quarta-feira, 25 de abril de 2012





Liberdade…

Ontem a liberdade era só de alguns, hoje a ilusão da liberdade é de todos,
Mas os donos continuam a ser os mesmos, deixam andar até acharem por bem
Soltar os cães, coitados, os que têm menos liberdade a impor limites na voz
De quem ao menos, ao menos uma fome que sente e que uma refeição apressada
Não mata, a quem não é dever, porque dever é a forma dos da liberdade
Se manterem livres, mas é sabido, que para uns dormirem, outros tiveram que fazer a cama,
É sabido que dentro das possibilidades, já as possibilidades estão definidas, limitadas,
Só os loucos são verdadeiramente livres, os mortos, e os donos da liberdade,
Presos ao seu poder, à sua doentia fome de excessos, mas festejemos o dia de hoje,
Que houve cravos, mudou de mãos e passados alguns anos, as calças já estão sujas
Outra vez, as mesmas calças, quem sabe se ainda não há gotas de sangue real,
Misturado com anos de comercio de carne, grandes heróis do mar, nobres cegos,
Nação doente e terminal, maiores na história deles que na história da história,
Hábitos de propaganda numa alma cada vez menos orgulhosa das suas cores,
Trocadas pela maior oferta, quem dá mais, ilusão, que liberdade não se vende.

25.04.2012

Turku

João Bosco da Silva


quinta-feira, 19 de abril de 2012


A Exigência Da Fome Pelas Inúteis

Escreve-se melhor com fome, com as sensações sacudidas pelo sono, as últimas
Gotas de sonhos ainda se despedem no esquecimento, as palavras gostam de fome,
Procuram o vazio e aí se multiplicam, são irmãs do priapismo matinal, viciadas
Em níveis baixos de serotonina, e contudo necessitam dias bons para se solidificarem
Nas circunvoluções, vizinhas do herpes à espera da fraqueza, da fome, latentes,
Lactentes do medo, da incerteza e da confusão, de barrigas cheias estão os livros
A arder, demasiada atenção na confecção dos sucos gástricos e as demais enzimas,
Inutilidades quando os dedos pedem carne de alma, os dedos que empurram êmbolos,
Primem gatilhos, levam à boca e com uma carinha daquelas qualquer um se dedicava
Às mamadas, com uma carinha daquelas as palavas não se ouvem, só olhos e palidez
Que pede a violência de um contágio, a perdição num sorriso, tantas fomes
As mães dos poemas, dos não poemas, das sedes e dos suicídios que duram luas e luas,
Hipoglicémias e alcolémias, fumos entranhados até aos ossos dos mortos futuros,
Inibidores selectivos da recaptação da serotonina, porque a vida não chega,
As palavras exigem miséria, miseráveis famintos de barriga cheia, chamas
Nas casas ao lado, alimentando a hipocrisia, as palavras tão necessárias como a vida.

19.04.2012
Turku
João Bosco da Silva

quarta-feira, 18 de abril de 2012



“Chasing Shadows” Enquanto Se Espera


de Django Reinhardt


Vive-se a tentar jogar xadrez com as peças brancas e com as peças pretas, para no fim
Tudo fora do tabuleiro e nem se chora, a terra exige toda a humidade acumulada
Ao longo dos pecados, dos sonhos trocados por nadas que também não se levam
E o nome torna-se em tudo o que conquistamos, quando nem ele uma escolha nossa,
Mais um acaso, como poderia ter sido outro qualquer, mas fomos tornando-nos nós,
Com um cérebro com tendência para isto e para aquilo, para coisa nenhuma, para
Abismos e vazios, para ilusões e desilusões, esquecimentos e pesadelos recorrentes,
Vive-se concentrado no centro de um universo limitado quanto muito, pela pele,
Entre uns centímetros cúbicos onde se fabrica a realidade e tudo o resto
Que nos faz a vida tão pesada e às vezes julga-se o mundo uma grande encenação,
Tu o único, todos os outros um teste, talvez para averiguar se és merecedor da eternidade,
Como se a morte a recompensa suprema pela coragem de ter sido, uma minhoca,
O andar de uma hiena, a resistência das betalactamases ao esforço dos centímetros cúbicos,
E a vida mais vezes um bilhar de bolso, numa multidão de ensimesmados, narcisos
À espera da morte, à espera que o rio seque, que a tinta acabe, que as palavras
Deixem de corresponder a seja o que for, quando na verdade correspondem apenas
Àquilo a que as fazemos corresponder, coincidindo tão poucas vezes nos conceitos abstractos,
Por isso lágrimas e punhos cerrados quando nos falham, quando não chegam
E ejaculações quando já não valem mais que um gemido, um pedido, uma aceitação,
Sabes que te perdes a cada avanço, mas se não avanças, estás perdido num lugar que conheces.


18.04.2012


Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 12 de abril de 2012




Um Poema Sob Saudade Turca



para a D.K.
Tu esperavas fora da estação de comboios, o Sol ocupava-te o tempo e a tua palidez suave
Cortada pelos óculos de sol enormes, as tuas pernas cruzadas, até ver, lias algo que hoje

Daria outras recordações por saber o quê, e o rio esperava-nos, o dia dependia de nós juntos

Para se dignar a apagar a luz e nem sei quantas horas dura a eternidade, mas a que tu

Me ofereceste, tornou aquele dia num fósforo nesta vida cheia de vento e tantos nadas.

Enquanto o Sol se ia despedindo, também os copos de cerveja, de plástico, comprados

Numa tasca ali perto, os barcos rabelos para inglês ver, e eu e explicar-te com a língua

A história disto tudo, enquanto tentava escrever na tua pele poemas que só mais

Tarde tomariam a forma de palavras, muitas vezes antes de adormecer, as saudades,

E quem nos visse diria que não tínhamos vergonha nenhuma, mas se conhecessem

O brilho da vontade, achariam que a roupa estava a mais e que os meus dedos

Continham toda a minha vida, eu todo em ti, no crepúsculo à beira do Douro

E hoje os dedos só isto, a dor da tua ausência, tantas vezes só, na companhia de gemidos

Falsos, por favor a quem, pergunto-me, mas tu não conheces certos objectos

Que não acreditam no amor, não procuram ser amadas, exigem respeito de quem

Acredita nelas, pedem humilhação paga, claro que paga, nem um olhar seu é gratuito,

Sentem aversão pelo carinho e repugnância por quem as ama com sinceridade,

Oferecem-se à maior oferta, e acreditam que o seu valor é mesmo o da futilidade

Pela qual se vendem, e falo do amor que não foi amor nenhum, só aquilo que te dei

Sem tu me pedires, que foi todo, dei-me todo, esqueci-me do mundo quando

Tu a tornar importante apenas aquela esfera de Lolita Lempicka à tua volta,

Afinal o universo um tamanho definido que te rodeia e eu humanidade curiosa por explorar

Todos os seus segredos, mais uma cerveja e o horizonte já púrpura, acendes um cigarro

E os meus pulmões a desejar o fumo que acabaste de inalar, e tu a encher-me de ti,

Do teu fumo perfumado, quem sabe, se acreditasse, um pouco da tua alma, passa

Alguém conhecido e eu bêbado de ti sorrio-lhe, como quem foi apanhado num pecado bom,

Tu o melhor pecado das minhas migalhas de hóstia, contas-me um pouco do teu caminho

Que eu beijo com a minha atenção, e sonho que a eternidade é a tua presença

Quando ela é possível, por isso desculpa-me esta traição, este querer trazer-te comigo,

Tão longe do tempo, tão longe de ti, ainda respiras e isto deveria ser a carta que nunca

Te escrevi, a resposta à fidelidade da tua memória, tanto esquecimento neste mundo

Sôfrego de passar e morte. Sabes que faço parte deste mundo, mas sou dos que quer tudo

E quer morrer, porque tudo impossível, só a vontade, só um momento e as eternidades

São só a resposta que se tenta encontrar num poema, mas saudade, não responde a nada.



12.04.2012



Turku



João Bosco da Silva



quarta-feira, 11 de abril de 2012



Antes De Tomar Banho


Vou tomar banho, um duche rápido vá e já volto cheio de ressentimento e histórias

De amor eterno e hipocrisia, são só cinco dez minutos e já regresso a pingar,

A secar, livre do que o hoje me tornou, todos os olhares, todas as palmadinhas

Nas costas, os abraços dos amigos, dos amigos que, nem vale a pena,

Apesar de um herege, ainda guardo algum respeito à amizade, mas agora

Tenho que me ir lavar, ainda a tenho entranhada na pele, o seu cheiro,

Que a ela, só uma dor de cabeça de quem passou os dias a beber, já venho,

Só um momento de reflexão, na esperança que com a água vá um pouco de mim,

Alívio da minha presença desde o meu sempre, a luz também suja e a noite

Merece um pouco de respeito, sempre engoliu tudo, nos bancos traseiros,

Debaixo das mantas, em cima delas no descampado, tudo até clamividência

Da inocência das prostitutas, de dentes de rato, mas agora, um duche

E acreditem que é mesmo, não costumo mentir desnecessariamente, só quando

Me calo, só quando engulo, ou acendo mais um cigarro evitando certas presenças

No meu olhar, a chama na projecção que consumo, num prazer mórbido, mas já volto

Para acabar mais um poema, tão desnecessário como muitos outros, mas esses

Ainda dizem que vivem, que vida, o poema só consequência de o sentir e dela a passar.



11.04.2012



Turku



João Bosco da Silva


terça-feira, 10 de abril de 2012



(Des)convencimento Dos Deuses Menores



Vive-se tudo para se perder tudo, aceita-se sempre com uma ilusão de eternidade

O que o nada nos empresta e depois, desamores, ódios só por mãos mal

Habituadas ao corpo de alguém que nunca mais, distâncias mais fortes que a vontade de

Um abraço, olhares que escondem nada mais que uma curiosidade, seja ela qual for,

Todas as cervejas que adiam mais uma ressaca, mais um dia perdido como todos os outros,

Por isso, ao menos passar por ele como quem perde, sem querer saber, porque mesmo

Querendo saber, se perde, deixa portanto chover, lava-te do que te tornaste e não és tu,

Sorri aos para sempre como quem finge acreditar, sem se esforçar e continua

A caminhada sem sentido e sem deus, perdido de tudo menos de ti, condenado à tua

Companhia, mesmo quando é a companhia dos outros que te empurra para o suicídio

Quando o vazio que eles fizeram questão de escavar com as suas promessas

De momento, continua a esculpir a tua forma num pedaço de madeira, enquanto

A vida arrefece, e prepara-te para um brilho mais pálido que o das estrelas,

Também elas vivem para darem tudo ao que vier e o que vier será sempre algo que não tu.



10.04.2012



Turku



João Bosco da Silva


segunda-feira, 9 de abril de 2012



Golden Shower



O tédio exige, mija-me em cima, a sério, claro, tu é que pagas, a bênção

Quente a tonificar a líbido esfomeada, semanas sem um verso, sublimação

A ganhar ferrugem nas articulações dos desvios, um certo brilho

A amor, mas no fim, acaba-se sempre o tempo, insert coin, sempre assim foi

O divertimento, desde que mais uma moeda no bolso, olhares apaixonados,

Tu o maior de todos, o único, mas vem-te rápido, a vida tem mais clientes

À espera, por isso se evitam os beijos na boca, desaperta-se o cinto,

Baixam-se as calças e esquece-se a vida num momento, a mulher em casa

A ser fodida pelas telenovelas, com o útero a mirrar enquanto se

Fertilizam indecentes bocas, o tédio exige, o tédio é o dono da vida,

E quem pode pagar ao tédio, faz valer a vida a pena, dá-me mais um beijo,

Não, já acabou, já não te conheço, já não me conheces, ainda não lavaste

O sal do meu calor, mas é assim, também não espero lembrar-me do teu nome

Enquanto estou a ser digerido pelas tuas entranhas, perder-me no labirinto

Da tua alma prostituída, entre uma chuva dourada que mal alivia este tédio.



09.04.2012



Turku



João Bosco da Silva


quinta-feira, 29 de março de 2012



A Confusa Lucidez Ao Acordar


Só tenho um dia de cada vez, não sei como esperam de mim eternidades,

Amanhã cá estarei se estiver, ou outro com quase a mesma cara, se calhar

Mais umas dores, menos para viver, a perturbação dos sonhos estranhos,

Em casa da avó, antes das renovações, partilhando com um escritor velho

Uma jovem de dezoito, que conheci acordado numa noite de Verão

E quase me oferecia a virgindade, mas só tinha aquela noite naquela noite

E tudo o que não agarrei, lá ficou, o medo a clamídia, na barba

Do velho, depois de tanta prostituta e mulher abusada pela vida,

Ele que as tentou consertar com o seu caos de porta sempre aberta,

Naquele mesmo quarto onde desenhei orgias, com golden showers,

Antes de saber o que golden ou showers, aos cinco anos, que me levará

Ao inferno, disse-me a minha mãe, por isso, que esperam de quem só tem

Um dia de cada vez e o inferno certo antes da primeira comunhão (?),

O quarto cheio de santos e cheiro a gente, o penico debaixo da cama,

O sonho sem cheiros, só o sabor metálico da carne fresca, a confusão

De estar sem saber como, nem por quê e a sensação de ser um sonho,

Por isso, mergulha-se na perdição que os dias não permitem,

O velho morto, muitos dos dias as primeiras palavras do dia,

As últimas palavras da noite, ajudou-me a perceber que tudo o que temos

É para se perder, ou não seria verdadeiramente nosso,

Por isso se perdemos, é porque um dia tivemos, ou a ilusão,

Mas tudo uma cambada de loucos sem diagnósticos, de viciados

Em drogas não rotuladas como tal, deuses donos de todos os dias

E eu que só me sinto dono dos dias que perdi para sempre, que foram todos

Os que passaram por mim, não passo da tentativa de os trazer comigo,

E nada mais me interessa de verdade, o meu mundo é suficientemente

Frágil para me ocupar todos os segundos, um malabarismo de cristal,

Tu sabes, se não sabes, não te vou exigir nada, por isso, não queiras

Que eu compreenda o mundo, chega que me deixe passar nele

Um dia da cada vez, os sonhos são meus, as recordações vou pedindo

Emprestadas à eternidade que tudo me engole e agora vou ler o que o velho me diz.



29.03.2012



Turku



João Bosco da Silva


quarta-feira, 21 de março de 2012



Palidez De Um Black Label II



O Johnny Walker Black Label adia-me os sonhos e continuo numa insónia

Forçada, contra a violência de piercings em mamilos, beijos alcoólicos,

Pelas ruas vomitadas, que descongelam e a vida parece ter passado pelo pior,

Resta apenas o fim, os abraços demasiado barulhentos, as despedidas

Num olá, as mensagens (quero-te foder os miolos agora,

Mais uma) à beira do colapso no sofá onde se tenta encontrar

O sentido a tanto ridículo, tanta prostituta barata, pega paga com humilhação,

Tanto vendido à troca de um pouco de menos ele eu, nele tudo, o cansaço

Até à despersonalização, a garrafa de vinho respira, os avós asfixiados

Com tradição e sete palmos de terra nos olhos, apenas recordações

Nos nossos cérebros de donos imortais do universo, por isso engulo

À deles, um pouco mais de menos eu, por isso tento aliviar a presença

Metálica sempre tão perto do outro lado do pescoço, só tenho por companhia

Os cães, os bêbados são apenas outras versões do que não sou, mas poderia

Ser, mas o que poderia ser não é e interessa como todos os convites

De pernas abertas, enquanto a primavera chega nas asas das gaivotas

À beira dos lagos que descongelam e permitem o peixe fresco, como as ratas

Bem aparadas, bem bebidas, quase uma submissão insensível

Enquanto se equilibra um orgasmo nos joelhos pouco crentes em ejaculações

Em vazios, mas és tu Black Label, com as tuas intenções de liberdade

Aprisionando-me num não eu, apresento-te os pulsos, reconheço a minha culpa

Na vida, nunca fui capaz de tornar a ideia da eternidade numa realidade

De cadáver inerte, ao abrir uma porta há dias fechada e o cheiro

A merda e silêncio, a vida só merda e sabemos, no fundo, que não

Merecemos a vida, nunca antes de não sermos, fizemos nada para

A merecer, tal cruel privilégio oferecido à impossibilidade que se torna e é,

(Bebe pequena, bebe, deixa a noite tornar os teus sonhos pecado,

Deixa-me ejacular nessa tua ilusão de santidade prostituída, ser mais uma mentira,

Quando tudo cedido ao poder, por poder, é prostituição),

Abraço por isso a morte, como todo o anti-poder, abraço-a cobardemente,

Como se abraça uma ideia pela qual outros morrem, morreram,

Beijo-a lentamente e os seus lábios são os teus dourados lábios negros,

Tudo tão obvio quando não há Sol, tudo tão simples quando a noite

Esconde a pobreza debaixo de papelões, o frio em demasiados goles,

Carne faminta que se torna demasiado barata, em casas caras,

Desconfortáveis no seu conforto de plástico, metal e fibras sintéticas

E nem o amor de carne, um medo plastificado, uma vida recusada,

Porque se quer só brincar às mortes pequenas, sem comprometer

A irresponsabilidade de se poder estar só até à morte, quando na verdade

Vive-se só, e só na morte, se encontrará a igualdade que se procura,

A aceitação do infinito durante a eternidade, o irrepetível.



21.03.2012



Turku



João Bosco da Silva


terça-feira, 20 de março de 2012



“O Que For, Quando For, É O Que Será O Que É”


Tenta-se registar o esquecimento de mais uma noite, mais uma visita ao paraíso

Dos inconfessos, mas só resta como prova o cigarro que os lábios vermelhos

Enrolaram, no bolso do casaco, os lábios que repetiam como se um olhar,

Silenciosos, quero-te, quero-te, fica esta noite comigo para te perder para sempre,

Entre o cabelo a improbabilidade do perfume que se quis levar para os sonhos,

Uma sede de excessos numa boca que parece ter sido incendiada na noite anterior

E foi, lábios em brasa de uma boneca de porcelana imperfeita, nos pulsos

As cicatrizes de uma dor que mais ninguém compreende. Mais uma oração

Engolida da lata de cerveja, pedindo a bênção do esquecimento, entretanto

Os lábios vermelhos desenham no ar promessas de pele húmida, suspiros,

Espasmos, aniquilação gratuita entre paredes estranhas, com o DJ de boxers

E um chapéu à Davy Crockett, passando músicas que ainda não foram criadas,

O surrealismo da realidade no paraíso dos inconfessos, as noites esquecidas

Que se tentam registar enquanto as recordações areia por entre os dedos

Que escrevem, e perguntam, para que bebes, se te perdes, se não trazes

Nada do que levas, para me perder, para brincar à vida na vida,

Também as mãos de terra encerram a noite das noites, o esquecimento

Das mãos vazias, sobre o peito, mas no coração já nada, coagulado o poema

Do que se esqueceu, outras noites como outras vidas, outras cervejas,

Olhos que falavam como os lábios vermelhos, as mesmas promessas

Noutra língua, o mesmo significado todas as promessas, o esquecimento.



20.03.2012



Turku



João Bosco da Silva


domingo, 18 de março de 2012



Esterilização



“Your birth is a mistake you´ll spend your whole life trying to correct.”


Chuck Palahniuk


Há quem diga, salvamos vidas, quando todas estão condenadas desde o início.

Usa preservativos, vem-te nas suas caras, dentro das suas bocas, dos seus cus,

Masturba-te em vez de, espera por sonhos molhados, suicida-te enquanto podes.

A única forma de salvar vidas, é evitando-as. Não sabes que partidas

Grotescas os deuses têm preparadas para os teus descendentes, salva-os.

O responsável por todas as mortes do mundo, foi o primeiro a nascer,

Não quis morrer sozinho e achou que a vida era bonita, quando a vida

Uma dor, somos a ferida consciente do universo e foder é apenas

Submeter um corpo estranho, deixar entrar, ser dentro, não é o orgasmo

Que se procura, mas a aceitação, que acaba por ser um momento

De quase lucidez, curto, e em troca contamina-se o nada com o pecado original.




18.03.2012



Turku



João Bosco da Silva


sábado, 17 de março de 2012



Durar A Vida


Durar, carne que sonha a vida de poucos, recordar, tudo o que não se é mais

E se arrasta como um amante abatido pelo destino, abrir Platão na noite

Quente e encontrar a madrugada enquanto uns nascem em cavernas,

Outros fecham cavernas dentro de si, outros só fome, outros da que se

Mata com pulsos cortados e fracos de benzodiazepinas cheios de ar,

Cansar, o mundo com o nosso tédio, engolir o esquecimento e acreditar

Que a amizade é uma eternidade do momento, como o amor

Enquanto o esperma seca e não seca, enterrar o ridículo com Nietzsche

E sonhar colapsos redentores na solidão de uma multidão de ovelhas

Obcecadas por símbolos, fascinadas pela sua ignorância que preenche

Todas as dúvidas, escrever, como se em cada palavra a salvação do mundo

Mais próxima, quando não passa da transcrição da entropia percebida

Pela carne, durar, sem outra razão a não ser acreditar, sem esperança,

Nos romances que nos leram para crescermos iludidos e felizes,

Para acabarmos mirrados desiludidos e tristes, mesmo debaixo de uma noite

Estrelada em Agosto, com o peso do firmamento a apontar-nos

A nossa mortalidade, nós também feitos da morte de estrelas, nesta pedra

Onde tudo dura, dura, ao Sol numa dança constante com a melancolia,

Abraçar, a perdição como a única certeza, querer apenas mais um dia

Para tentar fazer o último valer a pena, da mesma forma que os filósofos

Provam que os que morreram estavam errados, os outros o único

Inferno possível, quem não dura mais em Montparnasse, a consciência

De si mesmo a maior partida do universo a ele mesmo, pedaços de mim

Que se sentem a durar, durante o que é a minha eternidade, que se

Criam e destroem, onde nada se cria nem se destrói, chorar, porque os

Poentes nunca mais ao lado do seu perfume, ejacular, a explosão de

Uma super-nova, sentir que um nada adiado tem o poder de novos

Universos, dos que duram e dançam com a melancolia, dos que vivem

E dos que dizem que vivem e se procuram onde nunca estarão,

Porque desconhecem que a sua existência depende do fim.



17.03.2012



Turku



João Bosco da Silva



quarta-feira, 14 de março de 2012


Poema De Merda


Às vezes sento-me e puxo mais um poema, na sanita, mas cabo por ser eu

A cair na nostalgia, todo aquele esperma desperdiçado dentro da ilusão

Quente, todas as palavras lançadas ao vazio e o esperma a secar dentro

Cristalizando-se em cabelos brancos e cansaço, desencanto, reflexões

De papel higiénico, as lágrimas apagadas no duche, porque não é que

Os homens não chorem, é que os homens não gostam de ser vistos

Em desperdícios necessários, por isso tranco a porta e sento-me

Na companhia de um quase silêncio de canalizações, os vizinhos

Existem numa descarga de autoclismo, uma torneira abre-se

E lá se vão umas palavras lavadas com sabão nos olhos, os dedos

Sujos com tanta desconhecida mais cedo ou mais tarde, antes e depois,

Mas é como a vida, só se tem enquanto se tem, só se sentem enquanto

Se sentem e acredito mais nos dedos, na pele, que no coração, mesmo

Que inocente e pele também cérebro, que forço na esperança de

Um poema que alivie a frustração de tudo ser para nada, tudo uma cagada

Resumida no momento em que confronto o espelho, sempre o mesmo

Olhar, que fizeste de ti, e a resposta um arreganhar de dentes amarelecidos

Lançando a culpa aos anos digeridos à troca de durar, para isto “SPLASH”


14.03.2012


Turku


João Bosco Da Silva


terça-feira, 13 de março de 2012



À Espera De Uma Assistolia


Continuam a passear os cães, cada vez mais pequenos, falam de democracia

Como de deus, mas a deles é sempre a melhor, a mais certa, de barriga cheia

Torna-se ateus místicos, sonham em foder todas as mulheres do mundo,

Multiplica-las por mil e ir contar aos amigos, quando nem uma conseguiram

Fazer vir de verdade, esperam príncipes encantados enquanto atendem

Os que vêm vindo nas esquinas da vida e exigem do cliente fidelidade,

Não suportam a cegueira dos árbitros, as suas injustiças, pagam para as ver

E passam por um pedinte caquéctico como se fossem cegos sem cão guia,

Não sabem que a vida é encher os bolsos com ampolas de adrenalina

E esperar pela assistolia, e o que fazemos agora, esperar pela eternidade,

Com cães mais invisíveis, um coração maior que não pulsa, ilusões do tamanho

Da morte, um nome como universo, ou eternidade, um deus adormecido

À espera de mais garotos com medo, com dúvidas que não aceitam

E inventam outras razões à vida, dissecam-na em números, vivem-na

A vê-los a pingar, como se gotas vermelhas, à espera de uma assistolia,

A vida como uma noite, antes de se adormecer na ausência de sonhos.



13.03.2012



Turku



João Bosco da Silva