segunda-feira, 6 de setembro de 2010


Pela Estrada Fora

a Jack Kerouac

As imagens que se tem engolido pelos anos do que passamos, tornam-se em pedaços do espelho partido,
Roubado ao universo e no fim de contas só a barba de Walt Whitman era universal,
Ou a barba de Allen Ginsberg, de um universo mais seu, mas do mesmo tamanho de qualquer outro.
A estrada faz-se mesmo que sentados à sombra de um cedro a ver as carrinhas a passar, cheias de gente morena,
Cheias de sol na ferrugem, com o cheiro a uvas no ar, até se perder na linha que os olhos cortam.
Se fosse jovem, deixar-me-ia cair da cama para o vazio, abraçava-o sem medo, cortava todos o cartões,
Esquecia todas as moradas, todos os números, todas as lições inúteis que não foram ensinadas na vida,
Partia para a morte certa, porque toda a morte é certa na vida que se vive sem as correntes
Que nos dão como os objectivos da vida. Quem já viveu a vida de outro para lhe dar indicações?
Segue o teu caminho Jack, esse que se vai criando à tua frente, com a pele salgada das mexicanas,
Das adolescentes doces e loiras, inocentes algumas, das noites loucas de Denver, o regresso louco a Nova Iorque,
Sempre o regresso, apesar de a estrada ser sempre em frente, o teu professor em Nova Orleães,
O professor da vida, o único estudante real e possível da vida, a fuga para o fim da viagem sem destino.
Imagens, de vidas, da vida que vai desde as terras mais frias, noites chuvosas em Estocolmo,
Noites surreais, brancas e ultracongeladas de São Petersburgo, horas vazias, gastas a tiros de cerveja quente
Na Europa que nos roubou tantas vezes no passado, a fuga dos lábios roxos de Bordeaux para a noite de Paris,
O hálito confuso nas ilhas da costa Africana, aromas andaluzes, escoceses, minhotos...
A visita a Kansas, logo ali, à mão da noite fria Europeia e afinal os filmes americanos nem sempre filmes.
O cabelo empastado pelo suor de tantas imagens, sem nunca se ter visitado a Interzona, tão próxima,
Tão longe dos olhos que se abrem todas as manhãs desde o princípio dos tempos.
Imagens da branca Helsínquia, tão aparada que dá vontade de passar as poucas horas de Sol de Inverno
A acariciá-la com as solas encharcadas de Finlandia ou Suomi viina, se não der para melhor,
Se a vontade não chegar para querer percorrer o interior doce e quente de uma alma livre.
Sei que Picasso teve uma namorada finlandesa, apesar de ter sido um sueco a dizê-lo,
Tinha uma bicicleta e vestidos de tecidos leves com flores estampadas na brisa leve de Julho.
Quem se perder no caminho, pode dizer que finalmente se encontrou.
A primeira e última vez em Barcelona, com os olhos demasiado sedentos de tudo em pouco tempo,
A promessa do regresso que ficou pendente no parapeito e gelou numa manhã da Terra Fria,
Apesar dos convites italianos, dos olhos castanhos e quentes do longe de aqui.
Seja no Bom Inverno, ou no Inferno Mau, há dias em que imagens nos dão mais ao que diziamos ser,
Mais uma quebra num pedaço de espelho já partido, mais uma pincelada no quadro abstracto que só nós,
Ou melhor, nem nós compreendemos. Somos arte, não tem que ter um sentido, é um caminho,
Dos caminhos de Jack, com um destino quântico, pela estrada fora.



06.09.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva

sexta-feira, 3 de setembro de 2010



Aqui Nunca É

Ali sim, seriam todos felizes, aquele lugar antes da chegada,
Antes de os pés marcarem com a presença física , ali sim,
Onde só o sonho é ainda, onde só os olhos chegam a muito custo
E não é o que dizem ao cérebro que vêem.
Pregam a alma nas árvores brancas, como se o apocalipse viesse com as estrelas,
Como se valesse a pena ficar para o vazio,
Deixam os cães soltos com medo dos salteadores que vivem dentro da gente,
Cortam o verde com medo de que a amargura não venha,
Vem sempre, às lambidelas ácidas nas feridas que ficam pelo caminho,
Abertas e as moscas, sempre moscas, negras de olhos demasiado olhos para a consciência,
Cospem nas sagradas memórias ainda a latejar na pele do que se é.
Mas ali sim, ali todos terão tudo, quando ainda vem dentro o desejo,
Ali, onde os lagos são como o ventre quente de uma terra fértil,
Que recebe os corpos cansados das violências do dia que morre, lentamente,
Até ao pescoço, com os olhos lá longe e a fazer crescer o indivíduo pelo horizonte,
Quebrando o limite do, sou da pele para dentro, até ao fim, além que foi ali.
(Sou dos olhos para fora e o que dos olhos me vem.)
O tempo aumenta a impossibilidade da distância e só o perfume traz o que ficou,
Só o olhar tenta dizer o que se cala, só a dor, a dor dá comprimento aos braços para o abraço de longe.
Agarram-se com os dentes ao que não se é, sempre em qualquer lugar, menos ali,
Sempre má, sempre má e a culpa é por não se estar ali.
Condenados do dia e da noite até ao aqui onde não se estará,
Por fim uma paz, ou nada, quase ali, ao lado da incerteza, quase no sonho, no fim que nunca se toca.

03.09.2010

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

segunda-feira, 30 de agosto de 2010



Koskenkorva


longe sente-se perto


As ruas amplas, brancas com cortes sujos, sinceras e frias,
De Inverno, de Kemi, às portas do fim-do-mundo,
Com as noites mais largas do mundo dos seus visitantes.
Não se consegue mastigar um ar assim, não é para mastigar,
Tem que se esperar pelo calor das luzes nocturnas,
Da escuridão infinita além, onde o gelo torna os passos dos sonhos maiores,
Para se poder engolir a loira da recepção do hotel, ao ritmo de uma garrafa de Koskenkorva.
Às seis e meia da manhã, não existe ninguém além telefone,
Só os olhos nos olhos e abraços com demasiado corpo e a ilusão de um romance instantâneo.
Trazem-se estes pedaços de gelo cravados na carne,
Com um prazer orgulhoso, uma dor só pela distância, uma saudade de longe de casa.
É Verão no Inverno de Kemi, hoje bolsos cheios a pingar, aos poucos,
A deixar a vergonha das calças molhadas, maior por ser água fria
E a vida corre e olha e ri, com os olhos demasiado para fora do sul,
Tão fora que só olham a superfície imediata e mesmo assim: infelizes.
Está tudo em ti, tudo depende de ti, dizem os olhos azuis, o hálito de álcool,
O dourado no pálido de Inverno, que se adivinha mais dourado em mel nos verões verdes.
Só vêem aquilo que tu vires em ti, dizem as ruas apressadas pelo frio,
Os carros que passam timidamente pelo gelo, as amigas que se beijam só quando alguém vê
No bar quando o corpo pede outra luz, outro calor, o fim do silêncio do dia.
Quantos quilómetros se podem trazer dentro, quantos anos, quantas pessoas?
Uns olhos, só uns olhos que ninguém vê, que se fecham, que encerram mundos,
Que ignoram portas, que se enganam com sonhos e não param, não param,
Enquanto se atravessa Kemi, de madrugada, com o sabor loiro ainda nos lábios frios.


30.08.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva

quarta-feira, 25 de agosto de 2010


Noites Do Fim


Há noites que são eternas e há noites que são irreais,
Que se colam à pele, que insistem em existir, contra a vontade do luar,
Mesmo que os barcos tenham sido engolidos pela tempestade
E o mar vazio, mesmo que o rio tenha morrido e esse morto parido um pântano
No momento em que lhe parava a água.
Há noites que marcam como uma tatuagem que não se queria
E fica, presente no nosso cérebro, nos olhos dos outros, cegos pela luz do tédio.
Há noites que deviam acabar com elas, que deviam deixar-nos dormir,
Que deviam apertar-nos a almofada para dentro dos sonhos e adormecê-los também.
Os olhos que parem, os olhos que também parem fechados imagens para dentro,
Resíduos, lixo, tudo lixo, sempre lixo e no fim o abismo a derradeira lixeira.
Se ao menos ainda se conseguisse ouvir a brisa quente que traz os aromas amarelados,
Hoje numa noite quase a mesma, quase os mesmos números,
Não fosse o peso do pó, do pó que se trouxe de longe, que se traz há muito tempo.
A chuva de Estocolmo não arrefeceu a fome das noites eternas,
O vento não levou a vontade da carne aberta, da doce carne nórdica,
Só as raposas raivosas que se agarram às pernas por um olhar vivem nas noites
Irreais no mundo onde se plantou o vaso, tão cheio de lixo, de terra e terras, de vidas e mortes,
De carnes que não ficaram, hoje só umas cicatrizes no tecido que não se regenera.
Bebe-se, bebe-se e anula-se o tédio com a aniquilação de qualquer sentido,
Qualquer fibra de vontade, qualquer desejo a dois passos e fica-se…
Fica-se numa noite irreal, que se cola à pele, sanguessuga negra a engordar com o sangue ébrio,
Onde os lobos morrem de fome, sem brilho nos olhos, sem uma lua que lhe mereça os uivos.
Os barcos afundam-se nas trevas, nas águas baixas e negras do rio que vai morrendo,
Os sonhos nem se vêem com tanto luar a afogar as estrelas.
Há noites que não valem a pena, que deviam ser passadas num autocarro
Que atravessa as montanhas, as casas em ruínas, as terras moribundas e as pontes esquecidas,
Em direcção ao dia de um mundo novo.

25.08.2010

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

terça-feira, 24 de agosto de 2010


Respiração de Cheyne-Stokes

morte de um poema,

Depois de o mundo ter encerrado o seu tamanho,
Os lábios azuis em despedida, os olhos fixos no vazio amarelo que antecede a verdade,
A clareza de não ter valido a pena faz ofegar uma alma que se prepara para desaparecer,
Já longe da solidez dos dias de sol, das gargalhadas dos primeiros cabelos brancos,
Da água dos primeiros verões, nos rios ou nas praias vazias cobertas de toalhas.
As mãos ao lado do corpo, inertes, os pulmões a tentar agarrar o ar com a violência
De um precipício, um precipício que agarra os pés, pingos gelados,
Sem mãos para a avalanche de nada que aí vem.
Inspira, expira, inspira, expira e mergulha… o dióxido de carbono nem se sente,
Aumenta, torna cada vez mais longe, aproxima o inevitável.
Inspiração, já que ainda não foi desta, já que mais um segundo valia a pena
E agora, já tão longe, cada segundo um ano luz de distância,
O corpo, cada vez mais vazio, as mãos já vazias, sós
E os segundos que contam aqueles que não serão, que ficarão numa expiração eterna,
Na resignação do corpo cansado pelo peso dos anos,
Lacerado pelas lâminas de granito da calçada, abusado e abusador.
A insuficiência cardíaca não é desculpa para mãos vazias,
Houve amor… haverá amor?
A vida não sabe tão bem a conta-gotas, a hora da morte mostra bem a agonia
Dos passos lentos, arrastados, viscosos, com medo dos últimos, de olhos nos pés.
Expiração porque os pulmões mal aguentam os últimos litros
E o sangue já venenoso a tornar-se morte. Só o coração moribundo
E os olhos no vazio, as mãos abertas à espera da que não vem,
Nunca virá, porque será tarde de mais. Expiração…
A nuca enterra-se na almofada a engolir mais um momento inútil,
O corpo a tornar-se bicolor, a ser cada vez menos, a deixar de ser,
As mãos vazias… Ninguém virá, ninguém virá.
Já há horas que se esqueceu a ilusão de um reencontro,
Há horas que se deixou de acreditar, porque o natural é enfrentar o vazio com a fragilidade,
De mãos vazias receber a eternidade.
Ser esmagado pelo peso infinito do fim, um universo que se apaga,
As estrelas agonizam, vão perdendo brilho, expira, desaparecem na escuridão,
As mãos onde pousa uma mosca à espera, que adivinha, que tem mais tempo na vida,
Apesar de uma mosca, inspira e o corpo estremece todo, sem mãos,
Agarra-se quando já cai no abismo. A mosca nem sente.
Silêncio, a vida de trinta em trinta segundos, cada vez menos,
Entre mergulhos na matéria escura,
O mergulho final aproxima-se, mas ainda não está na hora…

24-08-10

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

terça-feira, 27 de julho de 2010


Último Canto

conde de um castelo em ruínas

Cantam tão longe que eu nem sei se é dentro,
Se é som mesmo, ou algo mais além do que se sente,
Mas se algo mais é nada, impossível e eu louco ou morto como se espera ser quando....
Cada página nova revestida dos fumos que os olhos inventam
E nada, sempre nada, mesmo que as gotas de água chamem o calor de volta
E façam a pele retalhar-se em pequenos momentos,
A ser memória, de carne, de fora, com o vapor e o cheiro à sombra de uma figueira.
Judas sabia que só à sombra de uma figueira, se pode ignorar o cheiro a negro
Que a corda excreta quando o pescoço não engole o remorso.
Cantam, mas não é canção de gente, é a canção do que nos leva,
Das ruas de longe onde acabam nos comboios para a eternidade.
Se as ruas fossem da gente quando o sol aparece cansado no fim do dia,
Em vez de formigas de asa apressadas para o fim, negras mesmo que no ar,
A tentar fazer pontos no sol, pontos negros que ninguém sente,
Passam e nem uma casa a ser ruínas para trás, convencidos de que os castelos são para sempre,
Quando nem os nomes são eternos.
Acumulam-se pelos paralelos antes da fronteira as beatas de lábios desconhecidos,
Partilhados entre eles em horas perdidas, comidas pelos silvados que cobrem o granito,
Criam o mistério até o rio ser maior que linhas imaginárias.
Nem a primavera ouve esses cantos do inferno, como se o inferno fosse possível mesmo no verão.
A ansiedade dos pássaros vibra na canícula das últimas horas
E mesmo assim não sentem a chegada dos ouvidos do futuro.
Até as paredes surdas neste momento, só olhos de burro fascinados por palácios de papel.
Cantam e sei que nada interessa a não ser o que vejo cantar,
Mesmo que seja a canção de uma embriaguez entre galochas e pêlos púbicos descuidados,
Que nos acolhem da mesma forma, menos perfumada mas sincera.
A sinceridade é uma palavra, mas pode ser muitas palavras,
Poucos o sabem, porque se canta longe, onde o horizonte é nu e ácido,
Além das ruas de longe, à beira do rio dos mortos de joelhos cansados de pedir ao céu
Uma chuva mais purificadora que a água das pias,
Uma chuva que seja linfa nos corpos de alma doente.
Cantam tão longe que me parece ser onde é exclusivamente possível tudo,
Só pode mesmo, apesar de sentir o sistema límbico a ser mais eu que eu.
Se isto é real, é o indicador esquerdo com a sua colecção de cicatrizes,
De quando ainda se tinha medo de morrer quando o sangue se apresentava
E confundia com o seu cheiro enjoativo a ferro e vida.

27.07.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 23 de julho de 2010


A Casa Assombrada

contra a vontade, sem motivação ou inspiração


O teu jardim não te espera e as orquídeas de vinte espécies diferentes,
Com a sua beleza humana a ser absorvida pela real.
Tão pouco tempo e o verniz das unhas já de um rosa ridículo e frágil,
Lascado como se fosse um estranho relógio de erosão.
Como consegues abrir os olhos e olhar o vazio para dentro?
Do que gemes se já ninguém te habita? És uma casa assombrada?
Choram por ti as tuas lágrimas, que bem se vê o peso de cinquenta anos
Nas rugas e nos cabelos brancos, bem se vê nas lentes que engordaram, bem se vê...
Será que o cão sente a tua falta ao pé do prato esquecido?
O sol sempre disse que não vale a pena, que amanhã será outro e hoje é nada,
Amanhã já cá ninguém estará dos que anoiteceram o dia com os olhos a fechar.
Agora não te queixas das dores nos dias frios ou da gordura que te distancia do que és dentro,
Agora deixas escorrer a luz por entre os dedos com uma indiferença de cadáver
Na praia com o nariz e as orelhas comidas por cães vadios.
O relógio de parede na sala continua, indiferente, outros suspensos em horas mortas,
Enquanto a vida insiste em ser chamada pelo nome.
Apesar de tudo, a cor do cabelo torna-se sincera.
Nunca imaginaste que um dia, sem ser tua vontade, te ias suicidar.
O corpo é que sabe e é quando lhe apetece e quando não é ele,
Somos nós por inteiro e um mau dia a fechar a ilusão de que nada melhor.
Se soubesses que te ias matar sem o teu consentimento de deus mortal,
Tinhas bebido mais, ficado até mais tarde, fechado os olhos e sentido o corpo todo aberto,
Como se o corpo todo braços que recebem o abraço da vida.
Nunca tiveste os pelos das pernas tão compridos nesta época do ano:
Contam em milímetros a distância do tempo onde te afogas.
Se soubesses que te ias matar tinhas dito mais vezes que sim,
Faltado mais vezes ao que não faz falta e ignorado o que nem te toca de verdade.
E agora? Respondes com o olhar fixo no infinito, um suspiro fora de horas,
O azul que também pode estar morto, mesmo que ainda hajam lágrimas que esperam.
Agora, estás e não és mais quem foste, nem aquela ligeiramente diferente de mais um dia.
Agora, és só o que os outros dizem que foste, mesmo que às vezes pareça que estás,
Mas és tão longe nessa pele que se esquece do toque do sol.
Agora, as orquídeas não te esperam, nem sentem a tua falta,
Continuam floridas enquanto o orvalho as visitar depois da noite onde tu não moras.

23.07.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 5 de julho de 2010


A Corrida Dos Invisíveis Antes De Horas


Correm quase invisíveis na sua pressa infeliz,
Já são não sei que horas e por isso atrasados,
Todos eles atrasados, convencidos de que um passo mal dado
Agarra o tempo que se perdeu e se perde, sempre,
Se escoa pelo ralo, passando pelos cabelos que caíram, os que se arrancaram,
Por serem brancos e sinais do tempo que passa,
Pelo ralo, num vortex que se ignora com a pressa nos pés.
Correm e saltam pelos paralelos metálicos e quentes como a borracha,
Deixando um ar desgastado ao dia, apesar de ainda não serem horas de tal,
Mesmo que a luz ainda esteja límpida apesar dos cheiros confusos,
Das horas que já passaram, que já se esqueceram.
Correm e eu não sei para quê, sei que há sempre tempo para lá chegar
E que é sempre demasiado cedo.
Quando o dedo percorre o horário dos comboios até ao fim,
Toca o relógio e já não haverá mais que o último que acaba de partir,
Haverá um amanhã que chegará a tempo, se ainda lá estiver à espera,
Com o vestido de hoje na brisa quente do verão da sua varanda,
A olhar, à espera, do atraso de mais um dia.
Correm e as pernas parecem que se esticam, ficam tão compridas,
Que eles lá em cima, a fazer sombra cá em baixo e umas pernas finas,
Que mal tocam o passeio, que atravessam a rua sem lhe deixar rasto,
Apressados para pousar a chavena de café, ainda quente e já vazia,
Despedem-se com um olá e mal se tocam, nem com os olhos,
Porque a pressa está sempre em frente, sempre em frente,
Como se não houvesse algo mais do que sempre em frente.
Nunca ninguém esteve lá à frente e é daqui que se pode ver isso,
Sempre daqui, que não serve para mais nada a não ser correr e ter pressa,
Para chegar aos cabelos brancos, às rugas, ao cansaço e às dores,
Ambas as dores e outras que julgavamos ser invenções dos que já cá estavam antes de nós,
Porque a gente sempre foi e sempre será gente, com pressa, sempre,
A correr para chegar antes que o jantar arrefeça,
Dormir à pressa antes que a cama aprenda a temperatura do corpo,
Tocar apenas o essencial para um orgasmo e dizer boa noite num silêncio de papel,
Agarra-se a roupa antes de ela cair no chão e já o suor está a secar,
Tudo à pressa, não chegue gente, não acordem os meninos,
Não acabe o tempo que se gasta com a pressa, com passos inúteis para chegar
Onde não interessa, onde há sempre tempo e se ganha a vida, perdendo a vida.
Não sei que sabedoria encerrará o das barbas compridas, sentado na relva do jardim,
Falando com as pombas, olhando os seres invisíveis, de mão estendida,
A pedir um olhar, um pouco de tempo, um alívio para a solidão de uma cidade
Que corre e ainda não são as tantas horas e ainda não chegou o próximo autocarro
Para a próxima paragem e mesmo assim, ofegar na sombra metálica da paragem,
À espera, com o cheiro de suores alheios, à volta, sem donos,
Partilhar o tempo com desconhecidos apressados, acompanhados de sacos, malas e jornais,
Alças de plástico que marcam palmas suadas, o peso de uma vida,
Ovos, pão, bananas, sabão, uma garrafa de vinho para acender a luz
Enquanto entram pela janela gritos dos vizinhos, das sirenes, do sol que se despede
E se vai triste por ninguém o ter sentido na pele, por serem todos invisíveis,
Correndo por entre os fios de luz, sempre pela sombra do seu interior,
Onde só se houve o tic-tac do relógio de parede, na casa vazia, que não espera, está
E ainda não são horas, ainda se escorre, se escoa e os cabelos transparentes no ralo.


05.07.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 30 de junho de 2010


Poema De Doer

entre a inspiração profunda e o suspiro desiludido,

Começa... do nada, surge inesperado, do vazio
Para um vazio visível e torna-se real para dentro,
Sente-se, mesmo que noutra carne, de outra forma,
Sente-se, apesar de não se sentir de verdade.
Não tenho nada, só a revolta afiada dos anos inúteis,
Para entregar ao barqueiro na hora da minha morte, amén.
Enterram-se as unhas metálicas no peito desprotegido,
Bem fundo, até onde mora a gente, até onde se diz que o infinito chega,
Puxa-se tudo cá para fora, deixa-se a pingar, dor, dor brilhante ao sol, vermelha,
Chamando as moscas sádicas de asas de vidro, num postiço de morte acidentada.
Onde está o que está, se ainda está? Sou eu isto? Raios, afinal já não!
O cordão umbilical estica, estica, estica... e nós já de pé, de cabeça erguida,
A caminhar em frente, a caminho dos abismos, trocando passos com mortes,
Partilhando a cama com portas fechadas e becos sem saída,
Agarrando razões erradas, tomando sentidos duvidosos,
Desejando o equivoco e a ilusão, esquecendo a real raiz... e estica,
Sabendo que o limite chegará e não se sabe quando, quanto. Partiu!
Começa sempre, como um acordar e um vidro estilhaçado no meio da noite,
O vento a entrar e as cortinas assustadas aos gritos silenciosos e brancos,
Pálidas no reflexo do medo, onde não moram gatos a estas horas.
Enchem paredes de crânios, enchem paredes de anónimos,
Enchem-nos os crânios de nomes, encostam-nos os olhos à parede,
Passa-se a vida até que partiu, cegos e depois cegos e anónimos,
Numa parede qualquer, confundidos com a multidão... mas eu fui especial,
Dizem as órbitas vazias aos olhos que adiam a escuridão.
Deixa... não vale mesmo a pena abrir a porta e sair.
Mesmo que o sol te chame, é a noite que te espera.
Mesmo que um sorriso te cative, são as lágrimas que se despedem.
Não sei... mais café? O dia ainda está a acordar e já é tão tarde
E eu tão cansado e o mundo tudo o que eu fiz dele ao abrir os olhos
E eu que nem ser mitológico, nem costas largas para aguentar com o peso de tudo.
Morre-se, é isso. Morre-se, aos poucos, convencidos de que vivemos.
Fui morrendo até que morri. Viver só no momento em que dois corpos partiram o vazio,
Rasgaram o lençol negro que se abriu e um pouco de luz, durante tão pouco tempo,
Que se duvida se alguma vez naquelas órbitas vazias o mundo todo.
Albuns de fotografias que se fecham na eternidade,
Memórias que se despejam no pântano do esquecimento, onde moscas de asas de vidro,
Num roçar de rebentar timpanos, numa língua purgante,
Onde se confunde o cheiro do amor com o do sangue, da bílis, da carne queimada,
Da carne necrosada pela isquemia do tempo,
Dos sexos que se confundem num som viscoso, num ritmo que acelera, do esperma,
Da saliva, quando seca na pele salgada e suada ao longo da vida,
Enquanto crescem as rugas que chovem do tempo,
Do cabelo cinzento que surge da terra ao lado da enchada, um arrepio, da doença, do álcool,
Dos joelhos que rezaram para passar o tempo, o tempo que passa sempre,
O cheiro da humanidade despejada, depois do mundo se fechar para dentro, para sempre.
Agora deixo-vos, nas vossas palavras eruditas,
Que a simplicidade absoluta encerrará ao lado das minhas,
No escuro, onde tudo é negro, onde não interessa o brilho que se apagou.

30.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 27 de junho de 2010




Vindima

1ª edição, 1945

A vinha do meu pai não está em Paris, nem parece um jardim.
A vinha do meu pai não é a Vigne du Clos Montmartre,
Mas podia ser se estivesse rodeada pela capital francesa,
Se tivesse cheirado a invasão alemã e tantos gritos derrotados,
Vencidos pelo silêncio eterno na cidade das luzes,
O mesmo silêncio dos que enchem as catacumbas.
A vinha do meu pai nunca conheceu artistas famosos,
Só artistas que nem eles sabiam que o eram, ou são.
Ainda serão, na sua aldeia pequena, ainda viverão a sua vida de todo tamanho?
Acordeões também a vinha do meu pai ouviu,
Lá do meio do monte, nas noites de romaria, no Verão ou no Inverno,
Quando o pagão se funde com o sagrado e se torna realmente mágico e intemporal.
Acordeões que traziam gentes das terras vizinhas,
Alguns que até tinham estado em Paris, outros que viviam lá o resto do ano.
A vinha do meu pai já ouviu falar da Vigne du Clos Montmartre,
Mas a Vigne du Clos Montmartre, nunca ouviu falar da vinha do meu pai,
Por isso em algo é mais ignorante que a vinha do meu pai.
A vinha do meu pai conhece coelhos, lebres, javalis, raposas, cães, gatos, gente...
Não creio que javalis atravessem Paris ultimamente,
Raposas, só as que enforcam a dignidade de algumas senhoras,
Coelhos só os dos menus onde “lapin”, os que aquecem quem nasceu pelado,
Ou os que são tratados como os cães e os gatos, fechados em caixas ainda mais pequenas,
Com os olhos vermelhos pela escuridão da cidade das luzes.
A vinha do meu pai também é uma sobrevivente,
Do tempo em que Vinhais foi baptizado.
A vinha do meu pai conheceu quem não quis ir para a guerra,
Respondeu-lhe ao gritos solitários e à fome desesperada do esquecimento.
A vinha do meu pai foi comprada pelo meu avô,
O irmão do meu avô era emigrante em França, regressou definitivamente,
Agora está ao lado do meu avô, coberto por uma terra que é a mesma,
A mesma da vinha do meu pai, a mesma da Vigne du Clos Montmartre,
Longe de iluminações, cobertos todos pela terra que cavaram.
A vinha do meu pai já teve o seu vinho em Paris,
A Vigne du Clos Montmartre nunca teve o seu vinho perto de Vinhais,
Nem sabe o que é o rio Tuela, nem conhece as enconstas que em tempos,
Dizem, pareciam as do Douro.
A vinha do meu pai suicidou o meu avô, a Vigne du Clos Montmartre,
Não chega para matar tanta gente.
A vinha do meu pai está rodeada por estevas, urzes, carrascos, giestas, castanheiros, cerejeiras...
A Vigne du Clos Montmartre está rodeada por uma rede verde,
Carros estacionados ao longo da Rue des Saules e da Rue Saint-Vincent
E árvores asfixiadas pelo cinzento.
A Vigne du Clos Montmartre é mais conhecida que a vinha do meu pai,
Mas não é maior, nem produz mais, nem melhor suor,
Apenas se lhe dá mais valor, por ser da Vigne du Clos Montmartre e não do meu pai.

27.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 18 de junho de 2010


Aquele Homem Que Viu

Não interessa! Não interessa mesmo, agora só infinito
E nada, porque tem que ser e afinal estava certo.
Ele o saberá, ele já o previa, ele já não sabe nada,
Não fosse o papel marcado pelo brilho das suas sinapses,
Que ainda nos ilumina a cegueira.
Aprendemos alguma coisa? Não?
Só nos resta ressuscitar o que ficou escrito, ouvir as palavras mudas,
Chorar lágrimas inúteis, gritar ao deus surdo, cego e mudo,
Aquele que alguém inventou para vendar a dor dos olhos,
Para enganar a humanidade garota, agarrada a tradições de garrafa de refrigerante.
Não interessa, agora nem o branco leitoso, agora só a escuridão que ninguém vê.
Quem dará voz ao mortos, quando deus nunca nos criou?
Quem fará do povo um, pelo oceano fora, quem irá agora fazer a autópsia do povo vivo?
Fecham-se os olhos, não se calam palavras de quem viveu de olhos abertos,
Por isso não interessa. Não interessa! Só a prova de que afinal estava certo,
Por isso não saberá que estava certo.
Dói, dói mesmo, mas isso só aos que cá ficam,
Sujeitos a analgésicos ridículos de almas fracas e finitas,
Com ilusões de eternidade.
A carta lá estava em cima da mesa e neste dia, muita gente morreu,
Muita gente quando uma só se resignou à vontade do coração cansado.
Foi esta a última viagem, mas não interessa,
Foi única e gloriosa. Quem não acordou é porque nunca nasceu de verdade.
Resta ter pena, resta sentir que algo nunca mais,
Algo em nós menos e palavras que ficam, como ecos de uma vida merecida,
Que nem a morte calará, essa filha da puta que tem a mania do silêncio.
O nome?Não interessa! O homem cá esteve, entrou em nós
E tristes dos que só são tocados pelos nomes. Nomes não morrem,
São frios e repetem-se. Não interessa, agora, neste momento,
Sei que a razão disto tudo foi por sonhos de loucos.
A morte não interessa! Espera-nos a todos, mas nem todos vivemos acordados.
Dorme bem, ó Grande! Dorme bem que agora és do tamanho da eternidade
Debaixo da vida que plantaste em folhas verdes.

19.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 13 de junho de 2010


O Burro De Zaratustra

Se a noite não deixasse cair tanto ao mesmo tempo
Só porque a escuridão lhe permite abusar dos olhos cansados,
Eu até podia respirar e deixar-me ser até à madrugada dos cegos.
O verde diz-me que está tudo para acabar, sempre,
Nunca esteve de outra forma, ou não estaria nada
E eu a duvidar da sua verdade longe da areia.
As leis dão-me vontade de ladrar bem alto,
É verdade, dá-me vontade de ser cão entre estes burros todos,
Que nem me deixam ser dono da terra onde for morrer,
Nem me permitem ser a minha incoerência individual,
Querem que todos orelhas compridas e ruminates de pernas curtas,
Querem que todos os ouçam na sua voz de deus,
Que cortavam o ar das manhãs na aldeia antes do sino dar as sete.
Iiiiiiióóóóóóóó iiiióóóó iióó iióó ió ió íó ió,
Amén e vamos todos para casa fingir que cumprimos com a obrigação,
Apagar a luz e abraçar a escuridão para poder gemer como antes da televisão,
Ou visitar a vizinha se o marido estiver hoje a trabalhar de noite e ela tão só,
Todos tão humanos e sempre tão vazios,
Sempre com vontade de alguém que nos mostre algo novo em nós,
Sempre crianças fartas dos brinquedos que temos, porque os outros sempre melhores
E é verdade, é sempre verdade, não fossem já as duas da manhã,
Com o verde a mostrar a carne de longe que hoje dorme e já não cheira ao meu abuso.
O que não fazem uns lenços de papel para apagar marcas de dois corpos confusos
Numa madrugada indecente e com cheiro a animal na época do cio,
Nós sempre, sempre, sempre e amén.
Hajam arraiais e fogos de artifício para esconder atrás de muros de granito,
Nos limites da terra onde se sente o cu a rasgar na pedra, de olhos nos olhos com as estrelas
A fazer esquecer os copos de plástico lançados no vazio.
“Não te lembrarás disto amanhã”, como se isso fosse bom.
Quero lembrar-me de tudo, quero que a noite deixe cair tudo,
Que me corte a animalidade antes de levantar a pedra onde dorme o escorpião
Escondido do calor da tarde de Agosto que virá, que vem sempre,
Mesmo que já esteja apagado e só puro, mais puro possível.
Quase ouço daqui o iiiiiiióóóóóóóó iiiióóóó iióó iióó ió ió íó ió,
Mas vindo da solidão da noite, atrás, na nuca, onde a mão cai quando vergonha.
“Para que entraste nela?” Porque assim desejei e estava aberta
E é tão difícil querer verdadeiramente algo, quando os sentidos tão saturados e confusos com tudo.
Se forem já quase duas da manhã e as sete tão longe, ainda pior,
Só os dedos ainda cheios de outras, que já arrefeceram,
Tão presentes na memória das órbitas se passos cansados a encurtar o verde.
Quantos pontos finais desde o cemitério de Montmartre,
Depois de ter acabado já a história e ainda um beijo roubado ao esquecimento,
Fugido de um presente eterno, com o roxo a fazer de verde além da meia-noite,
Com a luzes húmidas e mágicas de Abril em Paris.
Iiiiiiióóóóóóóó iiiióóóó iióó iióó ió ió íó ió,
Vestidos de azul-marinho e com ar de algo que não é de verdade,
Parecem os faróis inúteis numa noite de insónia na praia dos dezassete anos,
Quando o mundo parecia estar na palma das mãos ou a caminho dela,
Vazia e forte na esperança, quando o mundo era algo que se queria,
Tudo tão grande e excitante numa noite longe desta, tão cheia no futuro
E esta que é do futuro, tão vazia, grande só nos sonhos cadáveres,
No sotão poeirento onde o verde é cínico e fecha os olhos lentamente,
Como um assassino solidário, que nos deixa cair de joelhos,
Nos acolhe nos braços até que para sempre e uma linha vermelha a crescer de nós,
Brilhante no luar que sempre só, me acompanha.
As pedras lançadas naquela tarde de sol,
Lá no fundo frias e inertes, para nada e eu à espera de ser pedra,
Lá no fundo ao lado dos que saltaram pela água até que não foi possível mais.
Que mais é possível depois de uma vida?

14.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 6 de junho de 2010


Brinquedos

ao João e ao Rodrigo

Que interessam os brinquedos partidos no sotão de um desconhecido?
As mãos insistem em pegar-lhes, em escrever-lhes uma história no silêncio,
Em inventar um conhecimento do desconhecido, já morto, obviamente morto,
Se os brinquedos estão no sotão, como que esquecidos, tem que estar morto.
Quantos outros se imaginam, perdidos antes da morte chegar,
No mundo onde a vida lhes pode chegar ainda por outras mãos,
Longe da caixa de papelão castanho, onde estão encerrados sorrisos de plástico,
Ecos de tardes ao sol, ou no quarto, se chuva lá fora, até que acalmem as fúrias divinas,
No tempo em que deus um super-herói de um livro antigo.
Realmente não interessa a ninguém este homem-aranha, esta metade de braços abertos,
Como uma peça de arte-sacra, das que não estão à vista,
Das que esperam um restauro, de uma mão que lhe dê a outra metade,
Mesmo que alguém a tenha arrancado e queimado com uma caixa de fósforos roubada.
A ninguém interessa, mesmo que tenha sido o primeiro brinquedo, mesmo que em segunda mão,
Mesmo que partido, entre as folhas debaixo de uma árvore, abandonado.
Onde estará a cabeça do robô japonês feito na china,
Que recebeu no natal de mil novecentos e noventa,
Onde um pedaço de papel redondo, colado com fita-cola, com dois pontos e uma linha curva
A fingir um sorriso que se esqueceu como desenhar?
Deve ter-se partido numa das muitas viagens de mudanças e ficado perdido na infância nómada.
Quantos brinquedos perdidos nessa infância nómada. Só o primeiro nome ficou.
Os brinquedos só têm o primeiro nome, é o suficiente para quando chamamos por eles,
Quando abrimos uma caixa esquecida no sotão de um desconhecido, com a curiosidade da solidão,
No sotão de um morto, porque o pó é já do tamanho de uma vida.
Imagina-se que falta aquele brinquedo favorito, aquele dos onze anos, o que se queria mesmo,
O que se recebeu mesmo não sendo surpresa, como algo conhecido de que se gosta de verdade,
Se pega com gosto, sem a pausa de uma tentativa de fingir um sorriso.
Falta mesmo. Foi para o melhor amigo, no dia dos seus anos, porque assim é a verdadeira amizade.
Afinal não falta todo. Há um pedaço, o único que sobrou depois da amizade se ter quebrado,
Porque os donos morreram. Que interessam os brinquedos velhos de um desconhecido?
Para nada, mas também tivemos os nossos, que se fecharam em caixas,
Que se lançaram na escuridão de um sotão, se cobriram com o pó dos anos,
Se deixaram apodrecer enquanto forçavamos uma cara séria
E esqueciamos como florir um sorriso e inventar um mundo novo.
Que interessam os brinquedos partidos no sotão de um desconhecido?
Não interessam, porque o desconhecido eras tu se estás morto.

07.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 2 de junho de 2010


Regresso Pela Margem

Não deixarei de caminhar, mesmo que os braços pendurados
E o destino uma porta aberta e eu convencido de uma chave no bolso.
A praia nunca mais acaba e a noite já começa a ficar pálida,
Não encontro a minha casa, a destes dias, que casa minha nunca.
Não tenho medo, apenas um vazio à frente onde caminho,
Sempre um passo que no ar incerto, sem saber se será o último,
Mas ainda estou longe, as luzes lá ao longe mais pequenas que estas,
Tudo tão escuro do lado onde os barcos apagam o horizonte,
Tudo tão vazio deste lado onde as ondas rebentam.
Não sei do que estou a fugir, se regresso verdadeiramente,
Ou se procuro um lugar onde não tenha ficado o meu cheiro.
Não sei o que faz o meu fantasma entre aquelas pernas,
Lançando-se sobre a areia num desespero de solitário crónico.
A noite tão vazia, apenas os ecos das gaivotas de um futuro desesperado,
Nas noites que nunca chegam a amadurecer e que acabam
Sem cheiros alheios, tudo desinfectado por um álcool demasiado caro,
Tudo estéril, como um dia de sol que nem deixa abrir os olhos na luz.
Quantas vezes passei aqui noutros lugares, mesmo que seja a segunda vez hoje,
Aqui, mesmo que as ondas fossem só as do vento, são só as do vento,
Ou das crianças durante a tarde, já que o dia fingiu ser quente,
Com as mães à espera de olhares por cima dos óculos de sol,
Inutilmente, já que eu sou dos da noite, dos que esperam até ser demasiado tarde,
Para que na urgência dos últimos segundos, ser obrigado ao mergulho na escuridão,
Seja a escuridão que for. Não, não é coragem, é resignação.
Os passos, onde tantos passos inocentes, onde tantos pecados a fugir da fonte,
Onde mãos dadas como se fosse possível uma unidade daquelas,
Só palmas suadas e a esperança de que seja para sempre,
De que seja até ao próximo avião e depois uma história para contar,
Uma recordação para atravessar noites onde as ondas dormem.
Tenho andado quilómetros em metros, tenho regressado à perdição,
A caminho de casa, tenho saudades das vacas de cortiça, dos aviões de papel,
Dos ovos de chocolate com uma surpresa dentro aos domingos
E toda a semana valia a pena e a desilusão era uma palavra que não servia para nada.
Agora, passam por mim sombras, falam línguas que já esqueci,
Contam-me sonhos que cresceram e se tornaram ridículos,
Quando na verdade o ridículo sou eu a caminhar sozinho,
Numa noite em que tantos orgasmos me esperam onde não estou.
As lágrimas lembram-me que querem sair, mas já me esqueci da combinação,
Tenho bebido o suficiente para manter a tristeza trancada dentro,
Longe do rebentamento das ondas, longe do silêncio das gaivotas, que não dormem,
Apenas noutro lugar, lá fora, onde as crianças brincaram.
Se conseguir chegar a casa, escreverei algo para provar que há momentos inúteis,
Que o regresso é só rebobinar outra partida,
Que as crianças são só presente, mesmo que lhe ponham o peso do futuro às costas.
Tenho vivido o suficiente para saber que agora é só um esperar,
Um esperar por uma porta fechada, para voltar para trás, até que alguém chegue,
Ou então a desilusão de uma cama quente, vazia, já que em mim mora uma multidão.

03.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 28 de maio de 2010


A Neve Que Fica

onde o Neva entra no Báltico

Ao lado do caviar dígitos que nunca mais acabam,
A carteira gorda de rublos, tantos para tão pouco,
A mulher da mercearia a gritar lentamente as palavras,
Que continuam a não fazer sentido,
Tanto barulho por um sumo de laranja,
Sim, sumo de laranja e só se compreende um indicador
A apontar um pacote entre muitos do mesmo,
Nada mais, um indicador que deve vir do tempo de Babel,
Antes das línguas kalashnikov a disparar no ar frio sem parar.
A campainha avisa os sorrisos, escassos pelas redondezas,
Que se acendam, a custo pelo frio que vem da rua,
Garrafas pelas prateleiras, escondem as paredes,
De todas as cores, de todos os tipos, de todos os sabores,
Um arco-íris para cegar, para enganar o frio,
A escuridão das ruas quase agrestes, lembram mansardas
Apesar de largas, o tamanho comprime os sentidos,
O tamanho do maior país do mundo que sempre esmagou os vizinhos.
As ruas quase vazias no seu tamanho difícil de saturar de gente,
Com gente nas paragens à espera, com um ar amarelo e triste,
Com os seus casacos de acordo com o vazio da sua carteira,
Gente que sai quando a luz arrefeceu e se suspende em cabos,
Vão para o trabalho, regressam do trabalho, desiludidos,
Pelo que se pode ler nestas horas de crepúsculo já apodrecido.
Os travestis perseguem quem passa uns metros
Lançando no ar envolvente a provocação de um cheiro híbrido,
Os Ladas passam, quase latas de sardinhas com rodas,
O gordo feio mais pesado que a carne pelo ouro que carrega,
Leva a sua cadela loira, de casaco de pele, mini-saia e botas de salto alto,
Vinte anos mais nova que ele e eu revolto-me com o amor pelo papel.
As salas de jogos com os seus neons a dizer que dentro calor
E o transsexual, demasiado apetitoso, do qual fugimos, a entrar atrás de nós,
A moeda cai e nós saímos de imediato,
Ninguém a querer admitir que tinha umas nádegas que convenciam o toque a cair-lhe,
Ele a olhar para trás arrependido da moeda que perdeu.
Não se encontra um bar, um café dos que estão habituados os do sul,
Uma provável striper convida-nos a segui-las, ia para o trabalho,
Na esperança de mais uns rublos de reconhecimento pela sua ajuda,
Mas afinal o bar tinha um ar pouco seguro, numa cave, de uma rua ainda mais escura,
Nós não, obrigado, bom trabalho, continuamos à procura,
Cartão de membro, pedem os armários à porta, negros por dentro e na roupa,
Membro por uma noite, para isso o hotel com o cemitério em frente
Onde dorme Dostoievsky, com a escuridão apagada no coração.
Na zona dos elevadores as prostitutas esperam a clientela que desce só,
Para subirem com companhia e há de tudo:
Velhas, jovens, demasiado jovens, demasiado velhas,
Várias gerações no mesmo negócio de descarga de peso, assassinas da solidão,
Loiras, ruivas, as ruivas, aquela ruiva se me sobrassem rublos
E me faltasses escrúpulos, morenas, altas, baixas, gordas, magras, das que só à dentada.
Subimos com a porta automática do elevador a fechar-nos os sorrisos
Depois das negociações para amanhã, quando já lá não estivermos,
O bar à espera e mais duas, com um menú de serviços,
A fingir que vestidas com vestidos transparentes a deixar ver os mamilos
Que se adivinham rosados e quem sabe com hálito do último cliente,
A linha fina na púbis a indicar de onde vem a motivação para quase tudo na vida,
Um belo par aquele, irmãs, quem sabe, parecidas sim
E os escrúpulos e as garrafas de vodka ainda cheias a tornar a noite sem sal,
Sem aquele sal daquela pele pronta a tudo,
Assassinas da solidão, da escuridão, da noite e do frio da antiga capital.
Sabemos que depois haverá festa no nosso andar,
Com americanas, francesas, alemãs, italianas, belgas, suecas...
Os quartos esperam e a vodka espera o convite para desculpar
Um assalto ao corpo alheio, pagando o prazer com o prazer,
Que assim é que deve ser. Os seguranças vêm e acaba tudo mais cedo,
Cada um entra aleatóriamente para uma porta aberta atrás de um cartão magnético
E assim se faz um destino, o de uma noite,
Poucas semanas antes do atentado checheno, os tais vizinhos esmagados,
Tanta arte e tão pouco respeito pelos autores, a humanidade, cansa-me.
A ressaca acompanham a dança de Matisse, tão longe da primeira vez,
No livro de educação visual e tecnológica, tão grande que Síndrome de Stendhal
E eu sem saber se aquilo real, se eu a sonhar há muitos anos,
Tão pequeno lá no país da minha língua.
A carteira emagrece, quero lá saber, não quero sair daqui com um rublo,
Não posso sair daqui com um rublo,
O resto é encher os bolsos de recordações,
Como os bolsos vazios do espanhol que nos veio dizer que alguém lhe tinha pedido a carteira,
Menos mal que foi a carteira,
Podia ter lá ficado ele, numa daquelas ruas geometricamente perfeitas,
Cheias de turistas cegos pela fascinação, quase como estar em Paris
E é verdade, com mais água, canais por todo lado
E a cara arranjada e maquilhada de um império grotesco,
Às portas do outro lado da Europa, olhando o poluído Golfo da Finlândia,
Mesmo de cara para o esgoto dos países bálticos,
Faz-me lembrar uma puta cara num bairro degradado,
Com joias como das grandes actrizes, sem clientes e miserável na sua gigante solidão.
Ao longe do outro lado de uma das muitas pontes
Alguém a fazer flexões no meio da neve,
Um louco, ou não, tudo depende da frequência das loucuras,
Repetem-se e tornam-se hábitos, o povo todo repete e tornam-se tradições.
Louco eu, que acho estranho o que me é estranho,
Gosto com um certo sentido masoquista, aquelas punhaladas
Na minha virgem ignorância de tantas coisas.
Tantos contrastes, mas nem é preciso ir longe,
Basta olhar para o lado, através da janela do autocarro,
Ver os monumentos que se tornam cada vez mais raros,
As torres que se tornam cada vez mais parecidas às que há em todas as cidades grandes,
Como se a verdade por fim a ser revelada,
Um acordar ao lado de uma almofada borratada e uma desconhecida feia, envelhecida pela noite,
Um palhaço grotesco, como as marionetas do teatro de marionetas de Nevsky,
Os Ladas ridículos naqueles trinta graus negativos, ultrapassados pelas limusinas,
Os Hummers negros, americanos, blindados, dos homens do petróleo e das drogas,
Aqueles gordos de cadelas loiras pela mão, vinte anos mais novas que eles
E a sustentar a família toda desde a avó até à filha que tiveram aos catorze anos,
Todos num apartamento pequeno, numa daquelas torres a dizer adeus.
Adeus máscara de teatro, com o teu sorriso cortado pela metade triste,
Deixaste-me dentro o mesmo sorriso torcido, o fascínio desiludido da humaniade.

28.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de maio de 2010


Momento Trazido

de Bragança

Sentado num muro à espera, com o Sabor em frente,
O Eça a fazer-me companhia, na cidade onde nasci,
À espera que venham do médico para regressar.
No meio da rua adormecida pela hora de trabalho,
Com os carros que passam atrasados, sempre atrasados,
Sempre a chegar onde nem vale a pena pensar,
Com o livro, inclinado sobre o papel, quase lá dentro,
Não fosse a brisa primaveril e os passos no passeio.
Será que um dia lhe saberei o nome, a ela que passa?
Deve ser da minha idade, uns quase dezassete,
Também deve andar a ser Eça e pensar que os seus problemas
São tão grandes, enquanto o rio passa e vai para longe
De onde eu nasci.
E o próximo ano será o último, depois, depois tão longe
Do que imagino, perdido em ruas ainda mais desconhecidas
Que estas da cidade onde nasci.
O castelo, sei tão pouco sobre o castelo, sobre o Gungunhana,
Só que deve ter sido alguém muito grande para ter as calças num museu.
Sei que gosto e me faz lembrar tempo que nunca vivi,
Mas que alguém viveu até eu nascer nesta cidade,
Como se toda a história do mundo fosse para eu estar aqui,
A ler Eça, que certamente escreveu este livro para não estar só
Enquanto espero que venham do médico.
Não tarda a avalanche de carne apressada e com fome
A caminho do cheiro das batatas fritas,
A dar-me movimento aos olhos para fora, só para fora.
Não tardo e chego a meio, depois mais umas tardes ao sol
E acabo a outra metade. Hoje não, hoje a hora do almoço está próxima
E ainda temos que atravessar a serra, a terra fria até casa.
A serra, verde, cheia de segredos e de casas vazias.
Um dia irei vasculhar aqueles interiores vazios,
Enquanto faço horas, como se fosse um criador de tempo.
Um dia irei vasculhar interiores vazios na companhia daquelas casas,
Sem me importar dos carros solitários que passam,
A caminho da cidade, ou regressando da cidade onde nasci,
Iluminando por momentos os suspiros e os gemidos nos vidros.
Que nome terá? Era bonita, o nome não interessa,
Mas qual será? Um dia direi que gosto dela: gosto de ti.
Não. Gosto do livro que leio. Nunca pensei, mas nunca o tinha lido,
Gosto desta cidade, que tão poucas vezes visito,
Apesar do cordão umbilical e da gente que passa e nem me faz ser.
A culpa é do cheiro do almoço e das prioridades,
Das pressas que não deixam ver, que não dão tempo à gente de ser gente.
Um dia quero voltar a visitar o castelo, a Domus Minicipalis,
Passar uma noite na serra a fingir amor, para que outra noite venha.
Afinal de contas todos nos sentimos sós, mesmo numa rua cheia de gente,
Onde ninguém dá por ninguém, enquanto esperamos, um olhar, um sorriso,
A esperança de um nome de olhos bonitos,
Uma recordação para levar pelo mundo fora,
Para quando um quarto fechado e estranho, apesar do nosso cheiro nas paredes.
Não estranho nada o tempo do livro, deve ser assim que se vive nas grandes cidades,
Lá longe, na capital, da qual só me lembro da gente esquisita,
Sem olhos, dos autocarros como concertinas, do sono nos barcos do rio largo,
Da forma de falar muito asséptica, dos bancos de jardim onde mora gente,
Das ruas tão grandes e cheias onde custa respirar,
O cheiro a alcatrão quente, os táxis com cheiro a pele e fumo,
O táxista simpático de bigode, como os imaginava,
Os olhares no chão de manhã, os olhares no chão...
Porquê os olhares no chão quando se pode levar o Eça
Para amparar o olhar?
Aqui ainda passam tractores, gente com enxadas às costas,
Um cavalo, ou um burro de vez em quando.
De onde virão os cavalos, ou acabei de ler algo sobre cavalos?
Os burros nem pergunto, vêm de todo lado.
As rãs? Quase as ouço, ou será uma noite de primavera sentado numa manta,
Fora da cidade à beira de um açude, a contemplar os dedos nas estrelas,
Enquanto as minhas ideias humedecem o ar?
O ritmo dos passos aumenta, os passo aumentam,
A gente nasce de todos os lados, na mesma cidade onde eu nasci,
São todos meus irmãos.
Sinto umas pontadas no estômago. Deve ser fome,
Ou saudades do que não poderei levar comigo,
Quando eles chegarem do médico e eu me for.
O velho da boina diz-me bom dia,
Parecia o meu avó, mas com boina, já deve ter almoçado.
Dá-me mais fome por saber que há quem não a tenha,
Sinto-me mal, pela quase inveja, olho o sol no rio para acalmar.
Regresso ao Eça, que se continuar à espera, não passarei da metade.
Eles que venham quando vierem, por enquanto espero,
Já com fome, pela hora do almoço tardio.

28.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Admirável Mundo Novo

não o de Aldous Huxley

Um louco-obrigado atravessa as noites cada vez mais altas,
Vestido de moléculas instáveis, onde se cruzam carros flutuantes
Com gente que será gente depois da gente.
Os vivos-mortos, os mortos-vivos e outros ressuscitados,
Porque já se pode brincar com o que antes definitivo.
As megacorporações com o poder de fabricar deuses,
Novas religiões fundadas na ciência esquecida da ética,
Fabricantes das leis à sua medida.
A velocidade vertiginosa das novas guerras,
Reduzem multidões a pasta fertilizante, sem dar tempo a um grito,
A beleza dos nanoconstructores a tornar entulho em palácios,
Enquanto os habitantes de uma capital se tornam estrume homegéneo,
Quando bio-aviões bombardeiam plasma pelos seus genitais grotescos.
As ruas cheias de ladrões de implantes de crédito,
De punhal em punho prontos para te abrirem as tripas
Por roupa de marca das megacorporações
E as novas drogas sintécticas, mais viciantes que o oxigênio,
Ladrões-assassinos capazes de lágrimas e de pedir clemência
Quando os seguranças corporativos os vão fritar nas horas-vagas depois do trabalho.
O ciberespaço cheio de vida virtual, vigilantes, vírus com ideias de apocalipse
Capazes de instalar o caos no mundo dependente da cibernética.
O amor impossível de um holograma pelo seu patrão,
Incapaz de tocar, de sentir a não ser aquela estranha fusão de informação
Que leva a um erro no sistema, aproximando o que foi criado pelo humano do humano,
Condenado a uma imortalidade informática, enquanto a informação tiver lugar para estar.
Passeiam-se, uns por vaidade, outros por necessidade, os dos implantes cibernéticos,
Já além do humano, um lugar entre a criação e o criador,
Facilitando a vida tão dificultada pelas facilidades modernas.
Os sociopatas sadomasoquistas capazes de usar o sofrimento e a dor para criar arte,
Teatros de gritos, berros e suspiros cansados e resignados,
Com telepatas capazes de trazer de volta os momentos mais dolorosos que já viveste,
A infalibilidade da tortura telepática, quando o corpo já não chega,
Em nome da arte, mas mais em nome dos créditos ganhos por satisfazer os fetiches modernos.
Se tens créditos suficentes, envelhece sem medos, abusa do corpo,
Dá cabo de ti com as sensações mais extremas,
Depois trocas o teu corpo decrépito por o de um jovem são com a familia pobre,
Se tens créditos suficientes compras quem tu quiseres.
Ainda há caça às bruxas, apesar de se ter dissipado há muito a cinza das inocentes,
Caça aos geneticamente diferentes, o novo racismo anti-evolução,
O mesmo medo do que é diferente, num mundo tão diverso, cada vez controlado por menos.
Apesar do cheiro, do tráfico de drogas, das ruínas do século passado, de toda a miséria,
Ainda é no submundo que a humanidade é mais humana, longe dos que vivem nas alturas,
Alheados, esquecidos das suas origens, viciados nas suas drogas legais, marionetas das corporações.
Os novos programas públicos, as execuções ao vivo,
Com os julgamentos feitos nas rodas da sorte, ou do azar,
O entretenimento das massas à custa da dor humana como nos tempos antigos,
Já que a bestialidade dos homens não muda, moderniza-se.
Deuses, os que a ciência quiser criar, por manipulação genética,
Nada está fora do alcance das mãos do mortal,
Desde que a bioética ficou no velhinho início de século, em nome do progresso,
Que para empatar chegaram os séculos de ignorância religiosa.
As cidades flutuantes, para os que são dignos do céu em vida,
Pelo seu implante de crédito de platina, longe dos ladrões, dos mutantes degenerados,
Das misérias da terra, na companhia dos deuses das megacorporações,
Mesmo onde flutuam as estações de controlo meteorológico,
A dar chuva ou sol quando se quer, para quem paga, sempre para quem paga,
Só para quem pode pagar.
Este é o admirável mundo novo, onde a minha criança cresceu,
Não muito diferente do velho mundo do adulto que sou.

26.06.2099

Valhalla

João Bosco da Silva

domingo, 23 de maio de 2010


Ninguém Me Mor(r)a

O fogo que se propaga pelo esófago até cair
Lá no fundo onde também não sou eu
Dentro do corpo, perto de onde moro,
Mas não sou.

Sou esse fogo a atravessar este corpo
Emprestado para a passagem das coisas.

As mãos capazes de tudo,
Capazes de entrar em todos,
Mais profundas que os olhos,
Atrás dos quais não habito.

Sou todos os pecados das mãos inocentes,
Todos os milagres roubados ao vazio.

Aquela imagem cá dentro que os olhos roubaram
Ao momento que não é mais,
Que não é minha, que nem vejo
Apesar dos olhos abertos tão longe de mim.

Sou aquele mundo que se acende
Quando os olhos se fecham mesmo abertos.

Entrar no corpo naturalmente lubrificado
Pelos sussurros da língua nas orelhas e no pescoço,
Mesmo que eu fique sempre de fora
A assistir às conquistas do meu corpo.

Sou a confusão dos dois corpos
Na noite quente e suada, roubada ao verão que passou.

24.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

Adeus Vida Merecida

ao miúdo do sorriso,

A vida, a vida é só a desculpa para a morte,
Um mostrar à fome pão cada vez mais longe.
Deus nem morre, nem tem nada a ver com a morte,
Só quem nasce, só quem é, pode levar com a injustiça
De caminhar para o vazio, convencido que um dia, um dia,
Um dia nunca mais e todos os sonhos apagados,
Todas as conquistas ridículas, todas as tristezas inúteis,
Que seriam arrependimento se a escuridão o permitisse.
A vida uma ilusão consciente, uma ferida aberta na eternidade,
Um mergulho breve entre o nulo e o nada,
Onde um monte de matéria sente a outra por onde passa,
O tempo a escorrer lento, aparentemente tão lento.
Tão breve a eternidade que somos,
Entre um acordar e um adormecer inesperado.
A vida oferecida e roubada quando nos habituamos a ser,
Um brinquedo que nunca será nosso,
Nem emprestado, nem alugado, assim, um engano antes do sono,
Uma mão que nunca chega ao horizonte,
Um beijo que seca antes de se ter dado,
Um corpo que nunca sentimos de verdade,
Só o nosso a dizer que outros e nós ignorantes de outras vidas,
Nós que nem da nossa somos donos.
No cinzeiro os momentos persistem em filtros,
Filtros que já se esqueceram dos lábios sedentos de vida,
De sensações, de novidade, de gotas que secam sempre,
Antes de caírem, antes de se confundirem na terra que somos.
As cortinas vazias de presenças movem-se com a brisa quente
Que nos deixa a saudade dos que agora atravessados por raízes,
Trancados em órbitas vazias, de olhar no infinito até ao fim dos tempos,
Até que venha o fim de todos, o esquecimento inevitável,
Já que nem as estrelas brilharão para sempre.
Quantas lesmas viscosas, peçonhentas, a ocupar existência,
Com um lugar tão merecido que deixaram vazio,
Lá de onde vieram... mas a vida é para os filhos da puta,
A morte é para todos, para os que mereciam mais que uma vida,
Para aqueles a quem o deus não-vivo ignorou.
O mundo tão vazio a cada voz que se cala,
Cada vez mais vazio, naqueles corações que ficam a bater nas lágrimas
Que se engolem em silêncio, que se secam em murros no pinho,
Mão cheia de terra que o vento espalha antes de cair,
Antes do eco na escuridão eterna.
Deixai que me dispa num adeus gritado,
Deixai que deixe a roupa espalhada pelas vossas casas,
Na esperança que o meu cheiro mais um pouco,
Depois dos olhos fechados a minha presença mais uns momentos
E um sorriso: era ele, dentro, aqui mesmo, onde já nunca mais.

Tão insignificantes as lágrimas que os dedos choram.

23.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 17 de maio de 2010


Ruas De Longe


Nunca ninguém me disse que tão longe fosse possível
E apesar da distância, ainda tão em cima de mim,
Que mal me consigo distinguir dos paralelos sujos da rua gasta pelos passos dos anos.
Não sabia que fosse possível uma rua estreita chegar ao futuro das grandes avenidas,
Mantendo o cheiro a peste negra, e as conversas de janela a janela,
As lutas de viola, sem viola, só o som das cordas a cortar o silêncio dos meus olhos.
Nem o rio sabe o que leva, nem eu o que levo dentro e me corre,
Sem parar, quase como se a vida de água, puxada a murros lentos que aceleram
Quando subo para a cegueira dos que passam mais barulhentos
E me acordam para o hoje onde se misturam as muralhas de outras infâncias.
Estive para ficar nas águas escuras, naquela tarde quente até que se cansou,
Até que a cerveja acabou e o último comboio ameaçou partir,
Estive para ficar na escuridão do outro corpo que nem se ofereceu,
Foi eu, mesmo que eu quase para ficar nas águas escuras,
Provocando todos os afogados dos séculos santos, com camisas rotas nos cotovelos
E os joelhos cansados das orações que ninguém ouve debaixo de água.
Se calhar não sabem, mas deus não ouve debaixo de água,
Por isso mergulhem e digam-lhe as verdades que nunca irá ouvir,
Que as ruas não têm palavras suficientes nos brasões dos nossos avós.
A rua logo ali, logo ao fundo desta, ao lado, a acompanhar e nunca a ser a minha,
Quase impossível, não fosse a mão dela na minha, a dizer com um olhar egípcio
Que há vida além da minha vontade de morte, nas ruas quase apagadas a altas horas.
As roupas que passam com almas dentro, lá no fundo, quase duvidosas,
A transpirar um medo que se dispersa nas ruas vazias e contagia quem passa,
Matando a solidão segura, deixando no nariz a ureia persistente dos becos frios
Até a porta se fechar atrás e a chave rodar duas vezes e um puxão.
Um gato atravessa a rua, como no sonho, atravessa dentro, além dos olhos,
Selvagem e impossível na noite de pó e sombras da cidade, patas como os pensamentos,
Sobre a calçada que desce até ao abismo, onde não há senão a presença do futuro.
Imitação, porque tudo imitação, francesa, a fingir que a distância aqui ao lado,
Com mais pó, arquitectura mais cansada, povo aborrecido, com olhos só no que brilha,
Nunca passando o lustro no que envelhece, deixando ir, pela noite fora, até à escuridão absoluta.
Deixo cair umas palavras no silêncio para anunciar a madrugada ao táxistas
Que passam como espectros, abutres quase, em busca de almas que querem cair mortas,
Numa estalagem, numa casa de alterne, no sofá da mulher que não parecia cama suficiente,
Num beco onde espera uma gota de água no inferno, na erva fresca que anoiteceu o rio,
No último comboio que tanto ameaçou que agora vai mesmo,
Na casa de banho do bar onde o álcool o único cheiro na almofada de loiça.
Parece que cada passo dado é para ficar no ontem, com as pedras a fazerem casas vazias,
Janelas pequenas só para se espreitar a ascensão e a queda do império individual,
Acrescentando mais aos ontens que virão até o longe se tornar impossível.

17.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 13 de maio de 2010


Epifania Na Aurora

O tempo não muda, acrescenta.
...uma sensação de plenitude,
como quando olhava o céu estrelado nos verões quentes...
...o fascínio de uma aurora,
as mãos que podiam tudo antes de se lançarem ao trabalho...
...o meu tamanho a medir-se para dentro,
maior que o vazio dos dias negros...
...a vida é um momento de luz na escuridão,
um segundo de lucidez na loucura da noite eterna...
...o gato que brinca com as sombras,
eu que me rio invejoso da sua inocência...
...a ilusão tão real que se sente dentro,
o primeiro amor que deu vida aos primeiros poemas...
...tudo igual à primeira vez,
eu mais confuso e com o peso do pó dos anos...
...o ar fresco de um dia que nasce,
sem a noite ter morrido...
...a beleza da doçura de uma maçã nos dentes dela,
quando ela não está e só a maçã...
...os sonhos que deixaram de o ser,
agora mãos cheias de areia e os dedos finos...
...o mundo que não pára de encolher,
mesmo que cada vez mais pesado...
O tempo não muda, acrescenta.

13.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 10 de maio de 2010


Só Faz Frio Quando Se Está Fora

aos carneirinhos que me tiram o sono

Só me dei conta de que te amava quando as minhas mãos vazias de ti.
A distância tornou-se tempo em cima do que sou,
Tornou-me branco e aí vi que estava perdido de ti.
Aquele beijo de manhã, antes de ires para o trabalho, antes de te perder,
Que só tu sabias que era o último e me deixou um gosto de haver mais,
Mas só tu sabias que era um adeus mudo ainda com a cama quente dos dois.
Hoje sentado sobre o passado, onde vejo as pequenas verdades em que nem reparei,
Pegunto-me se saberias mesmo. Saberias mesmo?
Ainda como um eco nos meus lábios, um prazer que se tornou em dor latejante,
A cada batimento do meu punho vazio da tua presença, no meu peito.
Não sabes que depois de ti foi só entrar em vazios e sair deles com um novo dentro,
Porque também se perdem mãos cheias de nada, quando se teve o que não se tinha.
As noites de bebedeira só me adiam para a manhã seguinte a agonia da tua ausência,
Todos os gritos violentos dentro dos que nunca terão os teus olhos nos meus,
No meu fundo do que nem me conheço, enquanto não sei se eu tu, ou se só dentro,
De joelhos, adorando-te como se adora de verdade,
Sentindo-te como se sente o que somos, mas sabendo que reais,
Com os suspiros a dizer que sou e os gemidos a dizer que és.
A sede nos meus poros do teu suor, o teu cabelo a frisar entre os meus dedos
Agora inúteis, agora tristes e só palavras para tentar encontrar-te nelas,
Mas tu longe, esse teu corpo que me fazia tremer de calor,
Longe, tão longe que a tua textura só dentro, a que os dedos escrevem sem tocar mais.
Sei que não me dei por dentro, porque só me dei conta quando vi as mãos vazias de ti,
Só quando o tempo me tornou os braços curtos, os mesmos que te abraçavam,
Quando em ti, os mesmo que nem aí me davam o que dentro,
O que dentro que nem sei se habita mais, porque eu já não te moro,
Só agora sei que fora de ti faz frio e atiro pedrinhas à janela da casa abandonada.

10.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 9 de maio de 2010


A Ponte Que É Uma Ilha Quando Se Quer

Da ponte romana só saímos quando a vontade nos chegar,
Só quando o luar acabar, o rio deixar de correr,
Os corações se cansarem de bater e a amizade, que é imortal, morrer.
Em cima da ponte a acrescentar ao rio, gozar a vida a cair,
Enquanto caimos juntos na inevitabilidade do futuro que ameaça e é sempre presente.
A luzes atravessam e nós indiferentes, dentro vão apagadas
E nem dão pela ponte que passam, nem pela água que corre em baixo,
Nem pelos sonhos que ali nasceram e morreram, noutras tardes antes de outras noites,
Quando eramos maiores nas mãos que esperavam o que vinha.
Veio e tão pequeno e pesado que não se sabe se vale a pena aguentar,
Não fosse o poder de evocar os ecos que já tinham desaparecido
E ressuscitar os sorrisos que pareciam ser os últimos sinceros.
Lembras-te daquela vez? Lembro, está a acontecer.
Morrer é como entrar amanhã no bar,
Sem saber que hoje lá vou estar e perguntar, ontem estive cá?
Morrer é só esquecer que se viveu, sem pontes para lado nenhum,
Sem a brisa fresca da primavera em cima de um rio,
Onde se podem ouvir as crianças que fomos na água,
Em verões que deixamos para ser estes tão pobres de sonhos.
Olhemos as estrelas que são as únicas que tem idade suficiente
Para nos iludirem com a eternidade,
Olhemos a escuridão que nos esmaga como insectos
Com um grito de quem está vivo e é uma força individual.
Cá estamos, em cima da ponte de tantos mortos para que hoje nós,
Em cima dela, à espera da vontade para chegar ao outro lado,
Mas hoje virá tarde, hoje virá só quando o luar acabar, o rio deixar de correr,
Os corações se cansarem de bater e a amizade, que é imortal, morrer.

09.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 6 de maio de 2010


A Casa Dos Braços Abertos

ao Pedro e à Andreia

Deus levou os avós e deixou a casa vazia,
Encheu-lhes os olhos de terra, plantou-lhes ciprestes nos ossos
E deixou-lhes o nome para ser esquecido.
Veio o amor ou o que aproxima dois corpos,
O frio da uma cama sem pulmões no nosso silêncio,
Com os suspiros solitários da insónia,
Veio o amor ou uma noite em que se entrou dentro
E se ficou mais fundo do que a carne pensa
E a casa dos avós, com os sons de quem tem vida dentro,
Ainda jovem, dos netos daqueles olhos cegos pela eternidade.
A amizade visita-a e enche as noites de risos sinceros
Mesmo que amanhã seja outro dia de trabalho,
Não interessa, não se sabe quando as raízes nos ocuparão o olhar.
Teima-se pela noite dentro, até irem altas as horas, baixas as garrafas,
Os paralelos já frios de esperar por uns passos incertos de regresso
Para um silêncio de quem adormece com um sorriso nos lábios.
A casa dos braços abertos onde os copos nunca estão vazios,
Onde o silêncio não sobrevive às violências da única felicidade possível,
As paredes guardam os ecos das gargalhadas para outros invernos
E o tempo não se sente, não interessa, nem parece passar.

06.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

terça-feira, 4 de maio de 2010


A Madrugada Da Noite Que Nunca Morreu

um brinde a vós,

A noite que eterna nos vem trazer a amizade de granito,
Quando entramos no dia sem deixar de ser quem somos,
Com o grito da verdade que acorda os pulmões e a Lua,
A sinceridade que só quando a sobriedade se esqueceu
E os abraços de sempre, que ecoam nos músculos felizes.
O vidro que castanho nos canta a letra que escrevemos dentro,
Erguido no ar, entre o luar e a eternidade, na companhia da brisa leve,
Quase quente, quase como dentro de nós.
Os cães que não dormem cruzam as ruas em baixo,
Ladram no vento que nos leva até ao amanhã aos poucos,
Mesmo que o amanhã a ser agora, em cima do muro de granito,
No adro da capela, próximos dos deuses impossíveis,
Única realidade na noite que suspira o amanhecer em tons azuis,
As nossas vozes, a cortar a distância que se aproxima, lá longe.
Não se podem agarrar os momentos, por isso só resta que sejamos eles,
Esgotá-los até ao limite, até à exaustão do corpo,
Até que a alma se canse e adormeça e um leve gosto na boca a ser recordação.
Hoje neste monte, em cima do mundo que há no nosso olhar,
Somos a eternidade e o infinito, o Luar é um capricho nosso e o amanhecer o nosso medo.
A vila dorme, só nós vivemos neste momento,
Humanos quase deuses, quase selvagens, quase ramos que o vento anima,
Quase os grilos que impedem o silêncio de uma escuridão completa,
Quase um uivo os nossos gritos contra o horizonte polvilhado de almas que dormem.
A noite que cede, cansada dos nossos olhos que insistem em criar mundos,
Levanta além dos montes, além da bruma da distância, os primeiros dedos quentes,
Do astro que nos diz que é hora, que o hoje já cá está,
A gente abre portas, entra em carros, acende fogões, aperta cordões,
Escova dentes, a gente acorda, faz o café, abre o jornal fresco,
É domingo e alguns a cortar a luz do amanhecer com moto-serras.
Nós sabemos que o mundo nos espera,
Mas não sabemos o que esperar do mundo.
Descemos quase contrariados para a luz do dia que aquece os nossos corpos
Ainda frios da noite e dos inúmeros brindes gelados,
Os madrugadores entram no café, quando nós já lá estamos,
Sentados a agarrar o que resta da noite, metendo o vazio nas garrafas
Que nos trazem à mesa, falando do que só sabemos nesta manhã,
Só nós nesta manhã e ainda há tão pouco tempo só nós e a Lua.

04.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 21 de abril de 2010


*

Queres subir, alto, cada vez mais alto,
Mas as coisas que tu conheces,
Que tu gostas de verdade, porque conheces,
Que fazem parte de ti,
Cada vez mais longe,
Cada vez mais pequenas,
Quase impossíveis.

Não sabes que o céu é lugar para vazios?
À noite só uma imensidão negra,
Com umas estrelas de luz tímida,
Tão distantes,
Separadas umas das outras por eternidades.

Queres subir, alto, cada vez mais longe de ti,
Perder-te num vazio desconhecido,
Só porque desconhecido.
Sente os pés na terra,
Respira fundo, abre os olhos,
Abre os olhos e olha à tua volta:
É o que tu és.
Não te procures onde não estás.

João Bosco da Silva

21.04.2010

Savonlinna

Poema para “Disse-me António Montes”

sexta-feira, 16 de abril de 2010


À Beira Do Rio

No Bairro do Aleixo os táxis vêm e vão,
A vida fica suspensa numa agulha
Num descampado onde sombras não estão de verdade.
Chegam e vão-se vazios, ninguém vê, ninguém sabe quem foi,
Só o papel fica, uma mancha no chão,
Uma gota no canhão a ser vermelha, sinal da vida que se foi,
Uma chama desesperada na cápsula ferrugenta,
Ou na colher do veneno, o filtro ridículo de um cigarro consumido,
A sopa que não alimenta e suga o corpo à alma,
As pernas que se abrem numa insensibilidade
De quem espera menos umas gramas de dor,
Que gotejam uma morte lenta numa excitação animal,
O escuro de uma luz demasiado forte,
Fazendo esquecer os abcessos da alma,
Alguém que se deixou ali logo,
Porque não aguentou e metade nas calças,
As vozes da escola além do muro, ali, aqui mesmo,
Onde os táxis passam, onde os olhos se fecham pela cegueira
A que o êmbolo os empurra,
Onde os orgasmos parecem não chegar e nem se sentem,
Só algo a pingar, porque se deixou cair a seringa
E a veia como se uma lágrima rubra, do corpo que chora,
Que agradece num desesperado o fim de uma ausência,
Nas nuvens de algodão, onde não se sente nada,
Onde se fecham os olhos todos do corpo e da alma,
Se adia a miséria da realidade por mais um momento de ilusão.
No Bairro do Aleixo, com as torres que fazem sombra no rio que nasce
Longe destas misérias, o tornam mais escuro,
Com os carros da boa gente que passa, que finge que não vê,
A vida suspensa numa agulha, onde as crianças brincam e crescem,
As mães se vendem e se contagiam com tudo possível,
Até que o diabo se lembre de inventar algo mais,
Apontando-se ao céu como dedos ameaçadores, que culpam a ausência maior,
Os olhos que não vêem, os muros que são como uma mão aberta na cara,
A fingir que não se quer ver.
Os dentes caíram, o peso caiu, a vida arrasta-se levada por uma vontade
Além do animal e humano, sujando-se no estrume infértil de um tempo
Que é culpa de todos que nele vivem.
A luz vermelha acende-se, o dedo empurra o êmbolo,
Os olhos fecham-se, mesmo que pálpebras abertas, e o sol entra, feito de algodão.

16.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Despedida do comboio a vapor - Via Larga, Porto, 1977.Foto: Comissão de Estudo para Instalação do Museu Ferroviário.

No Comboio

para Istambul,

Se entro no comboio em São Bento é porque não te conheço,
Apesar de só uma noite acabada na manhã da mesma estação.
Uma despedida como se a noite uma vida
E quantas vezes a noite uma vida, mais que uma vida.
Quantas noites não valem o resto dos dias?
Se entro no comboio para Guimarães
É porque te quero entrar com a força de uma curiosidade quase infantil,
Levado por uma vontade quase orgânica,
Mesmo que não te conheça, só o sabor dos teus lábios
Confundido com a cerveja que acabaste de engolir
E o roxo dos meus lábios de vinho da garrafa que se evaporou por Miragaia.
Se entro neste comboio é porque quero encurtar a distância,
Impossível, apesar de me ir confundir no teu corpo,
Apesar de te aspirar o fumo como um beijo do inferno,
Respirar os teus miasmas, desconhecidos, por isso entro no comboio.
Se te soubesse, não entraria neste comboio, que parte,
Não estaria sentado a criar futuros possíveis, dentro, inúteis.
Nunca me disseste que eras mais que tu. Se o tivesses dito,
Entraria no comboio, teria chegado a acompanhar-te até morrer a noite?
Passados impossíveis, ainda mais inúteis que os futuros possíveis,
Dentro de um comboio em direcção ao castelo desde a varanda de um andar alugado,
Com cerveja na mão e uma saia que se abre e se senta no colo,
A dar-se, sem se dar a conhecer, arrefecendo o calor que o sol deixou,
Com um de carne húmida que acolhe a curiosidade infantil de estar noutro,
Mesmo que nunca se possa conhecer verdadeiramente.

15.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 14 de abril de 2010


Caminho De Olhos Fechados

até Mirandela

Caminho, sentado ao longe, caminho de olhos fechados,
Bem fechados, apertando com força até que anéis brancos,
Até que caminho de verdade, longe do caminho.
Caminho sobre cheiros de portas abertas a dizer que papel,
Comida quente na hora do almoço, roupa nova saída de caixas e plásticos,
Cabelo no chão com a quarenta e sete onze das barbearias,
Relva aparada, a ser mais verde com o sol que a rega, do outro lado,
O asfalto quente e os pneumáticos a dar-lhe razão de ser,
O fumeiro e outros aromas familiares das lojas de comida regional,
Caminho sobre os cheiros da cidade até que a luz vermelha quando atravesso.
Paro e olho. Tão longe! Sentado, num banco de jardim,
A olhar o rio que passa e eu que passo, longe do rio,
A ter pena dele, para não ter pena de mim,
Porque espero que os outros tenham, porque eu longe,
Afinal esquecido, só pernas quando olhos fechados,
Asas quando longe e pernas quando olhos fechados.
Verde. Pés no caminho, no cheiro do café,
A frescura da água que rega a relva, a ponte velha,
Com cheiros inesperados em noites quase impossíveis, lá longe,
O cheiro que se adivinha vir da farmácia, mais roupa,
Gente de plástico atrás de vidros quentes, com gente a vesti-la,
Real, do outro lado da rua,
O quase cheiro da sombra que me cobre por momentos,
O fumo do cigarro de quem passa apressado e eu longe com saudades.
Paro e olho um pinheiro por perto e bronze a ser figura de gente, verde,
Olhos abertos e o branco salpicado de negro,
À espera que um carro pare, que o asfalto quente para pés por momentos,
À espera de poder atravessar.
Estou do outro lado, longe, uma vez mais de olhos fechados,
Apertados com a força de quem quer regressar a um sonho bom,
Caminho. O cheiro do dinheiro que sai das paredes,
Do ar portiço que se escapa do interior do banco e gravatas,
Mãos de papel, a vida a vida aqui, mentira,
Eu caminho, fora sobre a doce realidade das pastelarias,
Um pastel de nata e um café, se faz favor, longe,
De olhos fechados, na esplanada, com o sol lá fora,
Como um estranho que passa e me olha pela janela,
Caminho sentado na esplanada, passo por borracha, pele,
Pés que provam o tamanho para passos, na sapataria ao lado.
Atravesso, sem abrir os olhos, já não passam por aqui sentados sobre pneus,
Só sentados de olhos fechados, bem apertados, até que sol,
Do outro lado, o cheiro impossível da visão, do ouro,
Até que papel, útil para olhos que se fecham e caminham,
Entro na Lusitana, onde conheci Vergílio Ferreira, longe, tão longe.

14.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

terça-feira, 13 de abril de 2010

Mini Antologia Poética 2003


Árvores, águas e pontes

Neste parque, sempre verde,
Sinto-me a voar.
Quebro a dura parede,
Que me obriga a pensar.

Devoro o verde, bebo a luz,
Corro pelas pontes,
Minha alma reluz.
Sou a criança de antes.

Não sinto o corpo maior,
Nem actuais conhecimentos.
Sinto-me melhor,
Longe de todos sofrimentos.

Nem dou por mim a rir,
Com toda a sinceridade,
Dali não quero sair.
Quero viver lá toda a eternidade.

16-09-2003

João Bosco da Silva


#


À noite a luz da Lua,
Despe-me de toda a razão.
Minha alma fica nua,
Calmo é meu coração.

Se uma nuvem por ela passar,
Não tenho nada que temer.
Sinto sua presença no ar
E sua luz o vazio encher.

E aqui na noite serena,
Meu coração é domado.
Nesta terra agora morena,
Vem a mim o passado.


25-06-2003

João Bosco da Silva


#


À beira do rio

Sento-me à beira do rio,
Vejo uma frágil folha a passar,
Fecho os olhos e rio,
Da nossa efémera vida a voar.

E a folha vai tão pequena
Levada pela água, soprada pelo vento,
Sua fraqueza é meu descontentamento.
Minha alma já não é serena.

O vento dá-lhe uma forte rajada,
Ela estremece, mergulha, emerge,
E aí prossegue sagrada,
Na sua simplicidade herege.

O rio que a leva inconstante ,
Sereno aqui, turbulento ali nos rápidos,
O vento é suave e constante,
Ouvem-se gritos e risos.

Quando irá parar a folha?
Será que é além na parte baixa?
Ela não se importa nem olha.
Para quê se o fim é uma caixa?

É agora um pontinho ao fundo,
Sempre diferente e sempre na mesma,
Envolta de um verde profundo,
Não pensa, nem sonha, nem cisma.
02-06-2003

João Bosco da Silva


#


A Origem

No inicio, escuridão,
Silêncio, infinitamente vazio;
Matéria imaterial,
Nada que tudo é.

Então fez-se Luz,
Imensa, fulminante,
Infinitamente quente,
Dilacerante, destruidora;
Nada destruído pela luz.
Luz material sem se ver,
O agora é Agora.
O que é, ainda não é.

Água, substâncias em folia,
Trovões, moléculas − Vida.
Milhões de tempos. Reinados;
Conquistas marítimas, terrestres,
Aéreas. Gigantes mortos,
Nobres por terra, imortalizados,
Na pedra. Rato ancestral,
Cresce, torna-se primata.
Primata pica pedra, mata,
Come carne, rouba fogo.
Então fez-se Deus,
Aquele que tudo fez,
Aquele que tudo criou.
Criou o Homem, o amor,
As guerras, a morte,
A dor angustiante − o Inferno.

A Luz em fim apagada,
A matéria imaterial,
No inicio escuridão

20-01-03

João Bosco da Silva