segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011



Saco de Plástico


A busca da felicidade e não sei quê,

Que nunca se encontra

E se passa a vida à procura de algo,

De alguém, da epifania: a felicidade é isto!

Quando se é criança, é fácil encontrá-la,

Não exige muito esforço,

Não pede sacrifícios,

Não necessita de grandes manobras.

Estava ali, à espera onde

Menos se esperava.


Não há uma receita para a felicidade,

Há várias e nunca é preparada da mesma forma.

Uma delas é tão simples quanto isto:

Uma colina nevada, um saco de plástico

E aquele que nunca nos morre realmente,

Sem medo, sem vergonha, livremente

Até não se aguentar mais do traseiro,

Até não se sentirem as pontas dos dedos.



(Ville Sillanpää)


21.02.2011


Turku


João Bosco da Silva



The world is falling apart


I wake up, turn

On the radio,

Make some coffee,

Open the window blinds

And outside is

A wonderfully

Beautiful sunny day.


I hear the news

From the radio:

Handicap children

Died on a fire

In their orphanage

In Estonia,

Libya is boiling,

Murders…

A wonderfully

Beautiful sunny day.


I look to myself

In the bathroom mirror

And I find a new grey hair:

Damn, my world

Is falling apart.



B.

domingo, 20 de fevereiro de 2011



Pig Slaughter


Some have names

And are treated

Like pets, big pets,

Closed in some shitty hole.

If they could have it,

Some of them would

Have hope,

Some of them would

Believe.


But there is tradition,

And tradition tells

How things were,

How things should

And will be.


Some had names,

Some had a beating

Heart,

Now drained from blood,

On a wooden bench

In a cold winter morning

With all this strangers,

All this friends,

Watching it dying.


Love is a pig getting fat

For slaughter.



B.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011



Resumo Resumido de “Une Season En Enfer”


Longe de nada, no centro do que poderá ser, se for,

Com os carros estacionados lá fora, o café a fazer companhia,

A banda sonora de um filme qualquer, que já gostei mais,

Só porque lá fora estava um dia cinzento e hoje até faz Sol,

Uma lucidez de quem dorme bem, de quem não perde a noção do que bebeu,

Nem bebeu, de alguém que já não tem o indicador amarelo,

Nem sente dor e nojo só de pensar no passado, porque foi

E foi o que tinha que ter sido e já cá não está, só um pêlo no café,

Que rapidamente se remove com um dedo rápido.

Tudo parece uma avalanche em câmara lenta, de onde se pode

Retirar momento a momento, o que valeu a pena:

Aquelas gargalhadas, as lágrimas inúteis, as mãos nas costas,

As unhas, os abraços de há muito tempo, os suspiros,

Os bocejos, os beijos, os meios beijos e os que quase, as rapidinhas apressadas na rua,

As esquecidas no carro, os jantares até o vinho acabar e depois mais vinho,

As conquistas dos bares e das discotecas, o nosso nome dito com alegria,

O nosso nome dito com ódio, com tristeza, com indiferença,

As saudades antes da partida, a despedida de semanas,

As cervejas à geada, os serões até abrir o primeiro café da terra,

As caminhadas no Sol quase quente das manhãs frias do regresso,

A lareira e o crepitar da amizade à sua volta, os beijos roubados,

Os beijos recusados, a braguilha que não se quis abrir,

As festas incontáveis, os litros incontáveis de fino, os cigarros partilhados

Nos momentos mais difíceis, afinal tão simples, tão necessários,

Os murros nas paredes sem culpa, os gritos a quem não merecia,

Os olhares perdidos no ar, os olhares que começam o fim, os que comem,

Os que matam, os que pedem desculpa quando o orgulho não permite palavras,

As viagens quase fugas pela noite bêbada, os quase acidentes, os acidentes e a sorte

De não ter sido um fim pior do que o que podia ter sido,

O desespero, a esperança, o esquecimento, as derrotas e as vitórias,

As mentiras, as mentiras das mentiras e as verdades nas mentiras,

A sinceridade, a frontalidade e a falta dela, as conversas paralelas,

As que passam atrás e não interessam, as realidades alternativas, a desilusão,

Os montes e o Sol que nasce atrás deles e esse sim interessa,

O Outeiro, uma amostra de Nirvana, a Galiza como uma fuga,

As fogueiras pela noite fora, as garrafas vazias que fizeram as manhãs longas,

Acordar só, acordar quase só, adormecer sempre em má companhia,

O Johnnie Walker a descer pelos paralelos em direcção à igreja e mais além,

Um cão que espera sempre, o Verão que dura pouco e custa a aquecer,

A vizinha querida e as birras de quarta classe, o arrependimento único,

Os jogos, os jogos a sério, o amor e as coisas a sério, os amigos verdadeiros

Nos maus momentos, os maus momentos a tornarem-se lições,

Ler poesia com cerveja no Verão, ler poesia com vodka e vinho do Porto no Inverno,

O rio a tornar-se impróprio para consumo, as silvas que não deixaram marca,

As noites como tantas outras que não se esqueceram tanto quanto se acreditava,

As corridas pelos montes, a liberdade de estar sozinho no meio de uma tempestade,

O tempo que se tinha e as mãos agora vazias, longe de nada,

No centro do que poderá ser, se for, o tempo tornado momentos,

Os momentos tornados recordações, as recordações a fazer de nós aquilo que somos.



18.02.2011



Turku



João Bosco da Silva



A scared dog from 1:20 a.m. to 1:45 a.m.

It was 1.20 a.m.
And I was closed
Inside the bathroom
Reading poetry,
Away from all
The sounds that
Take control of my
Small rented studio
At night:
The refrigerator, the furniture,
The clock,
Strings from I have
No idea…

I was sited on the
Toilet with my pants on,
Just reading the night
When my up neighbors
Started to fuck.

She sounded like
A scared dog,
Sometimes more,
Sometimes less,
Almost monotonous
As I kept reading.
I don´t even know
If I heard the guy
Or if there was a guy,
But after five poems
Came some silence.
Then somebody pissing,
Toilet flush, somewhere
Around me water
Throgh pipes inside
The walls
And then silence again.

It was 1:45 a.m.
And I realized that I had
To read the poems again,
Because I was paying
No attention.
I think I like sex
More than poetry.


B.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011



The sewer


The sweet childhood

And all the moments

That made us

As we are now,

More or less.


Like that time

When I stayed

Inside the classroom

The whole morning break

In second grade,

Because I was afraid

Of been beaten again.


I was afraid of

Those two kids

From the six grade

That once spanked me

On the way home

And tried to throw

Me in this open sewer,

On a rainy day.

Some old lady,

Who I´m sure

Is dead by now,

Made them run away,

Before I was thrown.


I wanted to pee so badly,

But I was scared

And so, I just did it,

Slowly, silently, painfully,

In my pants,

While I pretended

To be reading something

From a book.


So now, when I´m afraid,

I don´t give a shit anymore

And I just go for it,

Because in the end

The result will be

The same.



B.


"Também Há Macieiras No Inferno" (excerto)

O relógio parado na parede da gente abandonada pela gente e pelo tempo, naquele andar na cidade grande, antiga, velha, não me dói nem metade nos olhos de dentro do que doeu o cão abandonado nesta aldeia há muitas vidas atrás, com um olhar a pedir morte, com chumbo no corpo escanzelado até não poder mais com o peso por causa do sangue que perdeu, até aquele palheiro escuro, sempre de portas abertas para quem quiser ir morrer ou fazer pela vida. Agonia em olhos castanhos que se tornavam líquidos nos meus, agonia em olhos castanhos de cão a sentir-se além dos meus feios de gente, ainda gente, esforçando-me por manter dentro o estado que dentro, líquido, como o que a vesícula biliar reserva, como se nos olhos, como se os olhos a engolir em seco, com uma garganta mais seca que o pó do caminho, hoje. Deus não sabe o que chorei naquela noite, porque deus não sabe merda nenhuma, se soubesse existia e poupava pelo menos os cães à crueldade dos homens, dos que vem com a enxada para acabar com o trabalho.

Ide para casa garotos que eu trato disto.

Como se disto em vez de dele. Filho da puta, que lhe quis matar os cães todos, sem culpa eles, mas também eu humano porque nisso me tornaram. Filho da puta que não me poupou à enxada a entrar pelo palheiro e eu criança, conhecendo a morte das moscas, das galinhas a caminhar degoladas, do sino quando tocava e era menos uma pessoa que se via pela rua, não me poupou a um ganir sem vontade, um crânio a estalar e um cão morto, mais um isto. Hoje coitado, o filho da puta que nem com o cão aos pés dele lhe acertaria, tão velho e com os seus cães mortos da tinha, os filhos longe, a mulher que tem engordado tanto que já não lhe chega, nem mesmo se a enxada se levantasse e um crânio de cão que não faz mal a nada, quanto mais a ninguém. Não me pouparam às misérias, por isso nunca me senti especial: especiais são os ignorantes que cresceram dentro de paredes de algodão doce, sem janelas para a miséria, às costas de um nome, de um esforço que nunca tiveram que fazer, quase irreais. Pode não lhe vir uma enxada aos cornos, depois de uma caçadeira lhe crivar a carne de manias, mas a gadanha é para todos. A bilirrubina sérica a pôr amarelo nos olhos da gente. Não choro: já passou.

João Bosco da Silva


Palavras Num Quarto Vazio



a quem me quis morrer,



E o fim, pouco mais é que isto, que o agora, mas que dura inconscientemente,

Sem se sentir, como um cadáver levado pelas águas de um rio infinito,

Um rio chamado fim, eterno, escuro em linha recta até ao fim dos tempos.

Se soubesse antes de poder saber coisa alguma que isto seria assim,

Que eu seria um monte de palavras dentro, com um homem pequenino

Na cabeça, no coração (dizem alguns), a tentar dar-lhes um sentido,

Dar-lhes um significado, uma justificação além de hormonas e neurotransmissores,

Neurónios cansados das noites até à noite e do álcool até tudo deixar de fazer sentido

E não me importar com isso, preferia ser uma pedra desde o princípio,

E passar a eternidade até a erosão se cansar e perceber que não passo de uma pedra.

Tantos sorrisos perdidos nos sonhos frios, tantas palavras não ditas no silêncio

Da distância, tanta carne evitada sem razão, só porque uma ideia a ser mais importante.

Que ideia pode ser mais importante do que algo que nos cabe num punho fechado?

Não se acredita no que se procura, por isso nunca se encontrará, passa-se

E nem se vê, às vezes porque parece demasiado fácil, outras porque não vale a pena

Se é tão difícil e a vida continua sem um sentido, sempre em frente até ao rio fim.

Se os cães ao menos três cabeças quando chegar a minha hora, ou algo pior,

Mas algo, pelo menos algo, porque isto soube-me a tão pouco, soube-me a quase,

E saber a quase é pior do que saber a nada. A vida parece uma amostra

De algo que não existe além da vida, uma provocação do acaso, um beijo que fica

No canto da boca a latejar durante anos, um quase orgasmo, pequenino, apressado.

Tanta alma perdida, sem alma, corpos convencidos de que uma salvação qualquer,

De uma forma qualquer, sempre sós, sempre com medo, sempre em busca de outro,

De alguém para partilhar um momento no crepúsculo, um pedaço do que têm,

O corpo, uma pausa na dor, a própria dor, porque no fim irá sempre doer,

Alguém irá sempre sofrer, quem vai pode ter sofrido, pode continuar a sofrer,

Quem fica sofre, ou não quer sofrer, ou não consegue porque está vazio.

E o fim, será pouco mais que isto, ou pouco menos que isto, menos uns olhos abertos,

Um corpo que se move, uns sonhos que aborrecem o presente quando trazem o passado,

Ou um passado que podia ter sido, mas não foi e agora não vale a pena nem sonhar,

Uma ligeira dor de cabeça, os sons da escuridão no quarto silencioso, o som da água a correr

Algures, ou o sangue a fazer eco na almofada da insónia, pouco menos, pouco mais.



17.02.2011



Turku



João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011



Sex lies


Someday, just another day,

I was with this girl

Who I used to fuck

And I was a bit tired of her.

We were doing it.

She had her eyes blindfolded

With a black stripe.

I love you, she said,

So I turned her backside to me,

And I did her doggy style.

My friend silently

Opened the door,

Came inside

And then we switched.

I love you, she said,

My friend winked his eye,

Smiled and fucked her harder.

We switched again and he left

The room,

I finished the job

Somewhere inside of her

And she never noticed

The switch.

She uncovered her eyes

And looking at mine

She said again, I love you.

No you don´t,

You love cock,

And she slapped my face.

Never trust the words

You hear when you fuck.



B.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011



Something as Love


Sometimes, people ask me,

What have I seen in you,

And I just say,

I saw that you

Have seen something in me.


Truly, I like the way

She says, I love you,

Without expecting an answer,

Secure, sure, natural,

Just like that.

I like when she leaves candies

On her pillow when she is gone earlier,

And I don´t like candies,

But I like her.


I like the way she asks me

For a hug, with her arms ready,

Giving no chance for a not now,

And I like when she gets mad

With little things,

Just to make me stand up

And help her.

I know she could do everything

Alone, but she doesn´t want to,

Because she wants me near,

Even if I make everything harder.


This is what I have seen in her:

Her eyes on me.



B.


sábado, 12 de fevereiro de 2011



Pausa Para O Café


Há pausas longas e outras que nem por isso,

Mas não deixam de fazer falta.

Há quem abrace com as mãos a chávena gigante

De café americano e há quem brinque

Com o açúcar que ficou no fundo

Da chávena do expresso,

Ainda com o seu gosto na boca.

Há nos gestos mais banais uma desculpa

Silenciosa para parar,

Para olhar à volta, ver as pessoas

Que partilham do mesmo cansaço,

Cada uma por si, cada uma com uma chávena diferente,

Uma pressa diferente,

Um compromisso diferente que se tenta adiar,

Com mais uma pausa, mais um café.



12.02.2011



Turku



João Bosco da Silva



It´s a scary world outside


I can´t wake up anymore without help,

I need the alarm,

Somebody touching me,

Turning on stuff,

The TV,

The radio or myself.

It´s hard to wake up

When you hardly fell asleep,

When you know that

Next morning

All garbage will be away,

All the streets will be clean,

All men will be shaved,

All women will be perfumed

And with makeup again,

All the fake smiles,

All the bombs near to explode,

Will be back for you,

For your loath, to make you feel sick

With this plastic world,

Falling apart all day,

To be back next morning,

As if nothing had happened.

Empty trash cans,

Clean pussy,

Dead people in bags,

Dead people walking.

It´s a scary world outside,

And at least,

I own my dreams.



B.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011



Quando É Tarde Antes Do Fim


O interesse está dentro das mão vazias, que te pedem a carne,

O sangue, a dor amarga do anoitecer frio, dentro de uma caixa demasiado grande,

Quando o mundo acaba a cada segundo que caí no poço do vazio,

Para dar espaço ao que cresce antes de cada passo dado.

A morte é apenas aquela palavra que se sabe que é mais que isso,

Que é a única palavra real que não se sente e a vida é o que permite tudo o resto,

O possível e o impossível dentro de quem nem sempre sente o chão,

O amor é daquelas palavras como deus e não passa muito de mais um punhado delas,

Inúteis explicações as dos homens para as suas ilusões infantis,

Quando a sua fome é só uma e o tempo passa e o corpo deixa de ser cada vez mais.

Um dia, não interessa que haja aqui gente a lembrar aquilo que fomos dentro deles,

Porque nunca fomos aquilo e é uma afronta reduzir um universo a uma ideia,

Um nome e meia dúzia de sorrisos partilhados em noites duvidosas,

Beijos ácidos entre o beijo e o futuro, orgasmos falsamente arrependidos,

A uma saudade egoísta, que não passa de um: eu queria-te aqui, agora que já não estás,

Agora que não podes fazer nada, que o teu sangue frio e o meu corpo esquecido do teu calor.

O perdão quando é demasiado tarde tem um sabor a mórbido e ridículo,

A falso, a prostituição, amor em troca de morte, lembrança em troca de perdição.

O interesse está dentro das mãos vazias, tão brancas ao luar frio de uma noite de Dezembro,

Onde nascem tantas mortes antes da real, sem se perceber a subtileza do último suspiro,

O último olhar quente, o último vibrar e um adeus dentro, silencioso,

Quase escrito na pele que as unhas tantas vezes rasgaram e os passos levam tudo,

Para onde tudo vai, de onde tudo veio, do silêncio que um dia foi cortado por um choro,

Por um olá, por uma música que tantos outros gostam, por um sorriso, um olhar, um poema.



11.02.2011



Turku



João Bosco da Silva



Something about Pereira


There is this guy in the bar

Always with a glass of cheap wine,

Always drunk,

With his rubber boots all seasons,

Lost inside of himself,

Repeating always the same,

Living his nightmares silently,

Moaning sometimes,

Dirty, but shaved.

Sometimes he sleeps outside

On the street,

On the floor, alone,

Like a dog without master,

Drunk.


There is this guy who was

In the war, fought for the country,

Big crap to fight for,

And now the country

Sees him as a joke.

Younger man

Look at him as a broken, old toy,

Pay him drinks to watch him

Fall from the bench,

Take his hat away,

Hide his food, his few belongings,

And laugh like that was a funny thing.


There is this guy with no wife,

No children, no real friends,

A ruin, a memory,

Far away from the bar,

Far away from the younger guys

Around him, at midnight.

While this guys are laughing

At his misery,

Their friends are banging

Their wives,

Their daughters are blowing

Some cock inside a car,

And they may never live

As long as this old guy lived.


There is this guy in the bar

As free as a man can be,

With nothing to lose,

With nothing to prove,

Lost in his own world

Because the outside world

Has fucked him enough.



B.