segunda-feira, 4 de junho de 2012


Quase Interseccionismo No Báltico

Convencem-se que são os únicos cujas boleias são pagas com lábios à volta da sua vergonha,
Tantos a ser engolidos pela mesma boca católica em carros trancados, antes de chegar,
Vêm-se tão rápido, porque são os únicos, a sueca segreda com os lábios no lóbulo que
Quente e porra, nada disso, bêbedo minha filha, tu de onde és com a mão onde já
Nem me sinto, o mundo oscila e é o excesso de mentira, pecam os poetas por dizer
Que é poesia a verdade que tentam confessar de forma subliminar, sublimação do tudo
Que desejam num corpo curto e nem que a vida a eternidade, tanta coisa impossível,
Por fazer até o infinito mostrar o fim da sua braguilha e abrir o final e provar tudo em contrário,
Não, as sardas não me tatuaram olhares, só os lábios abusadores na pele cansada de nomes
Esquecidos e futuros possíveis onde mora o esquecimento do que nunca se conheceu,
As portas fecham-se, as calças apertam-se e ninguém quer ser mais um, todos um a menos,
Brinquedos de quem julgamos mais ricos, de espírito, às vezes, prostitutas famintas de alguém
Que nos faça sentir fora de nós, que nos arranquem um pouco de nós, depois que nos cuspam,
Que nos limpem, mas que não nos esqueçam, a sua face em todos os copos vazios,
A inocência na qual se quis acreditar a ser real ainda na memória de alguém que nos morreu,
Foi mais nós que outro alguém, um sonho, mais real que a carne nórdica que nos cospe
Na sanita de uma casa de banho pública e não se sabe bem, se se vomita a ela própria também,
Um nojo imediato aquele desejo de saia pronta para uma língua bífida pelas pernas acima,
Esquecem-se as conquistas mais barulhentas, mas nunca o silêncio de uma derrota.

04.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 26 de maio de 2012


Conselho Para Caminhadas

Exagera em tudo o que faças, não poupes um verso, quando fores, vai até ao limite
E convence-o que se leva demasiado a sério. A morte já se encarregará de abreviar o que
Tu foste, uma data, outra data, o nome que te deram, não escolheste e com sorte
Uma frase pouco original.

25.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Ensaio Sobre As Unhas Dos Pés E uma Loira

Deixo-as passar, para sempre, com a mesma resignação passiva com que acordo.

Se ao menos tivesse cortado as unhas dos pés, mas que se lixe, a beleza assim,
Demasiado beleza, é para os olhos comerem, mais nada, algo de errado se passa
Para existir tanto do lado de fora, mas os olhos fazem vibrar tudo cá dentro,
Até o coração, sem esforço real, se acelera a copular com a possibilidade,
Se ao menos tivesse cortado as unhas dos pés, aqueles cabelos a provocar o vento
O mesmo contra a minha barba de cinco dias, ainda por cima, e nem imagino
Os pêlos do nariz, enquanto ela passa os dedos por uma revista de moda,
Onde eu julgava ser o lugar onde ela mora, engulo mais um pouco de cerveja e
A ela toda, hajam olhos, loira, aqueles calções que deviam proibir, prejudicam
Gravemente o que tenta ser poesia, as linhas horizontais brancas e negras
Lembram-me uma ejaculação descuidada num vestido com o mesmo padrão,
Noutro sol, eu, a mesma escuridão, em busca de luz em estrelas de carne que
Humedece, os seus óculos de sol do mesmo sangue dos meus, mas até os dela
Um pouco mais de Sol e este desconforto das unhas contra o limite das sapatilhas,
Se calhar até uma meia rota e que ridículo uma meia rota, meias fora, rapidamente,
Chega de filmes pornográficos em sofás com sonhos, daqueles que são mais para os
Olhos que para a alma toda, ou carne, sabe-se lá onde se mora realmente,
Mais vale deixá-las crescer e continuar na segurança de mais uma cerveja ao Sol
Que tudo viu e tudo deixou morrer, com a mesma indiferença com que permitiu
A vida, neste mundo, onde as unhas dos pés me impedem, na verdade me desculpam, a cobardia.

23.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 22 de maio de 2012


Inutilidades E Paraísos

Não faltam paraísos por esse mundo fora, difícil é encontrar alguém, com quem valha a pena
Partilhá-los, alguém que não acabe por torná-los em mais um inferno, alguém que saia antes
Do tempo apagar uma chamas e acender outras, no fundo paraíso é só onde se deseja ter
Quem não se tem, é só onde não se está quando se está e o calor nos obriga a aceitar a vida.
Custa escrever com a agonia de um dia cedo após uma longa digestão de trevas, contra a força
Do Sol a querer que tudo branco, as palavras tão finas, tão insignificantes contra a vontade da
Luz, o café foi apenas sabor a cefaleia prolongada e os olhos mal se conseguem abrir, tal é
O fascínio pela inutilidade que é abrir a porta e viver, além das pálpebras, da retina nem tanto,
Por isso abre-se o caderno pequeno onde cabe todo o tamanho de uma alma cansada, alma,
Cansada, mas apenas corpo e sono, gente demasiado gente que passa com toda a certeza nos
Passos, folhas que se convencem da eternidade da Primavera e ainda ontem o Inverno à janela,
Uma noite longa que se tornou clara, a lareira apagou-se e por fim ambos um abraço obrigado
Pelo orgasmo que se lava com repugnância na intimidade das mãos em concha ensaboadas
Com o cheiro do amanhecer de um dia quente, que traz a promessa feliz do esquecimento.

22.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 21 de maio de 2012


Amor Em Casas De Banho

Sonha-se com amor, aquele que se define com olhares e promessas inversamente
Cumpridas para sempre, quase se sente a sua certeza no primeiro beijo adiado,
Como se por medo, incerteza da certeza de não ser certo, tão carne quando calados
Na carne, quentes húmidos, limitados pelo beijo, sonha-se com o amor e a noite
Traz mamadas embriagadas em casas de banho de bares povoados por almas que
Se procuram nos corpos dos outros, uma excitação resignada, um, dois, três,
Dois a ser uma multidão na companhia de urinóis onde jaz um jantar meio digerido,
Como a promessa do amor que se sonha eterno, lavado o tédio com vinho e cerveja,
Trevas e desespero, procura-se o alívio, mas tudo dentro seco, uma uva que esperou
Por Setembro, mas Setembro já tinha passado, custa manter a pele toda fiel
Ao asco agonizante de estar a encher a boca onde os nossos beijos foram, quase reais,
A posição de tantas manhãs solitárias, de um e de outro, a música um ruído que as paredes
Filtram e fazem quase acreditar que os nossos corações ainda batem, mas só barulho,
Só alguém que bate à porta, que grita uma pressa, um quase um gemido a dizer
Que ocupado, quando ali mais ninguém que metade de duas pessoas, que se procuram
No vazio um do outro, e Setembro tão longe, a noite uma insónia de boca seca,
Hálito à intimidade do silêncio, rumores do segredo esforçado por se derramar
Na pele que não espera mais nada que o silêncio antes do beijo, aquele sonho
Que se acorda com o excesso, demasiada fome a carne, que torna o amor em sonho,
Esquecem-se as impossibilidades por falta de imaginação, troca-se Pessoa por Bukowski,
Troca-se a ilusão, a promessa, pela ejaculação fria no esquecimento da manhã seguinte,
Troca-se a inocência, pelo alívio rápido de carne a envolver espasmos, esquece-se
A arte do suspiro enquanto se olha o infinito numa parede vazia onde a vemos,
O amor de outros dias de sono, que hoje procurámos na insónia de casas de banho.

21.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 18 de maio de 2012


Catholic Boy

“And now for once, you must try to face the facts. Mankind is kept alive by bestial acts.”
William S. Borroughs

Ela era a menina mais bonita da sua terra, católica devota, como tem que ser
As meninas bonitas da terra, ia sempre à missa e ajudava o padre em tudo
No que o seu corpinho pequeno podia ajudar, de paramento entre os fumos do incenso
E das velas, pedidos mudos, ridículos, que a vizinha me faça um broche no palheiro,
Que o padeiro finalmente me entre no pão, sorte na caça, a vitória da minha equipa,
O totoloto, tantos a pedir o mesmo que parece que deus opta por ignorá-los a todos
E ela a sorrir enquanto as velhas abrem a boca desdentada com hálito a morte
Para deus, famintas de um corpo qualquer, que seja o de deus, ela a sorrir quando
Recolhe as moedinhas para os vinhos caros do padre, como ela amava deus.
Gostava tanto do criador que também queria ser também, mas infelizmente ela católica,
Mudou-se então para a cidade, fingindo seguir os sonhos dos outros, mas secretamente
Não tinha desistido do seu sonho e prostituía-se depois das aulas, rezava pela madrugada
E sonhava com velhos obscenos a ejacular na sua palidez imaculada, acordava com o sabor
Do esperma cansado dos homens casados e continuava a fingir uma outra vida, até o dinheiro
Ser suficiente para mudar isto e aquilo, o nome, o país, em nome de deus, do seu sonho.
Chegou o dia, o início do processo de transformação, a metamorfose e só sentiria saudades
Das mamas que a faziam ser tão desejada e amada, dádiva de deus, tantas vezes
Com um colar de pérolas derretido, também teria que se deixar de joias, os seus clientes
Sentiriam a sua falta, mas ela iria salvar-lhes a alma, lá desde o outro lado do oceano,
Facas e hormonas a corrigir o único erro, erro não, vá, descuido do seu amado até que por fim,
Um homem, um novo nome, uma nova vida, o sonho tornado possível e depois salvar almas.
Numa missão de missionário passou pela Tailândia, onde inesperadamente se apaixonou por
Um(a) ladyboy, demasiado álcool sempre ajudou a aproximar-nos de deus, o seu sangue
A tornar o nosso mais quente, e num quarto barato onde se ouviam os gemidos dos quartos
Vizinhos e néons a tornar o ar psicadélico, finalmente entrou em alguém, finalmente se sentiu
Dentro e o coração batia-lhe como nunca antes, bateu-lhe mais quando sentiu o sumo quente
Explodir-lhe nas entranhas e aí percebeu que o pecado é o que faz bater o coração,
O pecado é a razão da vida, é o que alimenta a vida, deixou deus e as hormonas e tornou-se
Também num(a) ladyboy e juntamente com o seu amor, espalharam pecado, vida, naquela
Cidade deste mundo esquecido por deus. Esta é a história da menina mais bonita da terra.

18.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de maio de 2012


As Cerejas São Momentos

Sabes que entre os desejos que não tenho, que são todos, há um que quer ser
Flor de cerejeira, tivesse eu olhos para apreciar lábios debaixo das oliveiras do adro
Da igreja, à noite, e dedos finos por entre os galhos em direcção às orelhas da filha
Da peixeira, naquele ano em que perdi tudo, como em todos os outros que se seguiram,
O estômago cheio de cerejas e as lágrimas a despedirem-se contra a parede branca do
Cemitério, o inferno branco, para nos destacarmos, nós as manchas e o verão
Não passa de sabor a metal entre os dentes, as pálpebras impossíveis de pálpebras
E dizem que os anos não perdoam, tornam-nos lúcidos cansados de tanta lucidez,
Viciados em noites de menos nós, aguardente e cafés apressados quando o dia
Se estica na pele insone, no café da terra, onde conversas sobre a origem do mundo
Reescrevem o génesis e adiam o apocalipse, livros sagrados escrevem-se no esquecimento
E a verdade é tão volátil como a memória, as raízes estranham o tamanho da terra
E o tronco sente-se estrangulado entre a rocha que o abraçou em tempos,
Só flores que quase são doçura na boca, lábios, derrotas de braços cruzados,
Porque ainda havia tempo, mas com o tempo, descobriu-se que não há tempo nenhum.

15.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 13 de maio de 2012


Conselho Sobre A Crise

Dizem que há crise João, dizem que há crise e os cafés estão cheios enquanto tanta terra
Ao abandono, à espera de uma semente, dizem que há crise, mas nunca vi a gente tão gorda,
Tão preguiçosa, tão mal habituada e bem calçada, eu e os meus irmãos, andávamos descalços,
No Inverno e quanta fome passamos, isto não é nada, a mim obrigaram-me a ir matar pretos
Lá na terra deles, lembraram-se de mim, cresci esquecido e o meu país só se lembrou de
Mim para me mandar matar, e o meu irmão que morreu por uma merdinha que hoje
Era um caixa de antibióticos e já está, a engordar, agora isto, crise, é tudo doutor,
Festas todos os dias, dizem que estudam mas só os vejo com cerveja na mão, livros nada,
Mas tu sabes como é, já foste doutor, agora olha, eu foi a França, tu lá longe, e Portugal
Agosto, mas aproveita, que os anos passam e nós cada vez menos, só a memória
E é o que somos, o que lembramos e dava tanto por esquecer tanta coisa, nunca os perdoarei,
Não os conhecia e tive que os matar, e tinham que nos matar, filhos da puta, os pançudos aqui
A encher a blusa, os de agora fazem o mesmo, chupam-nos o sangue, usam-nos a carne para
Canhão, gozam-nos com os ossos e ainda nos pedem a medula, a alma é o primeiro a ir,
E agora queixam-se que isto está mau, que há crise, enquanto tivermos uns porcos
Para matar, e a indiferença da ASAE, eles gostam bem do salpicão, ai não, haja vinho e olha,
Saúde, que com o resto não se pode contar, nunca se pôde contar, tu aproveita mas é.

13.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 10 de maio de 2012


O Encoberto

A escola obrigava-me a acordar, hoje é o cinzento e escurece lá fora, mas cá dentro
Já há anos que a luz das velas se tornou obrigatória, para se ver o teatro do fazer
Valer a pena, a escola mostrava-me o mundo entre quatro paredes, em segurança,
O mundo uma esfera num quarto escuro cheio de possibilidades para nada,
Com derrotas certas e a ilusão da victória, por isso o vinho do porto mais que um cálice,
O vinho do porto chapa contra tudo o que se aprendeu, porque nos ensinam não a viver,
Mas a sonhar e quem se fia na virgem e não corre, morre virgem, fez da vida o desperdício
Em vez de desperdiçar a vida e o triste além de triste, torna-se no pior, em tédio
E viver aborrecido é ter vontade de morte e ter vontade de morte não é viver,
É ser cobarde e esperar pelo óbvio e inevitável e eu sei tão pouco para mim mesmo
E tanto para os outros, porque é sempre fácil, piscar o olho a quem passa lá fora,
É sempre fácil quando não temos a carne demasiado carne à nossa volta,
A exigir-nos eternidade em tão pouco tempo, e chove, e os carros passam
Não muito longe e esperam, os colegas, os amigos, num lugar onde fui e não trouxe,
Mas sou, e hoje acordo só por causa do cinzento, a sua promessa de bruma, ao menos isso.

10.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 6 de maio de 2012



Morfeu Mete Baixa

Fazei o favor de me deixar fora dos vossos sonhos, estou ao alcance dos olhos
Abertos, sou vulnerável a sorrisos e admiro a vontade sem preguiça, que tem pernas
E voa, os sonhos são lugar para impossíveis e a morte é algo que me torna bastante real,
Mas não esperem por ela, depois sim, sonhem, ressuscitem o que não sou, nem fui, nem serei,
O que sou em cada um de vós, eu de olhos fechados, todos de olhos fechados,
A única diferença eu a adubar a terra com o estrume dentro do meu crânio
E vós a humedecer em lençóis, inutilmente, lubrificação de vazios para nada, por nada.
Não quero estar onde não estou, não estou, eu sou aqui, isto, cada vez mais menos,
Gosto que inspirem fundo no meu pescoço, não gosto de expirações nas costas,
E suspiros, só quando entro, não quando saio, gosto dos meus dentes na palidez
De um grito imediato, gosto do sabor do sumo dos vossos sonhos, de pupilas bem dilatadas,
Mesmo se luz, mas não me sonhem, se é só para ir andando, até eu estar longe
Do dos sonhos, longe da frustração que me revolta, não ser eu antes um fantasma,
Agora esta carne sempre faminta, fertilizante de ilusões incompreensíveis, que se acordam.
Deixai-me tornar eternidade, o amor para sempre das histórias terminadas no início,
A maçã podre que as serpentes não querem vender, os beijos que ficarão na cobardia.

06.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 5 de maio de 2012




Síndrome de Stendhal

“The future is just wasted on some people.”
Chuck Palahniuk

Como posso explicar-te o que é belo, se belo para ti é uma mentira colorida
E para mim a tristeza de uma verdade, para ti é um gatinho branco no colo
E para mim foram aquelas tardes pelos montes com o cão que me mataram.
Como posso fazer-me entender se falamos a mesma língua diferente,
Se eu bebo para não me ouvir e tu para seres mais alta que o teu ego
De católica fascinada pelo esquecimento de um apêndice, one ring to rule them all,
Eu um ateu, obcecado por outros vazios, é verdade, e cor-de-rosa
É para mim uma frase qualquer do Bernardo Soares, tu dizes que negro,
E respondes-me com um aforismo light sem aspas, para quê, tudo o que dizes
Aspas e eu só virgulas, virgulas, porque tenho medo dos pontos finais e
Envergonham-me as reticências, sonhas com sacos cheios de roupa a encolher
E eu com cafés à sombra de António Lobo Antunes a envelhecer.
Mão vazias para ti são fracasso, para mim foram um caminho que teve que ser,
Não poderia ter sido de outra forma, se fosse, as mãos ocupadas, cheias de peito
Atravessando o intransponível, e tu dizes-me que as estrelas são tão lindas
Enquanto eu suspiro e sinto-me esmagado pela confrontação do meu tamanho
Com a noite além do céu dos santos, do gajo que mora no pão, o tempo bolor,
Para ti o próximo fim-de-semana pela eternidade, belo é belo e tu és feia.

05.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 2 de maio de 2012



Outro Aniversário

É triste acordar, logo depois de entrares no carro comigo, o cemitério ali ao lado,
Fechas a porta e quando o teu cheiro tão próximo que quase o sinto iluminar o hipocampo
Acordar para mais um ano, longe do teu cabelo a frisar com o vapor da nossa excitação,
E hoje o dia é de Sol, chove-me nas recordações, mas nunca fui tão triste,
Trocam-se os sonhos por anos e as mãos cada vez mais inúteis e vazias,
Os poemas amontoam-se, vazios que tentam preencher um vazio que cresce,
São velas que ardem em busca de uma cura para o tédio, mas só fumo e manchas negras
No crânio que nem se digna a guardar o que vale a pena, porque sabe bem que não há nada
Que valha a pena, valeram os teus lábios enquanto nos meus, tão húmida tu, tão sincera
Na minha pele e eu que quase nem joelhos, acreditando na eternidade dos teus olhos,
Eu todo a ser nebulosa dentro do teu universo, mas a porta fechou-se, eu acordei
E hoje nem chove, nem festejo, duro apenas, trago comigo todas as recordações
Que me fazem o hoje triste, porque quanto mais vida, menos vida se sente,
O calor sem o teu corpo é um desconforto, o Sol um horizonte difícil de olhar,
A humidade o que os olhos buscam, mas só palavras, e os anos somam-se, na tua ausência.

02.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 25 de abril de 2012





Liberdade…

Ontem a liberdade era só de alguns, hoje a ilusão da liberdade é de todos,
Mas os donos continuam a ser os mesmos, deixam andar até acharem por bem
Soltar os cães, coitados, os que têm menos liberdade a impor limites na voz
De quem ao menos, ao menos uma fome que sente e que uma refeição apressada
Não mata, a quem não é dever, porque dever é a forma dos da liberdade
Se manterem livres, mas é sabido, que para uns dormirem, outros tiveram que fazer a cama,
É sabido que dentro das possibilidades, já as possibilidades estão definidas, limitadas,
Só os loucos são verdadeiramente livres, os mortos, e os donos da liberdade,
Presos ao seu poder, à sua doentia fome de excessos, mas festejemos o dia de hoje,
Que houve cravos, mudou de mãos e passados alguns anos, as calças já estão sujas
Outra vez, as mesmas calças, quem sabe se ainda não há gotas de sangue real,
Misturado com anos de comercio de carne, grandes heróis do mar, nobres cegos,
Nação doente e terminal, maiores na história deles que na história da história,
Hábitos de propaganda numa alma cada vez menos orgulhosa das suas cores,
Trocadas pela maior oferta, quem dá mais, ilusão, que liberdade não se vende.

25.04.2012

Turku

João Bosco da Silva


quinta-feira, 19 de abril de 2012


A Exigência Da Fome Pelas Inúteis

Escreve-se melhor com fome, com as sensações sacudidas pelo sono, as últimas
Gotas de sonhos ainda se despedem no esquecimento, as palavras gostam de fome,
Procuram o vazio e aí se multiplicam, são irmãs do priapismo matinal, viciadas
Em níveis baixos de serotonina, e contudo necessitam dias bons para se solidificarem
Nas circunvoluções, vizinhas do herpes à espera da fraqueza, da fome, latentes,
Lactentes do medo, da incerteza e da confusão, de barrigas cheias estão os livros
A arder, demasiada atenção na confecção dos sucos gástricos e as demais enzimas,
Inutilidades quando os dedos pedem carne de alma, os dedos que empurram êmbolos,
Primem gatilhos, levam à boca e com uma carinha daquelas qualquer um se dedicava
Às mamadas, com uma carinha daquelas as palavas não se ouvem, só olhos e palidez
Que pede a violência de um contágio, a perdição num sorriso, tantas fomes
As mães dos poemas, dos não poemas, das sedes e dos suicídios que duram luas e luas,
Hipoglicémias e alcolémias, fumos entranhados até aos ossos dos mortos futuros,
Inibidores selectivos da recaptação da serotonina, porque a vida não chega,
As palavras exigem miséria, miseráveis famintos de barriga cheia, chamas
Nas casas ao lado, alimentando a hipocrisia, as palavras tão necessárias como a vida.

19.04.2012
Turku
João Bosco da Silva

quarta-feira, 18 de abril de 2012



“Chasing Shadows” Enquanto Se Espera


de Django Reinhardt


Vive-se a tentar jogar xadrez com as peças brancas e com as peças pretas, para no fim
Tudo fora do tabuleiro e nem se chora, a terra exige toda a humidade acumulada
Ao longo dos pecados, dos sonhos trocados por nadas que também não se levam
E o nome torna-se em tudo o que conquistamos, quando nem ele uma escolha nossa,
Mais um acaso, como poderia ter sido outro qualquer, mas fomos tornando-nos nós,
Com um cérebro com tendência para isto e para aquilo, para coisa nenhuma, para
Abismos e vazios, para ilusões e desilusões, esquecimentos e pesadelos recorrentes,
Vive-se concentrado no centro de um universo limitado quanto muito, pela pele,
Entre uns centímetros cúbicos onde se fabrica a realidade e tudo o resto
Que nos faz a vida tão pesada e às vezes julga-se o mundo uma grande encenação,
Tu o único, todos os outros um teste, talvez para averiguar se és merecedor da eternidade,
Como se a morte a recompensa suprema pela coragem de ter sido, uma minhoca,
O andar de uma hiena, a resistência das betalactamases ao esforço dos centímetros cúbicos,
E a vida mais vezes um bilhar de bolso, numa multidão de ensimesmados, narcisos
À espera da morte, à espera que o rio seque, que a tinta acabe, que as palavras
Deixem de corresponder a seja o que for, quando na verdade correspondem apenas
Àquilo a que as fazemos corresponder, coincidindo tão poucas vezes nos conceitos abstractos,
Por isso lágrimas e punhos cerrados quando nos falham, quando não chegam
E ejaculações quando já não valem mais que um gemido, um pedido, uma aceitação,
Sabes que te perdes a cada avanço, mas se não avanças, estás perdido num lugar que conheces.


18.04.2012


Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 12 de abril de 2012




Um Poema Sob Saudade Turca



para a D.K.
Tu esperavas fora da estação de comboios, o Sol ocupava-te o tempo e a tua palidez suave
Cortada pelos óculos de sol enormes, as tuas pernas cruzadas, até ver, lias algo que hoje

Daria outras recordações por saber o quê, e o rio esperava-nos, o dia dependia de nós juntos

Para se dignar a apagar a luz e nem sei quantas horas dura a eternidade, mas a que tu

Me ofereceste, tornou aquele dia num fósforo nesta vida cheia de vento e tantos nadas.

Enquanto o Sol se ia despedindo, também os copos de cerveja, de plástico, comprados

Numa tasca ali perto, os barcos rabelos para inglês ver, e eu e explicar-te com a língua

A história disto tudo, enquanto tentava escrever na tua pele poemas que só mais

Tarde tomariam a forma de palavras, muitas vezes antes de adormecer, as saudades,

E quem nos visse diria que não tínhamos vergonha nenhuma, mas se conhecessem

O brilho da vontade, achariam que a roupa estava a mais e que os meus dedos

Continham toda a minha vida, eu todo em ti, no crepúsculo à beira do Douro

E hoje os dedos só isto, a dor da tua ausência, tantas vezes só, na companhia de gemidos

Falsos, por favor a quem, pergunto-me, mas tu não conheces certos objectos

Que não acreditam no amor, não procuram ser amadas, exigem respeito de quem

Acredita nelas, pedem humilhação paga, claro que paga, nem um olhar seu é gratuito,

Sentem aversão pelo carinho e repugnância por quem as ama com sinceridade,

Oferecem-se à maior oferta, e acreditam que o seu valor é mesmo o da futilidade

Pela qual se vendem, e falo do amor que não foi amor nenhum, só aquilo que te dei

Sem tu me pedires, que foi todo, dei-me todo, esqueci-me do mundo quando

Tu a tornar importante apenas aquela esfera de Lolita Lempicka à tua volta,

Afinal o universo um tamanho definido que te rodeia e eu humanidade curiosa por explorar

Todos os seus segredos, mais uma cerveja e o horizonte já púrpura, acendes um cigarro

E os meus pulmões a desejar o fumo que acabaste de inalar, e tu a encher-me de ti,

Do teu fumo perfumado, quem sabe, se acreditasse, um pouco da tua alma, passa

Alguém conhecido e eu bêbado de ti sorrio-lhe, como quem foi apanhado num pecado bom,

Tu o melhor pecado das minhas migalhas de hóstia, contas-me um pouco do teu caminho

Que eu beijo com a minha atenção, e sonho que a eternidade é a tua presença

Quando ela é possível, por isso desculpa-me esta traição, este querer trazer-te comigo,

Tão longe do tempo, tão longe de ti, ainda respiras e isto deveria ser a carta que nunca

Te escrevi, a resposta à fidelidade da tua memória, tanto esquecimento neste mundo

Sôfrego de passar e morte. Sabes que faço parte deste mundo, mas sou dos que quer tudo

E quer morrer, porque tudo impossível, só a vontade, só um momento e as eternidades

São só a resposta que se tenta encontrar num poema, mas saudade, não responde a nada.



12.04.2012



Turku



João Bosco da Silva