quinta-feira, 18 de outubro de 2012


Portugal 2

Portugal, sei que o meu descontentamento não interessa, mas quem foram os filhos da puta que te tornaram
Estéril, o horizonte diz-me que tu verde mas quando se chega lá, tu árido, seco, com leite
Só para mamões, dizes que não há pão, que a fome é necessária, a fome de milhões,
E depois alimentas uns quantos porcos a caviar e diamantes, porque mandam, mandam tudo
À merda com um sorriso, urinam promessas nos olhos do povo que se arrasta na imundice
E agradece os restos com mais um mandato, porque uns mentem melhor que outros,
Porque os olhos já não vêem depois de tanta porcaria, a televisão pinta idiotas de heróis,
Os jornais cobrem as ruas de más notícias que o vento sacode da vista e tudo parece distante.
Portugal, se roubasse um pão, não me perdoarias, não perdoas a quem rouba pouco,
És míope, e se vês algo à distância, é à distância do passado, o futuro é demasiado qualificado
Para ti, preferes exportar aquilo que vale a pena, no fim serás um país de formigas famintas
A trabalhar para meia dúzia de cigarras gordas, Portugal, não sei se me apetece esquecer-te
Ou esquecer aquilo que sou, esquecer-me de que a culpa é, segundo os responsáveis, de todos,
Portanto, também minha e sinto-me culpado, teria sido por segurar na pata do animal, nas
Matanças do porco, naquelas manhãs geladas de Inverno, para ir enganando a fome,
Ou será culpa dos goles de aguardente roubados dos alambiques atrás dos muros de pedra,
Com o cheiro a mosto no ar da vila, tenho quase a certeza que foi por ter tremido nas primeiras
Aulas da manhã, com o casaco vestido, na sala sem aquecimento, sim, foi isso, tremer não
É coisa de homem, não fiz o sacrifício de não sentir frio, se calhar foi algo que herdei, o meu avô
Ter sido internado pela primeira e última vez, poderá ter sido pelas missas de Domingo, por ter
Seguido outras tradições com a fidelidade de um crente, de uma coisa estou certo Portugal, só
Pode ter sido por ter cumprido com tudo o que esperavam de mim, menos por ter sido
Um rato, é o que dizem quando se afundam navios, mas tu um porto, certo, a partir de ti descobrir
Mundo, e esquecer-te, mas não compreendes que a saudade nasce connosco e a saudade é feita
De memória, de recordações. Porque não gostas de nós? Porque não gostas de mim? Dizes que
Estás a envelhecer e não me deixas dar-te um pouco de juventude, eu que queria ter filhos
Que falassem português, que comessem uvas directamente do Sol de Setembro, que arranhassem
Os joelhos na calçada do bairro antigo e chegassem a casa com a roupa manchada com amoras,
Ou uma dor de barriga por demasiadas cerejas, queria que eles se apressassem ao ouvir a trindade,
E que no Inverno sentissem aquele calor no coração quando se cheiram os fumos das lareiras no ar,
Mas que te interessa isso, quando os teus porcos engordam cada vez mais e cobrem tudo de um
Estrume caro e inútil, fertilizando tudo com esterilidade, palavras e sonhos vazios, sonhos
Portugal, só os tenho quando durmo e às vezes tu não ardes, às vezes tu mais que Agosto,
Eu e a família que tu me negaste, com a mulher que tu me negaste, porque é difícil,
Ao fim da noite a falar de outras coisas que não o desemprego do pai, o Natal que se aproxima,
Seco de presentes, negaste-me acordar todos os dias ao lado de alguém que me diz Bom Dia
E sabe o meu nome de verdade, ofereceste a tantos outros a desconfiança, por aqueles luxos
Pequenos da mulher, quem será o porco gordo e cada vez mais se vendem, e os corações uvas passas,
Porque a vida está difícil, não sejas burra, não sejas burro, se tiver que ser, ajoelha-te e chupa,
É o que tem que ser, porque Portugal, andaste a convencer quem és, que é normal, cada vez mais puta
Tu, vendes-te até à língua, dás o cu a quem perdeu duas guerras com ele para o ar,
Já chegaste ao último furo do cinto, mas a gravata continua apertada a esconder os
Botões que te faltam na camisa, Portugal, mete-me nojo, não quem procura um alívio no caixote
Do lixo, mas quem passa em luxo, como se fosse um direito que só alguns têm, direito à fome,
E os porcos continuam a mastigar diamantes, enquanto cagam nos direitos dos que arrastam
O teu cadáver, e dizes que a responsabilidade é de todos, e é verdade que poderia ter tirado melhores
Notas, podia ter lido mais se a mesada desse para mais do que uma sande de pão e queijo por dia,
Que não comia para poder comprar aquele livro que não havia na biblioteca pública, e agora dou razão
À minha mãe, livros que não interessam, só me abriram mais os olhos e em ti, é mais fácil
Ser cego. Portugal, como podes esperar que no futuro as coisas melhorem, se continuas
A expulsar o futuro, a queimar o futuro, a vender o futuro por simpatia, estou cansado,
Estás cansado, a culpa é minha, eu sei, nossa, é daqueles que morrem nas ruas, daqueles
Que morrem sós, com fome, em aldeias desertas, é daqueles que morrem à espera de uma consulta,
Ou à espera de um pouco mais de atenção, que não se tem, porque há demasiada gente
A precisar, a precisar de tudo, quando tudo, é só o direito de quem te fode, de quem abusa de ti
E goza contigo, mas desculpa-me Portugal, sei que neste momento, devia estar perdido,
Como tu, em ti, em vez de estar perdido, aqui, consumido pela saudade daquilo que me és,
Dos teus montes, do cabelo cor de cobre, dos sorrisos das crianças a brincar ao esconde-esconde,
Do Sol que torna o Outono dourado em vez de castanho como noutros países, do cheiro salgado
Da tua areia, da cerveja fresca, das romãs no fim desse Outono dourado a darem-lhe um toque final
De rubi, das casas, umas em cima das outras, encaixando-se bem nos contornos das vizinhas,
Das velhinhas cheias de rugas fazendo desejar-me durar ao lado da mãe dos meus filhos,
Dos meus filhos com um futuro também dourado, se forem merecedores disso, não como o pai,
Que nunca será pai, que está descontente, só por lhe terem permitido sonhar mas não o sono,
Por lhe terem vendido um bilhete para lado nenhum e o criticarem por ter ido, para onde
O Sol é frio, mas permite viver, a vida sabe a cinzento, mas vai-se vivendo, até ver, até ver Portugal.

18.10.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 15 de outubro de 2012


Mega Drive

para o Carlos,

Há jogos hoje, considerados retro, mas que para mim são mais do que o velho antigo, estar na moda,
São cheiros que me chegam ao hipocampo através dos olhos, dos ouvidos, dos dedos ou até
Do nariz, o cheiro do pó que se sopra dos cartuchos de plástico, para os pôr a dar outra vez,
Um sopro mágico, um botão pressionado e é Verão, Agosto e a minha mãe cozinha os mexilhões
Que apanhamos no rio com os tios de França, a cozinha quente e húmida, o cheiro íntimo do rio,
Ou é aquela neta da amiga da minha mãe, à espera que eu perdesse uma vida para poder
Ser ela a seguir, com o seu cabelo sempre muito curto, olhos vivos e dentes de malandra,
Que depois à noite, passou o tempo, enquanto a avó tagarelava com a minha mãe na cozinha,
A massajar-me os tomates e a gaita por fora das calças, nas escadas, ao escuro, apertava com força,
Até à dor verde, mas não importava, ainda tinha mais vidas para morrer, aliviava-me os tesões tenros
De idade, é quase sempre Verão e o amigo do Porto está na vila e passamos as horas da canícula
A tentar chegar ao fim deste jogo, um nível a seguir ao outro, até o Sol nos dar tréguas e um
Nível nos esgotar a paciência daquele dia, lá íamos então, comprar um gelado ao quiosque do jardim
Da vila, ou beber um ice tea a caminho da casa do outro amigo que morava no extremo oposto,
É o meu pai a dizer-nos que ficamos com os olhos em bico e a acertar nas minhas dioptrias
E a minha mãe a desligar-nos o contador da luz, porque isso faz-vos mal tanto tempo, e eu e o
Meu velho amigo a caminho de sua casa, a fazer de conta que uma volta para apanhar ar e Sol,
Mas o cartucho escondido no bolso, para tentar encontrar o ponto fraco daquele big boss persistente,
Às vezes também é no Natal enquanto não se podem abrir as prendas e a missa do galo um nível
Onde nunca nenhum de nós tinha chegado, ou as férias de Natal com o primo que mais se admirava,
Com a sua colecção de jogos e a neve lá fora a tornar as férias em mais dois ou três dias de lareira,
Sofá e botões infinitamente pressionados para aquecer os dedos frios dos jogos na neve,
É alguém a dizer que quer ver o futebol e nós de pé, com os comandos na mão, a caminhar
Lentamente em direcção ao botão vermelho, estava quase, e que alívio acabar um jogo,
Mais uma conquista, comparável às conquistas de carne dos anos futuros, mas com a doçura
Da inocência, hoje quando jogo, quando jogamos, o peso dos anos torna-se mais leve, pousa-se
Por momentos o imenso saco de lixo que fomos acumulando ano após ano e somos quem fomos,
Sopramos o pó do cartucho e está resolvido, os anos de desuso da criança que fomos dissipam-se,
Soprámos e vai dar, a vida vai ter um sentido, em direcção ao último nível, a vida vai ser um desafio seguro,
Os objectivos são simples, salvar a princesa, vingar o pai, vencer o cientista malvado,
Somos capazes disso tudo, é uma questão começar e persistir, o controlo está nas nossas mãos.

10.10.2012


João Bosco da Silva

domingo, 14 de outubro de 2012


Ensinar A Andar De Bicicleta

Sabe andar de bicicleta, mas não se lembra quem lhe levava a mão no celim até
Encontrar equilíbrio, e depois corria ao seu lado para a levantar do chão logo depois da
Quase queda ou queda, necessária e esperada, só assim se aprende, a andar de bicicleta,
Mas não se lembra que foi na minha que aprendeu, no caminho de terra que me abriu a carne
Um dia e pó e sangue, não se deve lembrar das cerejas em flor nem do cheiro a verde fresco
Dos lameiros húmidos à volta do caminho, o céu azul como o futuro que os olhos acreditavam
Alcançar, amanhã e chegava, no fundo não interessa, ela sabe andar de bicicleta e eu enferrujo,
Ao lado da bicicleta, velha, atirada a um barranco que não sei onde, uma memória abandonada,
As cerejeiras, algumas, já devem ter secado, nos lameiros a erva cresce e não há quem tenha animais
Para pastar tanto verde, um verde que parece mais escuro, no poço as rãs desistiram de provocar
As crianças e tornaram-se seixos, ou um pedaço de sabão azul que alguém deixou ao Sol
E à chuva, a ser uma memória que se gasta com o tempo e perde a forma original,
Mas que continua a poder lavar, as mãos de quem precise da sua espuma, e na vida, tudo o resto
Ensinar alguém a andar de bicicleta, cada novo gesto um ensinamento, cada beijo, cada abraço,
Cada toque, um pouco mais que se leva, e na ilusão de quem dá, fica sempre a esperança
De que ele também, ele a latejar no pouco que se deixa, no pouco onde se foi todo, tudo e se esquece,
Com a negligência inocente das crianças, e o caminho talvez se lembre, de um rapaz a correr
Ao lado de alguém que encontra o equilíbrio, em cima de uma bicicleta, pela primeira vez, para sempre.

14.10.2012

João Bosco da Silva

quinta-feira, 11 de outubro de 2012


Putas Com Memória De Elefante

Diz-me que esteve em Portugal em mil novecentos e cinquenta e três, em Leixões,
Ia a caminho de Casablanca desde Helsínquia, uma das muitas histórias que se pode
Encontrar numa insuficiência cardíaca se lhe dermos ouvidos, a primeira notícia ao
Desembarcar foi que Estaline tinha morrido, havia quem festejasse na rua, a morte
De um ditador, no país de outro ditador, do outro lado da Europa, mas em Leixões,
Os seus olhos brilham como se por momentos olhasse no espaço entre nós a chama
De uma vela há muito apagada, é melhor não contar, com uma vontade enorme
De desenterrar algum pecado que deixou saudades, sorrio-lhe maliciosamente,
Com ar de quem conhece muitas outras histórias de putas, de quem esteve,
De quem sabe o que ali vem, como que bater-lhe nas costas para o aliviar daquele
Engasgamento com um pedaço de passado, vamos lá, somos homens e tal e ele,
Continua, em Leixões as mulheres, piscando um olho como se não fossem mesmo mulheres,
Mas são mulheres, baratas, vinte escudos, uma ninharia em marcos e eu sorrio-lhe,
Um sorriso diferente, agora com uma certa tristeza por me dar conta, que já em mil
Novecentos e cinquenta e três, eramos as putas mais baratas da Europa, ele continua
Até Casablanca, mas eu fico naquele Leixões, fico a procurar onde estará quem por vinte
Escudos se vendeu e fez este homem feliz, tento encontrar que felicidade comprou para
Ela própria, estou certo que os vinte escudos se gastaram, também a lembrança de um homem
Alto, loiro, jovem, vindo de longe, dentro, num beco pestilento de Leixões, já se deve ter gasto
Nela, ou não, porque afinal, somos putas com memória de elefante.


10/10/2012

João Bosco da Silva
Weimar Onde Me Sento

Não compreendo, Weimar, só o nome e sinto quase saudades de nunca lá ter estado,
Vejo Nietzsche numa cama, no seu fim, ou à volta, a iniciar-se, para a repetição infinita
Do seu bigode, e sei se fosse seu contemporâneo me veria como uma insecto, limitado,
Preso à educação que me deram, mesmo quando reactivo contra ela, sei que se não tivesse
Ele matado deus e me estivesse a ouvir neste momento, acharia que, apesar de eu hoje estar
Longe do presente de mil e novecentos, abanaria a cabeça desiludido, ainda longe o super-homem,
Nem perto, nem que o bigode se repita infinitamente, a vida não valerá a pena ser vivida
A não ser para repetir os erros que vistos de uma perspectiva cósmica são correctos como
Tudo o é, por ser, mas lá está a água benta a fermentar colónias e o pão a colar-se no palato
Das velhas que temem a foice da escuridão eterna, elas que tão castas, depois de secarem,
E Weimar tão familiar, que quase me sinto em casa quando o vejo marcado num mapa da Europa,
Mesmo estando num país que cada vez mais me afasta dele, que cada vez mais se afasta dele
E abraça as imposições estrangeiras de joelhos, de calças baixas e bolsos vazios, eis os super-homens,
A rezar à nova religião, à espera de flutuações favoráveis como de milagres, novos cristãos
Que por muito que se esforcem, serão postos de lado e comerão alheiras, para evitar
A fogueira inevitável, Weimar, e Nietzsche abençoado pela loucura, paz finalmente, paz trazida
Da consequência das suas visitas às putas, diz-se que sífilis, Lou Salomé diz-lhe que não eternamente
E ele repetidamente a morrer em Weimar, enquanto eu morro aqui, longe, sempre longe e estrangeiro.

11.10.2012

João Bosco da Silva

segunda-feira, 8 de outubro de 2012




Feliz Natal E Um Moleskine Perdido

Perdi um moleskine e com ele vários poemas, os melhores poemas, tudo sempre o
Melhor quando perdido, é mais fácil sentir o tamanho do vazio do que daquilo que o criou
Quando se perdeu, aplica-se a tudo, menos à vida, sinto que foram os poemas que mais me
Aliviaram, agora que estão perdidos, sinto um alívio como naquela manhã de Natal,
Depois de ter ejaculado nas tetas daquela loira falsa, com a porta entreaberta,
O alívio da toalha azul, que tinha dormido connosco, com o meu futuro já seco e perdido
Da última foda, a limpar-me da sua pele e mais uma vez perdido, promessas perdidas,
O salvador do mundo irremediavelmente perdido, o anticristo que já demora em vir,
Tudo perdido e o alívio de perder algo que nos era, que nos possuía, que era nós,
Perder um pouco do lixo que se acumula com o passar dos segundos, pelos sentidos,
Pela fermentação do que ficou dos sentidos e já não é nada a não ser um passo na areia,
Que insiste em secar ao Sol, enquanto não vier o azul e levar tudo, perder tudo,
O amanhecer azul e ela geme-me, que queres que te faça, numa língua irmã cortada,
Continua, estou a saborear o teu interior, não pares, isso, e ela preocupada que eu desiludido,
Por só a estar a foder, deixa estar, eu já trato de ti, presente de Natal sem futuro, um orgasmo,
Lençóis esmagados entre unhas pintadas de vermelho, corre-te, e eu venho-me também,
A porta entreaberta, na cozinha o barulho da noite anterior já apagado, dentro de nós, uma
Ressaca dupla, da bebedeira e das fodas, o moleskine perdido, o esperma levado pela toalha
Azul antes de poder arrefecer, os poemas levados antes da tinta secar e só o alívio,
Uma quase satisfação por ser Natal e estar perdido, mesmo encontrando-me dentro de um nome
Que hoje, loira falsa, do sul, que queres que te faça, faço-te tudo e no fim levo apenas o vazio
Que fica depois do Sol nascer, um moleskine cheio de poemas que não serviram para mais nada
A não ser encontrar-me fora de mim, como quem se encontra dentro de alguém e escrever,
Como foder, é a minha forma de não estar só, mesmo estando, um com, outro sem companhia.

08.10.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


A Relatividade Das Sombras Enquanto Versos Ardem

Sentes-te só e por isso abres um livro e descascas um poema, mas devias saber que o poema
É feito da luz de estrelas mortas, sempre demasiado tarde o alertar da sua presença,
Sempre ausente quando se apressa o coração a encontrar os dedos que tentaram acompanhar
O silêncio das noites dos dias da vida, se te sentes só, fecha o livro, não procures a companhia
Da solidão, não anseies por palavras que deixaram de vibrar e só esperam que os teus olhos
Famintos lhe tragam um pouco de vida, todas as palavras são também tuas, cada uma encaixa
Perfeitamente e parecem abrir-te um alívio em forma de janela, das que tens dentro e não
Sabias que podiam ser abertas, mas não trazem nada de novo, se trouxessem algo de novo
Não compreenderias e dirias, não faz nenhum sentido isto, porque não tinhas em ti o substrato,
Sente-te só, não entre em mais nenhum verso, acabarás por encontrar um espelho onde
Verás a tua solidão de outro lado e aí terás a ilusão de não estares só, um erro, pois é impossível
Encontrar companhia na solidão dos outros é mais real o latir de um cão numa noite
Quase silenciosa, é mais real o chamamento de uma prostituta na rua mais em baixo quando
Passas com a tua solidão, mais real a janela do café ao lado partir e passos apressados
Pela rua abaixo, mais real o toque do telefone da casa ao lado, o passo dos vizinhos,
O olhar que procura um olhar do outro lado do bar, quase deserto, mais real que toda a luz
Que possas encontrar nos versos, onde te encontras só, nu, como se alguém tivesse definido
A tua própria solidão antes de teres nascido, um desconhecido que julgas conhecer nas sombras.

01.10.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


Enquanto Se Espera Por Menos

Acordar durante a noite com a vontade de morder toda aquela carne que se deixou
Entre um e o outro lado de uma ponte invisível, as gotas de suor incomodam a presença da
Almofada e o desespero não deixa dormir ninguém com o ranger dos dentes metálicos,
O mundo perde-se a cada promessa, o mundo cresce a cada segundo que se perde
E tudo cada vez mais longe, todos cada vez mais mortos, as pálpebras cada vez menos
Vermelhas nas tardes quentes de Verão quando fechadas de prazer, as pálpebras
Cada vez mais de madeira, nuvens numa noite de luar, a Lua amarela como os dentes
Daquele cão bêbado que leva as almas que conseguiu enganar através do corpo,
O mundo lá fora arde e acorda-se com a boca cheia de vazio, cospe-se como se terra,
Mas quando terra for, nada a fazer, arrancar as unhas se der tempo, ou cruzar as mãos sobre
O peito e fingir que se dorme à espera que a carne deixe de ser necessária para tudo o resto ser,
Uma valente treta aquele ponteiro dos segundos, passos num corredor entre um nada e outro nada,
Ou a ponte onde se deixou toda aquela carne, só ficou a vontade nos dentes, o desespero
Que torna as mãos em raízes fantasmagóricas, que agarram como quem rasga quando
Sentem que estão a perder o controlo, que afinal só a ilusão do controlo, nem o ar da almofada
Se suporta, nem a chuva suspensa à espera da consciência de vidro de uma janela acordada,
Um candeeiro em cima de uma mesa onde algum alquimista tenta transformar palavras em carne,
Morre de fome e insónia, acreditando que as palavras capazes de milagres, mas Verão
É uma palavra tão fria como o que não se vê agora, tem o mesmo peso de deus, e enquanto
As folhas amarelecem, não passa de uma vibração nas fibras de um coração frio e faminto.

24.09.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 22 de setembro de 2012

A Consequência Dos Sonhos À David Cronenberg

Tanta gente desesperada por amor e a mim neste momento só me apetece é fodê-los,
Não vejo mais nada na forma como seguram a garrafa de água entre as pernas, mais nada
A não ser uma enorme falta de amor, os lábios rodeiam o gargalo da garrafa com uma carência
Que deixa correr uma linha de piedade pela comissura labial até ao pescoço, labial, que
Palavra tão cheia de provocações, esta vontade diz-me o consciente, é consequência
Dos sonhos à David Cronenberg, passar a noite a tentar roubar um banco de recordações,
Tentando descodificar códigos que mais parecia jogar Space Invader, suar conspiração
Por todos os lados, mesmo à frente do proprietário chinês, até nos sonhos me apetece
Fodê-los, o mais profundamente possível, ir ao fundo dos seus segredos mais íntimos
E ejacular-lhes humilhação e poder, senhor Peter, se usar o triângulo cinzento é mais rápido,
Mas o meu nome acordado nem é esse, nem eu acordado numa Chinatown qualquer,
Será que a minha cara a mesma, não é que seja grande coisa, mas é-me, a primeira pergunta
Depois de tudo de pernas para o ar, tenho alguma coisa na cara, porque sem cara ninguém
Amor, e a fome tanta, sente-se o vazio na forma como lambem o lábio superior e depois
Mordem o inferior, enquanto trocam olhares entre o centro da testa e os lábios, ou será o
Philtrum que olham, só me apetece foder aquele cabelo que tanto enrolam entre os dedos,
Dilatar aquelas pupilas que gastam o ar à volta, atravessam muros de indiferença, retraem
Prepúcios, como quem lubrifica a retina com um pestanejar inconsciente, inocente já duvido,
Mas não me pergunto nada, hoje sou rei dos sonhos e mesmo a sua incerteza é para mim certa,
Como a vontade de foder como quem abraça, a carência que torna este mundo tão triste ao acordar.

22.09.2012

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 21 de setembro de 2012


Não Saber Esperar Pelo Vazio

Tatuei todas as promessas para que o tempo me provasse um mentiroso e guardei
Todos os segredos que me sussurraste ao ouvido enquanto fazíamos amor,
Para que o mesmo tempo mostrasse os segredos ao vento e expusesse o nosso
Amor numa montra de rua de uma cidade grande onde se vendem recordações de fodas
E outras relações de carne e fluídos, o amor secou com o tempo, como tudo seca
Ao Sol, enquanto ele também envelhece e acaba aos mesmos poucos que nós,
Mas nós menos poucos, com tantas estrelas na barriga quanto promessas vãs, sonhos
Demasiado sonhos para se trazerem para o mundo acordado e culpa-se sempre tudo,
Menos o culpado de tudo, cada um o culpado de tudo o que poderia ter sido e não foi,
Deixo-me então ir, levado pelo tempo, recolhendo recordações inúteis como tudo ao que
A memória se agarra, ou se agarra à memória, para no fim, nada, sono eterno, carne já
Não carne, ossos já um pó branco que uns putos snifam num cemitério, procuram poesia,
Ou um descendente que nunca se conheceu a falar sozinho, com nomes agora de ninguém,
Enquanto bebe mais um pouco de menos ele, um pouco mais de aproximação aos nomes de ninguém,
Alguém que a mãe ou o pai um dia mencionaram com uma saudade que não consegue
Encontrar nele, talvez numas fotografias, também elas pó, como as promessas de amor que o vento
De uma cidade grande e suja torna anónimas, sem sentido, como se alguma vez tivessem
Tido mais sentido além de estarem vivas no sangue enganado de alguém que ousou sonhar,
E o valor dos sonhos quando se acorda é o mesmo das lágrimas beijadas depois
Da distância secar a dor da despedida, por isso todas as despedidas ridículas, até na morte,
Porque não nos veremos lá onde ninguém está e toda a gente vai, e vão parando,
Em frente da montra, levando bolsos cheios de futuras masturbações, sem nomes,
Sem outra promessa que a do alívio da vontade de submeter, submetendo-se a eles mesmos,
Adiando a prova do tempo, o ridicularizar das tatuagens que tanta verdade tinham
Quando o momento parecia a eternidade naquele batimento cardíaco que parecia que não,
Que ia ficar suspenso, mas afinal só um beijo muito esperado que hoje pó, seco,
Como tudo seca ao Sol do tempo e da distância, tudo dura sem saber esperar pelo vazio
E o vazio afinal uma possibilidade de tudo, o vazio espaço infinito à espera de paciência.

21.09.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 18 de setembro de 2012


Sobre O Poema

A estética de um poema mede-se na extensão da dor dos versos, as cordas mais esticadas
Produzem uma vibração mais afiada e os olhos gostam de vértices que cortem a noite
Dos dias, também o cabelo a cair no chão é de valorizar, não o que a vassoura empurra
Para o quarto escuro, ou para o cheiro do estábulo, já que o cavalo de Nietzsche e o burro
De Zaratustra são deuses de diferentes esferas mitológicas, a queda é mais a ter em conta,
A cor do cabelo cortado na queda, a sua vibração silenciosa, descolorado do Sol de outras
Infâncias menos púbicas, não esquecer a desvalorização de todos os sentimentos em forma de
Título, tamanho objectivo e simplificado, tem o interesse das pulgas, uma comichão indesejável,
Devem centrar-se os dedos invisíveis, os dedos de outros trabalhos, ainda húmidos na recordação
E desejar com vazio o som de uma verdade espelho, uma verdade diferente a cada cara,
A cada momento, a cada gesto, humor e no fim partir essa verdade espelho e imprimir os estilhaços,
A estética de um poema mede-se quando não se tem vontade de escrever um poema a dizer
Diferente sentindo o mesmo, e deve ser geralmente ignorada, no fundo o importante é saber
Inspirar as palavras, o cheiro à tinta impressa, ou do papel amarelecido pelas cirroses dos anos,
Inspirar o musgo das palavras, o suor, o Sol, a água salgada, ou serão lágrimas, o brilho do granito,
O calor de Agosto, o dedo que dentro dela ainda cheira ao próprio esperma, esse dedo, deve
Provar-se e só depois se deve considerar o valor do poema, que subtraindo o que é vital, não
É nenhum, subtraindo os olhos de quem o cheirará e reconhecerá os seus cheiros no meio
Da lixeira onde se acorda, ou se deita, o poema tem o valor da purga e alivia como desistir
De um pouco de nós, sentados numa cadeira de barbeiro, a ver-nos cair levemente,
Como se de versos se tratasse e o melhor poema é aquele em que caímos mais fundo.

18.09.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 16 de setembro de 2012


Fermentação Das Uvas

Diz uma que os homens isto e aquilo e apetecia-me acrescentar mais uma dezena de coisas,
O ex-namorado casou-se, anos perdidos, acrescenta, e eu penso nas que se casaram depois
De eu dentro delas, nos filhos delas, nenhum meu, nenhum eu, todas as promessas nas
Nádegas, nas mamas, nas barrigas, limpas, nas bocas, engolidas ou cuspidas à descarada,
Só as promessas nos olhos, mudas, quero que sejas a última, que hoje a última, com o luar
A testemunhar que nada mais verdadeiro que o silêncio e os murmúrios viscosos do desejo,
Suspiro e inspiro o fumo do cigarro, que faz esta gente aqui, que esperam enquanto arquitectam
Os seus dramas em silêncio sobre o jantar, escrevem guiões nos duches, encontram razões
Sem razão enquanto se procuram em espelhos, tudo até algo real lhes cair em cima
E tornar todas as pequenas ficções em momentos perdidos, nadas que ocuparam tempo de vida,
Esperam gânglios linfáticos inchados nas axilas, uma tosse que não acaba, uma carta a dizer que
Positivo, uma curva que ficou por fazer, uma noite em que o desespero tomou conta dos pulsos,
Esperam a imortalidade na morte e entretanto gastam a vida a viver a brincar, quando o verdadeiro
Amor é sempre aquele que se perdeu, que se escolheu perder, porque ninguém viveu feliz para sempre
E o que realmente interessa é viver para sempre e a felicidade é uma ilusão que só as crianças
Fazem real e por vezes, quando alguém está com alguém e tudo parece fazer sentido.

16.09.2012

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 13 de setembro de 2012


À Volta Da Fogueira

O fumo sobe acima dos amieiros e o rio parece arder com gargalhadas e histórias trazidas
De outros corpos, noutros anos, bebe-se mais uma garrafa de desejo de menos anos
Mas a noite não pára, os Gauloises já se fumaram enquanto o silêncio se instalava
Onde a dilatação das pupilas não chega, o cheiro do cigarro deixou-se dissipar pelo luar
E as gargalhadas azuis, a noite sente-se eterna apesar de cada vez mais fria, mas ainda é cedo,
Hajam mãos para arrancar raízes secas da escuridão, hajam bocas para manter a fogueira acesa
E a mala térmica a tornar-se cada vez mais inútil, as garrafas a tornarem-se vazias uma
Atrás da outra e o momento enorme, difícil chegar ao amanhã na escuridão, numa ebriedade
De mitologias pessoais, hoje somos eternos, ainda consigo ouvir os meus eus de outros tempos
A saltitar de rocha em rocha, a chapinar na água, ainda me vejo nas costas dos meus tios no rio,
Os meus tios da minha idade, os meus primos bebés, ainda vejo o peixe cru a ser engolido vivo,
Ainda sinto o sabor metálico do peixe a mover-se pela noite dentro, sente-se o sabor do café
Feito na fogueira, sabe à terra e mastigamos como se fossem pedaços da pedra filosofal,
Prometem-nos uma noite fria, prometem-nos uma ressaca terrível, mas o fumo ainda sobe
Acima dos amieiros, a madeira crepita nos nossos corações e rimos com conversas sem sentido,
Como sempre devemos fazer na vida sem sentido, rir dela, que o rio leva, frio, rir e acreditar
Que somos eternos, porque somos eternos, os dentes cada vez menos, os cabelos cada vez menos,
Cada vez menos a cor que foi, mas nós cada vez mais noites, esta e todas as outras que se seguiram
Às tardes que foram nossas e nem as raposas se atrevem a incomodar o luar, enquanto o fumo sobe
Acima dos amieiros e se escreve poesia nas brasas, enquanto se assa uma linguiça e se abre
Mais uma garrafa de vinho da vinha de quem acima dos amieiros, entre uma caixa de outra madeira
E a tenda espera, pelo cansaço, pelo silêncio, pela língua quente da manhã contra a ressaca
De uma noite feliz, uma noite que não acabou, porque há noites que ficam a durar na eternidade.

13.09.2012

Turku

João Bosco da Silva