sexta-feira, 18 de maio de 2012


Catholic Boy

“And now for once, you must try to face the facts. Mankind is kept alive by bestial acts.”
William S. Borroughs

Ela era a menina mais bonita da sua terra, católica devota, como tem que ser
As meninas bonitas da terra, ia sempre à missa e ajudava o padre em tudo
No que o seu corpinho pequeno podia ajudar, de paramento entre os fumos do incenso
E das velas, pedidos mudos, ridículos, que a vizinha me faça um broche no palheiro,
Que o padeiro finalmente me entre no pão, sorte na caça, a vitória da minha equipa,
O totoloto, tantos a pedir o mesmo que parece que deus opta por ignorá-los a todos
E ela a sorrir enquanto as velhas abrem a boca desdentada com hálito a morte
Para deus, famintas de um corpo qualquer, que seja o de deus, ela a sorrir quando
Recolhe as moedinhas para os vinhos caros do padre, como ela amava deus.
Gostava tanto do criador que também queria ser também, mas infelizmente ela católica,
Mudou-se então para a cidade, fingindo seguir os sonhos dos outros, mas secretamente
Não tinha desistido do seu sonho e prostituía-se depois das aulas, rezava pela madrugada
E sonhava com velhos obscenos a ejacular na sua palidez imaculada, acordava com o sabor
Do esperma cansado dos homens casados e continuava a fingir uma outra vida, até o dinheiro
Ser suficiente para mudar isto e aquilo, o nome, o país, em nome de deus, do seu sonho.
Chegou o dia, o início do processo de transformação, a metamorfose e só sentiria saudades
Das mamas que a faziam ser tão desejada e amada, dádiva de deus, tantas vezes
Com um colar de pérolas derretido, também teria que se deixar de joias, os seus clientes
Sentiriam a sua falta, mas ela iria salvar-lhes a alma, lá desde o outro lado do oceano,
Facas e hormonas a corrigir o único erro, erro não, vá, descuido do seu amado até que por fim,
Um homem, um novo nome, uma nova vida, o sonho tornado possível e depois salvar almas.
Numa missão de missionário passou pela Tailândia, onde inesperadamente se apaixonou por
Um(a) ladyboy, demasiado álcool sempre ajudou a aproximar-nos de deus, o seu sangue
A tornar o nosso mais quente, e num quarto barato onde se ouviam os gemidos dos quartos
Vizinhos e néons a tornar o ar psicadélico, finalmente entrou em alguém, finalmente se sentiu
Dentro e o coração batia-lhe como nunca antes, bateu-lhe mais quando sentiu o sumo quente
Explodir-lhe nas entranhas e aí percebeu que o pecado é o que faz bater o coração,
O pecado é a razão da vida, é o que alimenta a vida, deixou deus e as hormonas e tornou-se
Também num(a) ladyboy e juntamente com o seu amor, espalharam pecado, vida, naquela
Cidade deste mundo esquecido por deus. Esta é a história da menina mais bonita da terra.

18.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de maio de 2012


As Cerejas São Momentos

Sabes que entre os desejos que não tenho, que são todos, há um que quer ser
Flor de cerejeira, tivesse eu olhos para apreciar lábios debaixo das oliveiras do adro
Da igreja, à noite, e dedos finos por entre os galhos em direcção às orelhas da filha
Da peixeira, naquele ano em que perdi tudo, como em todos os outros que se seguiram,
O estômago cheio de cerejas e as lágrimas a despedirem-se contra a parede branca do
Cemitério, o inferno branco, para nos destacarmos, nós as manchas e o verão
Não passa de sabor a metal entre os dentes, as pálpebras impossíveis de pálpebras
E dizem que os anos não perdoam, tornam-nos lúcidos cansados de tanta lucidez,
Viciados em noites de menos nós, aguardente e cafés apressados quando o dia
Se estica na pele insone, no café da terra, onde conversas sobre a origem do mundo
Reescrevem o génesis e adiam o apocalipse, livros sagrados escrevem-se no esquecimento
E a verdade é tão volátil como a memória, as raízes estranham o tamanho da terra
E o tronco sente-se estrangulado entre a rocha que o abraçou em tempos,
Só flores que quase são doçura na boca, lábios, derrotas de braços cruzados,
Porque ainda havia tempo, mas com o tempo, descobriu-se que não há tempo nenhum.

15.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 13 de maio de 2012


Conselho Sobre A Crise

Dizem que há crise João, dizem que há crise e os cafés estão cheios enquanto tanta terra
Ao abandono, à espera de uma semente, dizem que há crise, mas nunca vi a gente tão gorda,
Tão preguiçosa, tão mal habituada e bem calçada, eu e os meus irmãos, andávamos descalços,
No Inverno e quanta fome passamos, isto não é nada, a mim obrigaram-me a ir matar pretos
Lá na terra deles, lembraram-se de mim, cresci esquecido e o meu país só se lembrou de
Mim para me mandar matar, e o meu irmão que morreu por uma merdinha que hoje
Era um caixa de antibióticos e já está, a engordar, agora isto, crise, é tudo doutor,
Festas todos os dias, dizem que estudam mas só os vejo com cerveja na mão, livros nada,
Mas tu sabes como é, já foste doutor, agora olha, eu foi a França, tu lá longe, e Portugal
Agosto, mas aproveita, que os anos passam e nós cada vez menos, só a memória
E é o que somos, o que lembramos e dava tanto por esquecer tanta coisa, nunca os perdoarei,
Não os conhecia e tive que os matar, e tinham que nos matar, filhos da puta, os pançudos aqui
A encher a blusa, os de agora fazem o mesmo, chupam-nos o sangue, usam-nos a carne para
Canhão, gozam-nos com os ossos e ainda nos pedem a medula, a alma é o primeiro a ir,
E agora queixam-se que isto está mau, que há crise, enquanto tivermos uns porcos
Para matar, e a indiferença da ASAE, eles gostam bem do salpicão, ai não, haja vinho e olha,
Saúde, que com o resto não se pode contar, nunca se pôde contar, tu aproveita mas é.

13.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 10 de maio de 2012


O Encoberto

A escola obrigava-me a acordar, hoje é o cinzento e escurece lá fora, mas cá dentro
Já há anos que a luz das velas se tornou obrigatória, para se ver o teatro do fazer
Valer a pena, a escola mostrava-me o mundo entre quatro paredes, em segurança,
O mundo uma esfera num quarto escuro cheio de possibilidades para nada,
Com derrotas certas e a ilusão da victória, por isso o vinho do porto mais que um cálice,
O vinho do porto chapa contra tudo o que se aprendeu, porque nos ensinam não a viver,
Mas a sonhar e quem se fia na virgem e não corre, morre virgem, fez da vida o desperdício
Em vez de desperdiçar a vida e o triste além de triste, torna-se no pior, em tédio
E viver aborrecido é ter vontade de morte e ter vontade de morte não é viver,
É ser cobarde e esperar pelo óbvio e inevitável e eu sei tão pouco para mim mesmo
E tanto para os outros, porque é sempre fácil, piscar o olho a quem passa lá fora,
É sempre fácil quando não temos a carne demasiado carne à nossa volta,
A exigir-nos eternidade em tão pouco tempo, e chove, e os carros passam
Não muito longe e esperam, os colegas, os amigos, num lugar onde fui e não trouxe,
Mas sou, e hoje acordo só por causa do cinzento, a sua promessa de bruma, ao menos isso.

10.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 6 de maio de 2012



Morfeu Mete Baixa

Fazei o favor de me deixar fora dos vossos sonhos, estou ao alcance dos olhos
Abertos, sou vulnerável a sorrisos e admiro a vontade sem preguiça, que tem pernas
E voa, os sonhos são lugar para impossíveis e a morte é algo que me torna bastante real,
Mas não esperem por ela, depois sim, sonhem, ressuscitem o que não sou, nem fui, nem serei,
O que sou em cada um de vós, eu de olhos fechados, todos de olhos fechados,
A única diferença eu a adubar a terra com o estrume dentro do meu crânio
E vós a humedecer em lençóis, inutilmente, lubrificação de vazios para nada, por nada.
Não quero estar onde não estou, não estou, eu sou aqui, isto, cada vez mais menos,
Gosto que inspirem fundo no meu pescoço, não gosto de expirações nas costas,
E suspiros, só quando entro, não quando saio, gosto dos meus dentes na palidez
De um grito imediato, gosto do sabor do sumo dos vossos sonhos, de pupilas bem dilatadas,
Mesmo se luz, mas não me sonhem, se é só para ir andando, até eu estar longe
Do dos sonhos, longe da frustração que me revolta, não ser eu antes um fantasma,
Agora esta carne sempre faminta, fertilizante de ilusões incompreensíveis, que se acordam.
Deixai-me tornar eternidade, o amor para sempre das histórias terminadas no início,
A maçã podre que as serpentes não querem vender, os beijos que ficarão na cobardia.

06.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 5 de maio de 2012




Síndrome de Stendhal

“The future is just wasted on some people.”
Chuck Palahniuk

Como posso explicar-te o que é belo, se belo para ti é uma mentira colorida
E para mim a tristeza de uma verdade, para ti é um gatinho branco no colo
E para mim foram aquelas tardes pelos montes com o cão que me mataram.
Como posso fazer-me entender se falamos a mesma língua diferente,
Se eu bebo para não me ouvir e tu para seres mais alta que o teu ego
De católica fascinada pelo esquecimento de um apêndice, one ring to rule them all,
Eu um ateu, obcecado por outros vazios, é verdade, e cor-de-rosa
É para mim uma frase qualquer do Bernardo Soares, tu dizes que negro,
E respondes-me com um aforismo light sem aspas, para quê, tudo o que dizes
Aspas e eu só virgulas, virgulas, porque tenho medo dos pontos finais e
Envergonham-me as reticências, sonhas com sacos cheios de roupa a encolher
E eu com cafés à sombra de António Lobo Antunes a envelhecer.
Mão vazias para ti são fracasso, para mim foram um caminho que teve que ser,
Não poderia ter sido de outra forma, se fosse, as mãos ocupadas, cheias de peito
Atravessando o intransponível, e tu dizes-me que as estrelas são tão lindas
Enquanto eu suspiro e sinto-me esmagado pela confrontação do meu tamanho
Com a noite além do céu dos santos, do gajo que mora no pão, o tempo bolor,
Para ti o próximo fim-de-semana pela eternidade, belo é belo e tu és feia.

05.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 2 de maio de 2012



Outro Aniversário

É triste acordar, logo depois de entrares no carro comigo, o cemitério ali ao lado,
Fechas a porta e quando o teu cheiro tão próximo que quase o sinto iluminar o hipocampo
Acordar para mais um ano, longe do teu cabelo a frisar com o vapor da nossa excitação,
E hoje o dia é de Sol, chove-me nas recordações, mas nunca fui tão triste,
Trocam-se os sonhos por anos e as mãos cada vez mais inúteis e vazias,
Os poemas amontoam-se, vazios que tentam preencher um vazio que cresce,
São velas que ardem em busca de uma cura para o tédio, mas só fumo e manchas negras
No crânio que nem se digna a guardar o que vale a pena, porque sabe bem que não há nada
Que valha a pena, valeram os teus lábios enquanto nos meus, tão húmida tu, tão sincera
Na minha pele e eu que quase nem joelhos, acreditando na eternidade dos teus olhos,
Eu todo a ser nebulosa dentro do teu universo, mas a porta fechou-se, eu acordei
E hoje nem chove, nem festejo, duro apenas, trago comigo todas as recordações
Que me fazem o hoje triste, porque quanto mais vida, menos vida se sente,
O calor sem o teu corpo é um desconforto, o Sol um horizonte difícil de olhar,
A humidade o que os olhos buscam, mas só palavras, e os anos somam-se, na tua ausência.

02.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 25 de abril de 2012





Liberdade…

Ontem a liberdade era só de alguns, hoje a ilusão da liberdade é de todos,
Mas os donos continuam a ser os mesmos, deixam andar até acharem por bem
Soltar os cães, coitados, os que têm menos liberdade a impor limites na voz
De quem ao menos, ao menos uma fome que sente e que uma refeição apressada
Não mata, a quem não é dever, porque dever é a forma dos da liberdade
Se manterem livres, mas é sabido, que para uns dormirem, outros tiveram que fazer a cama,
É sabido que dentro das possibilidades, já as possibilidades estão definidas, limitadas,
Só os loucos são verdadeiramente livres, os mortos, e os donos da liberdade,
Presos ao seu poder, à sua doentia fome de excessos, mas festejemos o dia de hoje,
Que houve cravos, mudou de mãos e passados alguns anos, as calças já estão sujas
Outra vez, as mesmas calças, quem sabe se ainda não há gotas de sangue real,
Misturado com anos de comercio de carne, grandes heróis do mar, nobres cegos,
Nação doente e terminal, maiores na história deles que na história da história,
Hábitos de propaganda numa alma cada vez menos orgulhosa das suas cores,
Trocadas pela maior oferta, quem dá mais, ilusão, que liberdade não se vende.

25.04.2012

Turku

João Bosco da Silva


quinta-feira, 19 de abril de 2012


A Exigência Da Fome Pelas Inúteis

Escreve-se melhor com fome, com as sensações sacudidas pelo sono, as últimas
Gotas de sonhos ainda se despedem no esquecimento, as palavras gostam de fome,
Procuram o vazio e aí se multiplicam, são irmãs do priapismo matinal, viciadas
Em níveis baixos de serotonina, e contudo necessitam dias bons para se solidificarem
Nas circunvoluções, vizinhas do herpes à espera da fraqueza, da fome, latentes,
Lactentes do medo, da incerteza e da confusão, de barrigas cheias estão os livros
A arder, demasiada atenção na confecção dos sucos gástricos e as demais enzimas,
Inutilidades quando os dedos pedem carne de alma, os dedos que empurram êmbolos,
Primem gatilhos, levam à boca e com uma carinha daquelas qualquer um se dedicava
Às mamadas, com uma carinha daquelas as palavas não se ouvem, só olhos e palidez
Que pede a violência de um contágio, a perdição num sorriso, tantas fomes
As mães dos poemas, dos não poemas, das sedes e dos suicídios que duram luas e luas,
Hipoglicémias e alcolémias, fumos entranhados até aos ossos dos mortos futuros,
Inibidores selectivos da recaptação da serotonina, porque a vida não chega,
As palavras exigem miséria, miseráveis famintos de barriga cheia, chamas
Nas casas ao lado, alimentando a hipocrisia, as palavras tão necessárias como a vida.

19.04.2012
Turku
João Bosco da Silva

quarta-feira, 18 de abril de 2012



“Chasing Shadows” Enquanto Se Espera


de Django Reinhardt


Vive-se a tentar jogar xadrez com as peças brancas e com as peças pretas, para no fim
Tudo fora do tabuleiro e nem se chora, a terra exige toda a humidade acumulada
Ao longo dos pecados, dos sonhos trocados por nadas que também não se levam
E o nome torna-se em tudo o que conquistamos, quando nem ele uma escolha nossa,
Mais um acaso, como poderia ter sido outro qualquer, mas fomos tornando-nos nós,
Com um cérebro com tendência para isto e para aquilo, para coisa nenhuma, para
Abismos e vazios, para ilusões e desilusões, esquecimentos e pesadelos recorrentes,
Vive-se concentrado no centro de um universo limitado quanto muito, pela pele,
Entre uns centímetros cúbicos onde se fabrica a realidade e tudo o resto
Que nos faz a vida tão pesada e às vezes julga-se o mundo uma grande encenação,
Tu o único, todos os outros um teste, talvez para averiguar se és merecedor da eternidade,
Como se a morte a recompensa suprema pela coragem de ter sido, uma minhoca,
O andar de uma hiena, a resistência das betalactamases ao esforço dos centímetros cúbicos,
E a vida mais vezes um bilhar de bolso, numa multidão de ensimesmados, narcisos
À espera da morte, à espera que o rio seque, que a tinta acabe, que as palavras
Deixem de corresponder a seja o que for, quando na verdade correspondem apenas
Àquilo a que as fazemos corresponder, coincidindo tão poucas vezes nos conceitos abstractos,
Por isso lágrimas e punhos cerrados quando nos falham, quando não chegam
E ejaculações quando já não valem mais que um gemido, um pedido, uma aceitação,
Sabes que te perdes a cada avanço, mas se não avanças, estás perdido num lugar que conheces.


18.04.2012


Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 12 de abril de 2012




Um Poema Sob Saudade Turca



para a D.K.
Tu esperavas fora da estação de comboios, o Sol ocupava-te o tempo e a tua palidez suave
Cortada pelos óculos de sol enormes, as tuas pernas cruzadas, até ver, lias algo que hoje

Daria outras recordações por saber o quê, e o rio esperava-nos, o dia dependia de nós juntos

Para se dignar a apagar a luz e nem sei quantas horas dura a eternidade, mas a que tu

Me ofereceste, tornou aquele dia num fósforo nesta vida cheia de vento e tantos nadas.

Enquanto o Sol se ia despedindo, também os copos de cerveja, de plástico, comprados

Numa tasca ali perto, os barcos rabelos para inglês ver, e eu e explicar-te com a língua

A história disto tudo, enquanto tentava escrever na tua pele poemas que só mais

Tarde tomariam a forma de palavras, muitas vezes antes de adormecer, as saudades,

E quem nos visse diria que não tínhamos vergonha nenhuma, mas se conhecessem

O brilho da vontade, achariam que a roupa estava a mais e que os meus dedos

Continham toda a minha vida, eu todo em ti, no crepúsculo à beira do Douro

E hoje os dedos só isto, a dor da tua ausência, tantas vezes só, na companhia de gemidos

Falsos, por favor a quem, pergunto-me, mas tu não conheces certos objectos

Que não acreditam no amor, não procuram ser amadas, exigem respeito de quem

Acredita nelas, pedem humilhação paga, claro que paga, nem um olhar seu é gratuito,

Sentem aversão pelo carinho e repugnância por quem as ama com sinceridade,

Oferecem-se à maior oferta, e acreditam que o seu valor é mesmo o da futilidade

Pela qual se vendem, e falo do amor que não foi amor nenhum, só aquilo que te dei

Sem tu me pedires, que foi todo, dei-me todo, esqueci-me do mundo quando

Tu a tornar importante apenas aquela esfera de Lolita Lempicka à tua volta,

Afinal o universo um tamanho definido que te rodeia e eu humanidade curiosa por explorar

Todos os seus segredos, mais uma cerveja e o horizonte já púrpura, acendes um cigarro

E os meus pulmões a desejar o fumo que acabaste de inalar, e tu a encher-me de ti,

Do teu fumo perfumado, quem sabe, se acreditasse, um pouco da tua alma, passa

Alguém conhecido e eu bêbado de ti sorrio-lhe, como quem foi apanhado num pecado bom,

Tu o melhor pecado das minhas migalhas de hóstia, contas-me um pouco do teu caminho

Que eu beijo com a minha atenção, e sonho que a eternidade é a tua presença

Quando ela é possível, por isso desculpa-me esta traição, este querer trazer-te comigo,

Tão longe do tempo, tão longe de ti, ainda respiras e isto deveria ser a carta que nunca

Te escrevi, a resposta à fidelidade da tua memória, tanto esquecimento neste mundo

Sôfrego de passar e morte. Sabes que faço parte deste mundo, mas sou dos que quer tudo

E quer morrer, porque tudo impossível, só a vontade, só um momento e as eternidades

São só a resposta que se tenta encontrar num poema, mas saudade, não responde a nada.



12.04.2012



Turku



João Bosco da Silva



quarta-feira, 11 de abril de 2012



Antes De Tomar Banho


Vou tomar banho, um duche rápido vá e já volto cheio de ressentimento e histórias

De amor eterno e hipocrisia, são só cinco dez minutos e já regresso a pingar,

A secar, livre do que o hoje me tornou, todos os olhares, todas as palmadinhas

Nas costas, os abraços dos amigos, dos amigos que, nem vale a pena,

Apesar de um herege, ainda guardo algum respeito à amizade, mas agora

Tenho que me ir lavar, ainda a tenho entranhada na pele, o seu cheiro,

Que a ela, só uma dor de cabeça de quem passou os dias a beber, já venho,

Só um momento de reflexão, na esperança que com a água vá um pouco de mim,

Alívio da minha presença desde o meu sempre, a luz também suja e a noite

Merece um pouco de respeito, sempre engoliu tudo, nos bancos traseiros,

Debaixo das mantas, em cima delas no descampado, tudo até clamividência

Da inocência das prostitutas, de dentes de rato, mas agora, um duche

E acreditem que é mesmo, não costumo mentir desnecessariamente, só quando

Me calo, só quando engulo, ou acendo mais um cigarro evitando certas presenças

No meu olhar, a chama na projecção que consumo, num prazer mórbido, mas já volto

Para acabar mais um poema, tão desnecessário como muitos outros, mas esses

Ainda dizem que vivem, que vida, o poema só consequência de o sentir e dela a passar.



11.04.2012



Turku



João Bosco da Silva


terça-feira, 10 de abril de 2012



(Des)convencimento Dos Deuses Menores



Vive-se tudo para se perder tudo, aceita-se sempre com uma ilusão de eternidade

O que o nada nos empresta e depois, desamores, ódios só por mãos mal

Habituadas ao corpo de alguém que nunca mais, distâncias mais fortes que a vontade de

Um abraço, olhares que escondem nada mais que uma curiosidade, seja ela qual for,

Todas as cervejas que adiam mais uma ressaca, mais um dia perdido como todos os outros,

Por isso, ao menos passar por ele como quem perde, sem querer saber, porque mesmo

Querendo saber, se perde, deixa portanto chover, lava-te do que te tornaste e não és tu,

Sorri aos para sempre como quem finge acreditar, sem se esforçar e continua

A caminhada sem sentido e sem deus, perdido de tudo menos de ti, condenado à tua

Companhia, mesmo quando é a companhia dos outros que te empurra para o suicídio

Quando o vazio que eles fizeram questão de escavar com as suas promessas

De momento, continua a esculpir a tua forma num pedaço de madeira, enquanto

A vida arrefece, e prepara-te para um brilho mais pálido que o das estrelas,

Também elas vivem para darem tudo ao que vier e o que vier será sempre algo que não tu.



10.04.2012



Turku



João Bosco da Silva


segunda-feira, 9 de abril de 2012



Golden Shower



O tédio exige, mija-me em cima, a sério, claro, tu é que pagas, a bênção

Quente a tonificar a líbido esfomeada, semanas sem um verso, sublimação

A ganhar ferrugem nas articulações dos desvios, um certo brilho

A amor, mas no fim, acaba-se sempre o tempo, insert coin, sempre assim foi

O divertimento, desde que mais uma moeda no bolso, olhares apaixonados,

Tu o maior de todos, o único, mas vem-te rápido, a vida tem mais clientes

À espera, por isso se evitam os beijos na boca, desaperta-se o cinto,

Baixam-se as calças e esquece-se a vida num momento, a mulher em casa

A ser fodida pelas telenovelas, com o útero a mirrar enquanto se

Fertilizam indecentes bocas, o tédio exige, o tédio é o dono da vida,

E quem pode pagar ao tédio, faz valer a vida a pena, dá-me mais um beijo,

Não, já acabou, já não te conheço, já não me conheces, ainda não lavaste

O sal do meu calor, mas é assim, também não espero lembrar-me do teu nome

Enquanto estou a ser digerido pelas tuas entranhas, perder-me no labirinto

Da tua alma prostituída, entre uma chuva dourada que mal alivia este tédio.



09.04.2012



Turku



João Bosco da Silva


quinta-feira, 29 de março de 2012



A Confusa Lucidez Ao Acordar


Só tenho um dia de cada vez, não sei como esperam de mim eternidades,

Amanhã cá estarei se estiver, ou outro com quase a mesma cara, se calhar

Mais umas dores, menos para viver, a perturbação dos sonhos estranhos,

Em casa da avó, antes das renovações, partilhando com um escritor velho

Uma jovem de dezoito, que conheci acordado numa noite de Verão

E quase me oferecia a virgindade, mas só tinha aquela noite naquela noite

E tudo o que não agarrei, lá ficou, o medo a clamídia, na barba

Do velho, depois de tanta prostituta e mulher abusada pela vida,

Ele que as tentou consertar com o seu caos de porta sempre aberta,

Naquele mesmo quarto onde desenhei orgias, com golden showers,

Antes de saber o que golden ou showers, aos cinco anos, que me levará

Ao inferno, disse-me a minha mãe, por isso, que esperam de quem só tem

Um dia de cada vez e o inferno certo antes da primeira comunhão (?),

O quarto cheio de santos e cheiro a gente, o penico debaixo da cama,

O sonho sem cheiros, só o sabor metálico da carne fresca, a confusão

De estar sem saber como, nem por quê e a sensação de ser um sonho,

Por isso, mergulha-se na perdição que os dias não permitem,

O velho morto, muitos dos dias as primeiras palavras do dia,

As últimas palavras da noite, ajudou-me a perceber que tudo o que temos

É para se perder, ou não seria verdadeiramente nosso,

Por isso se perdemos, é porque um dia tivemos, ou a ilusão,

Mas tudo uma cambada de loucos sem diagnósticos, de viciados

Em drogas não rotuladas como tal, deuses donos de todos os dias

E eu que só me sinto dono dos dias que perdi para sempre, que foram todos

Os que passaram por mim, não passo da tentativa de os trazer comigo,

E nada mais me interessa de verdade, o meu mundo é suficientemente

Frágil para me ocupar todos os segundos, um malabarismo de cristal,

Tu sabes, se não sabes, não te vou exigir nada, por isso, não queiras

Que eu compreenda o mundo, chega que me deixe passar nele

Um dia da cada vez, os sonhos são meus, as recordações vou pedindo

Emprestadas à eternidade que tudo me engole e agora vou ler o que o velho me diz.



29.03.2012



Turku



João Bosco da Silva


quarta-feira, 21 de março de 2012



Palidez De Um Black Label II



O Johnny Walker Black Label adia-me os sonhos e continuo numa insónia

Forçada, contra a violência de piercings em mamilos, beijos alcoólicos,

Pelas ruas vomitadas, que descongelam e a vida parece ter passado pelo pior,

Resta apenas o fim, os abraços demasiado barulhentos, as despedidas

Num olá, as mensagens (quero-te foder os miolos agora,

Mais uma) à beira do colapso no sofá onde se tenta encontrar

O sentido a tanto ridículo, tanta prostituta barata, pega paga com humilhação,

Tanto vendido à troca de um pouco de menos ele eu, nele tudo, o cansaço

Até à despersonalização, a garrafa de vinho respira, os avós asfixiados

Com tradição e sete palmos de terra nos olhos, apenas recordações

Nos nossos cérebros de donos imortais do universo, por isso engulo

À deles, um pouco mais de menos eu, por isso tento aliviar a presença

Metálica sempre tão perto do outro lado do pescoço, só tenho por companhia

Os cães, os bêbados são apenas outras versões do que não sou, mas poderia

Ser, mas o que poderia ser não é e interessa como todos os convites

De pernas abertas, enquanto a primavera chega nas asas das gaivotas

À beira dos lagos que descongelam e permitem o peixe fresco, como as ratas

Bem aparadas, bem bebidas, quase uma submissão insensível

Enquanto se equilibra um orgasmo nos joelhos pouco crentes em ejaculações

Em vazios, mas és tu Black Label, com as tuas intenções de liberdade

Aprisionando-me num não eu, apresento-te os pulsos, reconheço a minha culpa

Na vida, nunca fui capaz de tornar a ideia da eternidade numa realidade

De cadáver inerte, ao abrir uma porta há dias fechada e o cheiro

A merda e silêncio, a vida só merda e sabemos, no fundo, que não

Merecemos a vida, nunca antes de não sermos, fizemos nada para

A merecer, tal cruel privilégio oferecido à impossibilidade que se torna e é,

(Bebe pequena, bebe, deixa a noite tornar os teus sonhos pecado,

Deixa-me ejacular nessa tua ilusão de santidade prostituída, ser mais uma mentira,

Quando tudo cedido ao poder, por poder, é prostituição),

Abraço por isso a morte, como todo o anti-poder, abraço-a cobardemente,

Como se abraça uma ideia pela qual outros morrem, morreram,

Beijo-a lentamente e os seus lábios são os teus dourados lábios negros,

Tudo tão obvio quando não há Sol, tudo tão simples quando a noite

Esconde a pobreza debaixo de papelões, o frio em demasiados goles,

Carne faminta que se torna demasiado barata, em casas caras,

Desconfortáveis no seu conforto de plástico, metal e fibras sintéticas

E nem o amor de carne, um medo plastificado, uma vida recusada,

Porque se quer só brincar às mortes pequenas, sem comprometer

A irresponsabilidade de se poder estar só até à morte, quando na verdade

Vive-se só, e só na morte, se encontrará a igualdade que se procura,

A aceitação do infinito durante a eternidade, o irrepetível.



21.03.2012



Turku



João Bosco da Silva