quinta-feira, 12 de julho de 2012


No Comboio

Uma sande de pão com queijo e uma cerveja, quase dez euros, no vagão-restaurante
Do comboio, o meu avô com uma barriga enorme, amarelíssimo, deitado num sofá velho,
Anda cá, não tenhas medo, tens-me nojo, e eu só pena, vais-me morrer, anda cá, olha uma nota,
Azul de dois contos, uma cerveja e pão com queijo no vagão-restaurante do comboio,
Enquanto um hippie, desses que serão velhos mortos quando os sessenta regressarem,
Toca viola e canta uma merda qualquer que faz a cerveja saber a demasiado algo que
Não o seu sabor familiar, a pena é amarela e às vezes tenta-se beber, uma velha predadora
Assume o seu papel de bêbada, mas não há paciência, não a conheço, não a quero conhecer,
Desculpe, já negligencio demasiadas pessoas na minha vida, não preciso de si, deixe-me estar só,
Só estar, no sofá do meu avô, com uma pena maior do que o meu tamanho nas roupas
Que herdei de algum amigo da família com filhos mais velhos, um primo, a pena a encher
Os dois números acima, o cabelo amarelo de uma adolescente fascinada por trinta e tais anos,
Fala alto, acaba rápido a cerveja, com pressa, é gorda e desesperada por alguém dentro, tenho
Que ir mijar, para o restaurante-vagão, todos a rezar em cima de uma cerveja, a orar à solidão,
Anda, sabe melhor se vieres e lá vão, ele atrás, uma ejaculação no chão da casa de banho do comboio,
A cerveja desce e é como a vida, à minha volta estes corpos celestes, enquanto me consumo
Em direcção a uma dispersão absoluta, dois contos, anda cá, não me tenhas nojo e o punho
Cheio de terra abre-se e o som vazio contra o caixão fechado diz-te adeus, onde tu sem estares estavas,
Eu a chorar, a mão vazia cheia de pena, eu todo medo, nojo, e nem perto de Las Vegas.

Turku-Savonlinna

07.07.2012

João Bosco da Silva

sexta-feira, 6 de julho de 2012


No Fim Será O Sujeito

Aperto-te entre os dedos com todo o meu ridículo, um movimento fétido de quem tenta
E não te sinto, sou-te, como tu és o splash antes dos salpicos nas nádegas, a saliva
Que fica nos lábios a latejar depois do beijo, a dor que sem estímulo nos receptores
Anda às voltas nas circunvoluções, já não é, já não está, vais morrer, vais morrer,
És mas não vives na tinta que serão estas palavras, o vestígio de suor numa página
Abandonada, és o que a luz me faz desejar, sempre menos do que as mãos esperavam
Daquilo que os olhos lhe contaram para dentro do comum, mas deus, sou eu.
Crio num instante uma máquina do tempo, que se diz impossível por paradoxos,
Mas sou um paradoxo, basta-me cheirar a lavanda e imediatamente a solidão
E o desespero de um quarto pequeno numa cidade em ruínas, cheio de sonhos
Que hoje guardo no esquecimento, é melhor, mais vale, a criação é dos que
Se dedicam à demolição e sem querer, deixam fragmentos que dão forma
Ao caos, no fundo tudo fruto da destruição de outra coisa qualquer, mas deus,
Sou eu, mais que uma ideia universal, sou um universo nas minhas ideias individuais,
Nas mãos não tenho nada, mas tenho em mim todo o peso de um mundo
E como se isto interessasse, fecho os olhos, inspiro, o cheiro da erva acabada de cortar,
E sinto-me a ser ruminado nos dentes pacientes das vacas num lameiro
Onde fui pedra, um cão vadio à sombra de um abismo, onde fui a faca que esculpia
Uma fatia de pão, barrava com marmelada, tornava a cortiça nas próprias vacas,
Deus sou eu e faço muito mais que durar, nasci sem saber nada e tudo o pouco
Em que me tornei, não precisou de infinitos nem de eternidades, só da oportunidade
De abrir os olhos e ver-se no universo do qual faz parte e é, no fim será o sujeito.

06.07.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 23 de junho de 2012


Presságio Após Insónia E Saudades

“It´s the ability to commit to writing, to write, the same way that you…are! Anyway!”
Allen Ginsberg

Começa como todas as obsessões , mas acorda-se ao invés de se aprender a odiá-las,
Uma cidade escura, estranha como a própria capital, num restaurante de outra época,
Ao balcão com o amigo que sobreviveu a todas as negligências e infantilidades do
Fim do mundo, dois cafés em chávenas brancas, sem marcas a dizer que o café outro
Nome qualquer a não ser café, o Lobo Antunes passa na rua, à pressa o café esquece-se
E deixa de existir, a cidade cada vez mais a capital e o amigo, provavelmente também a dormir,
Espere, enquanto uma caneta e o ridículo moleskine de todos os dias, um deles,
A prepararem-se para, se ao menos um dos livros dele aqui, agora isto, e as mãos vazias,
Só um abraço como se fosse um avô ressuscitado e um balbuciar de quem lê na missa,
Desta, algo que se sente mais do que se diz, agradeço-lhe pelas palavras que trago dentro,
Mas não consegui dizer, fez isto sentido, que vergonha, ele sorri e diz que recebeu o meu livro,
Qual deles, como, o livro em inglês e italiano, gostou especialmente do poema do barco,
Não sei do que fala, perdi-o e entro numa sala estranha, parede de um lado de vidro,
Forrada com monitores do outro e a minha colega ruiva, sardenta, sentada numa cadeira,
Vira-se e agarra-me no caralho teso e, que tens aqui, finjo não perceber, pensei que era
Para mim, oh, a cicatriz na sua coxa a latejar-me ao ritmo da taquicardia, as pálpebras abrem-se
Num quarto de hotel, ao lado de uma das duas camas, a imagem da ruiva atrás de mim,
À frente sentada a loira mãe, bonequinha afogada em pó-de-arroz, saco-a fora e ela
Sem palavra entra-me com um olhar de baixo para cima e acolhe-me com a sua boca quente,
Ela a ideia da ruiva, a imagem de quem uma noite evitei por o marido ser um bêbado simpático,
A cicatriz, a da coxa, a que se adivinha e a que só se sentiria, duas, a porta abre-se e entra
Um motoqueiro cabeludo, loiro, barba, um viquingue a vapor de testosterona, a noite apaga-se
E de manhã, a luz do Sol como uma ressaca de Setembro húmido, o motoqueiro corta lenha
No quintal de um quinta nórdica e digo-lhe, se não fosse ao contrário isto seria um sonho,
Trataste quem eu queria como uma puta, mas eu fiz o mesmo com quem me abriu a boca,
A mesma que tu querias, acordo e a vida parece-me tão estranha e sem sentido.

23.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 19 de junho de 2012


Uns Casam-se Outros Matam-se

Hoje lembrei-me de ti e chorei, escondido no duche, lembrei-me das quartas-feiras
Em que em vez de ir esfolar os joelhos para o monte ia ter contigo e com as tintas,
As unhas cheias de sonhos ao chegar a casa, lavados com uma escova dura,
O pior da arte é lavar os sonhos que ficam nos dedos, chorei e nem um sonho
Pelo ralo abaixo, ela casou-se e foram então onze anos de poesia inútil, é tempo
De deixar isto para garotos, ou velhos feios, ou gajas que não levam suficiente peso
E procuram respostas em fornos abertos, casou-se e queria ser capaz de me masturbar
De olhos fechados, com a imagem dela, o seu vestido azul contra a luz, à entrada da porta,
Verão, eu apaixonado pela sua silhueta, as suas mãos, na verdade o que tenho procurado
Na roupa interior humedecida, são as suas mãos, mas só promessas, orgasmos e vazio,
No fundo, amei apenas os seus defeitos, as suas cicatrizes, os seus dentes desalinhados,
O sinal fora ao contrário, as proporções desmedidas, nunca consegui amar a não ser mulheres,
Nunca uma boneca me despertou mais que a vontade de um alívio rápido e apressado
E ela casou-se, três dias depois de a ter beijado finalmente, num sonho adolescente,
Ela com a cabeça no meu colo, as mãos, finalmente as mãos, o dedo rodeado por uma promessa
Que não minha e tu rodeado de eternidade e eu há onze anos a escrever inutilidades
Que me têm mantido vivo, quase são, para que te mataste, para que te casaste,
Para que me tolheis a ilusão da eternidade dos outros, Florentino Ariza tinha paciência
Porque era de papel, há onze anos, mas eu já nem papel tenho para tanto cansaço.

19.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 13 de junho de 2012


Mais Um Ao Professor

Era com o mundo que querias acabar, ou uma dor que só tu sentias, foi a luz intensa
Que não conseguias apagar no sono de uma vida demasiado curta para a tua grandeza,
Foi a multidão de idiotas que te castravam os sonhos, os teus conterrâneos,
Foi o nojo do sangue comum com rastejadores da vida, quando tu asas e o céu tão baixo,
Aquele céu quente, que só nos montes encontra espaço para voo, só na tela encontra
Manobra suficiente para tocar o grito da verdade, que seria, que foi, levaste um pouco
De muita gente contigo, ficou o eco da tua vontade, mas neste mundo os ecos
Dissipam-se, a memória da maioria é feita de vácuo e aí nada se propaga, já devias saber,
Devias ter gritado numa casa vazia, sempre estava cheia de ar, agora gritas pela eternidade
Fora, onde o nada te espera do outro lado onde todos os que partem nunca chegam, são,
Tenho aprendido a desperdiçar tudo o que se pareça com talento, aprendi a reduzir tudo
A quase nada, mantendo-me a uma distância segura dos sonhos, andando encurvado
Por entre burros de orelhas levantadas, aprendi a reconhecer a minha decomposição
No silêncio do espelho, aprendi a fingir gargalhadas quando não estou, afogo-me
Nas noites e regresso na luz tão cansado que nem vontade de nada tenho,
Queria poder ter-te ensinado a forma de passar pela doçura dos abismos, sem saltar,
Mas o professor foste tu, fica a possibilidade do que podia ter sido, William Lee,
Que experiência foi essa, se não se pode partilhar a não ser a especulação da tua dor,
Deixaste o Jack, antes do Jack chegar à meta do seu suicídio lento e agora, agora nada.

13.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 12 de junho de 2012


Cosmopolis

“Talent is more erotic when it´s wasted”
Don Delillo

O tempo passa e eu sentado, nunca realmente no mesmo lugar, derreto num ângulo
Pouco credível e lembro-me dela falar com o namorado de manhã, ao acordar
Ao meu lado num quarto do hotel onde ela trabalhava, há quem passe com o tempo, eu deixo
Que ele passe por mim, sinto o álcool aumentar no sangue, os neurónios gostam, suicidas
Satisfeitos e ela dá-me um abraço e procura algo como amor ou paixão, vá-se lá saber
Naquela ressaca, num beijo, tenta justificar toda a sua traição sincera escorrida na minha pele
Afiada, ela tão deliciosamente bem aparada, sem atrito em lado algum, depois do aperitivo
Até garrafa vazia, roubado ao bar do hotel, na busca de algo que, se esteve, foi até ver os meus
Descendentes condenados naquele estômago árido e a neve lá fora a crepitar nas minhas
Orelhas, umas horas antes, derreto, consumo-me em chamas que tento apaziguar com goles
Loiros, tinha o cabelo quase curto, quero acreditar que era ruivo, mas o nome ficou naquele
Beijo desesperado com as malas ao lado, mais vazias e é triste lembrar-me nos dedos da sua
Deliciosa viscosidade e não me lembrar da cor dos seus olhos, ou de algo à sua volta,
Desde o momento em que os nossos lábios se despegaram até ao momento em que me
Apresentei na recepção do hotel, nem um nome, não me movo, o mundo trata disso por mim
E não tenho em mim todos os seus sonhos, tenho-o todo em mim e quando morrer, será o
Mundo que ficará mais pobre já que eu levo o que trago comigo e nada mais, nem um sonho.

12.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

Passou Por Mim E Nada

Ela olha-me da janela do autocarro, finjo não perceber e esqueço o relato dos calções
Curtos que passam e do dia internacional das calças justas, por um inglês e um holandês,
Dou o último gole na cerveja já quente, ela olha, percebe o meu fingimento,
Nunca quando estou a ser sincero, o inglês tomba um vaso de flores da esplanada
E já não dá conta do recado, já ninguém sabe como são dezasseis anos, ela desvia o olhar
E quando o autocarro arranca, ela volta a cabeça para o último ângulo onde eu possível
E lança-me um olhar de podia ter sido, outra coisa, mas é isto, nunca mais, por isso
Vou buscar mais uma cerveja, ainda é cedo e o inglês só ainda agora começou
A fazer merda, escrevo este poema, porque desta vez ficou tudo num olhar,
Não houve lareiras a crepitar gemidos, nem unhas a rasgar versos num papel
Qualquer em cima dos joelhos, limpam-se da barriga os filhos e janela fora que o luar espera,
Venha a noite que todos os autocarros trazem com a sua partida, os vinte anos
A atravessar multidões e braguilhas, fascinadas por abismos e chamas eternas.

08.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 6 de junho de 2012


O Meu Tio Tagana

Compro o mesmo par de meias de há quinze anos atrás, as mesmas cores, escrevo com
As mesmas palavras, de há mais de vinte anos, tento fazer delas poesia, elas obrigam-me
A ser poeta, mas no fundo, o que queria repetir era aquele retrato com um lápis
De carpinteiro numa pedaço tosco de pepel arrancado a uma saca de farelos, onde
Desenhei o meu tio da França, redondo e de braços abertos, que morava no baixo
De uma casa velhíssima e vivia de ovos cozidos com sal, peixes do rio e aves pequenas,
Cervejas, vinho da sua vinha, fermentado no mesmo baixo, num lagar pequeníssimo,
Queria tanto escrevê-lo, ele português e o meu francês favorito, com a careca sempre
Transpirada e o nariz de batata acima do sorriso e o que estranhei o seu ar sério no
Bilhete de identidade e o nome, nome de um santo eu que julgava que o seu nome
O que lhe chamávamos, num pedaço de papel arrancado a uma saca de farelos,
Ele sempre com algum pedaço de lixo nos bolsos, da França, para nos pôr contentes,
Os sobrinhos dos sobrinhos reais, uma grade de Sumol à espera de nós e do Verão
E fascinava-me ele poder nadar, no rio da aldeia, profundíssimo, tão grande era,
Hoje não sei, nem imagino, só ossos que o fascínio pelos postes de alta tensão
Lhe anteciparam, dizem-me que, mas hoje sei que glioblastoma, e o desenho a arder,
Esquecido na lareira de uma casa velha, ainda mais velha, sem ovos cozidos,
Repito então as mesmas meias, as mesmas cores, porque no fundo só queria poder
Desenhar os mortos como desenhava os vivos, de braços abertos, nariz de batata, ali,
E hoje se fecho os olhos, não lhe vejo o suor a escorrer-lhe na testa, nem um sorriso,
Mas a cara séria do bilhete de identidade, com um nome que ainda hoje estranho nele.

06.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 5 de junho de 2012


Desconselho

Aguenta-te, acende mais um pouco de incenso, pode ser que o cheiro da sua pele
Se apague no fumo do tempo, esquece tudo, mais vale a pena tu cheio de nada,
Tanto peso às costas para no fim se deixar tudo onde o nada nos engolir,
Aguenta-te, os teus dramas actuais irão tornar-se pálidos à sombra dos monstros
Que se alimentam de anos, procuras a inocência na decadência porque sabes
Que uma está perdida e a única forma de a reencontrares é perdendo-te na outra,
Aguenta-te, agarra bem as cordas do baloiço, tudo não passa de apanhar balanço
Para um salto eterno, és tão real, tão vivo como o esperma que limpaste,
Engoliste, como se fosse um pecado excitante, apenas os teus filhos quânticos,
Mas neste universo calhou a pele não ser fertilizável, só o sadismo de uns lábios
A deixar réplicas de saliva que brilham no luar nas nádegas onde alguém passa o dia
Sentado e às tantas se esforça para não rasgar o recto abusado pelos desejos
Inocentes de como quem mata passarinhos à fisgada, escorre-lhes dentro,
Escorre-lhes de dentro, mas maior conquista será se escorreres salgado, dos olhos,
Turva-lhes as certezas, mostra-lhes assim a verdade, sacode-te de ti mesmo
Como se te quisesses ver livre da alma, deixa cair todas as palavras que te atrasam,
Aguenta-te, põe a música mais alta até só se ouvir a contagem decrescente do teu coração.

05.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 4 de junho de 2012


Quase Interseccionismo No Báltico

Convencem-se que são os únicos cujas boleias são pagas com lábios à volta da sua vergonha,
Tantos a ser engolidos pela mesma boca católica em carros trancados, antes de chegar,
Vêm-se tão rápido, porque são os únicos, a sueca segreda com os lábios no lóbulo que
Quente e porra, nada disso, bêbedo minha filha, tu de onde és com a mão onde já
Nem me sinto, o mundo oscila e é o excesso de mentira, pecam os poetas por dizer
Que é poesia a verdade que tentam confessar de forma subliminar, sublimação do tudo
Que desejam num corpo curto e nem que a vida a eternidade, tanta coisa impossível,
Por fazer até o infinito mostrar o fim da sua braguilha e abrir o final e provar tudo em contrário,
Não, as sardas não me tatuaram olhares, só os lábios abusadores na pele cansada de nomes
Esquecidos e futuros possíveis onde mora o esquecimento do que nunca se conheceu,
As portas fecham-se, as calças apertam-se e ninguém quer ser mais um, todos um a menos,
Brinquedos de quem julgamos mais ricos, de espírito, às vezes, prostitutas famintas de alguém
Que nos faça sentir fora de nós, que nos arranquem um pouco de nós, depois que nos cuspam,
Que nos limpem, mas que não nos esqueçam, a sua face em todos os copos vazios,
A inocência na qual se quis acreditar a ser real ainda na memória de alguém que nos morreu,
Foi mais nós que outro alguém, um sonho, mais real que a carne nórdica que nos cospe
Na sanita de uma casa de banho pública e não se sabe bem, se se vomita a ela própria também,
Um nojo imediato aquele desejo de saia pronta para uma língua bífida pelas pernas acima,
Esquecem-se as conquistas mais barulhentas, mas nunca o silêncio de uma derrota.

04.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 26 de maio de 2012


Conselho Para Caminhadas

Exagera em tudo o que faças, não poupes um verso, quando fores, vai até ao limite
E convence-o que se leva demasiado a sério. A morte já se encarregará de abreviar o que
Tu foste, uma data, outra data, o nome que te deram, não escolheste e com sorte
Uma frase pouco original.

25.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Ensaio Sobre As Unhas Dos Pés E uma Loira

Deixo-as passar, para sempre, com a mesma resignação passiva com que acordo.

Se ao menos tivesse cortado as unhas dos pés, mas que se lixe, a beleza assim,
Demasiado beleza, é para os olhos comerem, mais nada, algo de errado se passa
Para existir tanto do lado de fora, mas os olhos fazem vibrar tudo cá dentro,
Até o coração, sem esforço real, se acelera a copular com a possibilidade,
Se ao menos tivesse cortado as unhas dos pés, aqueles cabelos a provocar o vento
O mesmo contra a minha barba de cinco dias, ainda por cima, e nem imagino
Os pêlos do nariz, enquanto ela passa os dedos por uma revista de moda,
Onde eu julgava ser o lugar onde ela mora, engulo mais um pouco de cerveja e
A ela toda, hajam olhos, loira, aqueles calções que deviam proibir, prejudicam
Gravemente o que tenta ser poesia, as linhas horizontais brancas e negras
Lembram-me uma ejaculação descuidada num vestido com o mesmo padrão,
Noutro sol, eu, a mesma escuridão, em busca de luz em estrelas de carne que
Humedece, os seus óculos de sol do mesmo sangue dos meus, mas até os dela
Um pouco mais de Sol e este desconforto das unhas contra o limite das sapatilhas,
Se calhar até uma meia rota e que ridículo uma meia rota, meias fora, rapidamente,
Chega de filmes pornográficos em sofás com sonhos, daqueles que são mais para os
Olhos que para a alma toda, ou carne, sabe-se lá onde se mora realmente,
Mais vale deixá-las crescer e continuar na segurança de mais uma cerveja ao Sol
Que tudo viu e tudo deixou morrer, com a mesma indiferença com que permitiu
A vida, neste mundo, onde as unhas dos pés me impedem, na verdade me desculpam, a cobardia.

23.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 22 de maio de 2012


Inutilidades E Paraísos

Não faltam paraísos por esse mundo fora, difícil é encontrar alguém, com quem valha a pena
Partilhá-los, alguém que não acabe por torná-los em mais um inferno, alguém que saia antes
Do tempo apagar uma chamas e acender outras, no fundo paraíso é só onde se deseja ter
Quem não se tem, é só onde não se está quando se está e o calor nos obriga a aceitar a vida.
Custa escrever com a agonia de um dia cedo após uma longa digestão de trevas, contra a força
Do Sol a querer que tudo branco, as palavras tão finas, tão insignificantes contra a vontade da
Luz, o café foi apenas sabor a cefaleia prolongada e os olhos mal se conseguem abrir, tal é
O fascínio pela inutilidade que é abrir a porta e viver, além das pálpebras, da retina nem tanto,
Por isso abre-se o caderno pequeno onde cabe todo o tamanho de uma alma cansada, alma,
Cansada, mas apenas corpo e sono, gente demasiado gente que passa com toda a certeza nos
Passos, folhas que se convencem da eternidade da Primavera e ainda ontem o Inverno à janela,
Uma noite longa que se tornou clara, a lareira apagou-se e por fim ambos um abraço obrigado
Pelo orgasmo que se lava com repugnância na intimidade das mãos em concha ensaboadas
Com o cheiro do amanhecer de um dia quente, que traz a promessa feliz do esquecimento.

22.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 21 de maio de 2012


Amor Em Casas De Banho

Sonha-se com amor, aquele que se define com olhares e promessas inversamente
Cumpridas para sempre, quase se sente a sua certeza no primeiro beijo adiado,
Como se por medo, incerteza da certeza de não ser certo, tão carne quando calados
Na carne, quentes húmidos, limitados pelo beijo, sonha-se com o amor e a noite
Traz mamadas embriagadas em casas de banho de bares povoados por almas que
Se procuram nos corpos dos outros, uma excitação resignada, um, dois, três,
Dois a ser uma multidão na companhia de urinóis onde jaz um jantar meio digerido,
Como a promessa do amor que se sonha eterno, lavado o tédio com vinho e cerveja,
Trevas e desespero, procura-se o alívio, mas tudo dentro seco, uma uva que esperou
Por Setembro, mas Setembro já tinha passado, custa manter a pele toda fiel
Ao asco agonizante de estar a encher a boca onde os nossos beijos foram, quase reais,
A posição de tantas manhãs solitárias, de um e de outro, a música um ruído que as paredes
Filtram e fazem quase acreditar que os nossos corações ainda batem, mas só barulho,
Só alguém que bate à porta, que grita uma pressa, um quase um gemido a dizer
Que ocupado, quando ali mais ninguém que metade de duas pessoas, que se procuram
No vazio um do outro, e Setembro tão longe, a noite uma insónia de boca seca,
Hálito à intimidade do silêncio, rumores do segredo esforçado por se derramar
Na pele que não espera mais nada que o silêncio antes do beijo, aquele sonho
Que se acorda com o excesso, demasiada fome a carne, que torna o amor em sonho,
Esquecem-se as impossibilidades por falta de imaginação, troca-se Pessoa por Bukowski,
Troca-se a ilusão, a promessa, pela ejaculação fria no esquecimento da manhã seguinte,
Troca-se a inocência, pelo alívio rápido de carne a envolver espasmos, esquece-se
A arte do suspiro enquanto se olha o infinito numa parede vazia onde a vemos,
O amor de outros dias de sono, que hoje procurámos na insónia de casas de banho.

21.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 18 de maio de 2012


Catholic Boy

“And now for once, you must try to face the facts. Mankind is kept alive by bestial acts.”
William S. Borroughs

Ela era a menina mais bonita da sua terra, católica devota, como tem que ser
As meninas bonitas da terra, ia sempre à missa e ajudava o padre em tudo
No que o seu corpinho pequeno podia ajudar, de paramento entre os fumos do incenso
E das velas, pedidos mudos, ridículos, que a vizinha me faça um broche no palheiro,
Que o padeiro finalmente me entre no pão, sorte na caça, a vitória da minha equipa,
O totoloto, tantos a pedir o mesmo que parece que deus opta por ignorá-los a todos
E ela a sorrir enquanto as velhas abrem a boca desdentada com hálito a morte
Para deus, famintas de um corpo qualquer, que seja o de deus, ela a sorrir quando
Recolhe as moedinhas para os vinhos caros do padre, como ela amava deus.
Gostava tanto do criador que também queria ser também, mas infelizmente ela católica,
Mudou-se então para a cidade, fingindo seguir os sonhos dos outros, mas secretamente
Não tinha desistido do seu sonho e prostituía-se depois das aulas, rezava pela madrugada
E sonhava com velhos obscenos a ejacular na sua palidez imaculada, acordava com o sabor
Do esperma cansado dos homens casados e continuava a fingir uma outra vida, até o dinheiro
Ser suficiente para mudar isto e aquilo, o nome, o país, em nome de deus, do seu sonho.
Chegou o dia, o início do processo de transformação, a metamorfose e só sentiria saudades
Das mamas que a faziam ser tão desejada e amada, dádiva de deus, tantas vezes
Com um colar de pérolas derretido, também teria que se deixar de joias, os seus clientes
Sentiriam a sua falta, mas ela iria salvar-lhes a alma, lá desde o outro lado do oceano,
Facas e hormonas a corrigir o único erro, erro não, vá, descuido do seu amado até que por fim,
Um homem, um novo nome, uma nova vida, o sonho tornado possível e depois salvar almas.
Numa missão de missionário passou pela Tailândia, onde inesperadamente se apaixonou por
Um(a) ladyboy, demasiado álcool sempre ajudou a aproximar-nos de deus, o seu sangue
A tornar o nosso mais quente, e num quarto barato onde se ouviam os gemidos dos quartos
Vizinhos e néons a tornar o ar psicadélico, finalmente entrou em alguém, finalmente se sentiu
Dentro e o coração batia-lhe como nunca antes, bateu-lhe mais quando sentiu o sumo quente
Explodir-lhe nas entranhas e aí percebeu que o pecado é o que faz bater o coração,
O pecado é a razão da vida, é o que alimenta a vida, deixou deus e as hormonas e tornou-se
Também num(a) ladyboy e juntamente com o seu amor, espalharam pecado, vida, naquela
Cidade deste mundo esquecido por deus. Esta é a história da menina mais bonita da terra.

18.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de maio de 2012


As Cerejas São Momentos

Sabes que entre os desejos que não tenho, que são todos, há um que quer ser
Flor de cerejeira, tivesse eu olhos para apreciar lábios debaixo das oliveiras do adro
Da igreja, à noite, e dedos finos por entre os galhos em direcção às orelhas da filha
Da peixeira, naquele ano em que perdi tudo, como em todos os outros que se seguiram,
O estômago cheio de cerejas e as lágrimas a despedirem-se contra a parede branca do
Cemitério, o inferno branco, para nos destacarmos, nós as manchas e o verão
Não passa de sabor a metal entre os dentes, as pálpebras impossíveis de pálpebras
E dizem que os anos não perdoam, tornam-nos lúcidos cansados de tanta lucidez,
Viciados em noites de menos nós, aguardente e cafés apressados quando o dia
Se estica na pele insone, no café da terra, onde conversas sobre a origem do mundo
Reescrevem o génesis e adiam o apocalipse, livros sagrados escrevem-se no esquecimento
E a verdade é tão volátil como a memória, as raízes estranham o tamanho da terra
E o tronco sente-se estrangulado entre a rocha que o abraçou em tempos,
Só flores que quase são doçura na boca, lábios, derrotas de braços cruzados,
Porque ainda havia tempo, mas com o tempo, descobriu-se que não há tempo nenhum.

15.05.2012

Turku

João Bosco da Silva