sexta-feira, 10 de maio de 2013




Refluxo Gastroesofágico

Tudo não passa de tentar tornar os muros dos meus avôs públicos, só porque me revoltam
Aquelas fontes nas capitais tão velhas como uma aldeia de peregrinos, as pedras tão gastas
Da curiosidade dos turistas e os muros dos meus avôs, dos seus pais a serem escondidos pela
Vergonha dos musgos e tento despir-me de tudo verde e só nos olhos a antítese dos musgos,
Dispo tudo com um fogo de chamas infernais, e no fundo com a inocência de quem esmaga
Grilos entre duas pedras lisas de xisto, a população toda de um lameiro, culpem o tédio, uma alma
Presa na camisa-de-força da doutrina de Domingo, quando as asas me pediam os dedos
Nas conas das catequistas, como o filho do cantoneiro, no palheiro do pai dela debaixo do
Reboque do tractor, e conspurquei-me com as fodas urbanas, os esguichos anónimos e apressados,
Sem acabar de tirar a camisa, molhada de prazer que não se consegue sentir pelo excesso de tudo
Menos do vinho da vinha do avô, também ele morto, na companhia do vazio do outro, também,
A ser esverdeado pela eternidade fora, enquanto eu conseguir imaginar uma eternidade fora,
Cá dentro, sentado no muro do lameiro grande, a ouvir as rãs do poço a fritar ao Sol, enquanto o meu avô
Esculpia da cortiça dois bois, e o outro armava laços aos javalis na vinha, e eu guardava anos dentro
Para os florir em pecado, tornar os muros anónimos em poemas que pelo menos levo dentro
E pisam comigo as calçadas das cidades antigas, das capitais de línguas desconhecidas,
Dos meus avôs, mais uns goles e isto vai lá, as mãos ainda latejam, o refluxo torna-se num
Vomitar contínuo, numa diarreia inversa, perde-se  o medo de perder e segue-se, esmagam-se
Um a um, os grilos, os pedaços de inocência levados pelo tédio, pela desilusão, pelos fungos
Que tornam os sonhos bolorentos até não se poderem comer mais, um beijo no pão e para o silvado,
Não se esquece, mas o mundo que se cria cá dentro tem o tamanho da nossa voz, avôs,
Tento gritar, mas a pipa, mesmo que seja a maior da terra, nunca será suficiente para
Aliviar a sede do mundo, os muros tão velhos, tão anónimos, só porque aí e até a cerca de arbustos
Daquela aldeia Massai, mais vista que estes muros, virgens comparando, onde atrás deles fodas tão
Inocentes, como o tédio que esmaga os grilos um a um e eu vendi a alma às cidades
Em troca de ejaculações quentes e inesperadas, sobre uma camisa à espera de versos
De vinho tinto e saudades e a puta da vida que vos acabou e me levam para lado nenhum,
Meto dois cartuchos, um será para assustar a morte e levantar os corvos dos castanheiros,
O outro será para ter sempre presente a esperança que só morrerá com a morte, até lá,
Gritarei pedras e esperma seco nos musgos, na manhã depois da festa do verão, meu vosso, nosso.


10.05.2013

Turku

João Bosco da Silva

Purga Na Interzone

Abro a porta da casa de banho e um miúdo está a foder um cu, com a cara de entusiasmo de quem
Está a mijar com alguém ao lado, era um cu, de resto adivinho a cabeça deitada sobre o autoclismo,
Olha-me e não me vê, fode e só sente o que não se sente, a ideia, devo ser eu, o fantasma translúcido
Daquele miúdo, a foder apaticamente uma cabeça de autoclismo, engole toda a merda, lava o esperma salpicado,
O entusiasmo perdido e eu como ele, não sinto nada, como não sinto nada ao ver o vizinho que nunca vi,
Pendurando presuntos pelo pescoço, ou quando os dedos num pulso não esperam mais o que é reservado a todos,
Amor, morte e fodas em casas de banho de bares, afinal não abri porta nenhuma, é um espelho de memória
A reflectir o ridículo sobre os meus cabelos brancos, hoje envelheço cem anos, sei disso porque
Não ando com relógio algum e conto as horas pelas vidas que trago dentro, presas apenas por um nome
E cujas células só são realmente as mesmas as que fodem sem qualquer entusiasmo, que tinham vergonha
De mijar ao lado dos amigos e foi-se, como o orgulho, foi-se tudo, , fecho a porta, viro as costas ao espelho
Sem esperança, encerrando em mim a possibilidade de todas as desilusões do mundo, livre, o miúdo
Não se vai vir, mas nunca esquecerei o que aquele autoclismo me disse, less is more, e a cor do cabelo daquele cu,
Na manhã seguinte tomará banho tentanto lavar os anos que lhe trazem cada vez mais ferrugem
Àquilo que nos faz sentir, abrirá uma porta na casa de banho de um bar e verá o seu reflexo a foder um cu  que diz, less is more.

Turku- Helsínquia

01.05.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 15 de abril de 2013


Quando O Hank Reza

Detesto senhores e as vacas que os fazem senhores, ou os senhores que as fazem vacas,
Mesmo que sem leite na cona a secar, daquele que já não dá para merda nenhuma, apesar
Do nojo ao fluor, as pastilhas da terceira-classe e a cona das primas demasiado imberbe,
Absinto para meia dúzia, mesmo antes do gato despegar do turno das insónias
E para o inferno com a Lana del Rey e as punhetas mal batidas enquanto chovem lágrimas
No chuveiro, devias ter vergonha, visitar pessoas no cemitério, quando a tua vida mais morta que tu,
Espera por mais uns quantos, os teus amigos não morrerão, já têm, sei lá como conseguiram
Agarrar-se a esta merda, mas têm as unhas enterradas até ao caralho de deus e enquanto ele
Não lhe despejar dez litros de mentiras no focinho, bukake de quem é todos e tudo e o caralho,
Manda foguete, é dia de festa, a coleguinha da quarta-classe sobe o monte, vem a caminho
Para provar que nem sabes dançar nem porra nenhuma, vai-te morrer a gaita de tanta fome,
Afinal o contrário, e para o diabo que os pariu e os que vão parir, eu a inutilidade que detesta senhores,
Mas com loucura suficiente para acabar com eles num dia de chumbo e treino com o avô
Morto contra uma figueira onde Judas se cansou de mostrar que foi o único traído por palavras,
Ou também ele teria tido direito a um puto de um evangelho, grande merda na verdade, certo (?),
Foda-se, um ponto de interrogação, já acabou o filme, espera, já, pedimos desculpa,
Está na hora do fogo-de-artifício, esperem pelos raios que vos partam, se não gostam, dedo no cu. Amén.

15.04.2013

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 14 de abril de 2013

Jack Encontra-se Perdido Em Lado Nenhum

Sempre tiveste medo do amor como do ridículo, o nu público do coração e preferias o elástico partido à tensão incerta
E agora perdeste as palavras todas Jack, engoliste todos os desejos que te impunhas, só para
Cheirares tão mal como o mundo te cheira, nesse nariz demasiado santo e puramente niilista, tudo merda e mijo,
Agora não sabes onde escondeste a pele de lobo, na companhia das moscas, nem se ainda és capaz de beber o sangue
Doente dos vazio que enchias com a tua incerteza e insegurança, como se os dentes fossem
Uma âncora no barco à deriva que tu sempre foste, agora esperas que a maré suba
E que a água verde te encha desde o convés até ao limite do que aguentas, suportas, sem segredos,
Porque não tens um jovem numa jaula a procurar palavras por ti, nem ninguém para sujares, usaste-as todas,
Como os momentos que espremeste até deixarem de ser recordacões, mas saudades das
Noites libertinas, com o ar carregado de um suor de terra e mil orações antes do assassínio
De mais um dia, esqueceste-te de que o mundo te comerá se continuares a passar fome, os dentes gastam-se no vazio,
Se insitires em beber das miragens que só tu vês, rias-te dos felizes que enchiam a boca de areia,
De esperma seco dos outros nas fontes que julgavam puras, muitas vezes o teu próprio esperma
E rias-te, agora Jack, mais valia engolir-lhes a desilusão que te oferecem com a loucura com que sempre
Te dedicaste a rasgar a vida e as vidas, mas a verdade mata-se com palavras e tu acabaste com elas.

14.04.2013

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 29 de março de 2013


“Territorial Pissings”


“I´m still alive
and have the hability to expel
wastes from my body.
and poems.
and as long as that´s happening
I have the ability to handle
betrayal
loneliness
hangnail
clap
and the economic reports into the
financial section”

Charles Bukowski
Mais um depósito de olhos fechados e a confusão será toda tua, escondida no fundo dos teus excessos,
Cuspida pela convulsão dos teus sonhos pintados a verniz colorido e espera-se um amanhecer diferente,
Dos que prometem outra coisa além da noite, um dia eterno, de olhos cegos pela luz indiferente
Ao segredos que fermentam na fossa séptica desesperados por uma foda séptica que lave a alma
E o orgulho intranquilo da roupa interior manchada pelo pagamento à ingratidão altruísta dos
Corações de ouro e esperma azedo, começa-se num capítulo e acaba-se num desperdício de páginas
E páginas só por uma capa colorida, prometendo tudo menos o vazio que esconde, o verniz estala
E as unhas crescem depois dos olhos fechados e fica apenas, o nada que foste, um saco vazio, agora inútil
Onde foi despejado o tédio de uma terceira idade pervertida pelo valor dos anos queimados na lareira
Dos enganos, despe-te de tudo e não serás mais do que aquilo que trocaste pelo que vestiste, nada,
Os olhos não enganam, e a colher que os arranca por nojo, acolhe a sopa com mais pureza, enquanto
A chama aquece a libertação, como uma morte que se aceita de veias abertas e coração perdido
Pela confrontação com os verdadeiros contos de fadas, pede-te a um mendigo, pode ser
Que ele tenha um pedaço do que foste e te ofereça, sem esperar de ti um pouco do teu vazio,
Um pouco da liberdade verdadeira, aquela que julgaste encontrar ao te abrires às portas do inferno.

29.03.2013

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 21 de março de 2013


“Viagem Ao Fim Da Noite”

O bidão onde o cão dormia e se refugiava dos foguetes da festa está vazio, a manta velha conserva
Quase tanto dele como a memória, uns quantos pêlos, faltam os olhos comidos pelos vermes como
O verme que o matou, nem sei se me revolte contra a morte se contra os seus dedos conscientes
E vivos, conheço mil e uma causas que levam um coração a parar, mas nunca compreendi as suas
Razões, é sempre um erro tentar encontrar o que motiva um músculo independente que por teimosia rasga
Os dias com vida e sangue, resta engolir, o sangue, até ficar doente e vomitá-lo depois negro,
Em linhas finas e irregulares que tentam dar um sentido à perdição, bebe-se, fuma-se e fode-se
Sem cuidado ou moderação, encosta-se a vida à parede como se fosse a própria morte, mas esta
Com sugestões atrás da orelha, vai que eu não sou para ti, tu imortal e o bidão vazio à espera
Do medo e do frio, dos olhos no infinito, a culpa disto tudo é dos poetas que tratam a eternidade
Com a mesma familiaridade com que tratam as palavras e a prometem como prometem o amor,
Com o mesmo convencimento que são capazes de trazer a carne toda ao pêlo que ficou agarrado
À memória, mas é mais real o ladrar de um cão assustado pelo quase silêncio da noite de últimos
Candeeiros da vila, que todos os poemas do mundo, a noite chega sempre ao fim,
Mas nem sempre o dia vem para lavar todas as suas sombras.

09.03.2013

Turku

João Bosco da Silva

O Sabor Do Sol

Engolir lentamente o café quente que cai no estômago vazio enquanto a pele sedenta se engasga com
A luz do Sol, a ligeira pressão das hastes dos óculos na têmporas que os anos tornam pálidas,
Sentir o ar fresco da manhã no início da tarde, inspirar fundo até ao alvéolo mais profundo a vida
Que nos morre, sem pensar nisso, e a vida sabe bem, estar sentado a olhar para o horizonte geometricamente
Recortado pela cidade, sem esperar nada das horas que tomarão o lugar desta, sabe bem, os
Sonhos ficaram a incomodar a almofada que ainda cheira a sono e insónias, na vida, só há uma coisa simples
Que dói, a ausência, a morte, dos outros, entretanto o Sol esconde-se atrás do edifício vizinho,
No fundo da chávena só o açúcar a manter entre os cristais a memória do café e uma mosca inerte,
Agarrada à esperança de uma primavera que chegará para lhe varrer o exoesqueleto, um sol que nunca será dela.

Turku

07.03.2013

João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de março de 2013


Procuro Em Mais Uma Guinness A Ausência Das Tuas Pupilas

Procuro em mais uma Guinness a ausência das tuas pupilas, mas não vale a pena, todas
As febres tropicais, todas as viagens para regressar a lado nenhum, tudo trocado por um pouco
De nada, ou a ilusão de tudo, que acaba por ser o mesmo nas mãos dos sonhadores, tão ricos
Com os seus bolsos vazios, ou nem bolsos, nem bolsos, só uma fome que não engole nada,
Só a amargura de mais um gole escuro de solidão, o olhar num espelho vazio onde só se envelhece
Para dentro, onde ninguém mora, ninguém vive, um cemitérios de foste, de estiveste, de quiseste,
Um currículo rico em perdeste, deixaste e é-se apenas o que se lembra, tão pouco,
Na superfície do momento, uma descida às catacumbas da velhota assassinada por um engano
E condenada à presença constante do que a todos espera, dou a mão ao copo frio,
E sinto a transpiração de outros dias, no dedo que ainda salgado de não sei que secou,
As lágrimas ausentam-se nestes dias, dizem-se inúteis nos dias escuros, ninguém as vê,
Só se engolem e só as sente o estômago castigado pelas fomes acumuladas nas madrugadas
No fim dos dias longos, que se vestem de noite para acalmar e atormentar, dependendo
Do preço que estamos dispostos a pagar, no fundo, o copo vazio, os pregos a trancar
O caixão vazio pela eternidade fora, cheio da gente que se foi, com todo o nada que enche um copo,
Mas de pupilas nada, só o sonho, como algo que realmente se morreu ao se ter vivido,
Os lábios recusam a língua, então cala-se mais um poema, para incomodar o ruido do mundo.

Turku

20.03.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 18 de março de 2013


Não Sei Para Que Me Morreste Porque É Inútil

para o meu avô,

Não sei para que me morreste, mas também nunca percebi a morte, ou a vida, para quê uma se
A outra está para reduzir tudo a nada, nem cinzas, e os ossos anónimos não fosse o nome sobre
O qual as lágrimas dos que ficaram a ser menos e cada vez menos, não sei para que me morreste,
A égua já deve estranhar a tua ausência, porque hoje não é Domingo e tu de gravata, deitado, a estas
Horas, sem teres bebido gota de vinho e quero acreditar que por isso tão sossegado, não sei onde
Irei depois da festa do Verão amanhecer, agora que a carroça ficará de pernas para o ar e a madeira
Desistirá e cederá todos os anos que aguentou, ao caruncho e os melões ficarão a apodrecer, a vinha
Morrerá de sede do teu suor e o teu vinho não voltará a encher aquela caneca que parecia ir ficar
Pela eternidade fora em cima da lareira, do teu lado pelas noites frias fora, dos rigorosos Invernos
Da terra esquecida pelo país a que dizem que pertence, não sei para que me morreste, mas desculpa
Contrariar-te e roubar um pouco de ti que guardarei até eu morrer para os outros, podes fechar os
Olhos, podes não voltar a contar-me com orgulho a história do jogo da sardinha, que fui eu
Que escrevi nos teus olhos que não sabiam ler, junto à mesma lareira, podes não voltar a fazer batota
Na bisca dos nove, podes esquecer-te de mim, obrigado, eu sei como funcionam as sinapses e é
Na sua união que vive a alma, podes morrer-me, mas prometo-te e que me desculpe a morte,
Que os raios partam, que nunca te deixarei morrer de todo, não enquanto nas minhas veias correr
O teu sangue, não enquanto o dia me permitir acordar e ter saudades tuas, sentado debaixo daquela
Macieira, enquanto as vacas pastavam, com um pedaço de cortiça e uma faca nas mãos,
Com o teu ar de eternidade, as tuas mãos de raíz de castanheiro e cepa e da cortiça dois
Bois e eu convencido que era o neto de um deus real, por isso perdoo o teu coração humano, cansado
Pelos anos, calejado pelos dias, não sei para que me morreste, porque é inútil, nunca me morrerás.

Turku

02.03.2013

João Bosco da Silva

A Madrugada É Material Mutagénico

Um deus espirra uma incerteza e nasce um poeta, cheio de vazios e outros desvios
Que levam a lado nenhum, onde o mais profundo da alma se encontra com as chamas
Embriões de infernos como os de Dantes e os de agora, que são os mais reais,
Mais que a vizinha do andar de cima a aspirar o leite de mais um achado no bar da esquina,
Que só se imagina como será, um dia um encontro no elevador e o hálito a desconhecido,
Seria mais certa a canonizacão de Chuck Norris que acender mais uma fogueirinha no Vaticano,
Chega de queimar bruxas para cobrir múmias de poderes invisíveis, tanto desperdício
Onde não há carne e a carne tão vazia, pede uma e outra, todas as esferinhas tailandesas
A tornarem-se versos, numa desfermentacão de vinho para uvas, umas gota de água benta
Na cara em forma de ejaculação acumulada pelas obrigações tântricas pelas semanas
Das semanas, até à libertação das DSTs pelo corredor de merda dentro, como uma benção
Irónica, ou uma maldição bem intencionada, dá-me um beijo, pede depois do espirro
E a sua boca ainda adstringente onde futuros se sacrificam pela excitação da humilhação,
Quem diz deus, diz deusa e é indiferente qual o espasmo que expele, às vezes vomita
E mais um poeta, daqueles que passa a vida a digerir-se em versos para meter nojo ao mundo
Que já por si repugna, espera o último autocarro, pode ser que já não haja luz naquela janela.

10.03.2013

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 23 de fevereiro de 2013


Fome Com Frigorífico Vazio

“eu não tinha gostos que pudessem ser levados a sério num miserável.”

Céline

Sacudo o dia das botas enquanto encerro a porta atrás de mim, entro no vazio,
Nada me espera e só a fome persiste ainda, abro a porta do frigorífico vazio e rio-me
Do ridículo, procurar-te no frigorífico, a dor é afinal ao lado do estômago, apetece-me
Um Pall Mall, mas falta-me a chama de enganar a morte enquanto ela deixar, espero
Que a noite se esgote antes de esvaziar o copo de Johnnie Walker, espero que o futuro
Me venha salvar do presente, mas tenho bebido muitos presentes e o futuro, quando vem
É mais um presente, esvazia-se o copo e no fim, invariavelmente, o vazio, o fundo
Como um reflexo assustador, como pode haver tanto entre dois vazios, quem saberá,
Tomo um analgésico demasiado forte para o que o corpo sente, mas como se pode
Chegar à alma se vive nos interstícios da dor, até os dedos me parecem abandonar
O ritmo absurdo deste latejar sinusal, resigno-me à tua ausência e adio-me
Até o Sol decidir rir-se da minha palidez forçada, sem agulhas, só as palavras me aliviam
Ou nem por isso, perdi deus numa avalanche que varreu quase todas as minhas ilusões
E agarro-me ao vazio que tu deixaste como se fosse a promessa da vida eterna,
As tuas mãos, em cima do muro daquela casa velha, o dia espalhado pelo chão,
Amanhã varrerei o ontem que hoje me foi, mais um dia à sombra da tua ausência
E adormecerei a fome, como quem embala um lobo enquanto nos morde a carne.

Turku

23.02.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013


Dança Das Moscas À Volta De Um Poema

Sinceramente, a quem interessa o que tu esperas que passe, onde te sentas e o que te
Escorre desse órgão de emoções a que alguns dizem imortal, o Panero parece obcecado
Com sapos, sapos ao luar, numa noite húmida, as mãos negras de sangue, a química
Cerebral ou algum fio fora do lugar, ainda se compreende, agora os cheiros que te
Tocam no hipocampo, só porque está bem perto do nariz e é de ligação directa,
Quem se interessa quando não se podem cheirar palavras, que magia julgas tu ser capaz
De fazer com palavras que todos os dias se limpam com papel higiénico, esperma uns,
Sapo outros, o mesmo nojo da vida, as moscas dançam no ar cheio de merda, numas
Revistas amarelecidas repousa um cagalhão ressacado, tudo sépia e séptico, a vida,
E sinceramente, quem se interessa com a mesa posta, o teu cão morto, o teu avô
Que morreu num hospital onde nunca te deixaram entrar por seres criança e agora,
Farto da morte dos outros, esperando uns dias que o cansaço vença, mas a vida um
Cansaço que nunca vence até vir o raio que nos parte a todos, mais vale sacudir a garrafa,
Não deixar nada a azedar, que no fim sopra-se e o som o mesmo, o vazio e o impossível.

18.02.2013

Turku

João Bosco da Silva

“Não Toques Nos Objectos Imediatos”

Quantas vezes, me sento naquele banco de jardim à geada, à espera de a ver passar
E agarrar-lhe uns versos, naquele mesmo banco de jardim, enquanto as luzes da vila
Se acendem aos poucos e o ar se enche de convites para jantares e eu só com uma fome
Dentro, entre a pele e a carne, uma sede no pericárdio, quantas vezes me sento,
Com um livro no colo, só para me impôr uma presença defunta apreciada por muitos,
Afinal, nem tantos entre os que às vezes me emprestam o reconhecimento de um olhar,
Naquele mesmo banco onde beijei contrariado, onde me deitei num colo indesejado,
Onde descasquei as lágrimas de uma tristeza cujo sumo nunca mais consegui secar,
As unhas lascam a madeira, os dentes batem, dizem que tremo à geada, mas é outro
Frio, da mesma natureza da fome, e ela não sai, não passa, se calhar nem está,
De certeza que não me existe, só eu estou preocupado em dar-lhe uma alma ao corpo
Que nunca se sentará naquele, neste banco de jardim, sempre vazio, onde nunca estou
E onde tantas vezes me sento, à espera, mas só o sono vem, e a derrota e a morte.

18.02.2013

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 17 de fevereiro de 2013


Eucaliptos Em Earls Court E Outras Sublimações Desnecessárias

Espero que venha, mas são sempre as mesmas palavras quando chegam, as imagens limitadas
Que se foram acumulando na originalidade vazia, lá fundo cheira a eucaliptos e a fronteira,
Entre um ser e um ter, vai-se perdendo um verbo pelo outro e quanto mais se tem menos se é,
Mais longe se está dos Verões de estradas infinitas rasgando montes e linhas que só nos mapas,
Já não se tenta, espera-se, não se força, deixa-se vir, quando a vontade desistir, quando a
Resistência ceder ao peso do lixo dos dias, sacode-se aquele pequeno-almoço tardio
Em Earls Court à espera do fim de uma solidão maior, como se sacudiram as palavras
Que hoje parecem sintomas de uma cerveja demasiado cedo, ainda tenho a minha cara
Dos teus olhos pelos teus dedos dentro daquele livro do Bukowski e aquele momento
Que hoje tão morto, tão gasto, na estação de São Bento, sei que te lembras, mas não sentimos
Mais, choraste nesse dia de Sol, como choraste na manhã de insónia em que me contaste
Que te tinham entrado e as palavras a tornarem-se em unhas, a apertar algo cá dentro,
No fundo um nervo chato apenas, ácido clorídrico a mais, espero que venha e que lave isto tudo,
Já não sei esperar, esperar exige esperança, limito-me a engolir o desespero e a certeza
Da perdição, um fim é um fim, um pouco de sujidade de unhas talvez, que se guarda como
Uma relíquia, mesmo tendo sido amargo muitas vezes, deixa-se cair uma chuva ao contrário,
Como se o céu em sintonia com a cadência dos dedos, a dor dos hemisférios, os gritos
Harmoniosos que se desfazem em ecos pelos montes, onde vinhas esquecidas,
Saudosas de tempos melhores, porque passados e nunca se viveu tão bem vivendo-se tão mal,
Fecham-se os olhos, não merecem o abuso que a solidão lhes obriga e procuram o aroma
Dos eucaliptos e da fronteira, fluída, fria, um salto de criança ao alcance da inocência ingénua.

17.02.2013

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


Sorrisos Desenhados A Medo

Todos sorriem com o olhar vazio, quem não parecer feliz é excluído, quem não se rir alto é
Posto de parte, quem não fingir é triste e é chato ser triste, ninguém quer a tristeza como
Companhia, todos se riem, mesmo os que caminham sós, um dildo no cu talvez , riem-se
Cornudos, riem-se putas com o esperma azedo a escorrer-lhes por entre as pernas, tudo
Uma felicidade pelas ruas cinzentas enquanto se escondem as doenças em edifícios altos,
Longe dos olhares limitados à altura das montras, é uma felicidade colada com saliva
Na porta de um frigorífico vazio, apenas as crianças parecem saber, só elas caminham sérias,
O futuro cheira-lhes mal e a sua sinceridade não lhes permite sorrir perante o cheiro a merda,
Sorriem e enchem os vazios de excessos, cobrem o vazio com exageros, compensam com
O brilho exterior a falsidade da chama que lhes acende os sorrisos e passam e esquecem-se
Do que os fez sorrir, porque não foi nada, só o medo, o medo de serem excluídos
Tomados por tristes neste mundo triste

Turku

15.02.2013

João Bosco da Silva

REM

Ah, o cheiro a feno e a pecado e os meus sonhos despejados no balde de desperdícios
Para os porcos, o inferno na ponta de um cigarro de papel apagado com medo no buraco
Da parede de um palheiro onde o barro há muito desistiu de preencher espaços vazios,
A palha a espetar-se nas costas e nas costas da prima quase afastada, enrolados pelo chão fora
Como em filmes que nunca vimos, os sonhos a fermentar inocentes, à espera que o balde cheio
Para levar aos porcos, quase cegos num chiqueiro sem luz onde engordam de escuridão,
Enquanto não chega o dia em que lhe fumegarão as tripas e a carne, um pedaço de lombo
Nas brasas e uma brasa a saltar para o olho do primo e a antecipação, a água na boca,
Amargurada, o cheiro a feno ou a carroça da égua cheia de aveia, ou nabos de onde foi
Uma vinha onde se comiam grilos com inocência, contra o vento purificante de antes
Das trindades, que não seja arroz de tomate e que não falhe a luz outra vez, que as velas
Acabaram-se na última trovoada , só os sonhos restam, a fermentar com os desperdícios,
Despejam-se os últimos, sem camisa deitado num lameiro seco, sacudindo as moscas
Com as mesmas mãos que procuraram os segredos húmidos dentro de uma virgem,
Inspirando fundo o horizonte inocente cheio de pecado, de um pesado vazio, do devir.

Turku

12.02.2013

João Bosco da Silva

domingo, 10 de fevereiro de 2013


Pedido A Um Moleskine Aberto

Fecha-te por favor, deixa de ser o espelho do interior das minhas pupilas, não gozes
O vibrar ridículo das minhas obsessões, sou capaz de amar como quem vive, não
Me enchas com esse vazio branco, como quem pede desesperado uma humilhação
Só para acordar do estado de querer dos dias apenas o seu fim, o adormecimento
Precoce no meio dos sonhos retalhados de memórias e medos que não se conhecia
Quando os olhos abertos, não mereço esse desrespeito, mesmo que tenha vendido a honra
Pelo inferno e trocado a vergonha pelo sentido que a pele perdeu para dentro,
Agora fecha-te, deixa-me dormir, não há tempo para a tinta secar e hoje já lavei as mãos
Tantas vezes, mas todas as ausências estão entranhadas entre as unhas e os dedos,
É também aí onde a felicidade mora e mordo, mordo, para que saía e me dê o alívio
De um sorriso não escurecido por uma memória demasiado doce para ter sido um momento
Como uma música de um cantor suicidado, a repetir-se, nos vivos, impossível de se ouvir
De se recordar, com pureza, fecha-te, deixa-me escurecer à vontade antes de adormecer,
Deixa-me engolir todas as palavras que me pedes, já me dás tudo aquilo que não consigo dizer,
Todo o vazio, toda a ausência, páginas em branco, páginas em branco, já me repito o suficiente,
Já me canso bastante não fazendo nada além de queimar as horas do dia com o desespero
Pela noite, e quando ela chega o desespero absoluto, mas escondido, nas esquinas, nas sombras
Maiores, na fome que me queres comer, na fome que me queres comer, porque te alimentas
Dos meus vazios, agora fecha-te e esquece todas as aventuras que hoje me trouxeram à solidão,
Ninguém merece testemunhar o que agora só se lembra, só o que se sente agora, por isso
Deixa-me a mim e mostra-te a quem me quiser ler, mostra as tuas páginas em branco
E diz-lhe que é tudo o que sinto, tudo o que consegui escrever, tudo o que me resta dos dias
Que passei ao Sol, dos dias de chuva que já me secou, dos dias que subtraio à espera de mais nenhum.

Turku

10.02.2013

João Bosco da Silva

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


Coito Interrompido

O cansaço escorre-me pelos ouvidos, quente, metálico e não percebo a ausência de suor,
Andar tantos anos para chegar a lado nenhum onde se está e está-se, mesmo que a pingar,
Pingos de ser quase a não ser, a desaparecerem na dissipação da queda que não chega ao fundo
E à distância, uma noite de Abril revela-se entre uma chávena fria e um copo de cerveja
Já quente, uma noite no cemitério na companhia dos ossos de Sebastião Alba, a roçar vapores
Que se confundem com o cheiro do oscilar das chamas de umas velas por lá semeadas
Como quem deixa flores a apodrecer por consideração, os dedos procuram uma aceitação
Viscosa, mas ela diz que hoje não dá, estou nos dias maus do mês e estranho não cheirar a ferro
Quando chupo o dedo ainda húmido ao luar, digo que não faz mal e adio a ejaculação que
Lhe despejo noutra noite na cara, com o mesmo cansaço que me escorre pelos ouvidos,
Mas em jactos, porque menos anos, ou mais vontade de anos por vir, o Sebastião Alba
Continua atropelado e enterrado com o nome que lhe deram, eu nem me dou ao trabalho
De mudar, somo anos perdendo-os e incho, a pele estica, cada vez mais fina e a alma cada vez
Menos densa, diluída na merda que a experiência acumulou, eu cada vez menos e maior,
Com saudades da lobotomia química que me visita nas horas lúcidas da loucura, quando o
Cansaço se faz sangue e me empurra contra o futuro que ainda está para ser parido pelos meus olhos.

Turku

07.02.2013

João Bosco da Silva

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


Ensaio Sobre O Arrefecimento Do Café

Que fazer quando o café arrefece e se tem a certeza que a sua doçura é só para disfarçar
O seu negro amargo, faltam pontos de interrogação, mas não é por orgulho e só se tem
A certeza das ausências, o café dizem que desperta, mas o quê realmente, quando se sabe
Que o dia não mora ao lado e se passarão as horas a pintar paredes com recordações
E a procurar em silêncios as vibrações escondidas de certas músicas que estranhamente
Se entranharam no hipocampo e tem cheiro quando se apertam os olhos com força
E se murmuram, hum hum hum, até um cabelo nos incomodar no pescoço, solto, loiro
E a deixar de incomodar com a cor, sabes bem que este poema poderia ser para ti, mas não
É, nem é sobre ela, é sobre o café amargo que arrefece enquanto o açúcar se revela
Colheres a mais, na chávena triste, não há perversidade mórbida só a curiosidade inocente
Que se permite às crianças com espancamento por catecismo, inferno, inferno, e carvão
No sapatinho, engole-se tanto pão com vontade estéril, com esperança seca e ilusão apagada
De paraísos e vidas eternas, haja esperma quente e fértil e a certeza do sangue coagulado,
Todos somos deuses enquanto vivermos e amarmos, e temo desiludir Pasolini por omissões
De actos pensados, não trair o amor do fantasma de um fantasma fossilizado na moral,
A minha deusa sente-se, bebe-se, sorve-se, e sinto as suas graças à minha volta,
Responde-me aos pedidos de carne, rasga-me o corpo e o que dá vontade ao corpo
E traz-me o paraíso sempre que está presente, até o café é mais doce e a manhã parece
Mais branca, não amarga, de velas apagadas, roupa interior esquecida, espalhada pelo chão
Numa casa vazia, pequena e tão vazia, peço-te e espero-te, o teu dourado calor,
A tua doçura, mas as bandeiras perdem a cor e os meus avós envelhecem num ritmo
Que nunca imaginei possível, olho para as mãos e entretanto passaram décadas,
Hiperventilo café para despertar e levar o dia até ao fim, afasto cordas e lâminas do caminho,
Desistir é tão fácil que se torna difícil e eu sempre fui de ir contra, de bater contra,
Os muros não são tão duros como a minha cabeça e o que me limita fortalece-me,
Engulo, fecho os olhos e sou engolido e só tenho a certeza de ser, quando me sente,
É sempre o fim do Verão quando ela parte, mas em vez do cheiro do bagaço nas ruas,
O cheiro do café a empurrar-me para páginas em branco e a companhia do papel.

05.02.2013

Turku

João Bosco da Silva