quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


Coito Interrompido

O cansaço escorre-me pelos ouvidos, quente, metálico e não percebo a ausência de suor,
Andar tantos anos para chegar a lado nenhum onde se está e está-se, mesmo que a pingar,
Pingos de ser quase a não ser, a desaparecerem na dissipação da queda que não chega ao fundo
E à distância, uma noite de Abril revela-se entre uma chávena fria e um copo de cerveja
Já quente, uma noite no cemitério na companhia dos ossos de Sebastião Alba, a roçar vapores
Que se confundem com o cheiro do oscilar das chamas de umas velas por lá semeadas
Como quem deixa flores a apodrecer por consideração, os dedos procuram uma aceitação
Viscosa, mas ela diz que hoje não dá, estou nos dias maus do mês e estranho não cheirar a ferro
Quando chupo o dedo ainda húmido ao luar, digo que não faz mal e adio a ejaculação que
Lhe despejo noutra noite na cara, com o mesmo cansaço que me escorre pelos ouvidos,
Mas em jactos, porque menos anos, ou mais vontade de anos por vir, o Sebastião Alba
Continua atropelado e enterrado com o nome que lhe deram, eu nem me dou ao trabalho
De mudar, somo anos perdendo-os e incho, a pele estica, cada vez mais fina e a alma cada vez
Menos densa, diluída na merda que a experiência acumulou, eu cada vez menos e maior,
Com saudades da lobotomia química que me visita nas horas lúcidas da loucura, quando o
Cansaço se faz sangue e me empurra contra o futuro que ainda está para ser parido pelos meus olhos.

Turku

07.02.2013

João Bosco da Silva

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


Ensaio Sobre O Arrefecimento Do Café

Que fazer quando o café arrefece e se tem a certeza que a sua doçura é só para disfarçar
O seu negro amargo, faltam pontos de interrogação, mas não é por orgulho e só se tem
A certeza das ausências, o café dizem que desperta, mas o quê realmente, quando se sabe
Que o dia não mora ao lado e se passarão as horas a pintar paredes com recordações
E a procurar em silêncios as vibrações escondidas de certas músicas que estranhamente
Se entranharam no hipocampo e tem cheiro quando se apertam os olhos com força
E se murmuram, hum hum hum, até um cabelo nos incomodar no pescoço, solto, loiro
E a deixar de incomodar com a cor, sabes bem que este poema poderia ser para ti, mas não
É, nem é sobre ela, é sobre o café amargo que arrefece enquanto o açúcar se revela
Colheres a mais, na chávena triste, não há perversidade mórbida só a curiosidade inocente
Que se permite às crianças com espancamento por catecismo, inferno, inferno, e carvão
No sapatinho, engole-se tanto pão com vontade estéril, com esperança seca e ilusão apagada
De paraísos e vidas eternas, haja esperma quente e fértil e a certeza do sangue coagulado,
Todos somos deuses enquanto vivermos e amarmos, e temo desiludir Pasolini por omissões
De actos pensados, não trair o amor do fantasma de um fantasma fossilizado na moral,
A minha deusa sente-se, bebe-se, sorve-se, e sinto as suas graças à minha volta,
Responde-me aos pedidos de carne, rasga-me o corpo e o que dá vontade ao corpo
E traz-me o paraíso sempre que está presente, até o café é mais doce e a manhã parece
Mais branca, não amarga, de velas apagadas, roupa interior esquecida, espalhada pelo chão
Numa casa vazia, pequena e tão vazia, peço-te e espero-te, o teu dourado calor,
A tua doçura, mas as bandeiras perdem a cor e os meus avós envelhecem num ritmo
Que nunca imaginei possível, olho para as mãos e entretanto passaram décadas,
Hiperventilo café para despertar e levar o dia até ao fim, afasto cordas e lâminas do caminho,
Desistir é tão fácil que se torna difícil e eu sempre fui de ir contra, de bater contra,
Os muros não são tão duros como a minha cabeça e o que me limita fortalece-me,
Engulo, fecho os olhos e sou engolido e só tenho a certeza de ser, quando me sente,
É sempre o fim do Verão quando ela parte, mas em vez do cheiro do bagaço nas ruas,
O cheiro do café a empurrar-me para páginas em branco e a companhia do papel.

05.02.2013

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 20 de janeiro de 2013



Pela Estrada Nacional

Às vezes quando não sei por que versos ir, meto-me pelas estradas nacionais em direcção
Ao tempo em que aquelas pousadas não a pele decadente e cinzenta que os donos
Ganharam com a humidade e as saudades do monóxido de carbono e gasolina com chumbo,
Cheira-me a Estado Novo, tudo aquilo, até passar na decadência das termas e beber encostado
A um muro que conheceu gente que hoje nem dentes, já ninguém acredita na saúde,
Queixa-se ao ar frio da sombra verde, tudo se esqueceu das promessas quebradas por estes
Lados e continuam a envelhecer, a curar as mentiras para as comerem pela eternidade fora,
A minha avó advertia-me, tinha medo que fosse preso por pintar um bigode ao gajo
Do cartaz eleitoral afixado na porta de madeira grossa da adega, mas aquilo parecia uma violação
À propriedade do meu avô, à entrada do vinho um mentiroso, mesmo que naquela
Altura me parecer que o Cavaco era um gajo porreiro, por alguém com o nome dele numa
T-shirt me ter dado um chocolate barato e ainda deve ser família, ainda me visita
Com uma tartaruga ninja, que pedi, e não recebi no Natal, nem no aniversário, nem nunca,
Mas afinal se lhe esperasse uma promessa, teria que me meter pela IP4 ou nunca lá chegava,
As pousadas e os restaurantes resignaram-se ao sono dos donos e os filhos seguiram em direcção
Ao fluxo mais grosso, tudo em direcção a uma fossa sanitária que nem sei por que versos me meta,
Sinto perto o cheiro da ressaca de vodca para os lados do Conde Ferreira com a sua cor
De nem sei que infantilidade envelhecida com a evidente distância das noites em que
Troquei o risco do amor, de uma foda vá, pelo menos uma trinca no lábio inferior,
Pela segurança da amizade, há estradas que valem a pena pelo tempo que levam a chegar-se
Ao mesmo lado nenhum que as outras apressam, vou por aqui, que gosto da ilusão do caminho.

20.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


Palidez De Um Lençol Em Forma De Cadáver

para a Rachel Noble War,

Vão apressados, dizem com os lábios que olá, e levam-no para o frio, chegou de lágrimas quentes,
Descubro o lençol e digo-me adeus, que pálido consigo ser, pensa o de olhos fechados,
E o elevador fecha-se em direção ao rés-do-chão, eu convencido de que afinal e tinha razão,
Não valeram de nada as páginas sujas com palavras, nem os outros papéis conspurcados  com esperma
E sumo de cona, até o cheiro se dissipará, como as palavras que os dedos onde as unhas crescem
Sem crescerem, um dia arrancaram da carne da alma, onde só carne no fim de contas, a porta abre-se
E eles empurram, me, esboçaram um olá, para mim, pergunta o de olhos ainda verdes, se calhar,
Responde-me o burro de Zaratustra na sua sabedoria de montanhas e traficante de droga de aldeia,
As calças brancas esperam-me em frente ao hospital para um anoitecer carregado de sexo
E o último autocarro perdido, os ovos queimados e a fome uma bebedeira de vinho do porto
Que faz esquecer a hora do leite lhe jorrar pela cona adentro, o anel de sangue à volta
A coroar-me e é o que fica, de resto um nome por consideração ao garoto daquela festa
De Verão, a acreditar em encontros no tanque de lavar a roupa, onde bebem as vacas
Cansadas de pastar o dia todo e do orgulho das suas tetas inúteis de leite depois
De fecharem a ordenha em mil novecentos e noventa e pouco, na doçura das maçãs roubadas
Como beijos, como se os olhos dos avós não vissem todos os pecados que andamos a fermentar,
Leio agora no lençol que afinal não era a minha beleza, mas a minha indiferença perante a beleza,
O que lhes abria as pernas e as levava a sugarem-me todo depois de me ter vindo alma e tudo,
Não fim nada, passei a vida a desperdiçar vida e agora está tudo feito, fui bom a perder tempo
A enganar-me nos caminhos, fui bom a andar às voltas saindo do sítio e melhor ainda fui
A marcar para o esquecimento e a sujar como quem tatua os contornos do meu caralho em
Peles escorregadias e interiores regurgitantes, descubro o lençol e alguém me pergunta,
Que quieres que te haga, em cima de mim, com tetas de cabrita de quem emagreceu rapidamente
Mesmo que manhã de Natal, está tudo bem, continua, e ela puxa o lençol mais uma vez
E cobre-me a cara, adormeço enquanto me empurram em direcção ao frio e só acordo quando
Fecham a porta com a indiferença de alumínio, quase choro quando ela me limpa com uma toalha
Já com esperma seco, me nega aquela morada na sua barriga tão quente, onde poderia ter vivido uns
Anos mais, não só uma noite de cuba libres e gritos contra as ondas estranhas de uma praia
Asfixiada por turistas durante o dia, a recepcionista do hotel dá-me um beijo apaixonado
Depois de ter discutido bêbada com o namorado e sinto-me mais descansado, por levar alguma
Madeira, dedos livres e aquele livro que guardei para um dia que acabou sem me dar conta,
Sempre dará para acender o lume daquela fogueira onde perdi a alma que tinha vendido ao Diabo
Pela mortalidade, um lugar no céu dos ateus e ainda bolsos cheios de pastilhas de troco,
Quase não pecava encostado aos muros do cemitério de Montmatre, mas o marido já a esperava,
Ainda me dói o frio daquela mentira às putas de São Petersburgo, amanhã, quando o último dia,
Olá, devias ter poupado alguns versos, os lábios mudos no silêncio frio, devias ter ido mais
Fundo, mais baixo, porque o limite era este e só ficou o que não esqueceste dentro de ti.

16.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013


Arroz de cabidela

Acordo com uma sensação estranha.
Tenho entranhado nos poros, o aroma do teu corpo.
Acordo e tenho aquela lucidez de ter apenas o essencial desperto.
Sinto-te ao meu lado e tudo, faz-me lembrar
Aquele cheiro da minha infância, que antecedia o arroz de cabidela.
Aquele cheiro a galinha morta, em água a ferver,
Mesmo antes de depenar, com o corte na nuca.
Faz-me sentir bem, porque nessa altura, me sentia bem
E feliz, porque simplesmente, não sabia que o era.
Ainda gostava do arroz de cabidela,
Porque o sabor é agradável.
Ainda não me tinham enchido a cabeça com hemácias,
Eritrócitos, glóbulos brancos, o plasma e tudo o resto.
Agora, enoja-me pensar em comer o sangue de outro animal.
Fazes-me sentir como quando sentia esse cheiro a galinha escaldada.
Sentia-me seguro e a minha mãe era a pessoa mais sábia do mundo.
Agora, que sei saber menos do que antes julgava saber,
Que encolhi o mundo com os meus passos,
A minha mãe parece-me saber muito menos que eu,
Eu, que nunca matei uma galinha, nem preparei um arroz de cabidela.
Apenas participava no sacrifício como espectador,
Ou lhe segurava nas asas, enquanto o sangue
Corria para o recipiente já com vinho da casa.
Fazes-me sentir seguro, agora que vivo só de mim
E na minha constante insegurança e falta de confiança.
Não me conheces e nunca me conhecerás,
Mas o que te mostro é suficiente e o que te oculto,
Deixa que me toleres.
A galinha, parece-me, era cozida no próprio sangue,
Eu sou cozido na própria vida,
Mas tu sabes o que fazes, porque nem pensas nisso.


26-07-2008


João Bosco da Silva, "Os Poemas De Ninguém" 2009

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


“Sunset S.S. Azemour”

O último crepúsculo dourado rasgado a púrpura é ainda o último crepúsculo
Em que fui feliz, apagavam-se os dias, acendiam-se já as memórias e a distância
Afiava as garras para tocar cada fibra do miocárdio como se fosse uma harpa triste,
Não está, não está, vibram e vibram, o teu olhar a cortar os últimos raios de Sol
Que se escoam montanhas abaixo, dando um novo dia ao outro lado e o nosso
Último dia até hoje a ser engolido pelo horizonte, não sei se o Sol ou se o teu cabelo,
Aquele calor com sabor a felicidade que senti, não sei se suspirei ou se tu sorriste
Quando olhaste para mim e me viste perdido no horizonte do meu sonho
Nas tuas pupilas, sou apenas um mundo que habita o universo que tu és,
E este poema surge da escuridão de uma tarde fria, tão distante como o infinito,
Cada segundo sem ti uma eternidade pequenina na alma de um mortal confesso,
Uma eternidade de esquecimento pelos deuses, ou só aquele em que queria
Acreditar por ti, mas só em ti acredito, só na certeza do milagre que és tu quando
Te toco e te sinto, e me sinto mais que o adiar aborrecido de um final inevitável,
Me sinto parte da minha verdade e a minha verdade és tu, a conduzir em direcção
A um crepúsculo que nunca chegará, dourada, és o “Sunset” mais belo,
O amanhecer das minhas noites quentes, o dia é onde tu me provocas com o teu cabelo,
A felicidade é a luz do teu sorriso, e os meus olhos só querem ser noite, para dentro
Acender aquele pôr-do-Sol, que tu, com a tua presença substituíste até fechar a porta
E partires, levando contigo o sabor do meu beijo e toda a minha vontade de saborear a vida.

10.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


Dança Da Mini

Manda-se vir mais uma mini porque ainda há tempo para engolir sem vontade, esperando que
Venha a oscilação que equilibre as companhias e as coloque em harmonia com o balcão
Onde alguém semeou cascas de amendoins e tremoços já secos, existe algo de profundo
No gesto de acender mais um cigarro, sem deixar que o outro se acabe de extinguir, meio
Esmagado no cinzeiro, o ritmo das bolas batidas impõe um certo rigor abstracto na dança
De cotovelo e ombro, palmadas nas costas e filhos da puta no momento em que se mija
A cerveja que alguém pagou com o mesmo desprezo com que se cospe no urinol, espera-se
Estoicamente que o tasqueiro mande tudo embora, na esperança de conseguir roubar aquele minuto
Proibido, aquele fino redentor que arrefece os dedos através do copo de plástico, a última
Esmola do dia a quem não esperou nada mais, entretanto vê-se a telenovela e espera-se poder
Esculpir cornos à brasileira quando se exibem às mesmas mãos que dão palmadas nas costas,
Grandes os artistas que pagam as cervejas, que se mijam, quando eles se vieram, filhos da puta,
Nem se sentem, esquecem-se com mais um gole, mais um bater de bolas e quem sabe,
Seja tudo mentira, quem sabe, e ninguém sabe coisa nenhuma enquanto se desaperta o cinto
À pressa, desesperado pelo alívio rápido da frustração, seja em forma de umas cinturadas
Indesejadas ou de uma foda roubada ao amigo do peito, não lhe digas nada, pago eu pá,
É ao perde paga, quem perde paga a rodada, é a pagar, deixa estar isso, está pago,
Venha mais uma, acendam-se mais uns minutos que se sopram com a negligência de um
Imortal, que amanhã é Domingo e lavam-se os pecados que todos conhecem, em hipocrisia pedante,
A ressaca já está habituada às exigências da moral, por isso também ela fica em casa,
Deitada no sofá à lareira, espreguiçando-se como um gato que é, quando quer.


07.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 5 de janeiro de 2013

Este Poderia Ser O Poema

Este poderia ser o poema, mas não é, quase nem um poema, só o vestíbulo entre a desilusão
E mais um dente cariado, no fundo, sempre nos tratam mal depois de tanto uso, no fim,
Acabam sempre por deixar-nos ou ficam lá a ser polpa para o caso de uma morte menos assim
Assim e provas para dizer que somos quem fomos, quando todos os poemas ficaram a encher
Lareiras apagadas em noites aborrecidas em que se desiste de buscar o tempo perdido nas páginas
De um livro que se tentou ler para se crescer de alguma forma, nalgum sentido, mas só nenúfares
E paisagens estranhas, que tentam ocupar a importância dos soutos e dos lameiros, com pão
Caseiro, fatias grossas de queijo e marmelada, juncos e bosta fumegante, grilos e palhas na boca,
Quantos versos não passam de uma necessidade de lítio, ou de uma simples foda, daquelas que
Lavam com a sujidade e a decadência, aquele acordar quando a porta do elevador se fecha
E ainda se tem nos lábios o sabor da urina, mas não o nome, e torna-se tudo tão claro como se
As palavras nos dessem tréguas durante uns momentos, daí a valorização dos gemidos
E a importância do balbuciar ébrio na evolução do homem, a filosofia é apenas chicotadas
Em cavalos cansados de fome, a consciência fora dos sentidos, a lucidez salgada numa língua
Branca em jejum, à espera do Sol além das montanhas nevadas onde se escondem os cadáveres
Dos deuses e dos burros que por lá se perderam, que também profetas assassinos do silêncio
Gratuito e revelador, do isolamento da altitude, poderia ser, mas não é, nem finge, nem tenta,
Não é, mas contudo, consegue ser, uma página que ficará mais vezes fechada que aberta,
Como tantas vidas, que poucos conheceram e ninguém a conheceu de verdade, não como
Quem apenas a imaginou, sem reflexos ou ecos, apenas mãos abertas e vazias o suficiente
Para se viver, ir vivendo, durar, ir morrendo até se acabarem as palavras que preencham os versos,
Inúteis, os dentes que mastigam ar, palavras e o sabor perde-se, no vestíbulo entre uma e outra,
Até se cansar a picha, se esquecerem os grilos e o cheiro verde dos lameiros, se desistir de procurar
E engolir páginas de recordações perdidas no hipocampo apodrecido entre apodrecimento vegetal,
Procurar o reflexo nos retratos alheios e nem assim se encontra o merecimento merecido,
Este poderia ser o poema, mas não é, é mais um prego, ou mais um pedaço de lenha que ficará
Por arder, é o grito de quem se consome, o crepitar sincero de quem recusa o lítio e a estabilidade
E passa a vida mergulhado em lagos asfixiados pelos nenúfares, invejando os juncos
E os olhos verdes que viveram as memórias mais felizes, mesmo que apenas pão caseiro
Com fatias grossas de queijo e marmelada e a bosta ainda quente, e os lábios apenas salgados
Pelo suor do Sol, que se acreditava nascer na serra além da janela grande do quarto debaixo
Das mantas na casa da avô onde a prima também nua e a vida tão estranha que parecia natural
Quando os anos poucos, os versos mais curtos e mais cheios de verdades simples e objectivas,
Hoje perdidas, nas portas dos elevadores que se fecham e nos livros que se desistiram de ler
A páginas tais da dor de um dente, e que desculpe quem tiver tornado isto poema, não era para ser.

05.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013


Perder Tempo

Acorda-se numa casa vazia quando a manhã já traz os cheiros da hora do almoço, aquece-se
O café já frio, abre-se a porta e bebe-se o Sol lá fora, com um livro que ficou a meio há sete
Anos, porque há sete anos tudo estava presente, todo o passado nas mãos a ser trocado por
Chegar a esta manhã que quase no fim, cada palavra tem um sabor demasiado claro e podiam
Ter sido minhas se tivessem passado por mim na forma das coisas que passam por nós,
Mas só o gato da minha irmã ainda passa, o pêlo amarelo na minha perna e assim, sentado,
Espero por companhia enquanto arrefeço novamente o café com goles lentos, enquanto a
Fome me dá sinal da proximidade da ausência, porque estar perto é de todas as formas não
Estar e uma casa vazia é igual a todas as casas vazias, mas um livro que se deixou a meio,
Poderá ser bebericado até ao fim, aquecido ao Sol da solidão de uma manhã invulgarmente
Quente de Dezembro, enquanto se espera que este tempo perdido encurte um pouco mais
A distância próxima da ausência e traga quem nos dê um Bom Dia aos ouvidos e aos lábios famintos.

24.12.2012

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva
Epifania Óbvia e Passagem

Morrer é um processo de construção demorada que leva uma vida, a construção constante de
Uma obra que celebre o poder da entropia sobre o esforço organizado da vida, na hora em
Que tudo desiste num suspiro, tudo cessa, desmorona-se o castelo de carne, sonhos e recordações.

Passa-se a vida à espera de um número redondo, que chega e passa e nada de especial acontece,
Apenas a ideia de um número redondo, espera-se pelo fim da espera, para no final se chegar a
Uma eternidade de vazio, o alívio é substituído pela desilusão, perde-se o tempo, perde-se sempre
Tempo à espera que o tempo chegue, quando ele sempre a partir, cada vez menos à espera
De se chegar lá, em vez de se escrever um poema, procura-se a coincidência do poema de outro poeta
E obtém-se o reconhecimento dos olhos que te perderam, enquanto esperavam como os
Meus esperam, um fim que só chegará no silêncio e no esquecimento, da última badalada.

31.12.2012

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012



Chelsea Hotel

Estaciono o burro albino e os meus amigos acompanham-me com o fumo de raízes do inferno
Ancestral, entramos numa livraria de uma cidade misturada com sonhos de futuro e memórias
De sótãos esquecidos, onde decorre a apresentação do último livro do poeta que quase
Conheço, ele tão estranho quanto o imagino, demasiado silencioso para a sua química cerebral
Caótica, alguém lhe apresenta o livro com um campo esterilizado em cima da mesa, arrancando
Os pêlos do cu, um a um, e queimando-os cheio de cerimónia e pedantismo com um isqueiro
De prata, as paredes envelhecem e bocejam, as caras confundem-se com as prateleiras cheias
De títulos aborrecidos, arrasto uma cadeira e sento-me ao lado do poeta, como é que é,
Finalmente lhe digo, ele sorri irregularmente e eu respondo-lhe com a minha irregularidade,
O editor mostra-me dentes desaprovadores num olhar de óculos desnecessariamente grossos,
Há cegueiras e cegueiras, criticando com as pupilas a minha indumentária de cigano pobre,
Todo o gangue espalhado pela sala, vestindo o rigor exigido pela festa pagã, no tempo
Em que os caretos se usam para vender tarifários, estou obviamente bêbado, amizade e vinho
Do Porto Tawny como naquela noite de São João e kebab ruivo, estão comigo os maiores
E com eles sou tão grande, peço licença interrompendo o metralhar monótono e insosso
Do cirurgião sem talento além do que se atribui por direito de um deus que queimo
Nos cigarros que deixei de fumar, a fogueira lá fora mantem-me acordado dentro, viro-me para
O poeta, é catarse pá, é vomitar a merda toda que mundo nos faz engolir e tu fazes isso com uma
Arte que te invejo a loucura, sou demasiado tosco, nunca aprendi a lixar a vida, eu é mais fodê-la,
O cirurgião segura mais um pêlo e queima-o, dizendo que estou a repetir tudo o que ele já
Tinha dito, mas como um marinheiro e eu sorrio numa ironia transmontana sem máscara
Grotesca, somos filhos de Juno, a nossa amiga poeta como anda, pergunto-lhe com ar de
Sei que a fodeste, procuro no casaco cheio de bolsos rotos uns trocos que sobraram do vinho
E lá junto dinheiro para o livro, peço-lhe para o autografar com uma dedicatória simples e breve,
O burro está à geada e os amigos já com uma sede inquieta a levantarem cadeiras e a saltarem em cima
Das caras aborrecidas, ele abre o estojo de pintura e pinta a primeira página, este gajo,
Penso com admiração, agradeço-lhe batendo-lhe nas costas e digo-lhe, e tu és bó, saio,
O gangue segue-me e mergulhamos na noite fria até que o cansaço amanheça.


Torre de Dona Chama



27.12.2012



João Bosco da Silva

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


Prefiro Ficar Em Casa

para TI,

Prefiro ficar em casa, onde é familiar o vazio da tua falta, cada novo lugar onde vou
É uma lembrança da tua ausência, fico triste quando o Sol se põe e leva mais um dia,
Um dia que me acompanhou e me fez companhia enquanto os segundos, um por um,
Me dizem que tu não estás, de manhã, o dia ainda não sabe que sou metade,
E desperta-me com indiferença, procuro-te toda a noite onde me moras, escondes-te
Nas circunvoluções dos meus medos, e só espero que o orvalho me tenha trazido
Palavras tuas, bom dia sem ti são apenas palavras, que me despertam um sorriso triste,
Uma ironia inocente, deus parece-me cada vez mais real, aquele velho perverso
E hipócrita, que só por não existir lhe permito tal desrespeito ao meu coração,
Os meus sentidos esquecem-se de sentir, para se recordarem dos momentos
Em que foram expostos à felicidade que é a tua presença, e acusam-me de não estar,
Porque na verdade não estou e se fechares os olhos, irás ver-me, e mesmo que não
Sintas o meu toque, sentirás a certeza do meu sorriso quando penso no teu,
Não há fome pior que esta, nem distância maior que não estar contigo,
Daí ficar em casa, onde as paredes já sabem que só eu, sem estar, distraído no fundo
De mim a brincar com bolas de sabão, onde dentro, as recordações do que vivi contigo
A fazerem os meus olhos brilharem, como quando era criança, até o silêncio
As rebentar uma atrás da outra, então quebro-o com um suspiro onde procuro
Encontrar um traço do teu cheiro na pele que deixou de me pertencer.

17.12.2012

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012


A Farmácia Fechou Na Savana

Entretanto a farmácia fechou e eu ficarei mais um dia sem os comprimidos para a cabeça,
Fiquei a tarde toda de olhos fechados contra o tecto, a ver elefantes atravessando rios exaustos,
Esqueci-me de ter fome, distraído pelas hienas que me atravessam como um caminho,
Ignorando-me num fingimento de desdém que levam no lombo, espero-lhes os gritos
À noite, à noite gritam em todas a línguas e prometem a eternidade entre os dentes
E eu debruço-me sobre a almofada e deixo-me ser devorado por trás, como não deve ser,
Diz-me o catecismo, apesar de nunca tal ter lido a não ser na moral dos outros, que me
Emprestaram até ouvir o burro de Zaratustra a acordar a aldeia para o azul da madrugada,
Naquele Verão onde chovia do tecto frustração líquida e unhas desesperadas na carne faminta,
E agora pergunto-me se valeram a pena aqueles olhos azuis, se os cinzentos foram mesmo
Uma consequência da má disposição do céu, para no fim a verdade estar ali, debaixo de um castanheiro,
Coberta de orvalho, ou a urina de um lobo que por ali passou esquecido de se extinguir
Nos dentes de ferro ou num granizo de chumbo, e os elefantes levam pedaços de mim,
O rio quase um desmaio e árvores trazidas do génesis a confundirem-se com os crocodilos
À espera da estupidez de mais uma sede incauta, fazem-me lembrar a parede da igreja lá da terra,
Onde se sujam almas por fora, entrando-lhes dentro, só o olhar perplexo no reflexo dos olhos
De um babuíno à chuva me desperta para a minha falha, a farmácia já fechou e a serotonina
Continua a ser pouca no rio, mesmo assim as moscas ainda insistem em lamber as lágrimas crónicas
Dos olhos dos órfãos, os hipopótamos não perdoam uma invasão de propriedade
E o castigo é fazer a vida ignorar a tua existência, dizem que lá longe, numa montanha, entre duas
Menores, para a eternidade, um miúdo de cinco anos, toma conta do gado mais seco que
O estrume com que acendem o lume, e eu tenho ciúmes daquele gado, por ter alguém que olhe por ele.

14.12.2012

Turku

João Bosco da Silva