
What humans do
Sex is so much simpler
Than love
And people always turn
One into another.
This is what
Humans do,
Turn iron into knifes,
Turn life
Into a living hell.
B.

The fear
I had a good job,
A decent car,
A place to live,
Money, friends,
A nice girl,
But then I threw it all
Away,
I ran from it,
I got scared.
I saw all my old friends
Getting married,
Having children…
Holy shit,
They are having children!
When did we get so old?
I saw all this sad smiles
While they were pushing
The baby stroller.
I noticed a shy light
When they start to get
Drunk and sincere.
They were tamed
And that scared
The hell out of me.
I ran from it all,
I ran away, I stop caring,
Just walking without a direction,
Just living as I always did,
But the years keep passing by,
I can´t stop getting old at all,
I can´t really run from it…
Can I?
B.

Expresso no Museu
Duas da tarde e um expresso na mesa a deixar de ser, a tornar-se eu,
O museu a ser memória e três ou quatro quadros que ficaram com um nome,
Outros nem isso, uma ideia vaga, retratos de gente que foi importante,
Gente morta e feia (mesmo que favorecida) encerrada em salões,
Uns dias cheios e outros dias vazios, com mais gente, que vive
Sem se dar conta da beleza viva à sua volta, fascinada pela obra
Que é quase imortal, quando o seu criador, um nome se tanto.
Duas da tarde e o sol cheio de ironia na rua gelada, na rua antiga,
Renovada a carne e sangue até ao fim dos tempos, cheia de cores
Que passam e desaparecem além das janelas, enquanto o expresso
Se perde dentro do abismo que não é tão fundo quanto parece, visto daqui.
Entra de olhos no chão, com um livro de arte num saco de plástico
Transparente, comprado na loja do museu, entra só com os seus cinquenta anos,
Entra como escolheu ser, um espectro grande do que foi, sem companhia,
Já foi bonita, vê-se nos olhos azuis escondidos pela fome da solidão,
Já foi desejada, mas aparentemente era demasiado boa para o mundo
E por isso ainda se senta ao fundo, num canto, com os seus anos a pesar,
Enquanto pede algo para o almoço às duas da tarde.
Deve ter cães, ou gatos, ou uma casa grande e vazia de gente,
Deve ter recusado muitos corações, porque não eram os certos,
Porque esperava alguém tão bom ou melhor que ela, usou para o que queria,
Esperou até ser demasiado tarde e agora é uma velha gorda e solitária,
Quase verde num canto enquanto espera que lhe tragam a comida,
Com o livro de arte aberto no colo e o saco de plástico vazio na cadeira ao lado.
Por alguma razão, dá-me impressão que ainda não saí do museu
E continuo a observar em silêncio, apreciando o gosto amargo do expresso
Que se dispersa lentamente, sem pressa, que são só duas da tarde
E o mundo é demasiado bom para mim, por isso abro as mãos ao que me oferece,
Sem medo, que nem todos serão telas pintadas num museu de uma cidade qualquer.
23.02.2011
Turku
João Bosco da Silva

Too real (blindness and fear)
Go away, she told him
From the start,
Right after their first
Kiss, outside the bar.
Go away, she said
Even when desire
Was melting her inside.
Stop, stop, she told him
Right after they started
Their first time together
On the kitchen table,
With the door open.
Stop, stop, she said,
While moaning,
Pushing him deeper
Inside of her.
Fuck me, she told him
When she was lost
But sincere,
Wet and tight but true.
Three times more,
Fuck me, fuck me,
Fuck me,
And in the end
She was scared,
Afraid of herself.
He should have known
That she was trouble.
He shouldn´t have gave
Her what she wanted,
Because she would
Refuse it (as she did),
Even when she wanted it.
She was afraid
Of desires and he
Was just one,
Too real for her.
B.

Lista de Compras
Uma frustração de caneta sem tinta,
Um grito mudo num pesadelo acordado,
Uma dor que não se sente, mas está,
Pesa e gasta,
Uma saudade impossível do fim do mundo,
Uma voz que diz que nos ama
Atrás de um muro intransponível,
Um sorriso constante de plástico
Com o desespero dentro,
Uma recordação que se esconde
Atrás de uma cortina fina,
Um nome disfarçado na pele tatuada,
Uma impossibilidade de solidão,
Um desejo inelutável de calar uma multidão
Que nos ignora,
Um vazio debaixo dos pés do corpo que grita,
Um amigo a quem confiámos o coração,
A quem confessámos todos os pecados
Que se afasta na escuridão de punhal na mão,
Uma vela que se apaga quando o silêncio
Deixou o quarto vazio,
Um apelo silencioso de quem não esqueceu
E só quis a nossa morte na sua vida,
Um olhar impossível nas costas de uma face insuportável,
Um cansaço que não vence os sonhos
Apesar de todos os poemas serem
Uma frustração de uma caneta sem tinta,
Uma dor inconfessável,
Uma fraqueza tornada visível,
Um fim que não acaba…
22.02.2011
Turku
João Bosco da Silva

Before it´s too late
If everything seems
Too perfect,
If the road looks
The right one,
If you feel like
You finally got it…
Jump immediately from
That before it´s too late.
Perfection is just
A short illusion
And when it´s gone
It leaves inside of you
A burning hole
That will never heal
Completely.
There isn´t a right road,
Only easier and harder,
And the right ones
Usually guide you
To a dead end,
Or an endless cliff.
You will never got it
Until the end
And if you feel like it
Is because the end
Is near.
So jump immediately
Before is too late.
B.

Saco de Plástico
A busca da felicidade e não sei quê,
Que nunca se encontra
E se passa a vida à procura de algo,
De alguém, da epifania: a felicidade é isto!
Quando se é criança, é fácil encontrá-la,
Não exige muito esforço,
Não pede sacrifícios,
Não necessita de grandes manobras.
Estava ali, à espera onde
Menos se esperava.
Não há uma receita para a felicidade,
Há várias e nunca é preparada da mesma forma.
Uma delas é tão simples quanto isto:
Uma colina nevada, um saco de plástico
E aquele que nunca nos morre realmente,
Sem medo, sem vergonha, livremente
Até não se aguentar mais do traseiro,
Até não se sentirem as pontas dos dedos.
(Ville Sillanpää)
21.02.2011
Turku
João Bosco da Silva

The world is falling apart
I wake up, turn
On the radio,
Make some coffee,
Open the window blinds
And outside is
A wonderfully
Beautiful sunny day.
I hear the news
From the radio:
Handicap children
Died on a fire
In their orphanage
In Estonia,
Libya is boiling,
Murders…
A wonderfully
Beautiful sunny day.
I look to myself
In the bathroom mirror
And I find a new grey hair:
Damn, my world
Is falling apart.
B.

Pig Slaughter
Some have names
And are treated
Like pets, big pets,
Closed in some shitty hole.
If they could have it,
Some of them would
Have hope,
Some of them would
Believe.
But there is tradition,
And tradition tells
How things were,
How things should
And will be.
Some had names,
Some had a beating
Heart,
Now drained from blood,
On a wooden bench
In a cold winter morning
With all this strangers,
All this friends,
Watching it dying.
Love is a pig getting fat
For slaughter.
B.

Resumo Resumido de “Une Season En Enfer”
Longe de nada, no centro do que poderá ser, se for,
Com os carros estacionados lá fora, o café a fazer companhia,
A banda sonora de um filme qualquer, que já gostei mais,
Só porque lá fora estava um dia cinzento e hoje até faz Sol,
Uma lucidez de quem dorme bem, de quem não perde a noção do que bebeu,
Nem bebeu, de alguém que já não tem o indicador amarelo,
Nem sente dor e nojo só de pensar no passado, porque foi
E foi o que tinha que ter sido e já cá não está, só um pêlo no café,
Que rapidamente se remove com um dedo rápido.
Tudo parece uma avalanche em câmara lenta, de onde se pode
Retirar momento a momento, o que valeu a pena:
Aquelas gargalhadas, as lágrimas inúteis, as mãos nas costas,
As unhas, os abraços de há muito tempo, os suspiros,
Os bocejos, os beijos, os meios beijos e os que quase, as rapidinhas apressadas na rua,
As esquecidas no carro, os jantares até o vinho acabar e depois mais vinho,
As conquistas dos bares e das discotecas, o nosso nome dito com alegria,
O nosso nome dito com ódio, com tristeza, com indiferença,
As saudades antes da partida, a despedida de semanas,
As cervejas à geada, os serões até abrir o primeiro café da terra,
As caminhadas no Sol quase quente das manhãs frias do regresso,
A lareira e o crepitar da amizade à sua volta, os beijos roubados,
Os beijos recusados, a braguilha que não se quis abrir,
As festas incontáveis, os litros incontáveis de fino, os cigarros partilhados
Nos momentos mais difíceis, afinal tão simples, tão necessários,
Os murros nas paredes sem culpa, os gritos a quem não merecia,
Os olhares perdidos no ar, os olhares que começam o fim, os que comem,
Os que matam, os que pedem desculpa quando o orgulho não permite palavras,
As viagens quase fugas pela noite bêbada, os quase acidentes, os acidentes e a sorte
De não ter sido um fim pior do que o que podia ter sido,
O desespero, a esperança, o esquecimento, as derrotas e as vitórias,
As mentiras, as mentiras das mentiras e as verdades nas mentiras,
A sinceridade, a frontalidade e a falta dela, as conversas paralelas,
As que passam atrás e não interessam, as realidades alternativas, a desilusão,
Os montes e o Sol que nasce atrás deles e esse sim interessa,
O Outeiro, uma amostra de Nirvana, a Galiza como uma fuga,
As fogueiras pela noite fora, as garrafas vazias que fizeram as manhãs longas,
Acordar só, acordar quase só, adormecer sempre em má companhia,
O Johnnie Walker a descer pelos paralelos em direcção à igreja e mais além,
Um cão que espera sempre, o Verão que dura pouco e custa a aquecer,
A vizinha querida e as birras de quarta classe, o arrependimento único,
Os jogos, os jogos a sério, o amor e as coisas a sério, os amigos verdadeiros
Nos maus momentos, os maus momentos a tornarem-se lições,
Ler poesia com cerveja no Verão, ler poesia com vodka e vinho do Porto no Inverno,
O rio a tornar-se impróprio para consumo, as silvas que não deixaram marca,
As noites como tantas outras que não se esqueceram tanto quanto se acreditava,
As corridas pelos montes, a liberdade de estar sozinho no meio de uma tempestade,
O tempo que se tinha e as mãos agora vazias, longe de nada,
No centro do que poderá ser, se for, o tempo tornado momentos,
Os momentos tornados recordações, as recordações a fazer de nós aquilo que somos.
18.02.2011
Turku
João Bosco da Silva


The sewer
The sweet childhood
And all the moments
That made us
As we are now,
More or less.
Like that time
When I stayed
Inside the classroom
The whole morning break
In second grade,
Because I was afraid
Of been beaten again.
I was afraid of
Those two kids
From the six grade
That once spanked me
On the way home
And tried to throw
Me in this open sewer,
On a rainy day.
Some old lady,
Who I´m sure
Is dead by now,
Made them run away,
Before I was thrown.
I wanted to pee so badly,
But I was scared
And so, I just did it,
Slowly, silently, painfully,
In my pants,
While I pretended
To be reading something
From a book.
So now, when I´m afraid,
I don´t give a shit anymore
And I just go for it,
Because in the end
The result will be
The same.
B.

O relógio parado na parede da gente abandonada pela gente e pelo tempo, naquele andar na cidade grande, antiga, velha, não me dói nem metade nos olhos de dentro do que doeu o cão abandonado nesta aldeia há muitas vidas atrás, com um olhar a pedir morte, com chumbo no corpo escanzelado até não poder mais com o peso por causa do sangue que perdeu, até aquele palheiro escuro, sempre de portas abertas para quem quiser ir morrer ou fazer pela vida. Agonia em olhos castanhos que se tornavam líquidos nos meus, agonia em olhos castanhos de cão a sentir-se além dos meus feios de gente, ainda gente, esforçando-me por manter dentro o estado que dentro, líquido, como o que a vesícula biliar reserva, como se nos olhos, como se os olhos a engolir em seco, com uma garganta mais seca que o pó do caminho, hoje. Deus não sabe o que chorei naquela noite, porque deus não sabe merda nenhuma, se soubesse existia e poupava pelo menos os cães à crueldade dos homens, dos que vem com a enxada para acabar com o trabalho.
Ide para casa garotos que eu trato disto.
Como se disto em vez de dele. Filho da puta, que lhe quis matar os cães todos, sem culpa eles, mas também eu humano porque nisso me tornaram. Filho da puta que não me poupou à enxada a entrar pelo palheiro e eu criança, conhecendo a morte das moscas, das galinhas a caminhar degoladas, do sino quando tocava e era menos uma pessoa que se via pela rua, não me poupou a um ganir sem vontade, um crânio a estalar e um cão morto, mais um isto. Hoje coitado, o filho da puta que nem com o cão aos pés dele lhe acertaria, tão velho e com os seus cães mortos da tinha, os filhos longe, a mulher que tem engordado tanto que já não lhe chega, nem mesmo se a enxada se levantasse e um crânio de cão que não faz mal a nada, quanto mais a ninguém. Não me pouparam às misérias, por isso nunca me senti especial: especiais são os ignorantes que cresceram dentro de paredes de algodão doce, sem janelas para a miséria, às costas de um nome, de um esforço que nunca tiveram que fazer, quase irreais. Pode não lhe vir uma enxada aos cornos, depois de uma caçadeira lhe crivar a carne de manias, mas a gadanha é para todos. A bilirrubina sérica a pôr amarelo nos olhos da gente. Não choro: já passou.
João Bosco da Silva

Palavras Num Quarto Vazio
a quem me quis morrer,
E o fim, pouco mais é que isto, que o agora, mas que dura inconscientemente,
Sem se sentir, como um cadáver levado pelas águas de um rio infinito,
Um rio chamado fim, eterno, escuro em linha recta até ao fim dos tempos.
Se soubesse antes de poder saber coisa alguma que isto seria assim,
Que eu seria um monte de palavras dentro, com um homem pequenino
Na cabeça, no coração (dizem alguns), a tentar dar-lhes um sentido,
Dar-lhes um significado, uma justificação além de hormonas e neurotransmissores,
Neurónios cansados das noites até à noite e do álcool até tudo deixar de fazer sentido
E não me importar com isso, preferia ser uma pedra desde o princípio,
E passar a eternidade até a erosão se cansar e perceber que não passo de uma pedra.
Tantos sorrisos perdidos nos sonhos frios, tantas palavras não ditas no silêncio
Da distância, tanta carne evitada sem razão, só porque uma ideia a ser mais importante.
Que ideia pode ser mais importante do que algo que nos cabe num punho fechado?
Não se acredita no que se procura, por isso nunca se encontrará, passa-se
E nem se vê, às vezes porque parece demasiado fácil, outras porque não vale a pena
Se é tão difícil e a vida continua sem um sentido, sempre em frente até ao rio fim.
Se os cães ao menos três cabeças quando chegar a minha hora, ou algo pior,
Mas algo, pelo menos algo, porque isto soube-me a tão pouco, soube-me a quase,
E saber a quase é pior do que saber a nada. A vida parece uma amostra
De algo que não existe além da vida, uma provocação do acaso, um beijo que fica
No canto da boca a latejar durante anos, um quase orgasmo, pequenino, apressado.
Tanta alma perdida, sem alma, corpos convencidos de que uma salvação qualquer,
De uma forma qualquer, sempre sós, sempre com medo, sempre em busca de outro,
De alguém para partilhar um momento no crepúsculo, um pedaço do que têm,
O corpo, uma pausa na dor, a própria dor, porque no fim irá sempre doer,
Alguém irá sempre sofrer, quem vai pode ter sofrido, pode continuar a sofrer,
Quem fica sofre, ou não quer sofrer, ou não consegue porque está vazio.
E o fim, será pouco mais que isto, ou pouco menos que isto, menos uns olhos abertos,
Um corpo que se move, uns sonhos que aborrecem o presente quando trazem o passado,
Ou um passado que podia ter sido, mas não foi e agora não vale a pena nem sonhar,
Uma ligeira dor de cabeça, os sons da escuridão no quarto silencioso, o som da água a correr
Algures, ou o sangue a fazer eco na almofada da insónia, pouco menos, pouco mais.
17.02.2011
Turku
João Bosco da Silva