segunda-feira, 9 de maio de 2011


By the river


I sit on the grass

By the river

Doing what I love most:

Watching the beauty

Of nature, masterpieces

Of someone that once

Fucked and then

Milk,

Dippers,

Sleepless nights.


Library is on my back,

The sun higher

And burning my

Vampire skin,

The eternal motion

All around (some

Red haired girl

Just sat by my side

And I could love her

But is most probable

To just fuck her).


I light my cigar

As some drunk (not

My kind of drunk)

Walks by and barks

Some crap in awful

Language and waits

For my answer

Standing (hardly).

FUCK OFF, I thought

And the guy

Walked away with his

Plastic bag full

With cheap beer

And loneliness.

He must have some telepathic

Powers, mind reader,

But he´ll never know

About this poem

And I wish I didn´t either.

(The red haired girl

Is now doing the same

As me, but not quite,

She has a pink pen

And a green notebook,

I´m all black and yesterday

I came inside a girl´s mouth).


I barely think about

The life I extended

Today, all morning,

Just about the drunk

Bastard in front of me

As I try to eat

All the pussy

With my eyes

And my mind.


(Damn, pink flowers also,

That kind of fuck,

Just to release a bit more

The pain of being).



B.


Aura, Bicicletas e Outras


Enquanto um vestido azul com deus (quero foder deus) e toda a sua glória

Como uma passarela às quatro da tarde num dia de sol impossível,

Uma virgem há uns dois anos atrás, canta o que meia dúzia de cervejas, ou cidras,

Lhe obrigam e alguém fotografa a água como se a vida fosse além

De uma janela, uma casa cheia de fotografias, onde não mora ninguém para recordar,

Então nada e a adolescente quase me irrita, mas o silêncio, que às vezes (alguém se assusta

E grita, docemente), permite-lhe uma imagem de sobremesa quando a vida parecer estar no fim.

O sol parece fugir, mas não passam de nuvens ou gente, mas passam

E tornam-se em besouros gordos, com gargalhadas estridentes entre asas, num momento

Que se afasta com um abanar de mão aberta, antes uma fechada e a boca ocupada com outras notas,

Outras direcções as bicicletas que passam, mais deuses, toda a minha carne é crente

E cada pensamento é uma oração ditada directamente pela verdade.

Olhos verdes, bandeiras antigas de bebés ricos a tornar o vento existente,

Uma leve dor como quem respira, ou sente o peso debaixo dos pés, o peso e a sua

Impossibilidade de ser eterno (às vezes as pernas que se cruzam abertas e infinito).

O museu de arte contemporânea, espera que o sol se canse, ou que o cinzento se venha

E traga visitas às cores inertes, encerradas em quatro paredes com uma humidade possível,

Daquela que deixa grelado, não da que dá dores de cabeça e a vida toda a escoar-se

Enquanto se lê um resultado. Toda esta harmonia, som de páginas folheadas por dedos

Ligeiramente suados à sombra de uma árvore que acorda, cães que passeiam donos,

Livros a servirem de inspiração a sonhos de sestas poucos merecidas, todo este equilíbrio,

No fio de um cabelo levado pelo vento, estragado: “quando quiseres e onde quiseres”, eu

Que gosto que a vida me obrigue… ou nem por isso.



09.05.2011



Turku



João Bosco da Silva

domingo, 8 de maio de 2011


Mulheres


Não há muito mais do que aquela pele que brilha ao sol, enquanto a erva cresce debaixo,

Onde moram todos os sonhos sinceros, a única razão real e o verdadeiro desejo de morte

É um desejo de regressar, não propriamente à escuridão, mas à eternidade num momento

Húmido e quente, com outro coração, expirações contra o nosso corpo suado,

Enquanto o mundo envelhece, cansa, tomba as árvores como impérios,

Mas ainda há sombra, ainda há olhos azuis além daqueles óculos de sol

Que me sorriem, que sorriem com os lábios do mundo e dão sentido a esta parvoíce toda,

A esta falsidade de regras nunca escritas, quando a única regra é fazer pela vida

E isso só quer dizer uma coisa, com o rio a penetrar a cidade durante séculos

E antes da cidade a penetrar o que a suporta durante milénios, até ao momento

Em que estrelas ruivas, com uma chama a crescer da púbis, loiras e morenas

A explodir vontade, a violentar com desejo que nasce da sinceridade inocente

De uma erecção sem vergonha e uma resposta: claro que gosto de olhar para mulheres,

Não há nada mais bonito no mundo. São a razão disto tudo e aquelas pernas não

São só para serem bonitas e caminharem, aquele brilho, aquele excesso nunca suficiente,

São poemas e os poetas apenas tentam encontrar uma mulher perfeita na solidão.

As pontes não passam de uma forma de encontrar outra humidade,

Aproximar, nada de amor, cansa-me a palavra a exigência e a falsidade,

A excitação, o calor, o que não suporta palavras e apenas permite jorros quentes,

Gemidos e unhas a roubar pedaços de pele enquanto a alma se esquece

No catecismo esquecido de outros tempos e se é verdadeiramente humano.

Vestidos levados por bicicletas e um arco-íris de perfume doce que chama

Pelo nome original, adiados dedos perdidos em suspiros antes de se engolir o fim

Do mundo, a origem da tragédia, o pecado original, um golo de vinho tinto

E uma dentada na maçã vermelha antes do mamilo que nos aponta a língua

Como se a vontade fosse um poema por escrever a dois, a três, a quatro,

Porque até o infinito parece pequeno na primavera de todas as mulheres.



08.05.2011



Turku



João Bosco da Silva


Só Mais Um


E cá vamos nós, mais uma vez, obrigado, em português e nada me dá

Mais orgulho do que a morte. Um dia vou ser mais um monte pequenino de terra e

Cuidado, não pises que é pecado, com castanheiros velhos e desenhos animados

Da década de oitenta com amigos em sofrimento, porque todos sabem que nunca

Devia ter vindo à, cem olhos excitados que dizem o mesmo

Que a minha santa mãe, és tão bonito meu filho e eu uma merda do inferno

E a vida ainda me corre nas veias sem vergonha, não interessa, sempre fui

Demasiado pequeno e é sempre difícil ejacular depois de tanta vida à minha volta

Sem me sentirem verdadeiramente. Tenho pena, podia ter sido, nunca fui e pronto,

Só o amigo morto que me mata, me acompanha e o mundo acaba todos os dias

Sem mãos atrás do pescoço como vergonha e línguas a serem vergonha

Nos meus tomates nunca suficientemente vazios.



07.05.2011



Turku



João Bosco da Silva




Isto É A Vida




“time


Is made to be wasted”



Charles Bukowski



Meu rei, já estive no inferno e não há nada pior que hoje, agora, aqui,


Mesmo que pareça ter a felicidade na palma da mão, uma faca perto, à espera


Da coragem que os dias trarão. A fome e as italianas que sem fome, eu morro


Todos os dias sem a minha mãe saber e amanhece tão perto do clube de striptease


À beira do infinito, morre um dia para trazer o mesmo, sem esperança


E não ter esperança é ser rude e não acreditar é ser anti-social e eu


Sem me dar conta que não estou a ser o que esperavam e ninguém me conhece,


Apesar dos cinco minutos, não é possível haver tantos deuses com a morte à porta


Quando tento salvar o mundo, um inútil de cada vez e eu o maior inútil para sempre


Quando o cansaço me disser: ninguém te amou de verdade.


Revelações enquanto o mundo se torna azul e o verde dorme nos meus braços


Depois de um loira fria às quatro da manhã com a amizade a bocejar um até amanhã demorado.




06.05.2001




Turku




João Bosco da Silva

sexta-feira, 6 de maio de 2011





Pallor of a Black Label

Not even Johnnie Walker Black Label can save me from the awareness of this,
The place where I sit, has not the slightest sense, the slightest reason to remain.
I awake, and it is just one more day to carry to the end, defeated.
I do not even feel the cobblestone, broken by time, by my feet of other times,
Knocking, the knocking on windows that are half-open, and people snoring in their two in the morning slumber.

Two in the morning slumber, come two in the morning, and still they won’t wake up.
Coffins close. Slumber goes on, and only the snoring ceases.
Damn, that only the dogs have a voice at this hour! Only the cobblestone responds answers to questions I did not ask.
Only the stars with their faraway light, give me another shy and unwilling step.
It hurts me, it hurts, this weight of everything I’ve left for an illusion,

That I knew beforehand was a mistake, and a brave blindness of nostalgia, and in the end…
An insomnia that is paid with years of living every minute that passes,
That is palpable, in echoes that drive crowds mad, with every tic of the black Swatch purchased in Zurich on the wake of farewell. Farewell!
This will never be real, not this conscious life. Come what may, it may affect the body as well,
But let it come! I could have seasoned nights at the end of the world, in a life of hell, that isn’t even headed for that either,
And nobody will see. Nobody will feel. Only I walk on, bag over back, so heavy that,
Even the wine has not yet fermented. They want to sleep, but they are already asleep,
Since they woke up in this world. Open eyes, who has them?
Black, and not even this can give me fondness for life, at this hour, after the dogs that only bark at me,
After the empty houses stocked with slumber of those of whom I don’t know their names.
Come on, they tell me. We’re going somewhere or have you not realized it? I don’t say. For what?
C'mon already, because by now, I feel what led the ancestors, which I did not meet.
Come, the time calls, and I do not know how much I have left. I just want to go while I still can.
So many great people at this hour, yet I am alone, I am less than what I thought I was when I awoke without a will.
Without a will, how could I have one on a cold and overcast September dawn?
With only Nothing waiting for me, but I know that then, I'll be grand, mute, but grand:
Those who didn’t listen, are dead and shall never live again. It's after two in the morning, and time isn’t waiting
For those who run on and don’t want to listen, or take time to listen, in a never-ending hurry towards the end.
Then follow them! May the cobblestone guide you to their stone-like rhythm all the way to the grave of angels that make family’s cry.
Poor thing, such a good person, and not one of them lived you, really.
The cellos call me from so far away, that I do not want to believe what I was,
But I was, and no one believes that beyond the truth, only known
much later in the world, life, through flesh that rips—and is so sweet,
That drips and sips with ease and pleasure that is felt through groans, so sincere, so helpless.
One can only be sincere when the hope of nothing takes you by the hand and leads you through the darkness.
Smiles that touch me, like flies on a hot morning that is long bygone,
After a sleepless night, beyond the two in the morning of my life:
Today I see that the sun won't be long dawning yet another day I did not ask for.
The streets of Savonlinna used to accompany me with the creaking of my weight over the snow,
The streets of the world groan with the weightlessness of my footsteps throughout time.
And everything is kitsch, and everything is life beyond good and evil. The art stays home, fast asleep.
Between two edges and what comes from above, with or without sea, with wind or smell
In the expectation of sex, be it stale words, or extreme meat, beyond impossible dreams that weigh.
Amsterdam calls me with dragging screams, with a will of ash and tulips that I've never seen,
When I don’t even want to know about the heathers that make my bones so rustic of this country.
I don’t care, not tonight, at two in the morning, when the sun has already begun to tell me I won't sleep yet another night.
When the Black Label calls out to me: Read another poem of José Agostinho Baptista.
No, not tonight. Enough of being away from myself, enough of not finding me within you,
Ever so far, you, neighbor of my heart, always faraway in the childish evenings.
Today, not even an attempt at Hunter S. Thompson, so far from reality
That one can only be found farther within, than thought possible.
Piles of granite cobblestone that speak to me directly for the dogs
That I am this, I am when people snore, and this isn’t human, this is but dreams:
Art is what you do when Black Label tells you that life is not so little, cannot be so little,
But it is, and slumber says: Hang tight, for the morning has already brought the flies, and you're still breathing.

24.09.2010

Torre de Dona Chama

Joao Bosco Silva, translated from portuguese by Sónia Oliveira

quinta-feira, 5 de maio de 2011


Portuguese Haikus (translated by Sónia Oliveira)


Six euros and twenty cents,
Says the cashier;
He’s an accountant.


Thirty-two years serving tables,
The mother looks like the grandmother
When she was little.


A golden ring
Everything stays the same.
For how long?


A diploma in hand,
For those who don’t know
What to do.


An unlit cigarette in
the café ashtray:
What now?


The seconds pass and
What they bring
Is not expected.


One more day.
Not this one, but tomorrow
it will be.


Pharmacy bill paid,
A few more days of life
Hungry.


The viaduct is a really big house,
For those who do not own a
Small one.


“Where are your children?”
Someone asks.
“Abroad.”


"We have to endure sacrifices..."
And another lie is told
Without costing too much.


The swallows always return
Whenever, whichever,
the president.



João Bosco da Silva

quarta-feira, 4 de maio de 2011


Dizem… cospe-lhe na boca enquanto tentam


Não interessa e nem sei o que não interessa, mas se é, acabará,

Por isso, nem me levanto, entra entra, sou um poeta, sabes o que é um poeta,

Senta-se, nunca está sozinho, atravessa a noite asfixiante com carne quente

E sedenta de mais carne e sente-se um cadáver seco num deserto sem estrelas,

E escreve, escreve e não se interessa com o sentido que possa fazer fora,

Porque o que o faz escrever é a ausência de sentido

E escreve na mesma língua da razão da vida, a língua dos deuses,

Um dia não haverá olhos e a morte será para todos, para os grandes

Só porque mais olhos em cima, não interessa, mesmo, nada, haja caminho

E Johnnie Walker e um sofá para repousar o corpo que nos matará a alma toda

E a possibilidade da eternidade que a carne nos mostra, uma ilusão de palavras,

As mulheres são os melhores poemas que alguma vez escrevi e nunca serão meus,

Nunca mais depois de sair delas, não sei se sou eu que saio dos poemas,

Se são eles que me abandonam como merda de mosca em forma de letras,

Palavras, quase pensamentos, a sério, não sei e não vale a pena, não interessa,

A luz apaga-se e amanhã ao passar pelos jardins, terei mais uma vez inveja dos jardineiros,

O aroma da terra aberta, como uma mulher à espera da minha penetração,

Como um poema que pinga das falanges e não quer ser útil, apenas possível

E torna-se maior que deus, que a vida eterna e que os sonhos assassinados pela realidade.



04.05.2011



Turku



João Bosco da Silva

terça-feira, 3 de maio de 2011


Sentado À Beira Do Fim Do Mundo


Sento-me à beira do fim do mundo e nada em mim é o que pensei que viesse a ser,

Como sempre acontece quando finalmente o presente chega iluminando

A escuridão, o mistério a dúvida e o medo, apenas ossos brancos, uma nudez de sem alma,

Um vazio que não se sente como quando ela abriu as mãos e a areia é sempre demasiado fina

Para os dedos que tentam iluminar um quarto vazio sem janelas à meia-noite de um sorriso.

Ninguém se deixa ir quando o abismo chega, ninguém se desvia dos flocos brancos

Da neve eterna que se torna gente e rugas e um coração cada vez mais seco,

Mais pesado com os anos que se perdem na eternidade de uma que não será de ninguém

E os vencedores são uma ilusão, demasiado barulho numa noite de cansaço

E inevitabilidade, enquanto casas são demolidas e ao lado estátuas iludidas para sempre.

E o resto são lágrimas evaporadas no calor infinito de uma estrela que agoniza,

Uma luz que parece cortar o infinito, por um instante, que quer valer a pena,

Quer encontrar o seu lugar, quer ser criado por alguém, o ridículo de crianças

Que não querem crescer e tomar o lugar dos que afinal também sofrem e serão os avós

E caixas fechadas escondidas por terra como se fosse vergonha da fragilidade.

Secam os amores, morrem deuses e outras mentiras e à beira do fim

Só valeram a pena os sorrisos pequenos, as unhas sujas de terra,

O cheiro a suor enquanto o sol, a liberdade encontrada na companhia dos montes,

O sabor a medo do primeiro beijo, a ejaculação apressada da única vez verdadeira,

O colo da mãe, o abraço seguro do pai, a admiração da irmãzinha tão grande, maior,

As palavras que os amigos não têm que dizer porque o coração canta e é sincero,

Os brinquedo favorito debaixo da almofada e aquele que se perdeu

E viverá para sempre além da escuridão, além do fim do mundo, na companhia delas,

Quando todas as portas se fecharão no vazio, tornando impossível o que foi um universo.



03.05.2011



Turku



João Bosco da Silva

sábado, 30 de abril de 2011


Pornographic


After a lot of the same

Old warming up

Melting meat

Cutting invisible chains,

I finally felt myself

Getting inside of her,

Then, when I reached

Her soul,

Deep inside

(Or not so deep),

She covered her face

With both hands

And said,

I´m sorry.

She wasn´t talking to me,

Maybe to god,

Maybe to the guy

Who gave her the ring

She had in her purse.

Anyway, it made me

Come really nicely:

I was fucking two

Persons at the same time.



B.

quinta-feira, 28 de abril de 2011


Turku, Esplanada do Fransmanni


Passam aviões uns atrás dos outros enquanto finjo ler pão com fiambre

Ou tosta mista, sei lá, passam tão perto que sinto a turbulência do seu perfume,

Tão iguais, talvez um nome diferente e a cada uma delas dou um, dois, três segundos,

Depois outro voo, um, dois, três e o som dos passos pouco sinceros cada vez mais longe.

Deixam nuvens de cabelos pelo ar, demasiado tudo, tudo excessivamente,

Uma aerodinâmica que dificilmente é lubrificação, um ilusão que fica na toalha

E raramente não duram uma almofada quente. Não há mistério,

Só vários modelos do mesmo, não há nada original ou só a loucura é original

A estas horas do fim do mundo à sombra de um estrela que morre lentamente como a eternidade.

Passa, uma daquelas moscas que não param em bares, não nos que eu finjo ser algo mais

Do que o que pouco que esperam de mim, ou sei lá, com umas calças quase vermelhas,

Não fossem os dias do cansaço que é o seu suicídio de décadas, passos quase seguros

Que outro planeta (certamente) e pára, vira-se para a esplanada onde estou,

Só de mim estou certo, e começa a esmurrar o ar como um pugilista esgotado,

O mundo, fantasmas que todos temos à nossa volta, mas só ele, tão cego, tão perdido, vê.

Acena a quem passa, aos autocarros tão cheios de vazios resignados, quase uma vénia

Quando umas adolescentes passam e perto do passeio dois dedos que entram numa humidade quente

De outros anos, quando o seu cheiro ainda era suportável e a sua presença permitida,

Ou sobravam uns trocos da bebida para umas putas ou para um investimento com futuro fracassado,

Volta a esbofetear a sociedade e eu sentado nela, escondido num parecido

A tornar-me mais negro, melhor ou pelo menos a tentar, se tentar é possível.

Há quem o veja e se faça notar, há (muitos) quem finge não ver, mas todos têm olhos

E faz sol e ele pára e numa posição de cadela a mijar, torna as calças mais escuras e

Deixa um pouco de si no passeio, onde todos os senhores do mundo, a carne da sociedade,

Caminham sem se darem conta da morte, da miséria, do vazio que é o futuro de todos.

Lá se vai, lá me desaparece da vista e eu dou-me conta que me prendeu a atenção

Durante alguns minutos com o seu teatro grotesco, a sua originalidade, o seu desprezo

Pelo mundo que passa como se fosse eterno. Entre milhares de passos e eu sentado,

Foram os que me soaram mais a gente e sei que um dia estará a vomitar sangue,

A ir-se para lado nenhum e sem visitas enquanto um médico escreve a ordem: não reanimar.



28.04.2011



Turku



João Bosco da Silva

terça-feira, 26 de abril de 2011


Amor ou o que for


Ela pergunta-me, pede-me, exige-me: diz que sou a única pessoa do mundo

Com quem queres foder! Claro! Mas sinceramente, o meu cérebro primitivo quer saltar

Em cada bicicleta que passa com vestidos coloridos, óculos de sol, nas saias, nas calças,

Nos passos lentos, nos apressados, nos saltos e nos pés, nos cabelos e todos os tons de dia

Ou de noite com as luzes da cidade, apenas o luar ou um céu estrelado,

Quer sentir os lábios, a textura dos batons e ser os olhos, as lentes, as cores artificiais,

As mãos no volante que sorriem e eu na passadeira à espera, os dedos no cabelo,

A voz rouca, a infantil, a língua sueca, uma russa ou outra, que engole o hálito

A pastilha de morango, as mãos suadas, o aroma a virilha aparada, a cera e excesso

De perfume francês, o casaco, a necessidade de pelo menos mais uma camisola,

Porque no fundo o que eu desejo é sentir algo mais do que o eu de todos os dias

E não é por não gostar de ti, é por gostar de tudo, do vestido negro e sol na cabeça

Que nem sei se vazia, mas barulhenta, o saco plástico e os seus segredos,

As cicatrizes da apendicectomia , do parto aos dezanove anos, o hematoma

Por causa do namorado filho da puta ou daquele Sábado à noite

Ao acordar em casa de um desconhecido Domingo de manhã e o sabor de outro

Ainda na boca e eu não quero saber, que sem saberem já se provaram

Umas às outras, os brincos, as orelhas pequeninas, as maiores, os olhares,

As bolsas e os seus labirintos, as ancas fartas onde vive deus

E onde está escrita a resposta à pergunta suprema.

Por isso desculpa-me a mentira, o Claro que sabes que é o que queres ouvir,

Que não é verdade, mas tem que se dizer para o mundo continuar a ser humano.



26.04.2011



Turku



João Bosco da Silva


Saudações a Allen Ginsberg


Preparado ou não e sem me importar com o tamanho que o mundo me dá,

Apesar de ser em tudo melhor do que tu, estou vivo, numa cidade a abrir

As portas ao Verão, enquanto os teus tomates inúteis apodreceram há muitos anos.

Gosto da tua diarreia, mas no meio de tanta merda só raramente há um grão de milho

Não digerido, um caroço de azeitona e é tudo o que te vem de dentro.

Se não fossem Jack e Neal, a estas horas estarias a sonhar com pilas pela eternidade fora

Dentro de uma caixa de madeira, um armário, seja o que for, menos humilde,

Só o teu orgulho te poderá satisfazer o ego sedento de carne, nem o maior edifício

Do mundo e na verdade a tua admiração por Walt é só a vontade dos teus joelhos

No chão com a sua barba nas tuas costas. Não aprendeste nada

E ficaste tão feio e careca a salivar pela minha pila, se me conhecesses

(Dizem que não sou o poeta mais brilhante, mas que sou o poeta mais bonito)

E tu nem és nada e Cairo é a capital do Egipto e da actualidade do mundo

Em 1988, tu sabes muito pouco (e agora nada, que é bem mais)

E o autor do Uivo morreu muito antes desse doze de Abril.

Há mortos que têm voz, uma voz que vem da profundidade mística de um povo milenar

E que ecoa em mil olhos infinitos: são ondas, são almas que abriram as portas do futuro,

Lançaram pontes sobre o fim do mundo, almas que morreram, mas que viveram

E tu deves ter abusado nos laxantes, devias ter-te dedicado mais ao oral,

Engolias, engoliam e deixavas de meter nojo.

Que as MIL ALMAS DE PESSOA TE VIOLEM PELA ETERNIDADE FORA

Para que aprendas (inutilmente, demasiado tarde) que não se deve falar de desconhecidos!

Ginsberg… devias ter seguido o exemplo de Rimbaud, mas continuaste

E deixaste de ser tu, para te tornares num velho idiota que se julgou “próximo”

Do primeiro, segundo e terceiro melhor poeta do mundo.



26.04.2011



Turku



João Bosco da Silva

segunda-feira, 25 de abril de 2011


“The used hole”


Holy mother of

A small kid,

With some ugly guy,

The husband or

My will to not be

Me for a day

Or two.


Return to your

Darkness,

Warm, old scar

Of myself,

The world all

Around and my

Eyes full of

Your

White pants

While beer is

Making the sun

Warmer than my

Possibility of dreams

Inside of you,

My small reason,

The hole, the emptiness

The world searches

To keep the abyss

Alive and falling

Souls as you

Walk away to

Eternity.



B.



Savonlinna

quarta-feira, 20 de abril de 2011


Flash Naquele Dia Antes Da Noite


Um sorriso e uma dor de cabeça, uma ilusão e uma sede de nada

Que só o vazio pode desmentir, haja chuva quando se morre seco

Que nunca se terá aquilo que se esperou às seis da manhã

No sexto piso no dia seis de um mês impossível,

Enquanto comprimidos brancos fazem a vez de momentos

Que deixaram de se sentir nas veias, nas circunvoluções

Do esquecimento inevitável num dia de chuva com gente vestida

Para parecer triste, muitos só porque tem que ser e parece bem.

Quantos fazem lembrar aqueles tios que queríamos ser

E depois nem perto, um doente terminal fascinado por postes

De alta tensão, cansado nas pernas da vida pelo peso do seu fim,

Teias de aranha e madeira apodrecida, a sua casa enferrujada,

Tão rico, porque as mãos abriam-se com facilidade de alegria.

Matam-se nos copos, bebem o cérebro, torna-se difícil

Limpar o próprio traseiro e a culpa é do peso da vida,

Demasiado única, excessivamente importante, única coisa importante

Para se levar a sério, um sorriso, uma dor de cabeça, uns minutos atrasado

Pagos com a eternidade, a dor, uma grama pelo fim,

E os perdidos, alienados, que querem salvar os caídos do abismo inelutável

E mais vale colher a merda de um cão que se leva a passear

Como que para ocupar uns segundos a mais,

Que perto do fim se daria tudo o que nunca se teve de verdade,

Porque não se tem nada de verdade a não ser a vida que se perde.

Não há música que desculpe a inevitabilidade de um azul demasiado escuro

Do tamanho da eternidade, fazendo o infinito parecer pequeno

À luz da evidência mais forte que todos os deuses.

Despem-se os anjos e nada se revela, apenas uma imagem de fome,

Uma dor de quando não há dor, um reflexo a encher bacias brancas

Que deitam no abismo sacos cheios de sonhos que nunca chegarão a sentir a queda.



20.04.2011



Turku



João Bosco da Silva


Filho da Puta


Não há dois olhos abertos que valham a pena, não há,

Não há gesto que mereça sinceridade, não, não há,

Nem um dedo no jornal, sujo, nem um copo vazio,

Nem além de umas lentes um olhar, não há, não há nada,

Nem uma médica a dizer (como que a perguntar):

Não quer ser reanimado se, e se é ser não ser mais

E não há, não há: filho da puta!



18.04.2011



Turku



João Bosco da Silva