terça-feira, 18 de janeiro de 2011



Poema De Prazer


Com Bukowski no colo, a televisão a tagarelar numa língua que não reconheço,

Um daqueles programas para perder tempo, como se o tempo fosse excessivo,

Quando nunca chega, quando se aproxima do fim e deixa-se andar, deixa-se passar,

Porque amanhã é que vai ser, acabo amanhã, começo amanhã, não me apetece agora,

A vida passa e o livro a fazer-me peso para além das pupilas, que nunca mataram ninguém,

Mas já ajudaram, tiraram valor ao tempo, tiraram-me valor, mas sempre me senti melhor

Sendo um completo animal, sem tretas, sem palavras inúteis quando há dedos, desejo,

Excitação, erecção, um momento possível, um jogo de carne e fogo, mudo, gritado e gemido.

Com Bukowski no colo e um barulho de fundo quase hipnótico, perco-me deste tempo

E olho para o vazio, onde alguém me passa à frente, sem reparar, continuo, longe, de agora,

Em quartos estranhos, com cheiro a sexo e perfumes desconhecidos, abraçado por ritual,

Antes do pequeno-almoço acompanhado de um diálogo estranho entre duas mulheres

E uma delas ainda nos meus dedos que levam a chávena de café às mãos,

Devem estar a falar de mim, mas não interessa, direi que nos vemos na próxima semana

E esse será o meu último adeus, o karma apresentará a conta quando quiser,

Sempre dei o que podia dar de mim e por vezes nem uma ejaculação na pele suada.

Com o Bukowski tão morto e tão presente, tão real e tão cru, sabe-me a vida,

Sabe-me a sofás e gente nua, olhando a porta aberta enquanto se geme a medo, trincando

As almofadas sujas (de que outros encontros?), a boca seca que tenta fazer brotar

A fonte ruiva e deliciosa para a conquista de mais um corpo, pela madrugada fora

Até que de manhã, com fome e ressacado, a deixo ir para a esquerda, com o vestido sujo

Da minha imundice, a boca com o sabor da minha vontade, tão linda e loira e caracóis,

Um anjo que passei a noite a conspurcar, a explorar, ela sorri-me, agradece-me

E eu vou dormir para o lado de quem não merece um hálito daqueles à hora de almoço.

Com o Bukowski morto, velho para sempre, bêbado e sincero, aqui à frente,

Um diabo qualquer a falar longe (na televisão?), um carro de um namorado, que num mês

Um noivo, que em dez meses um pai e um suspiro de alívio e de desilusão, apesar de ter sido

Só mais uma descarga consentida, uma fome saciada, mais por ela, com aquela carne fogosa,

Pálida e de encher a boca e as duas mãos, com o dono do carro longe com os amigos,

Tudo o resultado de um desejo descoberto por uma frase simples como,

Quero fazer amor contigo, num caminho abandonado, numa folga de trabalho, contra o tempo.

Com o Bukowski nas mãos, tudo o que restou dele, como tudo o que restou de todas,

Uma memória, umas memórias, que se lembram com a mesma emoção com que se ouve

A televisão que se vê para passar o tempo, enquanto não chega a hora, a próxima,

O karma a pôr um travão, ou não, que no fundo tudo é natural, como não ter moral,

Tudo é passageiro, tudo nos deixa se não formos nós a deixar, só nós ficamos,

Nem vale a pena deixar marcas, a não ser umas palavras, para alguém que se aborrece com a vida,

Alguém que acha que ser poeta, ou ser libertino é ter uma vida cheia e feliz,

Alguém que é feliz e não o sabe, com a sua mulherzinha no colo, envelhecida,

Invejando outra vida além daquela que chegou ali, quando há tantas que ficam tão longe,

Gastam tanto tempo, com programas de televisão ridículos, porque o tédio aperta

E não se aguenta ver as horas a passar, sem passar por cima de alguém, dentro de alguém,

Sem ouvir alguém gemer a nossa presença e implorar a nossa existência dentro.



18.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva



Fui Eu Que O Matei


Fui eu que premi o gatilho,

Fui a bala que espalhou sangue e miolos pela parede,

Fui eu que tornei a ponte demasiado alta,

Fui eu o banco que lhe falhou os pés e a corda à volta do pescoço,

Fui eu que tornei a curva demasiado fechada,

Fui eu que o obriguei a beber mais naquela noite,

Fui eu quem o fez foder aquela puta desprotegido,

Fui eu o cinto de segurança que não se colocou,

Fui eu o vírus,

Fui eu quem pôs o dedo no botão,

Fui eu a faca que se enterrou no fígado, se rodou e se retirou,

Fui eu que pus o carro a trabalhar dentro da garagem fechada,

Fui eu quem tornou o piso escorregadio,

Fui eu quem fez mutar as suas células,

Fui eu a bactéria fulminante,

Fui eu todos os maços de tabaco durante quarenta anos,

Fui eu quem lhe abriu o cu para um desconhecido,

Fui eu quem lhe tirou a vontade de viver,

Fui eu quem lhe deu demasiada fome de viver,

Fui eu quem o fez atravessar sem cuidado,

Fui eu quem lhe pôs a cabeça no forno e fui o forno,

Fui a electricidade que o paralisou até ao infinito,

Fui eu quem gritou algo sobre deus e um grande silêncio,

Fui a altura e a gravidade, o seu peso e o chão duro,

Fui eu quem gaseou os seus nervos,

Fui eu a tempestade, as ondas, todo o mar,

Fui eu quem deixou a terra solta para o enterrar vivo,

Fui eu o cão, o lobo, a raiva,

Fui eu o excesso de gorduras, fui eu a falta delas,

Fui eu quem lhe bloqueou o vaso,

Fui eu quem soprou contra ele o fim,

Fui eu a carne crua e o sangue contaminado,

Fui eu quem lhe deu uma dose excessiva e final,

Fui o pó, os cristais, o líquido, o fumo, a agulha, a sujidade,

Fui eu quem lhe cansou o coração, quem o fez desistir,

Fui o cianeto e os dentes que o trincaram,

Fui o ódio, o desespero, a guerra, a catástrofe,

Fui o dia, a noite, a má hora,

Fui eu que o matei.



18.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



Pés Frios


Enquanto os pés arrefecem, tudo se torna mais claro, com o silêncio

A acompanhar convulsões inertes, eléctricas, químicas e dedos que tentam

Ser sinceros ao pó que se levanta nas memórias que aparentemente

Deixaram de valer a pena e são as que suportam todas as outras,

Que por serem recentes, parecem mais importantes, estando longe disso,

Onde as galáxias morrem e não onde universos foram criados.

No fim, tudo são uns pés que arrefeceram, desejos que se perderam,

Amores que passaram e se odiaram e passaram mais e se tornaram ridículos

E ficam a tornar-nos lúcidos de que o coração erra tanto e não vale a pena

Dar-lhe ouvidos, também ele arrefece, também ele perde o ritmo

E ignora sombras ridículas de que já não somos.

Só as fotografias que ainda nos querem, depois de tantos anos,

Tanta erosão, tanta desilusão, distância, que nos esperam depois de tanto silêncio,

Que nos aquecem quando os pés já arrefeceram há horas,

Só essas merecem o respeito dos sorrisos sinceros, dos olhares com desejo,

Com remorso ou com tristeza, só essas merecem os dedos que as tocam

E os lábios que as beijam sem pudor, sem medo, mesmo que ainda não haja silêncio

Num quarto vazio, pois ainda vibram as fibras de algo sem corpo que morre

Para ressuscitar algo melhor, mais real, mais sólido, que resistiu à sua morte possível.

As madrugadas ainda adormecem, as lareiras arrefecem, o vinho deixa de se sentir

E só uma dor de cabeça e uma náusea ficam da euforia da noite anterior

Que o dia seguinte apagará para sempre até haver uma próxima, mais uma,

Uma que dure toda a eternidade a que um mortal tem direito,

Até não haver forma de aquecer os pés que se deixaram arrefecer.



17.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva



Em Defesa Dos Vampiros


Aos vampiros, quem os torna vampiros, são as vítimas

Que os empalidecem com o seu calor, o seu pulsar de vida,

O seu cheiro a sonhos por um futuro limitado.

São as vítimas que lhes roubam a alma, lhes cegam

Todas as outras vontades e lhes limitam a vida

À sede de um outro sangue, para continuar pela eternidade,

Vazios, buracos negros esfomeados de outros dentro,

Desejosos de dentes dentro, de gritos, de dor ou um prazer

Que não se explica por quem tem fome à noite e os olhos

Fechados pela eternidade.

Os vampiros, pobres vampiros, abdicam do descanso eterno

Porque a isso alguém os obrigou, alguém os bebeu,

Os esgotou até à última gota de calor no coração,

Até ao último suspiro da alma.

Há dentes chamados beijos, sedes chamadas desejos

E no fim todos são torturados, os que são para sempre

E os que lhes matam a sede que nunca se apagará.



17.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

domingo, 16 de janeiro de 2011



Prenda de Natal


Uns gemidos de quem acorda ao lado,

Numa cama desconhecida, com o sol

A teimar em lamber a pele ressacada,

Um corpo, quase estranho,

Ainda entranhado

Nos apêndices possíveis e

Viva a manhã de Natal!


O rumor universal

Nos lábios húmidos de uma mulher do sul,

Gemidos de quem não pode esperar,

Umas boas festas,

Como devem ser dadas,

A carne e fogo

E uma ejaculação nas mamas

Ainda brilhantes da saliva

Da sede de cão danado

Em busca do amor natalício,

Da verdade e da felicidade

Que vem e vai

E nem dá tempo

Para se tatuar na memória.


Um corpo quente do sul,

Com um castelhano cortado a Sol,

É a melhor prenda de Natal

Quando se é um eterno solitário.

Abre-se e a magia é essa,

Depois apaga-se, esquece-se,

É a vida.



Feliz Natal…



25.12.2010



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva



Uma Pedrada Ao Lado da Evidência


Um mesmo lugar, uma outra hora, mais frio, mais anos,

Menos esperança no que está para nos deixar continuar e mais um poema,

Mais uma pedrada contra o esquecimento,

Mais um gesto tão inútil como ridículo.

Roça um cão nas pernas cansadas, outro cão, enquanto outros ladram

E fazem da vila algo vivo que mergulha na noite e na solidão

E o sino quando toca parece acordar o vazio que habita cada coração desiludido.

A luta vale só por si e a derrota é algo que é certo e morte.

Morre-se tantas vezes em tanta gente, em tantos lugares

E mesmo assim o medo toma conta das mãos que se afastam da felicidade

Para escreverem mais um poema num mesmo lugar, numa outra hora,

Arrefecendo, envelhecendo, atirando pedras aos mortos que nos povoam,

Para que não nos esqueçam com os seus olhos virados para a eternidade.

O que é eterno é nada e um momento é um universo pequenino.



14.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011





Chá Das 03:13


para ti,



O chá arrefece mas ainda sinto o seu sabor na minha boca,
Apesar de esquecido e da cama já vazia, com a marca de um corpo que a noite
Apagou, que a noite levou para a terra do medo e a solidão chegou com o ladrar,
Com o suor dos sonhos terríveis que colam a pele nos lençóis, tão frios, quando ela parte.
O carro pára e as luzes apagam-se e os corpos escondem-se num esquecimento
De momentos que são para sempre e por isso nada, rasgam a carne
E deixam uma marca de fogo na inconsolável emoção, hormonas, descargas
De ácido e contracções viscerais, punhos rasgados em paredes ásperas,
Palmas cortadas em copos vazios pelo desespero da ausência, da eterna ausência
E a falta de coragem de uma mão de chumbos a abrir as portas do inferno para a eternidade.
A lenha consome-se e tudo permanece frio, escuro, inerte, morto, mais morto,
A cor desmaia e todo o mundo parece ejacular bílis nos olhos de quem sofre,
Nos olhos abandonados pela luz numa manhã fria, numa casa de quem morreu ou partiu,
A cama já vazia, a ressaca do excesso, de ter dado tudo por tão pouco tempo,
Valendo, mesmo assim, a vida pelo pouco tempo em que tudo foi dado,
Os lábio apertados, uma existência mais real e mais desejada que um chá que arrefece,
Mas assim teve que ser, enquanto tudo se consome as pernas correm,
Fogem para longe da dor da impossibilidade de uma presença onde deve estar,
Nos braços famintos da carne mais desejada que mil amores de ouro no dedo
E cornos na cabeça, mais desejada que mil nomes esquecidos em noites demasiado longas,
Mais desejada que uma vida sem a possibilidade de satisfazer esse desejo, esta vida,
Uma carne que traz dentro uma alma adorada e brilhante, que se afasta e deixa as trevas
Apoderarem-se do coração, do tesão, do olhar, das mãos que esqueceram o cheiro
Entranhado tantas vezes, saboreado, delicioso, agora fome, síndrome de abstinência
Um vagabundo vazio, sem mais que as pernas, a dor, a saudade e as recordações,
Enquanto o chá arrefece e os olhos de Ginsberg repousam no meu sofá
Onde tu devias estar, deitada no meu colo, enquanto eu escrevo a minha dor,
O meu amor, o meu desespero e a beleza confusa disto tudo.


04.01.2011


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva


Declaração


Acredita pelo menos nas palavras

Quando digo que te amo,

Já que não ouviste os meus lábios molhados nos teus,

Já que não leste os meus olhos,

Nem sentiste o toque dos meus dedos.


Acredita pelo menos na esterilidade das palavras,

Já que não percebeste o meu esperma

A invadir o teu corpo com uma vontade

Fertilizadora.



03.01.2010



João Bosco da Silva

domingo, 2 de janeiro de 2011



O Fim


A estrada chama-me uma vez mais, a distância puxa-me,

Os olhos escurecem e não são lágrimas, a chama apagou-se

E é o fim, mais um fim, todos os dias menos um, menos uma,

Medo de se ser mais uma e nunca mais, nunca mais porque é o fim.

Na multidão os olhares já não se encontram, os dedos não se tocam,

A presença torna o ambiente pesado, os lábios fingem um sorriso

Onde só dentes, só porque é o fim e não se quer admitir que é o fim,

Outra vez o fim e tudo passou, tudo foi e nunca mais, nunca.

O caminho húmido pelo que escurece os olhos pede presença mais uma vez,

Passos resignados a um destino incerto de pé no ar,

Para um fim, sempre que mais um passo, um amo-te que fica no vazio

Entre dois que nunca conseguirão ser um, nunca mais, porque chegou o fim,

Nada fica a meio, tudo chega ao fim, até o cansaço, até a dor, até o prazer,

Uma ejaculação num corpo quente que se julga mas afinal mais um,

Mais uma explosão hormonal a enganar com sentimentos e tretas finitas,

Só porque o coração bate mais rápido, os olhos brilham e a chama

Crepita-nos palavras que parecem ser mais reais que o sentimento,

Que a pele apertada que envolve a vontade de sinais e beijos sofridos.

Os antigos fantasmas são tão reais como os que rasgam a carne

Nas noites solitárias entre tantos, tão poucos, com a estrada vazia,

À espera, sem razão para se esperar o que já partiu, o que chegou ao fim.

Passou e a mão ficou no ar à espera, desamparada, até que a chuva a acordou,

Até que os cães ladraram à madrugada onde esteve, até que o vinho acabou,

As lágrimas secaram, os corpos suaram desejo, os orgasmos vieram, os olhos se fecharam,

A magia acabou. A estrada chama, chama para mais um fim,

Já que este acabou e isto é o fim.



02.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010



Crepúsculo


Já que cheguei a esta hora

E a noite foi longa,

Gostava de ver o amanhecer

Azul.

O sono é inconveniente

E quando mais valem a pena

Os olhos, cansados,

Fecham-se e o dia

Nunca chegará

Ao que por ele

Tentou esperar.



Ville Sillanpää


Descontentamento Presente


Quantas vezes desejei acordar e estar aqui e agora sei

Que amanhã será uma desilusão ao acordar e ter à espera

A cor que já não se espera. Aquela noite perdida, longe

E tão cheia de possibilidades na sua impossibilidade real

Com tantos renascimentos de momentos, que afinal, bolorentos,

Cansados, mortos e tudo um mais uma vez suspirado a caminho

Da mesma casa, agora demasiado próxima.

É tudo tão belo quando longe. Os olhos são inimigos da proximidade

E o coração cansa-se dos espaços fechados.

Se ao menos se pudesse viver perto da vida, sem ter que sentir

Todas as suas imperfeições de coisa real.

As actrizes são sempre mais bonitas quando não se lhe sente o cheiro

E a sua vida é sempre uma ficção nos nossos olhos.

Porque é que o real sempre nos encosta contra a parede

Das nossas limitações e nos rasga quando passa?

Não há nada mais belo que um dia que passa sem me tocar,

Dos que não se levam, dos que não se querem de volta,

Dos que são mais vida, que acabam e só porque começaram,

Tinham que acabar.



22.12.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva



Fim


Agora que te observo de perto

E sinto o teu peso real na minhas mãos,

Sei que o esforço foi algo

Que só a ilusão podia motivar.

Agora que vejo realmente,

Com a clareza que a proximidade,

Mesmo que te afastes,

Revela, abro as minhas mãos,

Deixo-te cair onde já mora

A paixão.

Não deixo de sentir a estranha


Dor pela falta da tua presença

E um alívio incompleto.



Ville Sillanpää



Arrefecimento


Queria poder explicar-te,

Enquanto bebes e sorris

E te afastas de mim

Como as horas da vida,

Porque não te sinto

Mais próxima do teu coração.

Os meios beijos tornaram-se

Meio vazios e o frio

Um vulto que vira as costas

Sem se despedir com um olhar

Quente.


Será isto o fim de um quase

Amor, que só teve coragem

Quando o verão

Acabou?


Não sei se foi cansaço

Por mãos cheias de mim,

Agora a afastarem-me,

Só sei que chegou e

Nunca foi suficiente.



Ville Sillanpää

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010



Truly, Madly, Deeply


Sincerely, I don´t give a damn

If my friend gets it.

It will be revenge.

You had other people,

Fuck, how could you?

You will see how easy

It is. Just open your mind.

She will open it

As I write this miserable poem.


The wet stuff, everywhere,

But not me, not anymore,

Just the thought of revenge.

No reason, I was free,

She was free,

But no one knows.



How truly, madly, deeply

Can you get at 7 a.m.?

I wish you luck my friend.



B.



Vivemos No Tempo Dos Vampiros



adeus até sempre


Vivemos no tempo dos vampiros,

Sugam-nos, deixam-nos vazios e ainda nos cospem veneno

Na cara desprezada pela sua palidez de sentimentos.

Vivemos no tempo em que o cheiro a carne é que desperta

O calor, não no coração, onde o desejo é a realidade,

Afinal todos canibais, uns crentes em desígnios maiores,

Quando afinal, o que conta é chupar e ser chupado,

Deixar um vazio e ignorar o que nos habita.

De dia ninguém me vê os dentes, à noite todo sorrisos,

Inocentes, com promessas subliminares que o orgasmo apaga.

No fim só os dentes ficam, marcados no corpo vazio e cansado de nós,

Nós, todos, vampiros, convencidos da imortalidade da nossa juventude,

Ignorantes da dor que o nosso veneno arrasta pelos anos.

Estou vazio e cansado, não consigo aguentar menos uma gota de sangue,

Mais uma gota de veneno, já tenho os dentes que me queriam ver,

Agora deixem-me ser pálido e vazio, cheio de sonhos mortos,

De amores cicatrizados, de dores que só os olhos escondem,

Até que não conseguem mais e se fixam no vazio

De uma multidão numa noite, tantas que se repetem, convencidos

Que será diferente, mais uma vez, até ao fim da nossa eternidade.



20.12.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010



Improbabilidade de John Coltrane


Não sei quem me lembra, quase sem olhar naqueles olhos cansados,

A barba suja, já branca, mas suja, encurvado, batido pela vida,

Sem aspirações além de manter os seus objectos perto,

O seu lixo próximo a fazer com que ele mais um bocadinho.

Pede um cigarro a quem passa, mas ele fantasma para tantos,

Apesar de ser um homem alto e com muitos anos de peso,

Mais leve que os muitos que passam, sem dúvida que mais leve,

Com o seu olhar até ao fim, ou o início sempre, uma primeira vez,

Um brilho sujo nas ruas conhecidas e também sujas,

Onde à noite as predadoras de dentes húmidos e infectados

Fazem companhia às luzes amareladas da cidade cinzenta.

Não sei porquê, mas John Coltrane apesar do ruído invisível da noite,

Talvez pela heroína que tantos levam, ou desejam,

Ou não e apenas um certo improviso humano, caos harmonioso

Naquelas barbas sujas, que afinal me lembram Bukowski

E uma voz arrastada, também Ginsberg, ou mesmo um velho sentado,

Väinämöinen, mas o americano Walt Whitman, um cântico mudo a ele mesmo.

Ele tão mais, apesar de não ter nada além dele, ele vivo,

Quando tantos o atravessam durante o dia, enrugando o nariz,

Cheio do vazio de si mesmos, convencidos do seu tamanho fora,

Não valendo um saco cheio de lixo, nem a fome de gramas de heroína,

Mais alienados que os que se estendem como lagartos

Ao sol imaginário da cidade cinzenta onde Coltrane é improvável.



16.12.2010



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010



Convite


Os amigos tiveram que se ir

E eu fiquei à conversa

Com o que restava da cerveja,

Só, sentado num canto.


Olá, que tal, que fazes,

Bebo a minha cerveja,

Queres vir até minha casa

Com a minha amiga,

Porque não, quando for

Para ir venham ter comigo.

OK.


Ela ruiva, uns vinte e cinco anos,

Melhor que uma cerveja no deserto,

Vestida de polícia, dos filmes porno

E a amiga loira enfermeira

Das que nunca vi em nenhum hospital

Com doentes reais.

Uma festa.


Acabei a cerveja, levantei-me

E dirigi-me à saída

Como um sonâmbulo,

Invisível, quase de olhos fechados.

Há noites em que me sinto

Com cem anos

E a vontade é só de sossego.



15.12.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva



Degelo


Não me pediste nada e eu

Deixei tudo, entreguei

O meu futuro visível

Até me fazeres

Desaparecer.

Devias saber que,

Enquanto o meu corpo

Sentir o frio

Da manhã branca,

Ainda há tempo

Para renascer na

Primavera.

O verde regressará e tu

Irás com a neve

Para longe das memórias

Felizes.



Ville Sillanpää

sábado, 11 de dezembro de 2010


Desespero
Sem amigos, sem sonhos, com tristes memórias dos dias doces
E quentes e música a piorar tudo, porque tudo igual, menos o que devia
E uma dor que não havia.
Nada interessa na madrugada dos dedos doentes, das lágrimas secas e inúteis,
Formigas negras que se arrancam dos olhos e nem primos, os antigos da infância.
Promete-se um poema comprido, longo, aborrecido para os olhos da maioria,
Um ser cansado após as horas da meia-noite, algo que não tem utilidade,
Neste mundo de engrenagens, nesta máquina infernal para o nada.
Nem uns dedos a humedecer no corpo de alguém que até interessa
Para fora, mas só o interior, condenados ao interior inacessível.
Quantos poetas sem razão de ser a estas horas,
Mortos e vivos em páginas e páginas... morreu Rimbaud?
Do que servem as experiências se não há eternidade?
Meu deus, que quase me peco com o desespero de encontrar algo fácil!


12.12.2010

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010



Praia


Enterro a garrafa de vinho tinto na areia

À beira do lago e enquanto refresca,

Sento-me a aquecer e a olhar os barcos

Que passam.

Lanço-me à água, mergulho, sinto

Na pele o corpo líquido envolver-me,

Nado até me doerem os braços,

As pernas, as costas, até que o Sol

Se canse, até o meu corpo arrefecer.

Escurece, mas pouco, regresso à margem

E nem me lembro da garrafa de vinho.



Ville Sillanpää



Confissão a Sylvia Plath


A minha cadela uma leoa pequenina e eu ladro-lhe um pensamento.

O frigorífico dá-me um pacote de leite quase vazio

E eu já fumei dois maços de cigarros e sinto-me pesado

Com tanta cerveja e alcatrão.

Anti-depressivos, poesia e solidão mal conseguida,

É isto Sylvia?

Pego no António Lobo Antunes e ele diz-me que Camões

E sinceramente, hoje não estou para ler Faulkner,

Já me vim apesar de tudo e tenho o amor da minha vida bem longe

E frio do corpo onde me despejei.

A arquitecta italiana é tantas, que ainda não a reencontrei,

Mesmo sabendo que está em Barcelona

E tu Sylvia já morreste com a tua depressão.

A minha mata-me e escreve e eu inocente de tudo,

Sabes bem e se não sabes,

Os Sôbolos Rios Que Vão e a bola de ténis da estrangeira loira,

Que provavelmente inglesa.

Sei que bebeste vinho do Porto Sylvia

E tenho pena por nunca ter estado dentro de ti,

Apesar de muita gente (tu morta), dizer que não gosta.

Sabes, também há gente que não gosta de António Lobo Antunes,

E eu, só tenho pena dos que vão morrer assim.

O meu hálito é tabaco e nem sei se o meu ou de quem me morreu em nome.

Aquele gajo português de olhos castanhos, tentarão recordar,

Mas eu não Sylvia, eu nunca português.

O meu hálito a leite e a minha cadela uma leoa pequenina

E tu no caixote do lixo, apesar de morta, porque alguém não gostou,

Como se isso nos interessasse.

Se escrevemos é porque já nós não gostamos, ou de outra forma,

Ainda poderias estar aqui, ao meu lado, cheia de rugas

E com uma tristeza aguentada a caneta e papel.

O anjo da guarda que a minha mãe me deu, não será suficiente,

Porque me lêem e me dizem que se não me conhecessem,

Eu mais um no cemitério. Ainda não perceberam

Que eu ando para chegar a ti, desde que pensei, eu sou,

E isso faz pouco sentido.

Temos pena Sylvia, mais nós que os outros,

Mas eu vou tentar aguentar, mesmo sabendo que amanhã

Acordarei e serei menos eu mais um dia.

Sylvia, dorme bem e não te preocupes,

Um dia vou-te visitar.



10.12.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva