domingo, 9 de setembro de 2012


Lição De Poesia

para a D.,

Sento-me mais uma vez onde se escreve poesia, na solidão, inspiro o vazio que me enche o peito
E lá sigo, o poeta, riem-se uns, diz que é poeta troçam outros poetas e eu não digo nada,
Só me sento onde se escreve poesia, na solidão e inspiro bem fundo o ar que vem do abismo,
Sorrio-lhe como quem tenta disfarçar as lágrimas que se encostam ao limite da revelação da dor,
Toco as estrelas para formar cada palavra, queimo os dedos, tudo em nome de nada, tudo para
Dar voz ao vazio onde ecoam impossíveis, onde os sorrisos se tornam gotas amargas no momento
Onde todos os outros momentos memórias, sento-me mais uma vez, onde uma vez me sentei
Há muitos anos atrás, onde nada vi, nada encontrei a não ser a materialização da dor,
Uns dizem que é emoção, mas que outra emoção pode sentir um poeta cevado com niilismo
Depois do desmame de uma educação católica, tinha melhores coisas para fazer, sim tinha,
Temos sempre melhores coisas para fazer do que escrever poesia, ainda por cima, má poesia,
Debruçar-nos sobre o abismo de nós mesmos tentando encontrar o nosso reflexo e então
O abismo sorri e surge um poema, imperfeito, como o sorriso no espelho depois de se lavarem os dentes,
E parecem impossíveis, aqui, aqueles sorrisos que as fotografias dizem que se sorriram, agora,
Que ela distante, que ela tão impossível como antes, que ela longe da vida e a vida menos vida,
Ela no vazio que me enche o peito e me leva os dedos às estrelas, onde se queimam, ela a mãe
Da minha solidão mais profunda quando volta as costas, ela que tantas insónias me acompanha,
Quando fecho os olhos e procuro uma recordação para mais um verso e lá sigo, riem-se uns,
Eu rio-me com eles, de mim, não enquanto estou a ser poeta, nunca sorri enquanto escrevia
Um poema, poesia é coisa séria enquanto se faz, como fazer amor, não foder, foder é brincadeira,
É ir fazendo, lendo, gemendo, dizendo isto ou aquilo, poesia não diz nada, arranca um pouco
Do poeta e pinta uma emoção, que os que se riem provavelmente não conseguirão identificar,
Uma cor estranha, porque a vida deles é eterna, uma longa gargalhada, uma ressaca que nunca chegará,
Eu tento matar-me aos poucos para evitar sentar-me aqui, onde me sento, inspirar um ar
Onde não te encontro, cheiro a minha própria pele na esperança de um pouco de ti,
Ainda a latejar como o luar quente de Agosto, mas só te encontro quando fecho os olhos e suspiro,
Só te encontro enquanto me debruço sobra a tua ausência e tento fazer-te de versos.

10.09.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 5 de setembro de 2012


Fim De Agosto

Debaixo da figueira saboreio os últimos raios de Sol do dia, Agosto diz que já chegou de nadar no rio
E que está na hora de voltar a cair no arrefecimento que é a vida, as uvas amadurecem e os beijos
Começam a fermentar em saudades e embebedam de melancolia, o meu pai, como sempre,
O sempre que eu conheço, não pára, acende o lume no quintal para assar um frango e até o frango
Só ossos no fim, as brasas inúteis e frias como os dias do fim, as noites do fim de Verão e
Prefiro que o meu sempre acabe antes do dele, o meu pai foi feito para viver eu para amargar
Cada segundo de inspiração, o Sol deixou de ser branco e as folhas das videiras são douradas,
As galinhas recitam poemas actuais, daqueles que tento engolir, mas custam-me as penas forçadas,
Tem mais carne de poeta a minha mãe, hoje mais contente por ter ido à cabeleireira e a felicidade
Tão barata para quem a merece, há pouco eu de luto a atravessar o passeio na canícula,
O ourives fechado a responder ao boa tarde com uma dúvida, o quiosque do centro com o mesmo
Cheiro a jornais e eu seco, tão seco, acabando de sacudir mais um conto de Bukowski no saco vazio,
Parindo mais um poema inútil, desnecessário, hiperbolizando a minha labreguice, debaixo da figueira,
Ao lado das tomateiras secas ou ao meu lado, não sei, no fim de Agosto tudo sabe a despedida,
Tudo cheira à morte de Hemingway, ou terra quente, fumo, vinho azedo, frango assado, galinheiro,
Papel sujo com mais um poema, como se do poema dependesse o amadurecimento dos marmelos.

Torre de Dona Chama

25.08.2012

João Bosco da Silva

À Beira Da Praia

Se a areia da praia fosse os teus cabelos colados na minha barba, espalhados no meu corpo
Pela brisa de uma noite quente de lua cheia, gostava de praia, assim prefiro o pó de feno iluminado
Por um feixe de luz que se escapa desde um buraco no telhado de um palheiro, o doce incómodo
Da palha contra as costas nuas e olhando o mar sei tanto do destino quanto do destino te consigo explicar,
A sua impossibilidade de ondas e mais ondas que chegam à praia e só espuma, tudo por fazer, tudo impossível
Antes do primeiro passo dado e o primeiro o último na direção da impossibilidade.
Beijo-te como se tentasse encher os pulmões de ti, os meus lábios a hiperventilar para mergulhar
Nas trevas da tua ausência, abraço-te mas quero que me sejas, quero que a tua pele a minha
E que o momento seja todas as eternidades, o teu cheiro torna as estrelas mais próximas e deixo
De lhe invejar o brilho nas trevas, porque contigo ao meu lado a noite torna-se pálida, a morte
Perde a força do medo, porque, porque, até a vida sem ti medo e vazio, do que a eternidade não alivia.
Encosta o teu corpo de lavanda e trigo à minha carcaça de poeta triste, adormece e acorda-me o sorriso
Que a criança que fui um dia esqueceu, dorme comigo e faz a minha morte valer o seu nome,
Enquanto o mar continuar a chorar-se em espuma na areia que não é o teu cabelo na minha barba.

Praia da Barra / Aveiro

23.08.2012

João Bosco da Silva

quarta-feira, 25 de julho de 2012


Um Para Nada

Encerro o cacifo e atravesso o subterrâneo como um zombie, a luz fraca da manhã húmida
E quase quente cega-me, quem dependia de mim ainda por cá, espectros atravessam-me,
Bicicletas também, vermelho, verde, qual para atravessar, esquerdo branco, direito, alcatrão,
Entro na loja quase vazia, só caras de sono, atravesso as inutilidades e compro dois lanches,
Um litro de sumo de toranja, ninguém sorri na caixa, um número dito, um número marcado,
Sumo debaixo do braço ombro contra a porta e rua, a curta distância parece esticar,
O espaço também tem muito de relativo, quando o tempo parece parar, os ponteiros
Fingem mover-se enquanto se olha, voltam-se as costas e eles a recuar, a parar, mais uns
Passos, abre-se a porta, atiram-se com as Chucks para um canto, o saco com os lanches para
Cima da mesa, o litro de sumo de toranja, a vida isto quando ninguém morre, ligo o rádio,
Sintonizo-o no de sempre, às sete e meia só suporto música clássica, vou buscar o livro de
Contos à mesa-de-cabeceira, na cama alguém dorme, conheço-a quando acordada,
Pelo menos é-me familiar, a dormir sempre estranhei toda a gente, até a minha mãe,
De boca aberta, sem palavras, sem sorrisos, parece que só o corpo ali, a gente perdida
Em sabe-se lá que sonhos, pouso o livro do lado esquerdo, do lado direito encho um copo
De sumo, tiro os lanches do saco, pego num com a mão direita, o livro na mão esquerda,
Ia aqui, um pouco de vida, de um morto, à minha vida, neste dia que começa onde eu estou
Mortinho por acabar, mastigo como quem lê, leio como quem engole, empurro mais
Um paragrafo com goles de sumo, não paro, não penso, ainda estou no modo automático,
A engrenagem ainda gira, deixo as palavras ocupar o vazio que me preenche a estas horas,
Na maioria das horas, o estômago aguentará umas horas sem me chatear, poderei dormir
Pelo dia fora, de boca aberta, sem palavras, sem pedidos, sem exigências, sem espectativas,
Sem medos, ilusões, riscos, aborrecimentos, tédio, tédio, não me lembro da última vez em
Que escrevi, para quê, que há para escrever, não consigo acabar o capítulo, fica para amanhã,
Não, amanhã não, quando acordar, hoje já ganhei o dia e perdi-o, provavelmente beberei
Quase tudo na próxima folga e jogarei o resto numa mesa qualquer de blackjack, tento o azar
Para evitar a sorte de alguém querer satisfazer os meus impulsos numa casa de banho de um
Bar underground, cheio de vazios sedentos por alguma cura doentia, fecho o livro, parece uma noite
Qualquer do meu outro, aquele que geralmente colhe material para eu depois escrever nas
Horas vagas em que o tédio não me vence, apenas me acompanha, a música é-me familiar,
Tento lembrar-me, mas deixei de querer saber destas coisas desde os dezassete anos,
Sei que não é Wagner, disso tenho a certeza, coloco o sumo no frigorífico cheio de comida que
Fará parte deste meu corpo nojento, pele e pelo, nem a cabeça me salva, existe um equilíbrio
Entre a minha confusão interior e a imperfeição exterior, tento encontrar-me no que
Torno exterior, atiro com a roupa para cima de uma cadeira, meto os dedos nos olhos
E torno o mundo menos nítido, melhor assim, não compreender por razão orgânica,
A nitidez não ajuda em nada, mas pronto, lavo os dentes, cuspo sangue, as gengivas choram
O que os olhos secam, mijo, de olhos fechados, sabe bem, sinto o calor amarelo passar-me
Rapidamente pela uretra, lembro-me dela, todas as suas caras, começo a sacudir, mais que
Sacudir, ela dorme e isto é apenas um alívio, não quero mais companhia que a dos sonhos,
Desisto, é inútil, quando acordar, quando acordar estarei só, invariavelmente só,
Deito-me e sinto o peso do mundo escorrer para o colchão, isto é um dia na vida de um poeta,
Longo, um desperdício de tempo como é um desperdício de palavras este poema,
Um adiar por algo que valha a pena, um poema que valha a pena, um dia que não seja
Apenas mais um passo para chegar lá, lá, quando lá é lugar nenhum, é nada, dorme.

25.07.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 15 de julho de 2012


Quando O Esteves Partiu

Quando ele se foi, o Sol nasceu no dia seguinte, aqueceu-lhe os ossos ausentes,
Iluminou todo o lugar onde ele não estava, o carro pegou à primeira, nenhuma pulseira
Se partiu e as missangas não choveram para o chão da festa, a música não parou nem um minuto,
Continuam a mudar a roupa interior e a tomar duches ao chegar a casa, para evitarem
Observações como, tens um cheiro estranho, que andaste a fazer, e a água a pingar culpa,
Culpa, culpa quando ele se foi, desconhecidos tornam-se os melhores amigos dos amigos
Que afinal só umas cervejas juntos e depois pouco mais, anos apagados porque se cresce,
Diz-se que se cresce e pára-se tão cedo que até dá vontade de morrer logo, antes de erros
Maiores, as vacas são digeridas, a erva é ruminada por outras vacas e os lameiros dizem
Que hoje monte, as vinhas dizem que hoje monte e delas, só uns muros de pedra
Onde tudo ardeu, naquele vale de ninguém que evita o olhar do Sol, desde que ele se foi,
As irmãs também de joelhos, quando o mundo tranca a porta, ou uma parede
Esconde a vergonha esquecida na última garrafa, alguém o lê e diz que ele aquilo que não foi,
Foi aquilo que agora é, uma partida em direcção ao inevitável, ao anoitecer, porque do outro
Lado um novo dia, desde que ele se foi, dizem, as noites são tão escuras como antes,
As ruas da madrugada continuam a ecoar os passos nos paralelos em ruas cansadas de cansaço,
As mulheres continuam a abrir as pernas aos amigos dos maridos e os maridos continuam
A ter erecções quando as amigas das filhas se sentam escandalosamente no sofá onde o futebol
É a única taquicardia da semana, o trabalho continua a parar os relógios, e as manhãs,
São ainda cinco minutos depois de o despertador levar um murro, com um punho cheio
Do dia anterior, desde que ele se foi, isto, isto continua o mesmo como antes de ele cá ter estado.

15.07.2012

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 12 de julho de 2012


No Comboio

Uma sande de pão com queijo e uma cerveja, quase dez euros, no vagão-restaurante
Do comboio, o meu avô com uma barriga enorme, amarelíssimo, deitado num sofá velho,
Anda cá, não tenhas medo, tens-me nojo, e eu só pena, vais-me morrer, anda cá, olha uma nota,
Azul de dois contos, uma cerveja e pão com queijo no vagão-restaurante do comboio,
Enquanto um hippie, desses que serão velhos mortos quando os sessenta regressarem,
Toca viola e canta uma merda qualquer que faz a cerveja saber a demasiado algo que
Não o seu sabor familiar, a pena é amarela e às vezes tenta-se beber, uma velha predadora
Assume o seu papel de bêbada, mas não há paciência, não a conheço, não a quero conhecer,
Desculpe, já negligencio demasiadas pessoas na minha vida, não preciso de si, deixe-me estar só,
Só estar, no sofá do meu avô, com uma pena maior do que o meu tamanho nas roupas
Que herdei de algum amigo da família com filhos mais velhos, um primo, a pena a encher
Os dois números acima, o cabelo amarelo de uma adolescente fascinada por trinta e tais anos,
Fala alto, acaba rápido a cerveja, com pressa, é gorda e desesperada por alguém dentro, tenho
Que ir mijar, para o restaurante-vagão, todos a rezar em cima de uma cerveja, a orar à solidão,
Anda, sabe melhor se vieres e lá vão, ele atrás, uma ejaculação no chão da casa de banho do comboio,
A cerveja desce e é como a vida, à minha volta estes corpos celestes, enquanto me consumo
Em direcção a uma dispersão absoluta, dois contos, anda cá, não me tenhas nojo e o punho
Cheio de terra abre-se e o som vazio contra o caixão fechado diz-te adeus, onde tu sem estares estavas,
Eu a chorar, a mão vazia cheia de pena, eu todo medo, nojo, e nem perto de Las Vegas.

Turku-Savonlinna

07.07.2012

João Bosco da Silva

sexta-feira, 6 de julho de 2012


No Fim Será O Sujeito

Aperto-te entre os dedos com todo o meu ridículo, um movimento fétido de quem tenta
E não te sinto, sou-te, como tu és o splash antes dos salpicos nas nádegas, a saliva
Que fica nos lábios a latejar depois do beijo, a dor que sem estímulo nos receptores
Anda às voltas nas circunvoluções, já não é, já não está, vais morrer, vais morrer,
És mas não vives na tinta que serão estas palavras, o vestígio de suor numa página
Abandonada, és o que a luz me faz desejar, sempre menos do que as mãos esperavam
Daquilo que os olhos lhe contaram para dentro do comum, mas deus, sou eu.
Crio num instante uma máquina do tempo, que se diz impossível por paradoxos,
Mas sou um paradoxo, basta-me cheirar a lavanda e imediatamente a solidão
E o desespero de um quarto pequeno numa cidade em ruínas, cheio de sonhos
Que hoje guardo no esquecimento, é melhor, mais vale, a criação é dos que
Se dedicam à demolição e sem querer, deixam fragmentos que dão forma
Ao caos, no fundo tudo fruto da destruição de outra coisa qualquer, mas deus,
Sou eu, mais que uma ideia universal, sou um universo nas minhas ideias individuais,
Nas mãos não tenho nada, mas tenho em mim todo o peso de um mundo
E como se isto interessasse, fecho os olhos, inspiro, o cheiro da erva acabada de cortar,
E sinto-me a ser ruminado nos dentes pacientes das vacas num lameiro
Onde fui pedra, um cão vadio à sombra de um abismo, onde fui a faca que esculpia
Uma fatia de pão, barrava com marmelada, tornava a cortiça nas próprias vacas,
Deus sou eu e faço muito mais que durar, nasci sem saber nada e tudo o pouco
Em que me tornei, não precisou de infinitos nem de eternidades, só da oportunidade
De abrir os olhos e ver-se no universo do qual faz parte e é, no fim será o sujeito.

06.07.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 23 de junho de 2012


Presságio Após Insónia E Saudades

“It´s the ability to commit to writing, to write, the same way that you…are! Anyway!”
Allen Ginsberg

Começa como todas as obsessões , mas acorda-se ao invés de se aprender a odiá-las,
Uma cidade escura, estranha como a própria capital, num restaurante de outra época,
Ao balcão com o amigo que sobreviveu a todas as negligências e infantilidades do
Fim do mundo, dois cafés em chávenas brancas, sem marcas a dizer que o café outro
Nome qualquer a não ser café, o Lobo Antunes passa na rua, à pressa o café esquece-se
E deixa de existir, a cidade cada vez mais a capital e o amigo, provavelmente também a dormir,
Espere, enquanto uma caneta e o ridículo moleskine de todos os dias, um deles,
A prepararem-se para, se ao menos um dos livros dele aqui, agora isto, e as mãos vazias,
Só um abraço como se fosse um avô ressuscitado e um balbuciar de quem lê na missa,
Desta, algo que se sente mais do que se diz, agradeço-lhe pelas palavras que trago dentro,
Mas não consegui dizer, fez isto sentido, que vergonha, ele sorri e diz que recebeu o meu livro,
Qual deles, como, o livro em inglês e italiano, gostou especialmente do poema do barco,
Não sei do que fala, perdi-o e entro numa sala estranha, parede de um lado de vidro,
Forrada com monitores do outro e a minha colega ruiva, sardenta, sentada numa cadeira,
Vira-se e agarra-me no caralho teso e, que tens aqui, finjo não perceber, pensei que era
Para mim, oh, a cicatriz na sua coxa a latejar-me ao ritmo da taquicardia, as pálpebras abrem-se
Num quarto de hotel, ao lado de uma das duas camas, a imagem da ruiva atrás de mim,
À frente sentada a loira mãe, bonequinha afogada em pó-de-arroz, saco-a fora e ela
Sem palavra entra-me com um olhar de baixo para cima e acolhe-me com a sua boca quente,
Ela a ideia da ruiva, a imagem de quem uma noite evitei por o marido ser um bêbado simpático,
A cicatriz, a da coxa, a que se adivinha e a que só se sentiria, duas, a porta abre-se e entra
Um motoqueiro cabeludo, loiro, barba, um viquingue a vapor de testosterona, a noite apaga-se
E de manhã, a luz do Sol como uma ressaca de Setembro húmido, o motoqueiro corta lenha
No quintal de um quinta nórdica e digo-lhe, se não fosse ao contrário isto seria um sonho,
Trataste quem eu queria como uma puta, mas eu fiz o mesmo com quem me abriu a boca,
A mesma que tu querias, acordo e a vida parece-me tão estranha e sem sentido.

23.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 19 de junho de 2012


Uns Casam-se Outros Matam-se

Hoje lembrei-me de ti e chorei, escondido no duche, lembrei-me das quartas-feiras
Em que em vez de ir esfolar os joelhos para o monte ia ter contigo e com as tintas,
As unhas cheias de sonhos ao chegar a casa, lavados com uma escova dura,
O pior da arte é lavar os sonhos que ficam nos dedos, chorei e nem um sonho
Pelo ralo abaixo, ela casou-se e foram então onze anos de poesia inútil, é tempo
De deixar isto para garotos, ou velhos feios, ou gajas que não levam suficiente peso
E procuram respostas em fornos abertos, casou-se e queria ser capaz de me masturbar
De olhos fechados, com a imagem dela, o seu vestido azul contra a luz, à entrada da porta,
Verão, eu apaixonado pela sua silhueta, as suas mãos, na verdade o que tenho procurado
Na roupa interior humedecida, são as suas mãos, mas só promessas, orgasmos e vazio,
No fundo, amei apenas os seus defeitos, as suas cicatrizes, os seus dentes desalinhados,
O sinal fora ao contrário, as proporções desmedidas, nunca consegui amar a não ser mulheres,
Nunca uma boneca me despertou mais que a vontade de um alívio rápido e apressado
E ela casou-se, três dias depois de a ter beijado finalmente, num sonho adolescente,
Ela com a cabeça no meu colo, as mãos, finalmente as mãos, o dedo rodeado por uma promessa
Que não minha e tu rodeado de eternidade e eu há onze anos a escrever inutilidades
Que me têm mantido vivo, quase são, para que te mataste, para que te casaste,
Para que me tolheis a ilusão da eternidade dos outros, Florentino Ariza tinha paciência
Porque era de papel, há onze anos, mas eu já nem papel tenho para tanto cansaço.

19.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 13 de junho de 2012


Mais Um Ao Professor

Era com o mundo que querias acabar, ou uma dor que só tu sentias, foi a luz intensa
Que não conseguias apagar no sono de uma vida demasiado curta para a tua grandeza,
Foi a multidão de idiotas que te castravam os sonhos, os teus conterrâneos,
Foi o nojo do sangue comum com rastejadores da vida, quando tu asas e o céu tão baixo,
Aquele céu quente, que só nos montes encontra espaço para voo, só na tela encontra
Manobra suficiente para tocar o grito da verdade, que seria, que foi, levaste um pouco
De muita gente contigo, ficou o eco da tua vontade, mas neste mundo os ecos
Dissipam-se, a memória da maioria é feita de vácuo e aí nada se propaga, já devias saber,
Devias ter gritado numa casa vazia, sempre estava cheia de ar, agora gritas pela eternidade
Fora, onde o nada te espera do outro lado onde todos os que partem nunca chegam, são,
Tenho aprendido a desperdiçar tudo o que se pareça com talento, aprendi a reduzir tudo
A quase nada, mantendo-me a uma distância segura dos sonhos, andando encurvado
Por entre burros de orelhas levantadas, aprendi a reconhecer a minha decomposição
No silêncio do espelho, aprendi a fingir gargalhadas quando não estou, afogo-me
Nas noites e regresso na luz tão cansado que nem vontade de nada tenho,
Queria poder ter-te ensinado a forma de passar pela doçura dos abismos, sem saltar,
Mas o professor foste tu, fica a possibilidade do que podia ter sido, William Lee,
Que experiência foi essa, se não se pode partilhar a não ser a especulação da tua dor,
Deixaste o Jack, antes do Jack chegar à meta do seu suicídio lento e agora, agora nada.

13.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 12 de junho de 2012


Cosmopolis

“Talent is more erotic when it´s wasted”
Don Delillo

O tempo passa e eu sentado, nunca realmente no mesmo lugar, derreto num ângulo
Pouco credível e lembro-me dela falar com o namorado de manhã, ao acordar
Ao meu lado num quarto do hotel onde ela trabalhava, há quem passe com o tempo, eu deixo
Que ele passe por mim, sinto o álcool aumentar no sangue, os neurónios gostam, suicidas
Satisfeitos e ela dá-me um abraço e procura algo como amor ou paixão, vá-se lá saber
Naquela ressaca, num beijo, tenta justificar toda a sua traição sincera escorrida na minha pele
Afiada, ela tão deliciosamente bem aparada, sem atrito em lado algum, depois do aperitivo
Até garrafa vazia, roubado ao bar do hotel, na busca de algo que, se esteve, foi até ver os meus
Descendentes condenados naquele estômago árido e a neve lá fora a crepitar nas minhas
Orelhas, umas horas antes, derreto, consumo-me em chamas que tento apaziguar com goles
Loiros, tinha o cabelo quase curto, quero acreditar que era ruivo, mas o nome ficou naquele
Beijo desesperado com as malas ao lado, mais vazias e é triste lembrar-me nos dedos da sua
Deliciosa viscosidade e não me lembrar da cor dos seus olhos, ou de algo à sua volta,
Desde o momento em que os nossos lábios se despegaram até ao momento em que me
Apresentei na recepção do hotel, nem um nome, não me movo, o mundo trata disso por mim
E não tenho em mim todos os seus sonhos, tenho-o todo em mim e quando morrer, será o
Mundo que ficará mais pobre já que eu levo o que trago comigo e nada mais, nem um sonho.

12.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

Passou Por Mim E Nada

Ela olha-me da janela do autocarro, finjo não perceber e esqueço o relato dos calções
Curtos que passam e do dia internacional das calças justas, por um inglês e um holandês,
Dou o último gole na cerveja já quente, ela olha, percebe o meu fingimento,
Nunca quando estou a ser sincero, o inglês tomba um vaso de flores da esplanada
E já não dá conta do recado, já ninguém sabe como são dezasseis anos, ela desvia o olhar
E quando o autocarro arranca, ela volta a cabeça para o último ângulo onde eu possível
E lança-me um olhar de podia ter sido, outra coisa, mas é isto, nunca mais, por isso
Vou buscar mais uma cerveja, ainda é cedo e o inglês só ainda agora começou
A fazer merda, escrevo este poema, porque desta vez ficou tudo num olhar,
Não houve lareiras a crepitar gemidos, nem unhas a rasgar versos num papel
Qualquer em cima dos joelhos, limpam-se da barriga os filhos e janela fora que o luar espera,
Venha a noite que todos os autocarros trazem com a sua partida, os vinte anos
A atravessar multidões e braguilhas, fascinadas por abismos e chamas eternas.

08.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 6 de junho de 2012


O Meu Tio Tagana

Compro o mesmo par de meias de há quinze anos atrás, as mesmas cores, escrevo com
As mesmas palavras, de há mais de vinte anos, tento fazer delas poesia, elas obrigam-me
A ser poeta, mas no fundo, o que queria repetir era aquele retrato com um lápis
De carpinteiro numa pedaço tosco de pepel arrancado a uma saca de farelos, onde
Desenhei o meu tio da França, redondo e de braços abertos, que morava no baixo
De uma casa velhíssima e vivia de ovos cozidos com sal, peixes do rio e aves pequenas,
Cervejas, vinho da sua vinha, fermentado no mesmo baixo, num lagar pequeníssimo,
Queria tanto escrevê-lo, ele português e o meu francês favorito, com a careca sempre
Transpirada e o nariz de batata acima do sorriso e o que estranhei o seu ar sério no
Bilhete de identidade e o nome, nome de um santo eu que julgava que o seu nome
O que lhe chamávamos, num pedaço de papel arrancado a uma saca de farelos,
Ele sempre com algum pedaço de lixo nos bolsos, da França, para nos pôr contentes,
Os sobrinhos dos sobrinhos reais, uma grade de Sumol à espera de nós e do Verão
E fascinava-me ele poder nadar, no rio da aldeia, profundíssimo, tão grande era,
Hoje não sei, nem imagino, só ossos que o fascínio pelos postes de alta tensão
Lhe anteciparam, dizem-me que, mas hoje sei que glioblastoma, e o desenho a arder,
Esquecido na lareira de uma casa velha, ainda mais velha, sem ovos cozidos,
Repito então as mesmas meias, as mesmas cores, porque no fundo só queria poder
Desenhar os mortos como desenhava os vivos, de braços abertos, nariz de batata, ali,
E hoje se fecho os olhos, não lhe vejo o suor a escorrer-lhe na testa, nem um sorriso,
Mas a cara séria do bilhete de identidade, com um nome que ainda hoje estranho nele.

06.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 5 de junho de 2012


Desconselho

Aguenta-te, acende mais um pouco de incenso, pode ser que o cheiro da sua pele
Se apague no fumo do tempo, esquece tudo, mais vale a pena tu cheio de nada,
Tanto peso às costas para no fim se deixar tudo onde o nada nos engolir,
Aguenta-te, os teus dramas actuais irão tornar-se pálidos à sombra dos monstros
Que se alimentam de anos, procuras a inocência na decadência porque sabes
Que uma está perdida e a única forma de a reencontrares é perdendo-te na outra,
Aguenta-te, agarra bem as cordas do baloiço, tudo não passa de apanhar balanço
Para um salto eterno, és tão real, tão vivo como o esperma que limpaste,
Engoliste, como se fosse um pecado excitante, apenas os teus filhos quânticos,
Mas neste universo calhou a pele não ser fertilizável, só o sadismo de uns lábios
A deixar réplicas de saliva que brilham no luar nas nádegas onde alguém passa o dia
Sentado e às tantas se esforça para não rasgar o recto abusado pelos desejos
Inocentes de como quem mata passarinhos à fisgada, escorre-lhes dentro,
Escorre-lhes de dentro, mas maior conquista será se escorreres salgado, dos olhos,
Turva-lhes as certezas, mostra-lhes assim a verdade, sacode-te de ti mesmo
Como se te quisesses ver livre da alma, deixa cair todas as palavras que te atrasam,
Aguenta-te, põe a música mais alta até só se ouvir a contagem decrescente do teu coração.

05.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 4 de junho de 2012


Quase Interseccionismo No Báltico

Convencem-se que são os únicos cujas boleias são pagas com lábios à volta da sua vergonha,
Tantos a ser engolidos pela mesma boca católica em carros trancados, antes de chegar,
Vêm-se tão rápido, porque são os únicos, a sueca segreda com os lábios no lóbulo que
Quente e porra, nada disso, bêbedo minha filha, tu de onde és com a mão onde já
Nem me sinto, o mundo oscila e é o excesso de mentira, pecam os poetas por dizer
Que é poesia a verdade que tentam confessar de forma subliminar, sublimação do tudo
Que desejam num corpo curto e nem que a vida a eternidade, tanta coisa impossível,
Por fazer até o infinito mostrar o fim da sua braguilha e abrir o final e provar tudo em contrário,
Não, as sardas não me tatuaram olhares, só os lábios abusadores na pele cansada de nomes
Esquecidos e futuros possíveis onde mora o esquecimento do que nunca se conheceu,
As portas fecham-se, as calças apertam-se e ninguém quer ser mais um, todos um a menos,
Brinquedos de quem julgamos mais ricos, de espírito, às vezes, prostitutas famintas de alguém
Que nos faça sentir fora de nós, que nos arranquem um pouco de nós, depois que nos cuspam,
Que nos limpem, mas que não nos esqueçam, a sua face em todos os copos vazios,
A inocência na qual se quis acreditar a ser real ainda na memória de alguém que nos morreu,
Foi mais nós que outro alguém, um sonho, mais real que a carne nórdica que nos cospe
Na sanita de uma casa de banho pública e não se sabe bem, se se vomita a ela própria também,
Um nojo imediato aquele desejo de saia pronta para uma língua bífida pelas pernas acima,
Esquecem-se as conquistas mais barulhentas, mas nunca o silêncio de uma derrota.

04.06.2012

Turku

João Bosco da Silva