
quinta-feira, 14 de abril de 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Insónia De Um Jim Beam
Não posso ficar, nunca poderei ficar, mas entretanto, enquanto a hora
Não me empurrar para o infinito, empurro mais um Jim Beam,
Faço mais um momento meu, mais um gesto menos gesto,
Que a noite ainda mal começou e já cheira a aurora no ar húmido
Do verde da primavera e todas as horas que me são sou eu.
O copo vazio deixo-o cair, sei que nunca mais voltará a ser copo,
Serviu-me, nunca foi o que levarei comigo, cada vez menos eu,
Cada vez mais longe do olhar cheio de fome de tudo,
Quando não sabia que tudo, a cada dentada vivida, aumenta o vazio
Que se ganhou quando a inocência deixou de bastar para fazer o dia valer a pena.
Quando é que os outros se tornaram condição à existência,
Aqueles olhos que nos vêem de mil formas distintas,
Nunca a que trazemos dentro, porque tantas e nenhuma
E eu sou o melhor actor do mundo, cada dia finjo ainda ser eu,
Uma personagem desconhecida a cada nova manhã, ao meu lado,
Nem a sombra a mesma, diluída nas cores cada vez menos vivas do mundo.
Enquanto me agarrarem no braço sei que ainda cá ando,
Acorda, como se tivesses os olhos fechados, só cansaço, só uma vontade
De deixar toda a vontade, ser levado pela areia movediça do tempo,
Navegando neste corpo condenado, quebrando gelo impossível,
Saqueando povos sedentos de violações e abusos, em direcção à aniquilação,
Levado pelos ventos infernais do ateísmo, sem remorsos pelo que as mãos conseguiram.
Não sei quem pinta todas as noites o dia, umas vezes abusando em tons cinzentos,
Outras exagerando na violência contra os olhos cansados das noites alargadas
Até ao nascer do sol, como se houvesse medo de adormecer
E nascer outro, com menos olhos para a luz que nasce além dos montes.
Deixa-te ficar, deixa-te ficar tu que a eternidade não demora tanto,
Perde-te comigo num Kentucky que apenas imagino,
Perde-te comigo que tu apenas imaginas, longe eu como Louisville,
Longe eu em Louisville como em Bragança, aqui ou além sete palmos,
E a minha verdade nunca será a tua, nem eu conseguirei fazer-te ver
Pelos meus olhos, nunca os mesmos, sempre iguais, dias cinzentos, sol, demasiado sol.
As moedas espremidas da vergonha são lançadas sobre o papelão,
Preciso de dinheiro para adiar o inadiável, ir andando, como tu, como eu, como todos,
Com os passos descolados, com os bolsos cheios de liberdade,
Um olhar que não merece as caras amarelas, verdes, vermelhas dos que morrerão
De excessos, da gula pela vida, quando o estômago rasgado à nascença
Foi suturado com frágil linha de feita de vida, de sonhos e ilusões.
Todas as mulheres me parecem bonitas e merecedoras do título:
Razão para viver, mas a vontade vem do cérebro primitivo, aquele que a morte
Esquece e é igual para todos, por isso bebo mais um Jim Beam,
Rodeio mais um centro do universo enquanto a hora não me empurra para o infinito
E rasgo o tempo por momentos, paro, suspiro e acredito que por instantes
Alguém acreditou que sou, alguém teve a certeza de ser, mas não posso ficar,
A morte é uma ressaca fácil de suportar e dói mais a sua antecipação.
13-04-2011
Turku
João Bosco da Silva
segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sucking Forever
Right now, she is mine:
Her curly hair
Around my fingers
Covered with her juice,
Her lips around me,
Me, inside her warm
Mouth, so many times
Kissed, much more times
Desired, her thin hand
Helping the rhythm
Until I explode
Inside of her and
Then she swallows
Me, all the possible futures,
Silently.
In few days,
Maybe a week,
She´ll be taking pictures
With her boyfriend
In beautiful sunny places,
Hugging, looking like
They are in love,
Like they own each other,
Like it is forever and true
And maybe it is,
In that moment.
I never took a picture
With her,
I don´t need to,
For me it is good and real
Enough,
Right now she is mine,
Right now is more real
Than forever.
B.
sexta-feira, 8 de abril de 2011

Walking Ice-Cream
I could lick her whole body
Like an ice-cream
On a summer day,
The blonde like some
Other blondes
I´ve tasted, but with
This yellow jacket,
Everything on her
A sunlight,
A lemon juice
In hell.
Fast steps, fast steps,
Touching eyes
Hidden souls
Ticking clocks to nothing
And probably
I will never see her again,
At least not with the same eyes.
B.
quinta-feira, 7 de abril de 2011

Duygu
em Barcelona,
Nunca estivemos juntos em Paris, mas senti-te em todas as ruas,
Cada esquina trazia-me a possibilidade de um reencontro,
Tão longe do tempo das noites quentes de Junho
No berço do meu país em ruínas, quando já duvidava do orgulho
Que senti até perder o sentido, duvidava de quase tudo
Menos da suavidade da tua pele, do sabor dos teus cigarros,
Do teu perfume Lolita Lempicka, que ainda hoje sinto o cheiro
A crepúsculos em varandas com o Sol a pintar o céu de tons laranja
E rosados os teus lábios quentes, com a tua saia fresca
No meu colo de pernas abertas e sede, tu sede, eu sede
E a noite toda o nosso recreio sem ilusões.
Nunca me pediste o que eu não te podia dar e dei-te tudo,
Entreguei-me à tua fome, sem me questionar, sem resistir,
E os barcos que eram partes de filmes passavam por baixo
Das pontes do Sena, ambos longe dos países que fomos,
Amantes sem perguntas desnecessárias, pois ambos seremos
Para sempre do mundo e das mãos que nos souberem tocar.
Cada edifício tinha a tua assinatura, a forma do teu corpo,
A textura impossível da tua pele, ou pétalas de uma flor exótica,
Todos os teus lábios desesperantes, sabor ou vício insaciável,
Toda, tu, o teu cabelo ruivo que tornava o Sol quente
E trazia à cidade o aroma das manhãs de Junho às quatro da tarde,
Diluindo o alcatrão vaporizado até ser possível o Rio Douro.
Um dia serei cabelos brancos, pó e gente nova que julgará
Que sou um armário feio e velho, com olhos cegos no presente,
Mas dentro estarás tu a fazer nascer sorrisos secretos
Longe de Istambul, longe do presente, naquelas tardes de Sol
Que nos cobriam com a noite, para que ninguém notasse
Que o desejo é mais forte que o tempo e torna momentos
Que passam, em eternidades pulsantes na improbabilidade do infinito.
07.04.2011
Turku
João Bosco da Silva
terça-feira, 5 de abril de 2011

Sem Sono Para Morrer
Enquanto a vida me traz mais uma história, mais uma que aparentemente
Não tem nada a ver com as que passaram e as que passarão,
Tento encontrar um momento nas palavras, que lentamente, escorregam do meu cansaço.
Sinto que o próximo passo me abandonará e me deixará ir de encontro
À terra, sempre fiel até à hora em que todas as histórias da vida
Se encontrarão numa eternidade cega e sem desilusões.
Alguém morreu há muito tempo e muitos outros agonizam debaixo do negro
Que despreza a primavera, mesmo que o verde arranhe a pele pálida
Das loiras de lábios rosados e mais quentes que a moralidade hipócrita
Dos lenços nas cabeças das avós e beijos nos anéis de dedos enrugados
E da cor da urina e das hóstias roubadas num Domingo de Páscoa.
Tento a vontade de uma cerveja, mas não consigo engolir a dor do cansaço,
Nem ir mais longe no quinto livro de Bukowski em pouco mais de dois meses
E por isso peço desculpa aos mortos que nunca me desprezaram ao mesmo tempo
Que me dá nojo ao pensar nos mortos que me morreram e nos que me mataram.
Os meus olhos não conseguem ser mais que tinta preta que torna palavras ilegíveis
Na sujidade de um poema, tentando limpar a vida, aliviar o peso de mais um capítulo,
Curto, mas com o tamanho de uma eternidade e a eternidade, seja qual for o seu tamanho,
É infinita, mesmo num grão de areia, nos lábios de um beijo, no brilho de um anel
Que sobreviveu cinquenta anos ou mais, como um reino.
Eu tento, eu tento, eu tento, mas os cabelos brancos assustam-me e são cada vez mais
E com isso, cada vez menos os anos, mais as portas engolidas pela parede do tempo,
Mas eu tento, nem que adormeça o meu coração antes de ter tempo de violar a morte
Com um excesso de vida descuidado, tento, mesmo sabendo que tudo regressará
Às raízes da vontade, enterradas no segredo do vazio.
05.04.2011
Turku
João Bosco da Silva
sábado, 2 de abril de 2011
A Day Like London In November
Today is like
London in November:
Sweet wind
Blowing wet air,
The threat of rain
In the air,
City lights
And young horny
Blondes on their
Way to bars
With much less
Clothes than
They should use,
Because it´s a bit cold,
Less inside their
Shaved amazement.
It feels like London
In November,
But the river
Is still frozen,
I have nothing
Waiting for me
In the saddest country
In the world,
I will not sleep
In a rotten hostel
And my mobile phone
Is quiet, forgotten,
As it should be
When hands smell
Like pussy´s juice.
Besides that,
Everything is like London
In November
Without homeless
Searching for a dry place
To sleep,
Without the illusion
That some chubby spoiled
Baby, deserves a shot
Of my hell´s magma
In her holy fake
Fucked by old crippled faces
Fat pussy.
I know I was told
More than once:
“Mind the gap”,
But I´m glad I didn´t
Gave a damn about it
And I made my way
Throgh all that crap.
I´m the devil,
Even if you think
You are bad,
You are just the way I made you
And I´m here,
In this day far
From London
In November.
B.

The Biggest Machos In Town Are Gay And They Don´t Know It
It is unnatural,
I´m quite sure it is,
That histrionic heterosexuality:
Scratching balls,
Hitting on all pieces of ass,
Ignoring their own wives
Or girlfriends,
Speaking loud about
Cock and ass,
While sucking bottles
All night long,
Spitting everywhere
That they have fucked
This and that, even if they didn´t,
Fighting each other for
No special reason (that they recall)
Going to whorehouses
With friends…
Anyway,
It is like a contest,
A loud contest
Trying to prove
Who is the MAN,
The biggest macho in town,
With the biggest beer belly
And man boobs.
When everybody
In town is heterosexual,
Near macho,
Desperate predators
Of self relief,
One should doubt.
This thing is mainly cultural
In places where
You can´t be the other way
And it turns it all
Sick, fake, desperate,
A violent frustration
They don´t understand.
B.
sexta-feira, 1 de abril de 2011

Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos
As mãos nunca perdem quando a luz se apaga,
E os bolsos cheios de nada, pesam a cada passo no vazio,
Por cima de todos os cadáveres que são o que se é,
Caras pálidas quase desconhecidas com medo de rugas
E nojo a cabelos brancos, olham com olhos de eternidade
O andrajoso presente, escravo de passados e futuros incertos
Com a certeza no passo em falso que espera na verdade da hora.
(Mais uma chávena de café da cafeteira de alumínio
Que não pertence a nenhuma avó, só o aroma quase infantil
Quase perdido entre o tempo que nunca mais voltará
E o tempo que poderá nunca chegar a ser,
Longe, perto das torradas com manteiga e açúcar.)
O limite é tão visível nas mãos, o fim da individualidade,
O início da partilha, seja qual for, as mesmas para rezar,
As mesmas para derreter as entranhas de uma mulher,
As mesmas que lhe abrem as pernas e auxiliam,
As mesmas que levam a comida à boca,
As mesmas que fizeram o sinal da cruz na cabeça do afilhado,
As mesmas que limpam o cu e as lágrimas e a boca,
As mesmas que mataram, que foram sujas com sangue,
Merda, mijo, terra, vinho, folhas secas, morte, esperma, vida,
As mesmas que suturam e cosem as meias rotas dos filhos,
As mesmas que são necessárias ao fellatio do cigarro,
As mesmas que empurram o embolo para a vida e para a morte,
As mesmas que acendem e apagam o interruptor
Quando à noite se ouve um barulho e há medo,
Ou há só medo, ou solidão e um momento esquecido
Nas mãos, que nunca poderão estar cheias, nem vazias
E nunca serão mais que mãos, com o seu vazio
De infinito, as suas possibilidades para fins e nada.
(A vela está quase no fim e os aniversários felizes acabaram,
Não se batem palmas para as dores que vêm e ficam, não se batem palmas
Quando as mãos têm atirado demasiada terra contra caixões
De quem já nos espera na eternidade.)
Agarra-se tudo com uma vontade, com um desespero,
Com uma fome, que até parece que a vida é definitiva.
01.04.2011
Turku
João Bosco da Silva
terça-feira, 29 de março de 2011

Justificação do Negro
para o meu avô, que não está em lugar nenhum
A vinha não matou o teu avô, foi ele que a bebeu,
Anos após anos, magro, cinzento, cada vez mais,
Com a casa cheia de dinamite, ele próprio instável
Com o seu delirium tremens já quando amarelo,
Quase verde, sem esperança, terminal nas últimas visitas
A casa, com a sua colher de sopa quase impossível,
Tornando-o numa cena triste e ridícula, levando
O apetite de todos com o tremor, último almoço,
Com um sabor quase biliar, empurrando com água
A amargura de cada segundo, último, doloroso.
Onde estarão as presas do javali que te obrigou
A claudicar pela vida fora, quer sóbrio (raro),
Quer no teu estado normal de humor despreocupado?
Os teus cães, teus amigos mais sinceros,
Foram abatidos pouco depois de seres enterrado
E os teus netos comem cerejas enquanto,
Tu esperas a eternidade dentro de um caixão barato
Na igreja da aldeia que te viu nascer.
O teu amigo de Guimarães nunca mais voltou
À tua terra e nunca houve tantos coelhos
Como agora, nem tantos peixes, nem tanto vazio
Na lareira fria, solitária, sem o teu eterno banco
Ao lado, afinal nada eterno e queimado,
Cinzas, pó, como os teus cães.
Nunca mais verás o último primeiro beijo
Do teu neto de cinco anos, atrás do tanque da vizinha
Com aquela menina loira e nunca mais te
Sentirás orgulhoso da casa cheia nas noites de Verão
Depois da tarde passada no rio da aldeia,
Quando tudo fazia sentido, no tempo em que
Nada se questionava e tudo parecia certo
Como as uvas todos os meses de Setembro.
Não, não foi a vinha, nem o futuro da tua
Casa quase vazia em Novembros roubados
Às probabilidades geladas da manhã arrependida,
Nem Agostos que viram morrer inocências
No quarto onde os teus filhos nasceram,
Não foi o vinho que te fez tu, nem o pouco que tinhas
E te fazia tão grande, com amigos além fronteira,
Trazidos do tempo do contrabando de meias e pouco mais
(Os filhos precisavam de leite além das sopas de cavalo cansado),
Não se sabe bem o que foi, além da cirrose alcoólica
E dos ponteiros do relógio barulhento que ninguém ouve.
Não chegaste a encontrar o sapato que perdeste
Naquela festa de Verão que acabou
Por causa da chuva e dos trovões, porque estavas bêbado,
Mas sei que não será necessário,
A terra comeu-te a necessidade de calçado.
29.03.2011
Turku
João Bosco da Silva

Exportação de Carne
Laranjas do Egipto, laranjas espanholas, limões, tomates, maçãs,
Sei que ao lado, que eu ao lado, longe das maçãs polacas,
Dos melões brasileiros, das peras chinesas, não sei quê húngaro
E tomates finlandeses ao dobro do preço dos espanhóis
Que toda a gente prefere e a maioria compra, porque têm mais sabor
E são produto nacional ao lado de espigas de milho francesas
E eu a duvidar da minha existência, da minha utilidade banana,
Bananas chilenas, tão duras e verdes, ao lado de uvas injectadas
Com água vindas dos Estados Unidos, maçãs de Itália, vermelhas, verdes, amarelas
E tudo me parece tão familiar e tão estrangeiro.
Com sorte, na secção das conservas ouço sardinhas enlatadas
Que parecem estar a falar em português:
Produced in Portugal for John West Foods, England.
Turku
28.03.2011
João Bosco da Silva
sábado, 26 de março de 2011

Damn panda or worst
No, I don´t feel
Alone
And I never did.
When I´m alone
Or even when
I just feel
Like I´m surrounded
By a strange emptiness
Of beings
I just feel
Near extinction.
I feel loneliness
In a different way
And it is the same
At night inside a empty
Room,
At noon in a crowded
Bar,
In the morning
With two more feet
Down on the bed,
Always the same feeling,
As I´m the last specimen
Of a useless weak specie,
Born not to last
But to be at least, lost.
B.