não se ensina na escola: na escola não ensinam a felicidade!

Quero ler Miguel Torga com geada da manhã trasmontana além da janela,
Junto à lareira com as brasas que saltam ameaçadoras, violentas contra as pantufas de avô,
Com uma torrada de pão centeio na mão, brilhante do açucar!
Quero sentir-me no que ele escreveu, acreditar que sou capaz e especial,
Apesar de ter nascido da esterilidade da rocha de granito!

Quero atravessar o Marão num autocarro de carreira,
Dos que estão sempre atrasados e por isso não vale a pena correr por eles,
Demorar quatro horas porque cai neve, sem me importar porque estou mais perto do céu!
Quero olhar de cima as aldeias pequenas com a sua gente grande
A lutar pela vida, a viver, ignorando que eu de cima a passar, a imaginar que vida!

Quero comer um salpicão assado na brasa na cozinha dos meus avôs,
Com os pingos do fumeiro que seca como chuva gordurosa e animal,
Mais divina que outra impossível!
Quero passar o serão a jogar à bisca dos nove com o meu avô,
Ignorando a sua batota anciã, até à hora de ir dormir numa cama que foi de um dos tios da França!
Quero acordar cedo e caminhar pelos caminhos de gente e animais
Em direcção às montanhas que nunca chegam,
Até a um lameiro com erva fresca onde possa deitar-me e apagar a minha sede de Anteu!


12.12.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva



Sutura

ressaca de fim do mundo
cerveja da sede, a foda sem sede, que tivesse
só para entrar na ruiva quero dizer hoje
de onde saíu o filho ao chileno
nunca fui bom com números
sei lá o que este ano
mas não hoje
adormecer na pedra central do cemitério
sem conseguir
minha família como se um baptismo mais real e natural
fui salvo pelo marido da minha tia
lembro-me agora que será este ano
chorei lágrimas
faltava-lhe carne dentro
o filho do cantoneiro ensinou-lhe a catequese
que eu queria ter aprendido no adro
sem outros não há pecado
no palheiro do pai dela
nos hospitais com o seu cheiro a merda
comigo e o meu primo
sangue, urina doente, suor de febre e enfartes
entretanto torno-me bolo
o humor a adoçar-se no meu sangue
por fim algo no estômago que não me suporta
desinfectantes, antisépticos, antibióticos
medicamentos que cheiram sem nariz
se não dependêssemos do mundo deus não estaria morto
batas brancas lavadas com perfumes franceses
de cona aromatizada e de púbis bem aparada
garrafas de plástico vazias
e horas prolongadas
morte e familiares dela
branco de luto e brancos de luto, amarelo
como eu não suporto grandes comidas
dependemos do mundo para tudo e é triste
até o bolo me torna mais lúcido
o cérebro diluído com a cerveja
da noite anterior.



João Bosco da Silva

04.12.2009



Cinza Cinzenta

O fogo passa e revela a verdadeira cor dos homens.
O tempo arde e os cabelos ficam brancos
Quando a melanina se cansa.
As vaidades, as intolerâncias e outras incoerências,
Vão-se com o fumo, toxinas em vapor de água.
Só a verdade fica, cinzenta,
Só a cinza de tons heterogéneos
Onde não se vêem pecados ou passados.
Só ossos mal acabados pelo fogo,
Um anel esquecido da sua inutilidade,
Um dente que persiste no seu brilho dourado...
A cinza que resta, mais real do que qualquer ideia,
Ou deus mudo na hora do
Último estado.
Todos o mesmo fim, todos o mesmo início,
O que está entre é só da sorte.
A cor do meu irmão é a da minha cinza cinzenta
E essa ja não importará.

29.11.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

O Fim do Princípio


Ao meu avô Estevo


Começo e com isto condeno-me a mais um fim.

Anjos que caem como frangos depenados de patas abertas
Expondo o vazio para o ginecologista de cutelo.
Chuva pesada que espalha gordura divina
Nas rochas de granito sagradas que a chuva não apagou.

As nuvens incham, mulheres que se casam,
Mulheres que nunca se casaram,
Mulheres que foram visitadas
E lhes deixaram uma estranha presença familiar.

Tudo para cair.
Tudo para deixar de ser.
Tudo para se tornar a ausência do que se foi.

Pétalas de rosa podres com o seu cheiro a cemitério,
A cera de uma vela derramada sobre o mármore,
Sólida ejaculação de um deus de dor,
Presença impossível do que torna tudo ausência
Com o seu toque da vazio onde a alma deveria estar,
Caixão aberto fechado pelas lágrimas que cegam
E levam o que está, o que esteve...

Mais um fim que se torna real,
Deixando atrás de si o rasto de uma existência desnecessária.

21.11.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Ode à Merda

É boa esta hora, é boa, muito boa!
É a hora que tenho, a hora que me resta,
Até às horas que as mãos nunca tocarão.
É boa, é, uma boa merda, é o que é.
Despejado, esquecido de que cano de esgotos,
De qual a sanita, de que cu de deus.
Eu, uma hora com corpo, uns sessenta relativos,
Um clarão de consciência inútil na noite universal.
Venham-me com horas boas, venham-me com momentos
Que fazem valer a pena e se vão cobardes,
Tornando-se pedras no saco da melancolia!
Venham-me com mais dessas mentiras contadas às crianças que procriam!
Mandem-me dessa merda à cara!
Pelo menos sente-se que é mentira, que é algo.
É hora é, é hora, mas já não é mais a mesma.
O tempo como uma puta que nem acaba de foder um cliente e já tem outro no cu,
Por todos os lados a entreter, a entreter, a consumir e mandar pelo cano dos esgotos
A merda sagrada dos deuses que somos nós,
Não deuses, a merda da sua impossibilidade,
Digeridos por uma imortalidade improvável,
Caídos num monte maior, sempre convencidos de que especiais,
De que únicos, com parte de um pedaço dentro que se confunde,
Dentro de outro pedaço parte que nos faz confundir...
Todos um grande pedaço de merda!
É boa hora é, uma hora para fingir de deus e cagar um poema.

13.11.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Trás-os-Montes


A Miguel Torga e Sebastião Alba.



Das fragas quentes, cobertas de musgo como esfregão verde,
Dos horizontes turvos pela canícula do meio da tarde,
Onde as montanhas rasgam a monotonia e penetram na atmosfera,
Do monte rasteiro e tímido que resiste como os avôs,
Dos rios pequenos que se tornam no grande e se corrompem no fim,
Dos castelos esquecidos nos altos do presente,
Disto e de muitos com quem partilho o magma quente da vida...
A minha terra.

Dos toscos berlindes dos deuses, esquecidos desde o tempo da criação,
O meu olhar tem o tamanho do mundo,
Um mundo maior que as páginas impressas com o atlas mundial,
O meu olhar mais forte que Atlas,
O meu olhar mais rápido que qualquer pedaço de lixo ordenado para voar,
Viajando à velocidade da luz de aldeia a aldeia, montanha a montanha,
De Portugal onde me sento à Espanha, que o calor da distância cobre de cinzento quente.

Nenhum rei tem um trono como eu tenho!
Granito dos gigantes, esculpido pelos milénios de erosão,
Antes de qualquer deus ou ideia de o inventar.
Tenho pena dos que não existem no meu mundo,
Ignorantes da grandeza disto tudo, tão grandes se julgam na sua jaula de betão,
Apertados contra uma existência de horários e monóxido de carbono,
Com tanta pressa de chegar que se esquecem que é o caminho que vale a pena.
Serei torgueiro, mas livre e dono do meu caminho,
Desprezando qualquer fim e acumulação de inutilidades no nada.

Incapaz de produzir o prodígio de um carvalho inesperado
Que nasce de uma ínfima fenda na rocha granítica,
A abre como a mais difícil das mulheres,
E dela se torna existência,
Escrevo, tentando acompanhar, lado a lado,
Os passos que o vento não apaga, do conterrâneo que o espaço apagou,
Mas o tempo não apagará, enquanto houver gente,
Fragas inconscientes, giestas inocentes, torgas resistentes,
Palavras persistentes na dureza desta terra maravilhosa.

09.11.2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Lixeira

Aqui perduro, sentado neste monte de lixo,
Olhando as memórias e os tesouros que foram,
Hoje merda, hoje longe, só o cheiro...
Rei do universo que apodrece,
Nesta montanha fumegante, bêbedo, confuso de tanto que me pintou.
Perdi a cor, entre pedaços lascados, pinceladas aleatórias, obras delinquentes,
Temporais de arrancar a pele à alma.
Tenho a cor de uma lixeira a arder.
Montanhas da acumulação de anos,
Ondulando à minha frente, vales pequenos à minha frente,
Onde se esconde o que ainda virá.
Aqueles boxers que de tanto os usar se abriram nos elásticos,
Com os ursinhos que a minha avó achou adequados,
Que abriram pernas como se fossem cuecas de homem,
Naquela vareta de guarda-chuva, como uma bandeira de ejaculações gloriosas no vazio.
Aquele boneco que alguém me enterrou por maldade, como se fosse a minha infância,
Ali à vista, com a sua presença inalcançável,
Como todas as tardes de cabra em cima das fragas, sentindo a liberdade na brisa do sol,
O mundo todo à volta, ao alcance dos olhos verdes.
A bicicleta que me abriu a carne tantas vezes,
Hoje castanha, ao lado dos patins da minha rebeldia, hoje sem rodas,
Com os posters das actrizes a cobrir-lhe a miséria, esfarrapadas, abertas, como as de carne.
As revistas de banda-desenhada, mais preciosas que bíblias, com os heróis mais verdadeiros,
Mais presentes, mais vivos que todos os escritores, de cores em punho,
Prontas para me dar cor à vida, mãos que moldaram a massa quando ainda era moldável.
“Com grandes poderes vêm grandes resposabilidades.” e eu sem poderes para poder com isto tudo.
Hoje sou rei deste monte de merda preciosa,
Que se confunde, que perde o brilho que teve nestes olhos cansados.
Há anos que devia ter deixado de tentar.
Já sou imortal, só falta vir a morte e que olhos se abram para esta lixeira,
Esta merda que me habita, onde me sento sentado,
Com o olhar de horizonte limitado pelos fumos dos anos perdidos,
Com a vida a deixar de consumir e a consumir-me.
Perduro, duro, seja o que for que é preciso, frio, fórmula do homem,
Iludido... com os vapores do seu lixo que fermenta.
Sou o rei deste universo, o seu único habitante,
A única testemunha que lhe cria a existência,
Numa quase impossibilidade dando vida a esta massa viscosa que se arrasta pela realidade.

João Bosco da Silva

Savonlinna

22/10/2009

Quando era pequeno gostava de dinossauros,
Depois percebi que as pessoas também morrem
E passei a gostar de pessoas.
Percebi que deus não pode morrer
E deixei de acreditar nele.

João Bosco da Silva

10.10.2009

Rantasalmi