terça-feira, 8 de janeiro de 2013


Dança Da Mini

Manda-se vir mais uma mini porque ainda há tempo para engolir sem vontade, esperando que
Venha a oscilação que equilibre as companhias e as coloque em harmonia com o balcão
Onde alguém semeou cascas de amendoins e tremoços já secos, existe algo de profundo
No gesto de acender mais um cigarro, sem deixar que o outro se acabe de extinguir, meio
Esmagado no cinzeiro, o ritmo das bolas batidas impõe um certo rigor abstracto na dança
De cotovelo e ombro, palmadas nas costas e filhos da puta no momento em que se mija
A cerveja que alguém pagou com o mesmo desprezo com que se cospe no urinol, espera-se
Estoicamente que o tasqueiro mande tudo embora, na esperança de conseguir roubar aquele minuto
Proibido, aquele fino redentor que arrefece os dedos através do copo de plástico, a última
Esmola do dia a quem não esperou nada mais, entretanto vê-se a telenovela e espera-se poder
Esculpir cornos à brasileira quando se exibem às mesmas mãos que dão palmadas nas costas,
Grandes os artistas que pagam as cervejas, que se mijam, quando eles se vieram, filhos da puta,
Nem se sentem, esquecem-se com mais um gole, mais um bater de bolas e quem sabe,
Seja tudo mentira, quem sabe, e ninguém sabe coisa nenhuma enquanto se desaperta o cinto
À pressa, desesperado pelo alívio rápido da frustração, seja em forma de umas cinturadas
Indesejadas ou de uma foda roubada ao amigo do peito, não lhe digas nada, pago eu pá,
É ao perde paga, quem perde paga a rodada, é a pagar, deixa estar isso, está pago,
Venha mais uma, acendam-se mais uns minutos que se sopram com a negligência de um
Imortal, que amanhã é Domingo e lavam-se os pecados que todos conhecem, em hipocrisia pedante,
A ressaca já está habituada às exigências da moral, por isso também ela fica em casa,
Deitada no sofá à lareira, espreguiçando-se como um gato que é, quando quer.


07.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 5 de janeiro de 2013

Este Poderia Ser O Poema

Este poderia ser o poema, mas não é, quase nem um poema, só o vestíbulo entre a desilusão
E mais um dente cariado, no fundo, sempre nos tratam mal depois de tanto uso, no fim,
Acabam sempre por deixar-nos ou ficam lá a ser polpa para o caso de uma morte menos assim
Assim e provas para dizer que somos quem fomos, quando todos os poemas ficaram a encher
Lareiras apagadas em noites aborrecidas em que se desiste de buscar o tempo perdido nas páginas
De um livro que se tentou ler para se crescer de alguma forma, nalgum sentido, mas só nenúfares
E paisagens estranhas, que tentam ocupar a importância dos soutos e dos lameiros, com pão
Caseiro, fatias grossas de queijo e marmelada, juncos e bosta fumegante, grilos e palhas na boca,
Quantos versos não passam de uma necessidade de lítio, ou de uma simples foda, daquelas que
Lavam com a sujidade e a decadência, aquele acordar quando a porta do elevador se fecha
E ainda se tem nos lábios o sabor da urina, mas não o nome, e torna-se tudo tão claro como se
As palavras nos dessem tréguas durante uns momentos, daí a valorização dos gemidos
E a importância do balbuciar ébrio na evolução do homem, a filosofia é apenas chicotadas
Em cavalos cansados de fome, a consciência fora dos sentidos, a lucidez salgada numa língua
Branca em jejum, à espera do Sol além das montanhas nevadas onde se escondem os cadáveres
Dos deuses e dos burros que por lá se perderam, que também profetas assassinos do silêncio
Gratuito e revelador, do isolamento da altitude, poderia ser, mas não é, nem finge, nem tenta,
Não é, mas contudo, consegue ser, uma página que ficará mais vezes fechada que aberta,
Como tantas vidas, que poucos conheceram e ninguém a conheceu de verdade, não como
Quem apenas a imaginou, sem reflexos ou ecos, apenas mãos abertas e vazias o suficiente
Para se viver, ir vivendo, durar, ir morrendo até se acabarem as palavras que preencham os versos,
Inúteis, os dentes que mastigam ar, palavras e o sabor perde-se, no vestíbulo entre uma e outra,
Até se cansar a picha, se esquecerem os grilos e o cheiro verde dos lameiros, se desistir de procurar
E engolir páginas de recordações perdidas no hipocampo apodrecido entre apodrecimento vegetal,
Procurar o reflexo nos retratos alheios e nem assim se encontra o merecimento merecido,
Este poderia ser o poema, mas não é, é mais um prego, ou mais um pedaço de lenha que ficará
Por arder, é o grito de quem se consome, o crepitar sincero de quem recusa o lítio e a estabilidade
E passa a vida mergulhado em lagos asfixiados pelos nenúfares, invejando os juncos
E os olhos verdes que viveram as memórias mais felizes, mesmo que apenas pão caseiro
Com fatias grossas de queijo e marmelada e a bosta ainda quente, e os lábios apenas salgados
Pelo suor do Sol, que se acreditava nascer na serra além da janela grande do quarto debaixo
Das mantas na casa da avô onde a prima também nua e a vida tão estranha que parecia natural
Quando os anos poucos, os versos mais curtos e mais cheios de verdades simples e objectivas,
Hoje perdidas, nas portas dos elevadores que se fecham e nos livros que se desistiram de ler
A páginas tais da dor de um dente, e que desculpe quem tiver tornado isto poema, não era para ser.

05.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013


Perder Tempo

Acorda-se numa casa vazia quando a manhã já traz os cheiros da hora do almoço, aquece-se
O café já frio, abre-se a porta e bebe-se o Sol lá fora, com um livro que ficou a meio há sete
Anos, porque há sete anos tudo estava presente, todo o passado nas mãos a ser trocado por
Chegar a esta manhã que quase no fim, cada palavra tem um sabor demasiado claro e podiam
Ter sido minhas se tivessem passado por mim na forma das coisas que passam por nós,
Mas só o gato da minha irmã ainda passa, o pêlo amarelo na minha perna e assim, sentado,
Espero por companhia enquanto arrefeço novamente o café com goles lentos, enquanto a
Fome me dá sinal da proximidade da ausência, porque estar perto é de todas as formas não
Estar e uma casa vazia é igual a todas as casas vazias, mas um livro que se deixou a meio,
Poderá ser bebericado até ao fim, aquecido ao Sol da solidão de uma manhã invulgarmente
Quente de Dezembro, enquanto se espera que este tempo perdido encurte um pouco mais
A distância próxima da ausência e traga quem nos dê um Bom Dia aos ouvidos e aos lábios famintos.

24.12.2012

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva
Epifania Óbvia e Passagem

Morrer é um processo de construção demorada que leva uma vida, a construção constante de
Uma obra que celebre o poder da entropia sobre o esforço organizado da vida, na hora em
Que tudo desiste num suspiro, tudo cessa, desmorona-se o castelo de carne, sonhos e recordações.

Passa-se a vida à espera de um número redondo, que chega e passa e nada de especial acontece,
Apenas a ideia de um número redondo, espera-se pelo fim da espera, para no final se chegar a
Uma eternidade de vazio, o alívio é substituído pela desilusão, perde-se o tempo, perde-se sempre
Tempo à espera que o tempo chegue, quando ele sempre a partir, cada vez menos à espera
De se chegar lá, em vez de se escrever um poema, procura-se a coincidência do poema de outro poeta
E obtém-se o reconhecimento dos olhos que te perderam, enquanto esperavam como os
Meus esperam, um fim que só chegará no silêncio e no esquecimento, da última badalada.

31.12.2012

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012



Chelsea Hotel

Estaciono o burro albino e os meus amigos acompanham-me com o fumo de raízes do inferno
Ancestral, entramos numa livraria de uma cidade misturada com sonhos de futuro e memórias
De sótãos esquecidos, onde decorre a apresentação do último livro do poeta que quase
Conheço, ele tão estranho quanto o imagino, demasiado silencioso para a sua química cerebral
Caótica, alguém lhe apresenta o livro com um campo esterilizado em cima da mesa, arrancando
Os pêlos do cu, um a um, e queimando-os cheio de cerimónia e pedantismo com um isqueiro
De prata, as paredes envelhecem e bocejam, as caras confundem-se com as prateleiras cheias
De títulos aborrecidos, arrasto uma cadeira e sento-me ao lado do poeta, como é que é,
Finalmente lhe digo, ele sorri irregularmente e eu respondo-lhe com a minha irregularidade,
O editor mostra-me dentes desaprovadores num olhar de óculos desnecessariamente grossos,
Há cegueiras e cegueiras, criticando com as pupilas a minha indumentária de cigano pobre,
Todo o gangue espalhado pela sala, vestindo o rigor exigido pela festa pagã, no tempo
Em que os caretos se usam para vender tarifários, estou obviamente bêbado, amizade e vinho
Do Porto Tawny como naquela noite de São João e kebab ruivo, estão comigo os maiores
E com eles sou tão grande, peço licença interrompendo o metralhar monótono e insosso
Do cirurgião sem talento além do que se atribui por direito de um deus que queimo
Nos cigarros que deixei de fumar, a fogueira lá fora mantem-me acordado dentro, viro-me para
O poeta, é catarse pá, é vomitar a merda toda que mundo nos faz engolir e tu fazes isso com uma
Arte que te invejo a loucura, sou demasiado tosco, nunca aprendi a lixar a vida, eu é mais fodê-la,
O cirurgião segura mais um pêlo e queima-o, dizendo que estou a repetir tudo o que ele já
Tinha dito, mas como um marinheiro e eu sorrio numa ironia transmontana sem máscara
Grotesca, somos filhos de Juno, a nossa amiga poeta como anda, pergunto-lhe com ar de
Sei que a fodeste, procuro no casaco cheio de bolsos rotos uns trocos que sobraram do vinho
E lá junto dinheiro para o livro, peço-lhe para o autografar com uma dedicatória simples e breve,
O burro está à geada e os amigos já com uma sede inquieta a levantarem cadeiras e a saltarem em cima
Das caras aborrecidas, ele abre o estojo de pintura e pinta a primeira página, este gajo,
Penso com admiração, agradeço-lhe batendo-lhe nas costas e digo-lhe, e tu és bó, saio,
O gangue segue-me e mergulhamos na noite fria até que o cansaço amanheça.


Torre de Dona Chama



27.12.2012



João Bosco da Silva

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


Prefiro Ficar Em Casa

para TI,

Prefiro ficar em casa, onde é familiar o vazio da tua falta, cada novo lugar onde vou
É uma lembrança da tua ausência, fico triste quando o Sol se põe e leva mais um dia,
Um dia que me acompanhou e me fez companhia enquanto os segundos, um por um,
Me dizem que tu não estás, de manhã, o dia ainda não sabe que sou metade,
E desperta-me com indiferença, procuro-te toda a noite onde me moras, escondes-te
Nas circunvoluções dos meus medos, e só espero que o orvalho me tenha trazido
Palavras tuas, bom dia sem ti são apenas palavras, que me despertam um sorriso triste,
Uma ironia inocente, deus parece-me cada vez mais real, aquele velho perverso
E hipócrita, que só por não existir lhe permito tal desrespeito ao meu coração,
Os meus sentidos esquecem-se de sentir, para se recordarem dos momentos
Em que foram expostos à felicidade que é a tua presença, e acusam-me de não estar,
Porque na verdade não estou e se fechares os olhos, irás ver-me, e mesmo que não
Sintas o meu toque, sentirás a certeza do meu sorriso quando penso no teu,
Não há fome pior que esta, nem distância maior que não estar contigo,
Daí ficar em casa, onde as paredes já sabem que só eu, sem estar, distraído no fundo
De mim a brincar com bolas de sabão, onde dentro, as recordações do que vivi contigo
A fazerem os meus olhos brilharem, como quando era criança, até o silêncio
As rebentar uma atrás da outra, então quebro-o com um suspiro onde procuro
Encontrar um traço do teu cheiro na pele que deixou de me pertencer.

17.12.2012

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012


A Farmácia Fechou Na Savana

Entretanto a farmácia fechou e eu ficarei mais um dia sem os comprimidos para a cabeça,
Fiquei a tarde toda de olhos fechados contra o tecto, a ver elefantes atravessando rios exaustos,
Esqueci-me de ter fome, distraído pelas hienas que me atravessam como um caminho,
Ignorando-me num fingimento de desdém que levam no lombo, espero-lhes os gritos
À noite, à noite gritam em todas a línguas e prometem a eternidade entre os dentes
E eu debruço-me sobre a almofada e deixo-me ser devorado por trás, como não deve ser,
Diz-me o catecismo, apesar de nunca tal ter lido a não ser na moral dos outros, que me
Emprestaram até ouvir o burro de Zaratustra a acordar a aldeia para o azul da madrugada,
Naquele Verão onde chovia do tecto frustração líquida e unhas desesperadas na carne faminta,
E agora pergunto-me se valeram a pena aqueles olhos azuis, se os cinzentos foram mesmo
Uma consequência da má disposição do céu, para no fim a verdade estar ali, debaixo de um castanheiro,
Coberta de orvalho, ou a urina de um lobo que por ali passou esquecido de se extinguir
Nos dentes de ferro ou num granizo de chumbo, e os elefantes levam pedaços de mim,
O rio quase um desmaio e árvores trazidas do génesis a confundirem-se com os crocodilos
À espera da estupidez de mais uma sede incauta, fazem-me lembrar a parede da igreja lá da terra,
Onde se sujam almas por fora, entrando-lhes dentro, só o olhar perplexo no reflexo dos olhos
De um babuíno à chuva me desperta para a minha falha, a farmácia já fechou e a serotonina
Continua a ser pouca no rio, mesmo assim as moscas ainda insistem em lamber as lágrimas crónicas
Dos olhos dos órfãos, os hipopótamos não perdoam uma invasão de propriedade
E o castigo é fazer a vida ignorar a tua existência, dizem que lá longe, numa montanha, entre duas
Menores, para a eternidade, um miúdo de cinco anos, toma conta do gado mais seco que
O estrume com que acendem o lume, e eu tenho ciúmes daquele gado, por ter alguém que olhe por ele.

14.12.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


Nas Mãos A Recordação Daquele Beijo
Reminiscências da Rua do Almada

Como escreveu alguém que conheci, escreve-se melhor no cansaço, na amargura dos
Dias que são hojes, e são cinzentos e convencem os olhos de que melhor fechados,
Voltados para o impossível, aquele cinzeiro onde ela apagava o cigarro com um olhar
Esfíngico e eu sem mais nada para lhe oferecer que a minha companhia pessimista,
A minha palidez fria de pensamento e ela toda olhos, lábios que de certeza, não se
Humedeciam sem intenções de me provocar o desconforto existencialista à flor da pele,
Para nada, dizia-lhe, para nada tudo, é melhor ir para casa e adormecer e conservar
A possibilidade de tudo dentro de nós, e hoje só o beijo arrancado ao desespero de muitas
Noites de desejos afogados em portas trancadas e lá fora só o silêncio dos ladrões
Na calçada, o cheiro das prostitutas a chamar ridículo às masturbações bafientas,
Porque para nada, e perder-te seria como arrancar um transplante tolerado, adoptado
Como parte própria, e assim perdi-te sem nunca te ter e os lábios separaram-se
Numa arrancar e um pouco de mim ficou a latejar nos teus dentes, tu toda a latejar
No meu cansaço, nos meus dias de maior sombra, porque tu me conheceste quando
A massa atingia o ponto crítico e se engolia a si mesma com o todo o peso do niilismo,
Lias-me os lábios e sabias que Nietzsche era um muro erguido entre a minha vontade
Real e o teu corpo, lias-me e sabias que as minhas palavras queriam ser antes dedos
A percorrer o teu corpo, a entrar dentro de ti e a sentir a verdade absoluta da tua excitação,
Entretanto os anos passaram, só o cansaço ficou, cada vez maior, tão grande que esmagou
Todos os muros, todos os para nadas, esmagou tudo e agora, que tudo uma polpa
Indefinível e insensível, beijam-se todas as prostitutas e lambem-se todas as calçadas
Em busca de um rasto dos teus lábios, das noites em que não te possuí com a força
Da vontade, para não te perder, e agora nas mãos, só a recordação daquele beijo,
Rodeada pelo vazio do nada em que todas as possibilidades se tornaram neste futuro.

12.12.12

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 9 de dezembro de 2012


Arcade

Ela engole e diz que vai para o Inferno, com o sorriso de uma menina travessa que acabou
De arrancar a cabeça à boneca favorita da amiga, as mãos ainda abertas nas minhas nádegas
E eu arrependido da moeda que acabei de perder garganta abaixo, game over, quer se acabe
O jogo todo ou não, sempre a mesma coisa, mas o que nos faz perder mais uma moeda é
O desejo de chegar ao fim, passando por tudo, sobreviver a tudo menos à inevitabilidade,
Não deixar nada por fazer, por dizer, por ver e assim se joga arcade num moleskine,
Desenhando com palavras os olhos de fogo inocente, ajoelhados no chão sujo, rasgando as
Meias como quem abre as nádegas com as mãos e espera uma bênção que livre do tédio,
Com o futuro acabado antes de chegar, a morrer nos sucos gástricos, a implorar, play again,
Eu a procurar uma última moeda nos bolsos e, não chega, não chega mas ela empurra
A promessa de um extra crédito para dentro da sua boca quente, outra vez, que fome esta
E deixo cair mais uma moeda que não existia nos bolsos sempre vazios de esperança,
Na perdição onde me encontro por momentos, onde moramos no momento antes de adormecer,
Ignorando a certeza única do game over, mas a vida é enquanto nos for dada a oportunidade
De continuar a errar, de escolher perder ou não mais uma moeda, sabendo que também
Elas têm o tempo contado, os miúdos ao meu lado batem recordes e eu digo-lhes
Num diálogo de insónia, estive aí, não fiz isso, mas chegarei lá, game over.

Naantali SPA

07.12.2012

João Bosco da Silva

terça-feira, 27 de novembro de 2012


Foder

Muitas vezes fodi, sem foder as donas dos corpos onde entrava, fodia tudo menos a elas,
Fodia o beijo que me foi negado naquela noite fria de Inverno, fodia aquela traição barata
Só para ver como era, fodia aquela que passou no carro com o outro ao lado e não parou,
Nem olhou, sorriu e olhou em frente, fodia todas as negações injustas, todas as promessas
Esquecidas sob esperma mais fresco em hotéis de província, fodia todos os para sempre
E os nunca mais, fodia todos os sorrisos que se apagaram ao meu olhar, todos os lábios
Que me beijaram para não o voltarem a fazer, todos os nomes onde me encontrei para me
Abandonarem no meu cemitério de silêncios e fodia todas as que tinha fodido antes e que
Nunca deixei de certa forma de amar, porque algo de cada uma a quem entrei , entrou em
Mim, mas não se foi como o meu esperma há muito esquecido, lavado e substituído,
Sou todos os nomes, mesmo os que esqueci ou nunca soube e por isso no fim, venho-me
De olhos fechados e todas me parecem envolver no orgasmo, todas as que me foram,
Que me deixaram e as que não quiseram ser, então fica suspensa uma avalanche de vazio
Que se liberta e me esmaga quando a última gota de esperma desaparece dentro delas.

27.11.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 24 de novembro de 2012


Parar Para Vomitar

Once I was lost and now I´m nothing.

Tenho cinco anos e a 4l à beira da estrada, os carros são só um som e um rasto de cor,
As memórias que um dia terei, e que tornarão as mãos que as criaram, ridículas e inúteis,
Qualquer coisa como um rio, ali perto, em frente a ponte que atravessarei e para lá dela
Mais estrada, juncos, como os do lameiro do meu avô, mas o ar cheira a pocilgas,
Vomito no charco, e vejo-me refletido, eu todo, o pequeno-almoço, Cerelac, mas eu,
De outra cor, e tenho cinco anos, vomito em cima dos agriões, e vejo-me, exposto,
Isto eu, pergunto-me confuso, entre a má disposição e o espanto, os carros continuam
A ecoar um atrás do outro, olho as mãos, sempre me parecerão do mesmo tamanho,
Também eu, limpo a boca e olho para a minha mãe, que me aconteceu, perguntam os meus olhos,
Esses cada vez mais pequenos, eu ali, no charco, eu as minhas mãos, eu nos olhos da minha mãe
Que me dizem, meu menino, a segurar-me na mão, a levar-me para junto da 4l, um copo de Jói maracujá,
Ainda fresco, bebe, tens sedinha meu menino, e eu não sei bem o que tenho, tinha-me
E isso é tão estranho, sinto-me e neste momento preferia não sentir nada, vontade de sair
De mim, eu ali atrás, naquele charco, entre juncos e longe o lameiro do mau avô, o mundo
Tão grande, tão estranho e eu sempre num lugar, só um, a estrada, o sumo demasiado doce,
Mas fresco, eu tão eu, menos tudo o que me fará hoje eu, todas as memórias, todas as derrotas,
Todas as vezes que me verti, em charcos, em gente, em sonhos que acabei por ser obrigado
A esquecer, crescer é tornar-se cada vez menos com tudo o que não nos é dentro, cada vez mais
Cheios, cada vez mais vazios de nós, e eu só sede, sede de me perder, de engolir o estranho
O demasiado doce, pela estrada fora, a caminho dos lameiros do meu avô, cinco anos,
A porta da 4l fecha-se, mais um rasto de cor a espalhar som pela estrada fora e eu menos eu.

24.11.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 19 de novembro de 2012


Epifania Na Aurora Do Fim ou Este Amor Que Me Minto

Este amor que me minto, como se fosse a última oportunidade de redimir todos os fracassos,
Neste que se prepara para me esmagar como todas as ilusões anteriores, como aquela
Mensagem, depois do poema de Caeiro, à minha namorada, perguntava ele, a nossa Sofia dizia ela
Imaginando nos meus sonhos uma casa rural, onde todos os livros que lemos e queríamos ler,
E nós velhos e sábios, com todas as respostas às questões que nasceram sobre as mesas daqueles
Cafés da invicta, a cor do seu cabelo a mesma que esta mentira, que rasgo na pele,
Como se isso a tornasse verdadeiramente sentida, como se podem vestir com os mesmos sonhos,
Se esses sonhos apodrecidos, perdidos, esquecidos nos olhos semicerrados ao parecer que a felicidade,
Mas só a luz da ilusão, ao acordar de um sono demasiado longo, onde a carne em excesso
Fez esquecer o valor das ideias, mas as ideias mentiras, como este amor uma ideia,
Que escrevo em diferentes papéis e assino com diferentes nomes, só a cor do cabelo a mesma,
Entretanto foram lidos outros livros, e a dor que ficou a latejar nos lábios, deixou de se sentir
Por debaixo de outros beijos, todos diferentes, mas as mamas também as mesmas, que a minha
Negligência perdeu, depois de ter vencido a precocidade de um casamento, nas minhas patas
De cão danado, demasiado pequenas para todo o desejo rosado, contra o seu carro velho, à beira
De uma seara de trigo, eu todo tesão e a cegueira de um cérebro afogado em serotonina,
Usando aquele nome que era rodeado por um coração estilizado nas capas dos cadernos
Do sexto ano, como uma masturbação assistida, és o meu segundo, só o meu marido,
E eu com a emoção de uma erecção ao acordar e ela a acreditar que eu mais que esperma
A escorrer dela manchando os bancos de trás, as mesmas mamas contra o meu peito na
Canícula de Agosto, e eu entre as cuequinhas vermelhas dela, que se abrem à frente
E ela impossivelmente húmida naquele calor seco de brisas amarelas, estou tão molhada,
Não acreditando nela própria nem nos meus dedos cheios dela na sua boca, anda já,
E surpreendo-me sempre que me empurram para dentro do seu cu e me esmagam com a vontade
E amo essa mentira, quando me exigem esperma, quero que te venhas na minha boca, ou
Nem me permitem outra opção e drenam-me, demasiados nomes para caberem numa só palavra,
Este amor por retalhos que encontro todos numa única mentira, onde dou os nós que dei
A todos os fracassos, cujos nomes procuro na carne anónima de mais uma noite demasiado fria,
Gostas de me sentir molhada, já nem sei de quem a voz, ecos, procuro encontrar aquela mulher feita
De palavras e que faz nascer poetas e depravados, que vão dar ao mesmo, procuro dar-lhe
Carne
E minto-me nessa carne, dou-lhe o nome que só dentro lhe grito e ignoro a verdadeira cor
Dos seus olhos até me aliviar do desespero de nunca encontrar nada mais do que mentiras
Que me minto, que me faço acreditar como verdades, e provavelmente esta lucidez é
Consequência do sono de anos, do cansaço que não permite asas à imaginação,
São epifanias assim que nos protegem das cordas de estender a roupa e nos trazem o sangue
À carne, à carne que sacode todos os sentimentos, tudo que não lhe saiba a metal, ou sal, ou
Algo verdadeiro e frio, são epifanias assim que nos matam velhos, secos e amargos,
Um dia acordarei e não conseguirei encontrar-lhe o nome e então direi apenas, amor.

16.11.2012

Turku

João Bosco da Silva