segunda-feira, 19 de novembro de 2012


Epifania Na Aurora Do Fim ou Este Amor Que Me Minto

Este amor que me minto, como se fosse a última oportunidade de redimir todos os fracassos,
Neste que se prepara para me esmagar como todas as ilusões anteriores, como aquela
Mensagem, depois do poema de Caeiro, à minha namorada, perguntava ele, a nossa Sofia dizia ela
Imaginando nos meus sonhos uma casa rural, onde todos os livros que lemos e queríamos ler,
E nós velhos e sábios, com todas as respostas às questões que nasceram sobre as mesas daqueles
Cafés da invicta, a cor do seu cabelo a mesma que esta mentira, que rasgo na pele,
Como se isso a tornasse verdadeiramente sentida, como se podem vestir com os mesmos sonhos,
Se esses sonhos apodrecidos, perdidos, esquecidos nos olhos semicerrados ao parecer que a felicidade,
Mas só a luz da ilusão, ao acordar de um sono demasiado longo, onde a carne em excesso
Fez esquecer o valor das ideias, mas as ideias mentiras, como este amor uma ideia,
Que escrevo em diferentes papéis e assino com diferentes nomes, só a cor do cabelo a mesma,
Entretanto foram lidos outros livros, e a dor que ficou a latejar nos lábios, deixou de se sentir
Por debaixo de outros beijos, todos diferentes, mas as mamas também as mesmas, que a minha
Negligência perdeu, depois de ter vencido a precocidade de um casamento, nas minhas patas
De cão danado, demasiado pequenas para todo o desejo rosado, contra o seu carro velho, à beira
De uma seara de trigo, eu todo tesão e a cegueira de um cérebro afogado em serotonina,
Usando aquele nome que era rodeado por um coração estilizado nas capas dos cadernos
Do sexto ano, como uma masturbação assistida, és o meu segundo, só o meu marido,
E eu com a emoção de uma erecção ao acordar e ela a acreditar que eu mais que esperma
A escorrer dela manchando os bancos de trás, as mesmas mamas contra o meu peito na
Canícula de Agosto, e eu entre as cuequinhas vermelhas dela, que se abrem à frente
E ela impossivelmente húmida naquele calor seco de brisas amarelas, estou tão molhada,
Não acreditando nela própria nem nos meus dedos cheios dela na sua boca, anda já,
E surpreendo-me sempre que me empurram para dentro do seu cu e me esmagam com a vontade
E amo essa mentira, quando me exigem esperma, quero que te venhas na minha boca, ou
Nem me permitem outra opção e drenam-me, demasiados nomes para caberem numa só palavra,
Este amor por retalhos que encontro todos numa única mentira, onde dou os nós que dei
A todos os fracassos, cujos nomes procuro na carne anónima de mais uma noite demasiado fria,
Gostas de me sentir molhada, já nem sei de quem a voz, ecos, procuro encontrar aquela mulher feita
De palavras e que faz nascer poetas e depravados, que vão dar ao mesmo, procuro dar-lhe
Carne
E minto-me nessa carne, dou-lhe o nome que só dentro lhe grito e ignoro a verdadeira cor
Dos seus olhos até me aliviar do desespero de nunca encontrar nada mais do que mentiras
Que me minto, que me faço acreditar como verdades, e provavelmente esta lucidez é
Consequência do sono de anos, do cansaço que não permite asas à imaginação,
São epifanias assim que nos protegem das cordas de estender a roupa e nos trazem o sangue
À carne, à carne que sacode todos os sentimentos, tudo que não lhe saiba a metal, ou sal, ou
Algo verdadeiro e frio, são epifanias assim que nos matam velhos, secos e amargos,
Um dia acordarei e não conseguirei encontrar-lhe o nome e então direi apenas, amor.

16.11.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 13 de novembro de 2012


Não Pertences Aqui

Aproximo-me da pista de dança e páro a uma distância segura, com a mão cheia de garrafa
Engulo com vontade o desespero e a solidão insensível que dança e transpira e espera e quer carne,
Leite e urina, vejo um par de vinte e um anos, olham para mim, ou as luzes a fazerem-me ver
Olhares onde todos cegos às apalpadelas, uma empurra a outra, a loira a ruiva, a ruiva a loira,
Vamos, tu não pertences aqui, quase me pára o gole que baixava, quem pertence aqui, engulo
Por fim, ao mesmo tempo que alguém é atingido na garganta por uma ejaculação, fruto de um broche
Daqueles sem nome, na casa de banho, és diferente, está bem e vós sois iguais, uma loira e outra ruiva,
Da capital, dizem-me, da vossa capital, afinal de perto, a dois dedos de conversa a cópula nos
Bancos de trás de uma delas, enquanto a outra finge dormitar no banco da frente, começo a achar
Que isto de ser poeta começa a escrever-se pelos poros, os versos lêem-se na forma como levo a garrafa
Aos lábios e o conteúdo adivinha-se no olhar redutor, decompositor, que transforma um ramo
De flores em estrume, não pertences aqui e vejo-me numa canção escrita numa casa de banho,
“Não pertenço aqui”, vejo-me no balanço de Ian Curtis a secar a roupa na cozinha, com ela vestida,
Não pertences aqui e invejo a utilidade de um cão guia, queres vir fumar comigo, a loira tão
Pequenina, frágil e fascinada por sexo e barba a arranhar a sua fragilidade rosada, costumava
Dizer que preferia as ruivas, já não fumo, mas também não pertenço aqui, vamos lá.

20.07.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Fruta Favorita II

É como se o sol se tornasse vermelho, um calor pequenino no frio que quer tornar-se dono dos dias,
Morde-se a pele grossa, arranca-se um pedaço amargo como quem despe as evidências que se
Impõem à verdade que se esconde dentro, tenta-se abrir, mas a forma não permite facilidades,
Arranca-se mais um pouco de amargura, fragiliza-se a resistência enquanto se fazem caretas
Pelo esforço, mas não interessa, valerá a pena, outra tentativa, ambas as mãos, uma para cada lado,
Para revelar o centro, por fim cede, abre-se em duas, o sumo doce torna o olho ácido, limpa-se
E já vem com a companhia de umas lágrimas, revelam-se os rubis, geometricamente alinhados
E dispostos, impossivelmente a forma que são por fora, brilhantes, tensos, a explodir de doçura
Encarnada, envolvidos por uma fina pele, mais um pouco de amargura, os dedos já negros,
Peganhentos, e começa então o jogo de paciência, cuidadosamente, levanta-se o véu amarelo
Que envolve a deliciosa recompensa, e com os dedos, removem-se as joias incrustadas, pouco a pouco,
Com suavidade, uma de cada vez se for necessário, aqueles deliciosos botões prontos a explodir
Na língua, com a pressa de um ourives a criar tempo, despe-se mais um lado, e como a sede
Daquele brilho é tanta, antecipam-se umas dentadas delicadas, chupa-se o excesso de força
Que envolve a boca de luxúria, daquela que não se confessa a nenhum padre, e continua-se,
Até se chegar aos últimos grãos, à última pirâmide e aí, sem medo, trinca-se com vontade
E sente-se o prazer crocante entre os dentes, sorve-se o sumo que fica na palidez, tão nua,
Pegam-se nos grão todos e comem-se às colheres cheias, como pequenos momentos,
Frutos da paciência, da perseverança, sem importarem os dedos negros, o amargo, a acidez nos olhos,
Porque no fim, todos os momentos escarlates valeram a pena, porque no fim a recompensa
É um prato cheio de doçura quente e húmida, gosto das mulheres assim, como as romãs.

12.11.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 11 de novembro de 2012


Cemitérios Minhotos

para a Mónica,

As únicas palavras que trocámos foram no dia do seu aniversário, ela nas escadas à entrada
Da escola primária com as amigas, um saco de plástico com comida, queres, com um pedaço
De caranguejo na mão, não verde como na praia, cor de laranja, olhei para as amigas entusiasmadas
A trincar o exoesqueleto, não gosto, quando nunca tinha provado, nem sabia se gostava
Ou sequer que aquilo se comia, engoli a minha ignorância e mais uma vez fui vencido pela
Timidez e pela vergonha, gostava dela e não sabia porquê, era bonita e queria prová-la,
Mesmo que não soubesse como, mas eu um estrangeiro ali, como tenho sido sempre,
Com as mãos cheias dos frutos da vergonha e da timidez, vazias, até vir a garrafa, ali todos
Filhos e filhas do mar e eu apaixonado pelas cerejas nas suas orelhas enquanto a procissão passava,
Não gosto, a procissão passou e alguém comeu também as cerejas e lá ia então, com
A vizinha que era diabética e tinha filhos velhíssimos, até andavam na tropa e salvavam de aviões,
Levar flores ao cemitério a nomes que eram só uma pequena cara séria, não se brinca na eternidade,
Não se permitem sorrisos por lá e apesar de não se ter provado antes, não se lhe pode dizer,
Não gosto, portanto arrependo-me do sorriso com o qual não lhe agradeci, porque afinal gostava,
Só ainda não o sabia e poderia, quem sabe, ter-lhe tocado a mão que me estendia aquele pedaço
Cor de laranja de mar, podia ter sentido um pouco daquela carne quente e viva com um nome
Que ainda hoje me desperta na boca o sabor doce daquelas cerejas que não comi, aqueles lábios,
Queres, e eu, não gosto, por ser mais fácil abraçar o vazio que o tamanho de uma possibilidade
E a vizinha lágrimas nos olhos e eu preocupado com o açúcar, deve ser do cheiro do cemitério,
Pensava, a flores podres, água verde, cera queimada e pedras brancas escurecidas pelo fumo
De velas, onde nomes que a carne esquecerá antes delas e caras sérias que sabem tudo aquilo que não sei.

11.11.2012

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 8 de novembro de 2012


Húmus E Corações Dissecados

Piso um ouriço e a luz do Sol de Outono revela uma castanha húmida, quase dourada,
Acabada de nascer para acabar entre os meus dentes, inspiro fundo como quem quer absorver
Todo o aroma do húmus fresco e sinto vontade da sua carne quente quente, de a abrir e me
Encontrar dentro dela, além dos espinhos onde me escondo, vontade de me enterrar nela
E renascer, lentamente, eu todo cheio de vida e sombra só o que debaixo de mim, contudo,
Lembro-me dos corações dissecados, onde se procurou o amor, onde mora, onde cresce,
Onde morre, mas além da carne, só o vazio onde antes sangue e o amor se calhar esse vazio,
Uma ausência que dói, como o frio é ausência de calor, e aquece quando presente, será
O próprio calor do sangue, por isso eu hoje um morto por não a ter entre os dentes da minha
Vontade, ao alcance do desejo dos meus olhos, aquela cor de castanha ao Sol de Outono,
Húmida, brilhante, fresca, com o interior acolhedoramente quente, mas agora só um
Coração aberto em cima de uma mesa de metal, revelando-se vazio, expondo toda a sua nudez
Inerte de morte, gritando a verdade muda e impossível para o irmão que ainda bate,
Desencantado, porque tem que ser, porque ela não está, nem o húmus fértil que a traz à sua
Ausência, nem a castanha entre os dentes, só o espaço que ela ocupa em forma de saudade
E entretanto, fecho-me um pouco mais dentro do ouriço, pouso o bisturi e tento encontrá-la
No meu coração aberto, nas pálpebras que fechadas, numa inspiração profunda que procura
O aroma da sua excitação húmida e lavanda, a cor do seu cabelo que persiste na minha palidez cansada.

Turku

08.11.2012

João Bosco da Silva

sábado, 3 de novembro de 2012


Tentativa De Poema Enquanto Se Arrancam Cabelos Brancos A Fotografias

Quando envelhecemos tanto, não pode ter sido nesta dúzia de anos, só mais uma dúzia
E nós tão velhos, o cabelo empalidece com as exigências que nos fazem todos os dias,
Tu, já nem cabelo, os teus filhos olham-me como eu olhava os amigos do meu pai
E agora eles, aproveita que ainda és novo, eu se fosse da tua idade, não perdia nenhuma,
Enquanto invento dedos para as que tive sem nunca ter, as que perdi, olho-lhes as mãos
E elas também vazias, uma aliança, vá, e uma mulher a quem nunca os vi tocar com desejo,
Sempre doentes quando eles por perto, e vinho, copos de vinho como quem apaga os anos
Que tudo levaram, e só trouxeram cinza ao cabelo, dores onde nunca se imaginou dores,
Um cansaço que não se demora em aparecer, uma resignação feita de desilusões acumuladas
E as mesmas mãos que antes capazes de tudo dizem, se fosse da tua idade, agora, meia dúzia
De anos e os filmes que se viam às escondidas, em becos escuros, engolem como os anos passam,
Perguntamos, o que lhe fizeste, engoli, sem se dar por nada, mais um ano que passa,
Levado no estômago de um anjo bêbado de batom vermelho nos lábios e ao chegar a casa,
A primeira coisa é lavar o anel que ficou à volta da vergonha, passou, mais uns cabelos brancos,
Menos cabelo, se fosse da tua idade, quando não se pode pedir mais, como ser da idade
Das tardes no rio até dar uma fome que só os amieiros, só a água âmbar, da idade
Da amizade inocente, só a amizade inocente, sem razão, a real, da idade do Sol a descolorar
O cabelo sem se olhar para o relógio, até a mãe chamar para jantar ou o sino da terra dar as
Trindades, ao menos da tua idade, quando já tão velhos e há tantos anos a dizerem-nos
Que da nossa idade é que é, e sempre não da minha idade, sempre me senti mais velho do que
Os anos que o tempo me deu, quando envelhecemos tanto, que ao acordar já não estava leite
Quente com chocolate à espera em cima da mesa da cozinha, quem comeu a torrada e o papo-seco
Com uma fatia de grossa de queijo e marmelada, pior de tudo, quem nos tornou as caras tão sérias,
Que anos foram, que só foram uma meia dúzia, que peso tinham se nem se sentiram e para trás,
Atirados todos, um por um, os melhores dizem, e já estão todos amontoados naquilo que duramos,
O leite agora o que nos engolem sem consentimento, quando a alma cheia de cerveja e abandono,
E agora, aqui, casados, pais, divorciados, cansados, abusados, desiludidos, resignados, traídos,
Batidos, da idade que nunca imaginamos ter o gosto que tem, sabe a estar sentado num banco de jardim,
Às espera que as folhas amareleçam, que caiam, e que venha alguém varrê-las para um caixote.

03.11.2012

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 25 de outubro de 2012


Elogio Da Loucura

não a de Erasmo,

Tem-se, às vezes, a necessidade da certeza de uma loucura, só na loucura se saboreia a intimidade
Da vida, as secreções do seu sexo, a lucidez não se sente ou é como cerveja quente, espera-se
Que a máquina de café esteja avariada para se ficar na indecisão, e agora, entre saltar ou não,
A água lá em baixo será uma certeza inesperada, um choque que o corpo levará ao tédio e o destruirá,
Despertarás, os dedos tremem e é quando se escreve melhor, os joelhos mal acreditam que
A pele se está a abrir com outros joelhos ali, naquele chão mundano, enquanto velas dançam
Com promessas ou palavras escritas, adiando o silêncio inadiável. Teme-se o fim, esquecendo-se
Que o início é o pai do que se teme, mas dá-se o passo, mais vale, já que mata mais estar sentado,
O tempo passa de qualquer forma, empurrando tudo e todos para a eternidade, onde nada
Nem ninguém é possível, mais vale, mais vale ir a caminho, vê-se mais, apesar de que tudo o que
Se leva dentro ficar encerrado num quarto escuro, as chaves no bolso de deus, onde os ossos
Fazem pó em cima dos móveis que podem até não existir naquela treva toda, chame-se o gato.
Escrever é muitas vezes a consequência de uma máquina de café avariada, uma cerveja demasiado
Cedo num estômago cansado e quase vazio, um momento de lucidez mergulhando na loucura,
Uma mão enterrada na imundice de uma alma, que se vendeu pelos pecados que lhe dão corpo,
À procura de uma razão, escrever é um sintoma da necessidade de loucura, quando todos os
Autocarros chegam a horas, não cancelam os programas habituais na televisão, o Inverno greta
As mãos como a ausência dela o coração, quando se pergunta ao médico uma estupidez qualquer
Como, isto passa, e ele dúvidas, pelo seguro traz-se um miligrama de adrenalina para ir andando,
Não vá a vida matar-nos com o café de todos os dias, a telenovela de depois da hora de jantar,
A economia que cada vez pior para alguns ao mesmo ritmo que os preços aumentam e só
A vida diminui e tem-se saudades do tempo em que as mão pequenas e cheias de futuro,
Quando agora as mãos grandes, gretadas e cheias de um vazio que se traz dentro, é tudo
O que somos, é passado, os saltos da ponte para o rio que entretanto também secou,
Onde em dias recentes se tentam exorcizar os anos com um amigo verdadeiro e um Kentucky
E se calhar o médico a achar estranho o sangue parecer o caudal de um rio que foi e já não é,
E olha, ao menos uma cerveja em vez do café de sempre, uma loira real à espera de sexta-feira
Para receber o seu poema de carne, a sua loucura necessária, para sentir um pouco a vida que
Se morre e que se lixe o fim, já começou de qualquer forma e a máquina de café avariada.

Turku

25.10.2012

João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de outubro de 2012


A Imperatividade Do Vazio ou Um Título Qualquer

para Tomáz,

É geralmente quando o vazio aperta, que misturo cerveja e poesia, as palavras arranco-as
Como se me arranhasse e ao mesmo tempo mais um gole, que parece ficar suspenso, não
Quer cair, um pedaço de pele nas unhas, como se me incomodasse estar a sentir que não
Devo estar, não aqui, não assim e então engulo mais um pouco de cerveja, um pouco mais
De algo que não eu, enquanto me arranco aos poucos, a cerveja amarga que empurro para
O silêncio onde moram todos os outros gritos, como quem lava os lençóis depois de lá ter
Perdido os limites que a alma permite ao corpo, quem não tem alma, tenta criar uma com
Palavras, para depois a poder sujar, já que não tem outra utilidade a não ser sujar-se,
Digo à loira que me humedece o copo e os dedos que o envolvem, quando me tocas eu existo,
Também me sinto invisível quando aqueles olhos não estão, a poesia torna-se num grito histérico
Quando ninguém está para ouvir, enquanto se acumulam cigarros e segundos apagados em cima
Da mesa de um café, para depois serem atirados para o fundo de um saco de lixo, por uma empregada
Que não sabe o nosso nome, menos vazio, há um tipo de sujidade que limpa, pelo menos
O vazio, por isso bebo, por isso me contamino em interiores anónimos, me sacio com a fome
Dos outros, porém o abismo aumenta a cada dentada de mais nada e só a distância entre o
Que sou e o fim se vai encurtando, só na morte me aproximo dos grandes, os meus lábios
Cada vez mais longe da cerveja, exige-se um ângulo maior entre o copo e o mento, no fim,
Perde-se a objectividade, sente-se menos, mas o vazio permanece, ri-se dos versos ridículos
Que quase foram versos dignos, mas acabaram por ser os que em cima pesam a tentar
Ser um poema, um copo vazio abandonado numa mesa, onde alguém se sentou, te procurou
Numa caligrafia de sismo, mas encontrou apenas o nome que falta e dá corpo ao vazio
Que se tentou em vão preencher, o templo em ruínas de uma deusa de carne e sonho
Onde desejo adormecer, até os seus lábios me acenderem o dia que consumirá o vazio.

19.10.2012

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 18 de outubro de 2012


Portugal 2

Portugal, sei que o meu descontentamento não interessa, mas quem foram os filhos da puta que te tornaram
Estéril, o horizonte diz-me que tu verde mas quando se chega lá, tu árido, seco, com leite
Só para mamões, dizes que não há pão, que a fome é necessária, a fome de milhões,
E depois alimentas uns quantos porcos a caviar e diamantes, porque mandam, mandam tudo
À merda com um sorriso, urinam promessas nos olhos do povo que se arrasta na imundice
E agradece os restos com mais um mandato, porque uns mentem melhor que outros,
Porque os olhos já não vêem depois de tanta porcaria, a televisão pinta idiotas de heróis,
Os jornais cobrem as ruas de más notícias que o vento sacode da vista e tudo parece distante.
Portugal, se roubasse um pão, não me perdoarias, não perdoas a quem rouba pouco,
És míope, e se vês algo à distância, é à distância do passado, o futuro é demasiado qualificado
Para ti, preferes exportar aquilo que vale a pena, no fim serás um país de formigas famintas
A trabalhar para meia dúzia de cigarras gordas, Portugal, não sei se me apetece esquecer-te
Ou esquecer aquilo que sou, esquecer-me de que a culpa é, segundo os responsáveis, de todos,
Portanto, também minha e sinto-me culpado, teria sido por segurar na pata do animal, nas
Matanças do porco, naquelas manhãs geladas de Inverno, para ir enganando a fome,
Ou será culpa dos goles de aguardente roubados dos alambiques atrás dos muros de pedra,
Com o cheiro a mosto no ar da vila, tenho quase a certeza que foi por ter tremido nas primeiras
Aulas da manhã, com o casaco vestido, na sala sem aquecimento, sim, foi isso, tremer não
É coisa de homem, não fiz o sacrifício de não sentir frio, se calhar foi algo que herdei, o meu avô
Ter sido internado pela primeira e última vez, poderá ter sido pelas missas de Domingo, por ter
Seguido outras tradições com a fidelidade de um crente, de uma coisa estou certo Portugal, só
Pode ter sido por ter cumprido com tudo o que esperavam de mim, menos por ter sido
Um rato, é o que dizem quando se afundam navios, mas tu um porto, certo, a partir de ti descobrir
Mundo, e esquecer-te, mas não compreendes que a saudade nasce connosco e a saudade é feita
De memória, de recordações. Porque não gostas de nós? Porque não gostas de mim? Dizes que
Estás a envelhecer e não me deixas dar-te um pouco de juventude, eu que queria ter filhos
Que falassem português, que comessem uvas directamente do Sol de Setembro, que arranhassem
Os joelhos na calçada do bairro antigo e chegassem a casa com a roupa manchada com amoras,
Ou uma dor de barriga por demasiadas cerejas, queria que eles se apressassem ao ouvir a trindade,
E que no Inverno sentissem aquele calor no coração quando se cheiram os fumos das lareiras no ar,
Mas que te interessa isso, quando os teus porcos engordam cada vez mais e cobrem tudo de um
Estrume caro e inútil, fertilizando tudo com esterilidade, palavras e sonhos vazios, sonhos
Portugal, só os tenho quando durmo e às vezes tu não ardes, às vezes tu mais que Agosto,
Eu e a família que tu me negaste, com a mulher que tu me negaste, porque é difícil,
Ao fim da noite a falar de outras coisas que não o desemprego do pai, o Natal que se aproxima,
Seco de presentes, negaste-me acordar todos os dias ao lado de alguém que me diz Bom Dia
E sabe o meu nome de verdade, ofereceste a tantos outros a desconfiança, por aqueles luxos
Pequenos da mulher, quem será o porco gordo e cada vez mais se vendem, e os corações uvas passas,
Porque a vida está difícil, não sejas burra, não sejas burro, se tiver que ser, ajoelha-te e chupa,
É o que tem que ser, porque Portugal, andaste a convencer quem és, que é normal, cada vez mais puta
Tu, vendes-te até à língua, dás o cu a quem perdeu duas guerras com ele para o ar,
Já chegaste ao último furo do cinto, mas a gravata continua apertada a esconder os
Botões que te faltam na camisa, Portugal, mete-me nojo, não quem procura um alívio no caixote
Do lixo, mas quem passa em luxo, como se fosse um direito que só alguns têm, direito à fome,
E os porcos continuam a mastigar diamantes, enquanto cagam nos direitos dos que arrastam
O teu cadáver, e dizes que a responsabilidade é de todos, e é verdade que poderia ter tirado melhores
Notas, podia ter lido mais se a mesada desse para mais do que uma sande de pão e queijo por dia,
Que não comia para poder comprar aquele livro que não havia na biblioteca pública, e agora dou razão
À minha mãe, livros que não interessam, só me abriram mais os olhos e em ti, é mais fácil
Ser cego. Portugal, como podes esperar que no futuro as coisas melhorem, se continuas
A expulsar o futuro, a queimar o futuro, a vender o futuro por simpatia, estou cansado,
Estás cansado, a culpa é minha, eu sei, nossa, é daqueles que morrem nas ruas, daqueles
Que morrem sós, com fome, em aldeias desertas, é daqueles que morrem à espera de uma consulta,
Ou à espera de um pouco mais de atenção, que não se tem, porque há demasiada gente
A precisar, a precisar de tudo, quando tudo, é só o direito de quem te fode, de quem abusa de ti
E goza contigo, mas desculpa-me Portugal, sei que neste momento, devia estar perdido,
Como tu, em ti, em vez de estar perdido, aqui, consumido pela saudade daquilo que me és,
Dos teus montes, do cabelo cor de cobre, dos sorrisos das crianças a brincar ao esconde-esconde,
Do Sol que torna o Outono dourado em vez de castanho como noutros países, do cheiro salgado
Da tua areia, da cerveja fresca, das romãs no fim desse Outono dourado a darem-lhe um toque final
De rubi, das casas, umas em cima das outras, encaixando-se bem nos contornos das vizinhas,
Das velhinhas cheias de rugas fazendo desejar-me durar ao lado da mãe dos meus filhos,
Dos meus filhos com um futuro também dourado, se forem merecedores disso, não como o pai,
Que nunca será pai, que está descontente, só por lhe terem permitido sonhar mas não o sono,
Por lhe terem vendido um bilhete para lado nenhum e o criticarem por ter ido, para onde
O Sol é frio, mas permite viver, a vida sabe a cinzento, mas vai-se vivendo, até ver, até ver Portugal.

18.10.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 15 de outubro de 2012


Mega Drive

para o Carlos,

Há jogos hoje, considerados retro, mas que para mim são mais do que o velho antigo, estar na moda,
São cheiros que me chegam ao hipocampo através dos olhos, dos ouvidos, dos dedos ou até
Do nariz, o cheiro do pó que se sopra dos cartuchos de plástico, para os pôr a dar outra vez,
Um sopro mágico, um botão pressionado e é Verão, Agosto e a minha mãe cozinha os mexilhões
Que apanhamos no rio com os tios de França, a cozinha quente e húmida, o cheiro íntimo do rio,
Ou é aquela neta da amiga da minha mãe, à espera que eu perdesse uma vida para poder
Ser ela a seguir, com o seu cabelo sempre muito curto, olhos vivos e dentes de malandra,
Que depois à noite, passou o tempo, enquanto a avó tagarelava com a minha mãe na cozinha,
A massajar-me os tomates e a gaita por fora das calças, nas escadas, ao escuro, apertava com força,
Até à dor verde, mas não importava, ainda tinha mais vidas para morrer, aliviava-me os tesões tenros
De idade, é quase sempre Verão e o amigo do Porto está na vila e passamos as horas da canícula
A tentar chegar ao fim deste jogo, um nível a seguir ao outro, até o Sol nos dar tréguas e um
Nível nos esgotar a paciência daquele dia, lá íamos então, comprar um gelado ao quiosque do jardim
Da vila, ou beber um ice tea a caminho da casa do outro amigo que morava no extremo oposto,
É o meu pai a dizer-nos que ficamos com os olhos em bico e a acertar nas minhas dioptrias
E a minha mãe a desligar-nos o contador da luz, porque isso faz-vos mal tanto tempo, e eu e o
Meu velho amigo a caminho de sua casa, a fazer de conta que uma volta para apanhar ar e Sol,
Mas o cartucho escondido no bolso, para tentar encontrar o ponto fraco daquele big boss persistente,
Às vezes também é no Natal enquanto não se podem abrir as prendas e a missa do galo um nível
Onde nunca nenhum de nós tinha chegado, ou as férias de Natal com o primo que mais se admirava,
Com a sua colecção de jogos e a neve lá fora a tornar as férias em mais dois ou três dias de lareira,
Sofá e botões infinitamente pressionados para aquecer os dedos frios dos jogos na neve,
É alguém a dizer que quer ver o futebol e nós de pé, com os comandos na mão, a caminhar
Lentamente em direcção ao botão vermelho, estava quase, e que alívio acabar um jogo,
Mais uma conquista, comparável às conquistas de carne dos anos futuros, mas com a doçura
Da inocência, hoje quando jogo, quando jogamos, o peso dos anos torna-se mais leve, pousa-se
Por momentos o imenso saco de lixo que fomos acumulando ano após ano e somos quem fomos,
Sopramos o pó do cartucho e está resolvido, os anos de desuso da criança que fomos dissipam-se,
Soprámos e vai dar, a vida vai ter um sentido, em direcção ao último nível, a vida vai ser um desafio seguro,
Os objectivos são simples, salvar a princesa, vingar o pai, vencer o cientista malvado,
Somos capazes disso tudo, é uma questão começar e persistir, o controlo está nas nossas mãos.

10.10.2012


João Bosco da Silva

domingo, 14 de outubro de 2012


Ensinar A Andar De Bicicleta

Sabe andar de bicicleta, mas não se lembra quem lhe levava a mão no celim até
Encontrar equilíbrio, e depois corria ao seu lado para a levantar do chão logo depois da
Quase queda ou queda, necessária e esperada, só assim se aprende, a andar de bicicleta,
Mas não se lembra que foi na minha que aprendeu, no caminho de terra que me abriu a carne
Um dia e pó e sangue, não se deve lembrar das cerejas em flor nem do cheiro a verde fresco
Dos lameiros húmidos à volta do caminho, o céu azul como o futuro que os olhos acreditavam
Alcançar, amanhã e chegava, no fundo não interessa, ela sabe andar de bicicleta e eu enferrujo,
Ao lado da bicicleta, velha, atirada a um barranco que não sei onde, uma memória abandonada,
As cerejeiras, algumas, já devem ter secado, nos lameiros a erva cresce e não há quem tenha animais
Para pastar tanto verde, um verde que parece mais escuro, no poço as rãs desistiram de provocar
As crianças e tornaram-se seixos, ou um pedaço de sabão azul que alguém deixou ao Sol
E à chuva, a ser uma memória que se gasta com o tempo e perde a forma original,
Mas que continua a poder lavar, as mãos de quem precise da sua espuma, e na vida, tudo o resto
Ensinar alguém a andar de bicicleta, cada novo gesto um ensinamento, cada beijo, cada abraço,
Cada toque, um pouco mais que se leva, e na ilusão de quem dá, fica sempre a esperança
De que ele também, ele a latejar no pouco que se deixa, no pouco onde se foi todo, tudo e se esquece,
Com a negligência inocente das crianças, e o caminho talvez se lembre, de um rapaz a correr
Ao lado de alguém que encontra o equilíbrio, em cima de uma bicicleta, pela primeira vez, para sempre.

14.10.2012

João Bosco da Silva

quinta-feira, 11 de outubro de 2012


Putas Com Memória De Elefante

Diz-me que esteve em Portugal em mil novecentos e cinquenta e três, em Leixões,
Ia a caminho de Casablanca desde Helsínquia, uma das muitas histórias que se pode
Encontrar numa insuficiência cardíaca se lhe dermos ouvidos, a primeira notícia ao
Desembarcar foi que Estaline tinha morrido, havia quem festejasse na rua, a morte
De um ditador, no país de outro ditador, do outro lado da Europa, mas em Leixões,
Os seus olhos brilham como se por momentos olhasse no espaço entre nós a chama
De uma vela há muito apagada, é melhor não contar, com uma vontade enorme
De desenterrar algum pecado que deixou saudades, sorrio-lhe maliciosamente,
Com ar de quem conhece muitas outras histórias de putas, de quem esteve,
De quem sabe o que ali vem, como que bater-lhe nas costas para o aliviar daquele
Engasgamento com um pedaço de passado, vamos lá, somos homens e tal e ele,
Continua, em Leixões as mulheres, piscando um olho como se não fossem mesmo mulheres,
Mas são mulheres, baratas, vinte escudos, uma ninharia em marcos e eu sorrio-lhe,
Um sorriso diferente, agora com uma certa tristeza por me dar conta, que já em mil
Novecentos e cinquenta e três, eramos as putas mais baratas da Europa, ele continua
Até Casablanca, mas eu fico naquele Leixões, fico a procurar onde estará quem por vinte
Escudos se vendeu e fez este homem feliz, tento encontrar que felicidade comprou para
Ela própria, estou certo que os vinte escudos se gastaram, também a lembrança de um homem
Alto, loiro, jovem, vindo de longe, dentro, num beco pestilento de Leixões, já se deve ter gasto
Nela, ou não, porque afinal, somos putas com memória de elefante.


10/10/2012

João Bosco da Silva