quinta-feira, 21 de março de 2013


O Sabor Do Sol

Engolir lentamente o café quente que cai no estômago vazio enquanto a pele sedenta se engasga com
A luz do Sol, a ligeira pressão das hastes dos óculos na têmporas que os anos tornam pálidas,
Sentir o ar fresco da manhã no início da tarde, inspirar fundo até ao alvéolo mais profundo a vida
Que nos morre, sem pensar nisso, e a vida sabe bem, estar sentado a olhar para o horizonte geometricamente
Recortado pela cidade, sem esperar nada das horas que tomarão o lugar desta, sabe bem, os
Sonhos ficaram a incomodar a almofada que ainda cheira a sono e insónias, na vida, só há uma coisa simples
Que dói, a ausência, a morte, dos outros, entretanto o Sol esconde-se atrás do edifício vizinho,
No fundo da chávena só o açúcar a manter entre os cristais a memória do café e uma mosca inerte,
Agarrada à esperança de uma primavera que chegará para lhe varrer o exoesqueleto, um sol que nunca será dela.

Turku

07.03.2013

João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de março de 2013


Procuro Em Mais Uma Guinness A Ausência Das Tuas Pupilas

Procuro em mais uma Guinness a ausência das tuas pupilas, mas não vale a pena, todas
As febres tropicais, todas as viagens para regressar a lado nenhum, tudo trocado por um pouco
De nada, ou a ilusão de tudo, que acaba por ser o mesmo nas mãos dos sonhadores, tão ricos
Com os seus bolsos vazios, ou nem bolsos, nem bolsos, só uma fome que não engole nada,
Só a amargura de mais um gole escuro de solidão, o olhar num espelho vazio onde só se envelhece
Para dentro, onde ninguém mora, ninguém vive, um cemitérios de foste, de estiveste, de quiseste,
Um currículo rico em perdeste, deixaste e é-se apenas o que se lembra, tão pouco,
Na superfície do momento, uma descida às catacumbas da velhota assassinada por um engano
E condenada à presença constante do que a todos espera, dou a mão ao copo frio,
E sinto a transpiração de outros dias, no dedo que ainda salgado de não sei que secou,
As lágrimas ausentam-se nestes dias, dizem-se inúteis nos dias escuros, ninguém as vê,
Só se engolem e só as sente o estômago castigado pelas fomes acumuladas nas madrugadas
No fim dos dias longos, que se vestem de noite para acalmar e atormentar, dependendo
Do preço que estamos dispostos a pagar, no fundo, o copo vazio, os pregos a trancar
O caixão vazio pela eternidade fora, cheio da gente que se foi, com todo o nada que enche um copo,
Mas de pupilas nada, só o sonho, como algo que realmente se morreu ao se ter vivido,
Os lábios recusam a língua, então cala-se mais um poema, para incomodar o ruido do mundo.

Turku

20.03.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 18 de março de 2013


Não Sei Para Que Me Morreste Porque É Inútil

para o meu avô,

Não sei para que me morreste, mas também nunca percebi a morte, ou a vida, para quê uma se
A outra está para reduzir tudo a nada, nem cinzas, e os ossos anónimos não fosse o nome sobre
O qual as lágrimas dos que ficaram a ser menos e cada vez menos, não sei para que me morreste,
A égua já deve estranhar a tua ausência, porque hoje não é Domingo e tu de gravata, deitado, a estas
Horas, sem teres bebido gota de vinho e quero acreditar que por isso tão sossegado, não sei onde
Irei depois da festa do Verão amanhecer, agora que a carroça ficará de pernas para o ar e a madeira
Desistirá e cederá todos os anos que aguentou, ao caruncho e os melões ficarão a apodrecer, a vinha
Morrerá de sede do teu suor e o teu vinho não voltará a encher aquela caneca que parecia ir ficar
Pela eternidade fora em cima da lareira, do teu lado pelas noites frias fora, dos rigorosos Invernos
Da terra esquecida pelo país a que dizem que pertence, não sei para que me morreste, mas desculpa
Contrariar-te e roubar um pouco de ti que guardarei até eu morrer para os outros, podes fechar os
Olhos, podes não voltar a contar-me com orgulho a história do jogo da sardinha, que fui eu
Que escrevi nos teus olhos que não sabiam ler, junto à mesma lareira, podes não voltar a fazer batota
Na bisca dos nove, podes esquecer-te de mim, obrigado, eu sei como funcionam as sinapses e é
Na sua união que vive a alma, podes morrer-me, mas prometo-te e que me desculpe a morte,
Que os raios partam, que nunca te deixarei morrer de todo, não enquanto nas minhas veias correr
O teu sangue, não enquanto o dia me permitir acordar e ter saudades tuas, sentado debaixo daquela
Macieira, enquanto as vacas pastavam, com um pedaço de cortiça e uma faca nas mãos,
Com o teu ar de eternidade, as tuas mãos de raíz de castanheiro e cepa e da cortiça dois
Bois e eu convencido que era o neto de um deus real, por isso perdoo o teu coração humano, cansado
Pelos anos, calejado pelos dias, não sei para que me morreste, porque é inútil, nunca me morrerás.

Turku

02.03.2013

João Bosco da Silva

A Madrugada É Material Mutagénico

Um deus espirra uma incerteza e nasce um poeta, cheio de vazios e outros desvios
Que levam a lado nenhum, onde o mais profundo da alma se encontra com as chamas
Embriões de infernos como os de Dantes e os de agora, que são os mais reais,
Mais que a vizinha do andar de cima a aspirar o leite de mais um achado no bar da esquina,
Que só se imagina como será, um dia um encontro no elevador e o hálito a desconhecido,
Seria mais certa a canonizacão de Chuck Norris que acender mais uma fogueirinha no Vaticano,
Chega de queimar bruxas para cobrir múmias de poderes invisíveis, tanto desperdício
Onde não há carne e a carne tão vazia, pede uma e outra, todas as esferinhas tailandesas
A tornarem-se versos, numa desfermentacão de vinho para uvas, umas gota de água benta
Na cara em forma de ejaculação acumulada pelas obrigações tântricas pelas semanas
Das semanas, até à libertação das DSTs pelo corredor de merda dentro, como uma benção
Irónica, ou uma maldição bem intencionada, dá-me um beijo, pede depois do espirro
E a sua boca ainda adstringente onde futuros se sacrificam pela excitação da humilhação,
Quem diz deus, diz deusa e é indiferente qual o espasmo que expele, às vezes vomita
E mais um poeta, daqueles que passa a vida a digerir-se em versos para meter nojo ao mundo
Que já por si repugna, espera o último autocarro, pode ser que já não haja luz naquela janela.

10.03.2013

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 23 de fevereiro de 2013


Fome Com Frigorífico Vazio

“eu não tinha gostos que pudessem ser levados a sério num miserável.”

Céline

Sacudo o dia das botas enquanto encerro a porta atrás de mim, entro no vazio,
Nada me espera e só a fome persiste ainda, abro a porta do frigorífico vazio e rio-me
Do ridículo, procurar-te no frigorífico, a dor é afinal ao lado do estômago, apetece-me
Um Pall Mall, mas falta-me a chama de enganar a morte enquanto ela deixar, espero
Que a noite se esgote antes de esvaziar o copo de Johnnie Walker, espero que o futuro
Me venha salvar do presente, mas tenho bebido muitos presentes e o futuro, quando vem
É mais um presente, esvazia-se o copo e no fim, invariavelmente, o vazio, o fundo
Como um reflexo assustador, como pode haver tanto entre dois vazios, quem saberá,
Tomo um analgésico demasiado forte para o que o corpo sente, mas como se pode
Chegar à alma se vive nos interstícios da dor, até os dedos me parecem abandonar
O ritmo absurdo deste latejar sinusal, resigno-me à tua ausência e adio-me
Até o Sol decidir rir-se da minha palidez forçada, sem agulhas, só as palavras me aliviam
Ou nem por isso, perdi deus numa avalanche que varreu quase todas as minhas ilusões
E agarro-me ao vazio que tu deixaste como se fosse a promessa da vida eterna,
As tuas mãos, em cima do muro daquela casa velha, o dia espalhado pelo chão,
Amanhã varrerei o ontem que hoje me foi, mais um dia à sombra da tua ausência
E adormecerei a fome, como quem embala um lobo enquanto nos morde a carne.

Turku

23.02.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013


Dança Das Moscas À Volta De Um Poema

Sinceramente, a quem interessa o que tu esperas que passe, onde te sentas e o que te
Escorre desse órgão de emoções a que alguns dizem imortal, o Panero parece obcecado
Com sapos, sapos ao luar, numa noite húmida, as mãos negras de sangue, a química
Cerebral ou algum fio fora do lugar, ainda se compreende, agora os cheiros que te
Tocam no hipocampo, só porque está bem perto do nariz e é de ligação directa,
Quem se interessa quando não se podem cheirar palavras, que magia julgas tu ser capaz
De fazer com palavras que todos os dias se limpam com papel higiénico, esperma uns,
Sapo outros, o mesmo nojo da vida, as moscas dançam no ar cheio de merda, numas
Revistas amarelecidas repousa um cagalhão ressacado, tudo sépia e séptico, a vida,
E sinceramente, quem se interessa com a mesa posta, o teu cão morto, o teu avô
Que morreu num hospital onde nunca te deixaram entrar por seres criança e agora,
Farto da morte dos outros, esperando uns dias que o cansaço vença, mas a vida um
Cansaço que nunca vence até vir o raio que nos parte a todos, mais vale sacudir a garrafa,
Não deixar nada a azedar, que no fim sopra-se e o som o mesmo, o vazio e o impossível.

18.02.2013

Turku

João Bosco da Silva

“Não Toques Nos Objectos Imediatos”

Quantas vezes, me sento naquele banco de jardim à geada, à espera de a ver passar
E agarrar-lhe uns versos, naquele mesmo banco de jardim, enquanto as luzes da vila
Se acendem aos poucos e o ar se enche de convites para jantares e eu só com uma fome
Dentro, entre a pele e a carne, uma sede no pericárdio, quantas vezes me sento,
Com um livro no colo, só para me impôr uma presença defunta apreciada por muitos,
Afinal, nem tantos entre os que às vezes me emprestam o reconhecimento de um olhar,
Naquele mesmo banco onde beijei contrariado, onde me deitei num colo indesejado,
Onde descasquei as lágrimas de uma tristeza cujo sumo nunca mais consegui secar,
As unhas lascam a madeira, os dentes batem, dizem que tremo à geada, mas é outro
Frio, da mesma natureza da fome, e ela não sai, não passa, se calhar nem está,
De certeza que não me existe, só eu estou preocupado em dar-lhe uma alma ao corpo
Que nunca se sentará naquele, neste banco de jardim, sempre vazio, onde nunca estou
E onde tantas vezes me sento, à espera, mas só o sono vem, e a derrota e a morte.

18.02.2013

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 17 de fevereiro de 2013


Eucaliptos Em Earls Court E Outras Sublimações Desnecessárias

Espero que venha, mas são sempre as mesmas palavras quando chegam, as imagens limitadas
Que se foram acumulando na originalidade vazia, lá fundo cheira a eucaliptos e a fronteira,
Entre um ser e um ter, vai-se perdendo um verbo pelo outro e quanto mais se tem menos se é,
Mais longe se está dos Verões de estradas infinitas rasgando montes e linhas que só nos mapas,
Já não se tenta, espera-se, não se força, deixa-se vir, quando a vontade desistir, quando a
Resistência ceder ao peso do lixo dos dias, sacode-se aquele pequeno-almoço tardio
Em Earls Court à espera do fim de uma solidão maior, como se sacudiram as palavras
Que hoje parecem sintomas de uma cerveja demasiado cedo, ainda tenho a minha cara
Dos teus olhos pelos teus dedos dentro daquele livro do Bukowski e aquele momento
Que hoje tão morto, tão gasto, na estação de São Bento, sei que te lembras, mas não sentimos
Mais, choraste nesse dia de Sol, como choraste na manhã de insónia em que me contaste
Que te tinham entrado e as palavras a tornarem-se em unhas, a apertar algo cá dentro,
No fundo um nervo chato apenas, ácido clorídrico a mais, espero que venha e que lave isto tudo,
Já não sei esperar, esperar exige esperança, limito-me a engolir o desespero e a certeza
Da perdição, um fim é um fim, um pouco de sujidade de unhas talvez, que se guarda como
Uma relíquia, mesmo tendo sido amargo muitas vezes, deixa-se cair uma chuva ao contrário,
Como se o céu em sintonia com a cadência dos dedos, a dor dos hemisférios, os gritos
Harmoniosos que se desfazem em ecos pelos montes, onde vinhas esquecidas,
Saudosas de tempos melhores, porque passados e nunca se viveu tão bem vivendo-se tão mal,
Fecham-se os olhos, não merecem o abuso que a solidão lhes obriga e procuram o aroma
Dos eucaliptos e da fronteira, fluída, fria, um salto de criança ao alcance da inocência ingénua.

17.02.2013

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


Sorrisos Desenhados A Medo

Todos sorriem com o olhar vazio, quem não parecer feliz é excluído, quem não se rir alto é
Posto de parte, quem não fingir é triste e é chato ser triste, ninguém quer a tristeza como
Companhia, todos se riem, mesmo os que caminham sós, um dildo no cu talvez , riem-se
Cornudos, riem-se putas com o esperma azedo a escorrer-lhes por entre as pernas, tudo
Uma felicidade pelas ruas cinzentas enquanto se escondem as doenças em edifícios altos,
Longe dos olhares limitados à altura das montras, é uma felicidade colada com saliva
Na porta de um frigorífico vazio, apenas as crianças parecem saber, só elas caminham sérias,
O futuro cheira-lhes mal e a sua sinceridade não lhes permite sorrir perante o cheiro a merda,
Sorriem e enchem os vazios de excessos, cobrem o vazio com exageros, compensam com
O brilho exterior a falsidade da chama que lhes acende os sorrisos e passam e esquecem-se
Do que os fez sorrir, porque não foi nada, só o medo, o medo de serem excluídos
Tomados por tristes neste mundo triste

Turku

15.02.2013

João Bosco da Silva

REM

Ah, o cheiro a feno e a pecado e os meus sonhos despejados no balde de desperdícios
Para os porcos, o inferno na ponta de um cigarro de papel apagado com medo no buraco
Da parede de um palheiro onde o barro há muito desistiu de preencher espaços vazios,
A palha a espetar-se nas costas e nas costas da prima quase afastada, enrolados pelo chão fora
Como em filmes que nunca vimos, os sonhos a fermentar inocentes, à espera que o balde cheio
Para levar aos porcos, quase cegos num chiqueiro sem luz onde engordam de escuridão,
Enquanto não chega o dia em que lhe fumegarão as tripas e a carne, um pedaço de lombo
Nas brasas e uma brasa a saltar para o olho do primo e a antecipação, a água na boca,
Amargurada, o cheiro a feno ou a carroça da égua cheia de aveia, ou nabos de onde foi
Uma vinha onde se comiam grilos com inocência, contra o vento purificante de antes
Das trindades, que não seja arroz de tomate e que não falhe a luz outra vez, que as velas
Acabaram-se na última trovoada , só os sonhos restam, a fermentar com os desperdícios,
Despejam-se os últimos, sem camisa deitado num lameiro seco, sacudindo as moscas
Com as mesmas mãos que procuraram os segredos húmidos dentro de uma virgem,
Inspirando fundo o horizonte inocente cheio de pecado, de um pesado vazio, do devir.

Turku

12.02.2013

João Bosco da Silva

domingo, 10 de fevereiro de 2013


Pedido A Um Moleskine Aberto

Fecha-te por favor, deixa de ser o espelho do interior das minhas pupilas, não gozes
O vibrar ridículo das minhas obsessões, sou capaz de amar como quem vive, não
Me enchas com esse vazio branco, como quem pede desesperado uma humilhação
Só para acordar do estado de querer dos dias apenas o seu fim, o adormecimento
Precoce no meio dos sonhos retalhados de memórias e medos que não se conhecia
Quando os olhos abertos, não mereço esse desrespeito, mesmo que tenha vendido a honra
Pelo inferno e trocado a vergonha pelo sentido que a pele perdeu para dentro,
Agora fecha-te, deixa-me dormir, não há tempo para a tinta secar e hoje já lavei as mãos
Tantas vezes, mas todas as ausências estão entranhadas entre as unhas e os dedos,
É também aí onde a felicidade mora e mordo, mordo, para que saía e me dê o alívio
De um sorriso não escurecido por uma memória demasiado doce para ter sido um momento
Como uma música de um cantor suicidado, a repetir-se, nos vivos, impossível de se ouvir
De se recordar, com pureza, fecha-te, deixa-me escurecer à vontade antes de adormecer,
Deixa-me engolir todas as palavras que me pedes, já me dás tudo aquilo que não consigo dizer,
Todo o vazio, toda a ausência, páginas em branco, páginas em branco, já me repito o suficiente,
Já me canso bastante não fazendo nada além de queimar as horas do dia com o desespero
Pela noite, e quando ela chega o desespero absoluto, mas escondido, nas esquinas, nas sombras
Maiores, na fome que me queres comer, na fome que me queres comer, porque te alimentas
Dos meus vazios, agora fecha-te e esquece todas as aventuras que hoje me trouxeram à solidão,
Ninguém merece testemunhar o que agora só se lembra, só o que se sente agora, por isso
Deixa-me a mim e mostra-te a quem me quiser ler, mostra as tuas páginas em branco
E diz-lhe que é tudo o que sinto, tudo o que consegui escrever, tudo o que me resta dos dias
Que passei ao Sol, dos dias de chuva que já me secou, dos dias que subtraio à espera de mais nenhum.

Turku

10.02.2013

João Bosco da Silva

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


Coito Interrompido

O cansaço escorre-me pelos ouvidos, quente, metálico e não percebo a ausência de suor,
Andar tantos anos para chegar a lado nenhum onde se está e está-se, mesmo que a pingar,
Pingos de ser quase a não ser, a desaparecerem na dissipação da queda que não chega ao fundo
E à distância, uma noite de Abril revela-se entre uma chávena fria e um copo de cerveja
Já quente, uma noite no cemitério na companhia dos ossos de Sebastião Alba, a roçar vapores
Que se confundem com o cheiro do oscilar das chamas de umas velas por lá semeadas
Como quem deixa flores a apodrecer por consideração, os dedos procuram uma aceitação
Viscosa, mas ela diz que hoje não dá, estou nos dias maus do mês e estranho não cheirar a ferro
Quando chupo o dedo ainda húmido ao luar, digo que não faz mal e adio a ejaculação que
Lhe despejo noutra noite na cara, com o mesmo cansaço que me escorre pelos ouvidos,
Mas em jactos, porque menos anos, ou mais vontade de anos por vir, o Sebastião Alba
Continua atropelado e enterrado com o nome que lhe deram, eu nem me dou ao trabalho
De mudar, somo anos perdendo-os e incho, a pele estica, cada vez mais fina e a alma cada vez
Menos densa, diluída na merda que a experiência acumulou, eu cada vez menos e maior,
Com saudades da lobotomia química que me visita nas horas lúcidas da loucura, quando o
Cansaço se faz sangue e me empurra contra o futuro que ainda está para ser parido pelos meus olhos.

Turku

07.02.2013

João Bosco da Silva

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


Ensaio Sobre O Arrefecimento Do Café

Que fazer quando o café arrefece e se tem a certeza que a sua doçura é só para disfarçar
O seu negro amargo, faltam pontos de interrogação, mas não é por orgulho e só se tem
A certeza das ausências, o café dizem que desperta, mas o quê realmente, quando se sabe
Que o dia não mora ao lado e se passarão as horas a pintar paredes com recordações
E a procurar em silêncios as vibrações escondidas de certas músicas que estranhamente
Se entranharam no hipocampo e tem cheiro quando se apertam os olhos com força
E se murmuram, hum hum hum, até um cabelo nos incomodar no pescoço, solto, loiro
E a deixar de incomodar com a cor, sabes bem que este poema poderia ser para ti, mas não
É, nem é sobre ela, é sobre o café amargo que arrefece enquanto o açúcar se revela
Colheres a mais, na chávena triste, não há perversidade mórbida só a curiosidade inocente
Que se permite às crianças com espancamento por catecismo, inferno, inferno, e carvão
No sapatinho, engole-se tanto pão com vontade estéril, com esperança seca e ilusão apagada
De paraísos e vidas eternas, haja esperma quente e fértil e a certeza do sangue coagulado,
Todos somos deuses enquanto vivermos e amarmos, e temo desiludir Pasolini por omissões
De actos pensados, não trair o amor do fantasma de um fantasma fossilizado na moral,
A minha deusa sente-se, bebe-se, sorve-se, e sinto as suas graças à minha volta,
Responde-me aos pedidos de carne, rasga-me o corpo e o que dá vontade ao corpo
E traz-me o paraíso sempre que está presente, até o café é mais doce e a manhã parece
Mais branca, não amarga, de velas apagadas, roupa interior esquecida, espalhada pelo chão
Numa casa vazia, pequena e tão vazia, peço-te e espero-te, o teu dourado calor,
A tua doçura, mas as bandeiras perdem a cor e os meus avós envelhecem num ritmo
Que nunca imaginei possível, olho para as mãos e entretanto passaram décadas,
Hiperventilo café para despertar e levar o dia até ao fim, afasto cordas e lâminas do caminho,
Desistir é tão fácil que se torna difícil e eu sempre fui de ir contra, de bater contra,
Os muros não são tão duros como a minha cabeça e o que me limita fortalece-me,
Engulo, fecho os olhos e sou engolido e só tenho a certeza de ser, quando me sente,
É sempre o fim do Verão quando ela parte, mas em vez do cheiro do bagaço nas ruas,
O cheiro do café a empurrar-me para páginas em branco e a companhia do papel.

05.02.2013

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 20 de janeiro de 2013



Pela Estrada Nacional

Às vezes quando não sei por que versos ir, meto-me pelas estradas nacionais em direcção
Ao tempo em que aquelas pousadas não a pele decadente e cinzenta que os donos
Ganharam com a humidade e as saudades do monóxido de carbono e gasolina com chumbo,
Cheira-me a Estado Novo, tudo aquilo, até passar na decadência das termas e beber encostado
A um muro que conheceu gente que hoje nem dentes, já ninguém acredita na saúde,
Queixa-se ao ar frio da sombra verde, tudo se esqueceu das promessas quebradas por estes
Lados e continuam a envelhecer, a curar as mentiras para as comerem pela eternidade fora,
A minha avó advertia-me, tinha medo que fosse preso por pintar um bigode ao gajo
Do cartaz eleitoral afixado na porta de madeira grossa da adega, mas aquilo parecia uma violação
À propriedade do meu avô, à entrada do vinho um mentiroso, mesmo que naquela
Altura me parecer que o Cavaco era um gajo porreiro, por alguém com o nome dele numa
T-shirt me ter dado um chocolate barato e ainda deve ser família, ainda me visita
Com uma tartaruga ninja, que pedi, e não recebi no Natal, nem no aniversário, nem nunca,
Mas afinal se lhe esperasse uma promessa, teria que me meter pela IP4 ou nunca lá chegava,
As pousadas e os restaurantes resignaram-se ao sono dos donos e os filhos seguiram em direcção
Ao fluxo mais grosso, tudo em direcção a uma fossa sanitária que nem sei por que versos me meta,
Sinto perto o cheiro da ressaca de vodca para os lados do Conde Ferreira com a sua cor
De nem sei que infantilidade envelhecida com a evidente distância das noites em que
Troquei o risco do amor, de uma foda vá, pelo menos uma trinca no lábio inferior,
Pela segurança da amizade, há estradas que valem a pena pelo tempo que levam a chegar-se
Ao mesmo lado nenhum que as outras apressam, vou por aqui, que gosto da ilusão do caminho.

20.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


Palidez De Um Lençol Em Forma De Cadáver

para a Rachel Noble War,

Vão apressados, dizem com os lábios que olá, e levam-no para o frio, chegou de lágrimas quentes,
Descubro o lençol e digo-me adeus, que pálido consigo ser, pensa o de olhos fechados,
E o elevador fecha-se em direção ao rés-do-chão, eu convencido de que afinal e tinha razão,
Não valeram de nada as páginas sujas com palavras, nem os outros papéis conspurcados  com esperma
E sumo de cona, até o cheiro se dissipará, como as palavras que os dedos onde as unhas crescem
Sem crescerem, um dia arrancaram da carne da alma, onde só carne no fim de contas, a porta abre-se
E eles empurram, me, esboçaram um olá, para mim, pergunta o de olhos ainda verdes, se calhar,
Responde-me o burro de Zaratustra na sua sabedoria de montanhas e traficante de droga de aldeia,
As calças brancas esperam-me em frente ao hospital para um anoitecer carregado de sexo
E o último autocarro perdido, os ovos queimados e a fome uma bebedeira de vinho do porto
Que faz esquecer a hora do leite lhe jorrar pela cona adentro, o anel de sangue à volta
A coroar-me e é o que fica, de resto um nome por consideração ao garoto daquela festa
De Verão, a acreditar em encontros no tanque de lavar a roupa, onde bebem as vacas
Cansadas de pastar o dia todo e do orgulho das suas tetas inúteis de leite depois
De fecharem a ordenha em mil novecentos e noventa e pouco, na doçura das maçãs roubadas
Como beijos, como se os olhos dos avós não vissem todos os pecados que andamos a fermentar,
Leio agora no lençol que afinal não era a minha beleza, mas a minha indiferença perante a beleza,
O que lhes abria as pernas e as levava a sugarem-me todo depois de me ter vindo alma e tudo,
Não fim nada, passei a vida a desperdiçar vida e agora está tudo feito, fui bom a perder tempo
A enganar-me nos caminhos, fui bom a andar às voltas saindo do sítio e melhor ainda fui
A marcar para o esquecimento e a sujar como quem tatua os contornos do meu caralho em
Peles escorregadias e interiores regurgitantes, descubro o lençol e alguém me pergunta,
Que quieres que te haga, em cima de mim, com tetas de cabrita de quem emagreceu rapidamente
Mesmo que manhã de Natal, está tudo bem, continua, e ela puxa o lençol mais uma vez
E cobre-me a cara, adormeço enquanto me empurram em direcção ao frio e só acordo quando
Fecham a porta com a indiferença de alumínio, quase choro quando ela me limpa com uma toalha
Já com esperma seco, me nega aquela morada na sua barriga tão quente, onde poderia ter vivido uns
Anos mais, não só uma noite de cuba libres e gritos contra as ondas estranhas de uma praia
Asfixiada por turistas durante o dia, a recepcionista do hotel dá-me um beijo apaixonado
Depois de ter discutido bêbada com o namorado e sinto-me mais descansado, por levar alguma
Madeira, dedos livres e aquele livro que guardei para um dia que acabou sem me dar conta,
Sempre dará para acender o lume daquela fogueira onde perdi a alma que tinha vendido ao Diabo
Pela mortalidade, um lugar no céu dos ateus e ainda bolsos cheios de pastilhas de troco,
Quase não pecava encostado aos muros do cemitério de Montmatre, mas o marido já a esperava,
Ainda me dói o frio daquela mentira às putas de São Petersburgo, amanhã, quando o último dia,
Olá, devias ter poupado alguns versos, os lábios mudos no silêncio frio, devias ter ido mais
Fundo, mais baixo, porque o limite era este e só ficou o que não esqueceste dentro de ti.

16.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013


Arroz de cabidela

Acordo com uma sensação estranha.
Tenho entranhado nos poros, o aroma do teu corpo.
Acordo e tenho aquela lucidez de ter apenas o essencial desperto.
Sinto-te ao meu lado e tudo, faz-me lembrar
Aquele cheiro da minha infância, que antecedia o arroz de cabidela.
Aquele cheiro a galinha morta, em água a ferver,
Mesmo antes de depenar, com o corte na nuca.
Faz-me sentir bem, porque nessa altura, me sentia bem
E feliz, porque simplesmente, não sabia que o era.
Ainda gostava do arroz de cabidela,
Porque o sabor é agradável.
Ainda não me tinham enchido a cabeça com hemácias,
Eritrócitos, glóbulos brancos, o plasma e tudo o resto.
Agora, enoja-me pensar em comer o sangue de outro animal.
Fazes-me sentir como quando sentia esse cheiro a galinha escaldada.
Sentia-me seguro e a minha mãe era a pessoa mais sábia do mundo.
Agora, que sei saber menos do que antes julgava saber,
Que encolhi o mundo com os meus passos,
A minha mãe parece-me saber muito menos que eu,
Eu, que nunca matei uma galinha, nem preparei um arroz de cabidela.
Apenas participava no sacrifício como espectador,
Ou lhe segurava nas asas, enquanto o sangue
Corria para o recipiente já com vinho da casa.
Fazes-me sentir seguro, agora que vivo só de mim
E na minha constante insegurança e falta de confiança.
Não me conheces e nunca me conhecerás,
Mas o que te mostro é suficiente e o que te oculto,
Deixa que me toleres.
A galinha, parece-me, era cozida no próprio sangue,
Eu sou cozido na própria vida,
Mas tu sabes o que fazes, porque nem pensas nisso.


26-07-2008


João Bosco da Silva, "Os Poemas De Ninguém" 2009

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


“Sunset S.S. Azemour”

O último crepúsculo dourado rasgado a púrpura é ainda o último crepúsculo
Em que fui feliz, apagavam-se os dias, acendiam-se já as memórias e a distância
Afiava as garras para tocar cada fibra do miocárdio como se fosse uma harpa triste,
Não está, não está, vibram e vibram, o teu olhar a cortar os últimos raios de Sol
Que se escoam montanhas abaixo, dando um novo dia ao outro lado e o nosso
Último dia até hoje a ser engolido pelo horizonte, não sei se o Sol ou se o teu cabelo,
Aquele calor com sabor a felicidade que senti, não sei se suspirei ou se tu sorriste
Quando olhaste para mim e me viste perdido no horizonte do meu sonho
Nas tuas pupilas, sou apenas um mundo que habita o universo que tu és,
E este poema surge da escuridão de uma tarde fria, tão distante como o infinito,
Cada segundo sem ti uma eternidade pequenina na alma de um mortal confesso,
Uma eternidade de esquecimento pelos deuses, ou só aquele em que queria
Acreditar por ti, mas só em ti acredito, só na certeza do milagre que és tu quando
Te toco e te sinto, e me sinto mais que o adiar aborrecido de um final inevitável,
Me sinto parte da minha verdade e a minha verdade és tu, a conduzir em direcção
A um crepúsculo que nunca chegará, dourada, és o “Sunset” mais belo,
O amanhecer das minhas noites quentes, o dia é onde tu me provocas com o teu cabelo,
A felicidade é a luz do teu sorriso, e os meus olhos só querem ser noite, para dentro
Acender aquele pôr-do-Sol, que tu, com a tua presença substituíste até fechar a porta
E partires, levando contigo o sabor do meu beijo e toda a minha vontade de saborear a vida.

10.01.2013

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


Dança Da Mini

Manda-se vir mais uma mini porque ainda há tempo para engolir sem vontade, esperando que
Venha a oscilação que equilibre as companhias e as coloque em harmonia com o balcão
Onde alguém semeou cascas de amendoins e tremoços já secos, existe algo de profundo
No gesto de acender mais um cigarro, sem deixar que o outro se acabe de extinguir, meio
Esmagado no cinzeiro, o ritmo das bolas batidas impõe um certo rigor abstracto na dança
De cotovelo e ombro, palmadas nas costas e filhos da puta no momento em que se mija
A cerveja que alguém pagou com o mesmo desprezo com que se cospe no urinol, espera-se
Estoicamente que o tasqueiro mande tudo embora, na esperança de conseguir roubar aquele minuto
Proibido, aquele fino redentor que arrefece os dedos através do copo de plástico, a última
Esmola do dia a quem não esperou nada mais, entretanto vê-se a telenovela e espera-se poder
Esculpir cornos à brasileira quando se exibem às mesmas mãos que dão palmadas nas costas,
Grandes os artistas que pagam as cervejas, que se mijam, quando eles se vieram, filhos da puta,
Nem se sentem, esquecem-se com mais um gole, mais um bater de bolas e quem sabe,
Seja tudo mentira, quem sabe, e ninguém sabe coisa nenhuma enquanto se desaperta o cinto
À pressa, desesperado pelo alívio rápido da frustração, seja em forma de umas cinturadas
Indesejadas ou de uma foda roubada ao amigo do peito, não lhe digas nada, pago eu pá,
É ao perde paga, quem perde paga a rodada, é a pagar, deixa estar isso, está pago,
Venha mais uma, acendam-se mais uns minutos que se sopram com a negligência de um
Imortal, que amanhã é Domingo e lavam-se os pecados que todos conhecem, em hipocrisia pedante,
A ressaca já está habituada às exigências da moral, por isso também ela fica em casa,
Deitada no sofá à lareira, espreguiçando-se como um gato que é, quando quer.


07.01.2013

Turku

João Bosco da Silva