segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sonho Em Veneza

É difícil perdermo-nos em Veneza, lá, está-se sempre num sonho, não se sente
Fome ou cansaço, os olhos engolem o corpo todo e por osmose absorve o que
A alma pede, não deixo de sentir inveja dos que aqui vivem, os seus altos e baixos,
Todos os dias, tão mais belos que os meus, sobe-se, desce-se e sempre uma recompensa,
Ao se sair de uma rua escura e estreita uma praça que abre tanto os olhos que não bastam
E pedem também a boca para se engolir tanto fascínio, entra-se na igreja de S. Pantalon,
Olha-se para cima e sente-se o peso do Síndrome de Stendhal a espremer-nos até
Ao limite da beleza suportável em tons escuros, não se pode ter medo de morrer em Veneza,
Penso até, que aqui, se recebe a morte sem tristeza, mas com romantismo, talvez um pouco
De melancolia, mas não da que o português sente, mais daquela de passar por uma porta
Aberta e ouvir um ensaio das Quatro Estações no berço de Vivaldi, é verdade que aqui não
Se deve beber muito à noite, a não ser que se tenha um anjo da guarda atento, gondoleiro,
Aconselha-se a vista desarmada e sem medo de encarar decotes ou olhos de gelo com vontade
De serem penetrados enquanto pálpebras se apertam em mais um canal e a gôndola passa,
A espuma da cerveja aquece, está-se num sonho, ao lado da Hostaria Venexiana, à espera
De uma morte do que se esqueceu de acordar, sete horas depois do almoço, ainda com a
Piazza S. Marco a latejar profundamente, desde o córtex occipital ao frontal, atravessando
Em linha recta as memórias congénitas do hipocampo, um dia voltarei com a impossibilidade
De regressar acordado, lá, só um avião me conseguiu beliscar, enquanto o Sol se deixava levar
Pela cidade a acender-se nos canais, mesmo assim, sorri, com a mesma seriedade com que
Cada pedra foi colocada em cima de estacas de madeira vindas da Eslovénia, Croácia e
Montenegro, cada canal violado com a inocência da fome dos turistas, que lhe perdem
Tempo em montras com nomes que se encontram também no Japão, como também o cheiro
A gasolina e protector solar, os dentes americanos mastigam quantos dólares uns sapatos
E o seu tamanho perante a beleza da sereníssima, nem a pele queimada pelo Sol se lembra
De despertar, só a de fora contra os olhos e toda a fome de sonho, de sombra e frescura,
E ainda dizem que Veneza é melancólica, nunca viram a invicta do império que levou
Ao dito declínio da que se afunda no Adriático, enquanto com o vibrar de cordas
No crepúsculo, ressoa no coração amargo de um poeta, é decididamente mais fácil
 Morrer-se em Veneza que nos perdermos lá, só o coração se perde entre o corpo e o sonho.

Veneza

01.08.2013


João Bosco da Silva

sábado, 3 de agosto de 2013

Pacotes De Leite Mediterrânico

Fabio, porque sois todos iguais, não sei se é por seres francês, quase a vomitar na língua,
Mas deixo-te desviar as cuequinhas húmidas para o lado no canto da escuridão do barulho,
Espreitam por detrás dos ombros da vergonha, engolem como um desabafo a aproximação
De uma liberdade pesada na almofada onde de manhã a máscara da noite apagada,
Um abraço de rotina, para manter a boa fama, todos iguais, vós, o namorado a estranhar,
Ficar até tão tarde, depois do turno da noite do hotel entrar no da manhã, ele a espremer o
Tempo nas pernas que passam e nas que se lhes abrem, latas de cerveja a povoar a mesa,
Nunca tinha feito isto e até é amor, é, é a magia dos Fabios que são todos iguais,
Vendidos por febra e uma descarga de todo o catecismo às urtigas, fodas no adro da igreja,
Desfarda-se, cobrindo os speedos com vergonhas maiores, uma camisola de uma equipa
De NBA só porque é a moda da praia, a velha alemã geneticamente modificada por
Engenheiros nazis, leva as mamas demasiadamente proporcionais às nádegas da idade
Que à volta dos olhos como nas árvores os anéis, lixada e polida pelo Sol dos países
Conquistados à força política e da economia pseudo livre de mercado, esmagadoramente livre
E absorvente, uma afronta à osmose, a areia que engole a saturação do escarro e outros
Desprezos salpicados, todos, uma questão de influência gladiadora, eu sou legião, tenho-o dito,
Uma das engolidas por bárbaros germânicos, aqui não se discute, são distúrbios motores
Na língua, demasiados cunnilingus na época dos bancos de jardim ou punheta depois
Da missa de Domingo para purificar o corpo depois da alma fumada e curada, mais fome
Do que as chamas que se imaginam, nós pobres Fabios, tudo se transformou, não fomos
Criados assim, tanta obsessão com o pecado, teve que fazer-se merecer tanta culpa tatuada
Na inocência dos que nasceram por pecado e em pecado, sorriem e já adivinham o jacto
De esperma nos dentes bem cuidados, na palidez da sua qualidade de vida que trata
A miséria por pesadelo, os padrões sempre foram o seu fraco, fácil de adivinhar o púbis
Bem aparado, depilado ou não, a cor real que escondem no que mostram, todos iguais,
Vós, Fabios, quase virgens quando cai em cima de vós a responsabilidade de um tesão
Sempre pronto para tanta puta, sei que és fácil, a lavar pratos com as nádegas
Engordadas com fast food, para a fast foda, esquecida do exército americano,
Do soldadinho meant to be, encornado, das lições de kickboxing, tão submissa agora,
Também com o, não sei se é por seres francês, ou lá o que aquilo é, por ter provado
Vinho francês e conhecer somente mais o californiano, queijo, azeite, pão fora de embalagens,
De forma orgânica e irregular, é uma visita à Torre Eiffel, ajoelha-se e desaperta a braguilha
Numa retribuição brilhante, mas com muito dente à americana, comemos cavalo por vaca,
Pérolas para porcos, a enfeitar o azul daqueles olhos patrióticos, a mão encontra o desvio da
Careca e ou suor ou uma prontidão eficaz que promete somente madrugadas e ressaca,que
Passará muitos anos depois, dos anos que ainda quentes, na ressaca se escreve ainda,
Sem dores de cabeça, só a melancolia do sabor que se lavou mastigando dias, todos iguais vós,
E eu nem Fabio sou, cresci a carne de porco das matanças de Inverno, provei pizza só
Depois dos dez e antes, pensava que eram omoletes, agora ovos e gemadas na certeza
Estereotipada de tudo o que é estrangeiro e ignorante, acabe-se já a Peroni, a cinta descaída,
Os calções até aos lábios maiores, a tinta também, que até o Miller se cansou de tanta foda
No vazio, tanta página em branco preenchida com a solidão trazida pela humidade que passa.

Rimini

28.07.2013


João Bosco da Silva

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O Café Nocturno De Van Gogh No Hotel Moscovo

A sala um negativo fotográfico de O Café Nocturno de van Gogh, embebido em melancolia e
A promessa de um frio lancinante além da porta que insiste em abrir-se contentemente
Cuspindo almas envoltas em corpos envoltos em peles ou de uma leveza maior e o interior
Mais cheio de fogo transparente, uma outra aguardente, de batata dizem, e água da que
Passou muito tempo sólida, a mesa ao centro, num lugar onde centro impossível,
Cadeiras estrategicamente colocadas para o reconhecimento fácil do volume nos bolsos
E da braguilha, o recheio dos bares russos, cada um com um ar mais suspeito e vicioso
Do que o outro, uma ambiguidade afogada no ar rosado e escaldado pelo frio e pela vodka,
As putas sentadas nas cadeiras e as putas sentadas nas putas e as putas sentadas no frio
Dos bolsos cheios e no dos bolsos vazios que ao menos uma braguilha farta, ou uma cara
Estrangeira com promessas de plástico lá fora, que já venho, nós uns trocos, tantos para tão
Pouco, um jogo de bilhar apressado, espremido entre a paranóia e a claustrofobia ao sovaco
E perfume demasiado afiado e doce, apontado ao fundo dos colhões do cérebro, tacadas
Concentradas nas pernas que se descruzam em sorrisos e insinuações de puta, ao menos
O interesse directo e a sinceridade de batom vermelho para esborratar os tomates
E roçares brutos de um carinho siberiano, falta o do fato branco, junto à mesa de bilhar,
Mas está o tempo a substituir a sua presença fantasmagórica, neste hotel Moscovo,
Em São Petersburgo, onde as bolas teimam em esticar o tempo e alargar uma conta incerta,
A carteira a tornar-se cada vez mais seca e cresce a vontade de fugir dali ou foder uma daquelas
Putas, vontade escondida da vontade até, que todos católicos, rodeados de uma ortodoxia
Treinada pelos séculos dos tubérculos e dos regimes de outro estômago, os tacos perdem
A sua faculdade recta e parecem um tesão saltitante no meio de uma multidão de praia,
Se ao menos mais de menos trinta graus lá fora, um cigarro que logo um a cravar na língua
Dele e um gajo sem perceber a mostrar-lhe o isqueiro e o maço e ele as duas coisas,
Toma lá, vai lá, não apetece ir fazer companhia ao Dostoievsky que a vida ainda vai em pouca
Miséria e até se saciar, muita beiça desesperada, cansada do dono, muito verso desesperado
Cansado do dono, uma colecção de garrafas vazias, livros consumidos como se escritos por
Alquimistas, quadros quase lambidos, também ali perto no Ermitage, a vontade de levar tudo,
Mais, para deixar a apodrecer entre as lágrimas dos que ficam e o seu esquecimento,
Fica assim, empatamos, vamos sair daqui, mas antes, bebemos uma cerveja Baltika.

24.07.2013

João Bosco da Silva


Coimbra

terça-feira, 23 de julho de 2013

Buthus ibericus

Conta-me outra vez essa história, pela milésima vez, conta-a com todos os pormenores,
Conta-me essa ou outra que também já sei de cor, eu serei todo interesse e se tiver que ser vida
Conta o que quiseres, mas não te cales, nem me faças encontrar na tempestade outras razões
Além de alterações de pressão, baixas de temperatura, a atmosfera ionizada e pronta para
Um pranto que não tem nada a ver com o que me obriga a escrever ou a chorar quando o papel
É outro e a solidão permite extremos, conta-me outra vez essa história, ou aquela outra, tanto faz,
Conta enquanto tento encontrar o teu cheiro na terra quente molhada, a tua companhia num
Copo de vinho, custa-me que o mundo o mesmo e nada igual, antes de ti também tristeza,
Lugares vazios à mesa, mas nunca o teu, o meu mundo nunca antes de ti, por isso que interessa,
Os ciclos passavam por ti e a tua vida uma rotina ao seu ritmo, todos os anos encerravam-se neles
Mesmos e pariam outro, para engordar até lá para Dezembro e tu como quem conta no fim
Do jogo da sueca, contavas sem saberes sequer escrever o teu nome na inutilidade dos papéis,
A tua realidade feita de terra, mau tempo, pedras, madeira, castanhas e vinhas, a verdade
Longe da especulação que queima séculos de suor, mas não tens que escrever nada, conta-me mais uma vez,
Como foi arrancar o espigão de um escorpião com as unhas, como foi vingares-te do Buthus ibericus
E a que sabe a dor da sua picada, conta-me em que pensavas enquanto sangravas na cama
E os teus filhos pequenos não esperavam que tu mais de oitenta um dia, por um pedaço
Tão pequeno de metal, até o homem mais forte é facilmente travado por um pedaço
De algo que pára as engrenagens do relógio da vida, e pára e parou, conta-me pelo menos,
Como foi daquela vez, em que fechaste os olhos e fizeste acreditar a todos, menos a mim, que morreste.

13.07.2013

Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Não Esperes Que O Filtro Te Chupe

A cadência dos versos como os passos incertos na rua que baixa até ao buraco onde todas
As cidades nascem, a Igreja, onde se fundam almas para sujar, as estrelas com todas as
Certezas que se consomem, ao contrário do que se espera, na aurora, no cheiro a pão fresco
E do primeiro café tirado às insónias e da secura de sonhos nos autómatos que são espelhos
Em que não queremos acreditar, que alienados vão todos fora de nós, não sabem nada da
Vida, que é nossa, minha, nunca estiveram em lado nenhum e perdem-se na ausência de
Segundos entre as horas que se ganham para se gastarem na pobreza nutritiva dos programas
De televisão, oferecidos aos porcos, cevados para inchar, tornados lentos e pesados
Para o matadouro lento da engrenagem social, a liberdade é uma palavra como absolvição
Dos pecados, pelas indulgências dos números, no mundo não interessa o que és, mas quanto és,
Tudo o que tens além de ti, faz de ti melhor, maior, aproxima-te de deus tudo o que se cola
A ti, apêndices brilhantes, escada em direcção ao que foi inventado na profundidade das
Circunvoluções, nada se move no fim de mais um verso, alguém sente porventura o que não
Lhe toca os sentidos mais superficiais, a calçada não chega a ser tão suja como os pés seguros
Da grandeza da sua ignorância, olhando em frente com uma miopia de alma, que dá dores
A dentes intolerantes à sinceridade das mensagens subliminares, deitam-se à sombra das
Raízes secas, nem dão pela terra que lhes cobre os olhos, chamam luz à sorte dos favores,
Esqueceram-se dos deveres e dos direitos e cantam à luz das velas, ajoelhados numa hipocrisia
Tão casta, que até às paredes vazias de um claustro tentam vender, como devoção e honra,
Apague-se o cigarro e aceite-se a dádiva fechada numa casa de banho quente de vontade onírica.

Coimbra

17.07.2013


João Bosco da Silva

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Nightmare

de Artie Shaw,

Sento-me à beira Hemingway e escrevo enquanto o copo de mojito desce, escrevo a tentativa
De um sonho que me ficou agarrado à pele da memória confusa, como numa manhã de
Outono, abrir os olhos num quarto dum hostel em Helsínquia, com um sabor estranho a
Saudade nos lábios, um sabor igual ao que fica depois de se tirar a caçadeira da boca,
Quando faltou a coragem para tanta distância, mais um golo, porque a época da caça
Já acabou, e estão longe os ursos e os alces dos países do norte, longe as zebras e as cervejas
Tusker e as alemãs a fingir descuido nos chuveiros públicos, a correrem para as tendas
A rebentar de gemidos que pela noite fora a confundir as hienas, a época da caça acabou,
Agora reúno os pêlos brancos da barba como credenciais em que ninguém acredita
Por falta de rugas, mas com os olhos fechados acordei em Levi, no Verão, sem mosquitos
E eu quase tão estrangeiro como no meu próprio país e à mesa da sala, salta uma de cada lado,
Oferecendo o centro do universo de cada uma, à vez, no sofá a tocadora de kantele ainda vibra
Nas linhas brancas e negras do vestido manchado com esperma, nem tudo nas nádegas
Deliciosamente nórdicas, os púbicos da cor do pecado frustrado das pássaras do sul,
Não direi da minha terra, Hemingway, nem que um cartucho nos cornos que dei e levei,
Porque no fundo todos invertidos a fazer vértices nas circunvoluções hospitalares do cérebro,
Engulo a hortelã como a ausência de tudo o que deixei e afinal tudo o que ficou, o que sou,
Os beijos que nunca mais lhes darei, o futuro que nunca mais lhes iludirei, mesmo que o mesmo
Agora, daquele que se esperava erradamente, não haverá mais olhos mentirosos na família,
Nem a sinceridade dos dentes pequenos, o chumbo purifica tudo, não é, ou os cornos de um
Touro em cima do nosso coração, a foder e a encher de fúria a arena sagrada da nossa
Devoção, tão longe como hoje a Lapónia, a caminho da terra dos Fiordes, onde me senti mais
Em casa do que com bacalhau na boca, um apelido enterrado e a descendência tantas vezes penetrada
E ejaculada no colo do útero próximo, vamos embora que tenho o sangue doce e os mosquitos
Comem-me, e só assim se distingue o produto do sonho do da distância, a presença dos
Mosquitos, o ar das terras de Morfeu tresandam a enxofre, e dizem que o inferno em baixo,
Quando as almofadas sustentam o peso de todos, todas as orgias que a falta de tomates
De olhos abertos não permitem, quando o desejo está lá, no dedo, no gatilho e por cobardia,
Volta-se a acordar, longe de Levi, das alemãs arreganhadas, das tocadoras de kantele e outras
Cordas, do fim da época de caça e do ridículo dos cornos, nas touradas de só toureiros,
Lutando a morte contra animais, quando o chumbo aquece, nas pequenas frustrações do dia,
Como um copo vazio, uma direcção mal tomada, além, antes de se acordar em Levi,
Helsínquia ou na puta que nos pariu a todos, os que não se queixam por falta de traduções de
Merdas como esta, à beira de Hemingway e um copo de mojito, agora hortelã mirrada.

Coimbra

15.07.2013


João Bosco da Silva

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Raspadinha

Raspadinha

Esta será a raspadinha derradeira, a que irá pagar todas aquelas raspadas no fim-de-semana,
Sentados num banco de jardim ao pé do quiosque, às vezes eram às cinco de uma vez e claro,
Poupava-se no gelado, eu e a minha irmã com as unhas, raspávamos e passávamos à mãe para
Conferir, às vezes ela, dá para mais uma, queres ir lá buscar e eu ia, raspava e ficavam rasgadas
No caixote do lixo, agora que arrancaram o quiosque e que já ninguém se senta naquele jardim
Da vila, agora que nos gelados procuro a ausência dos gelados da infância, esta será a raspadinha
Que irá pagar todas as outras, é uma brincadeira isto, é para passar o tempo, dizia a mãe,
Tentando convencer-nos que não era desilusão nos seus olhos, cem escudos já não é mau,
Guarda-os para um gelado que é melhor, mas onde vou agora buscar o prémio se do quiosque
Só resta o que se vê quando os olhos fechados, ou a voz do senhor J quando cheiro as folhas
De um jornal, esta será a raspadinha derradeira e mesmo assim, sei que a vida ficará menos,
Sempre menos, agora que da infância, o único original e verdadeiro, só a distância resta.

Porto- Coimbra (Comboio)

02.07.2013


João Bosco da Silva

Os Dos Delírios Versejantes

Os Dos Delírios Versejantes

“fornicamos
para que alguém nos renda”
Sebastião Alba

O fogo que trazemos dentro, não consome como o dos incêndios, crepita, mas é como o crepitar
Dos montes em Junho, ao Sol, quando as sementes das giestas se abrem lançando à terra quente
As suas promessas de verde, é portanto um fogo que fecunda a aridez seca das folhas em branco,
Esperando com isso levar a esperança aos olhos, ou apenas um despertar de brisa, feita de tudo
Aquilo que sempre nos despejam dentro, como se o nosso fogo daquele que queima, como se a nossa
Alma uma incineradora, por isso não se queixem dos versos poluídos, nem se revoltem com os cogumelos
Venenosos, não esperem de nós o sumo de uma fruta cuja árvore não plantaram, e se crepitamos
É porque nos dão silêncio para isso, mesmo quando é o silêncio de um guardanapo de papel numa
Esplanada cheia no centro de uma cidade a arder em chamas apressadas de carne e olhos só para
Serem ocultados pelas modas que tentam vender pelos passeios ao Sol, isto de rasgarmos o que é
Branco é também uma forma de nos despirmos, de aliviarmos um pouco o corpo dos trapos e da sujidade
Com que nos vestiram o nome, somos o grito escrito das dores que nos dão, das que nos obrigam
Pelos sentidos e assim crepitamos num latejar apagado e somos a semente e o estrume de algo
Que poderá nascer além dos vossos olhos, se houverem olhos que vejam além das palavras.

30.06.2013

Cidões


João Bosco da Silva

Última Noite De São Pedro

Última Noite De São Pedro

Não foi ontem, ontem nem estive lá, porém, alguém me bateu no ombro e quando me voltei,
Desculpa, pensei que eras tu, mas não era, ontem nem estive lá, portanto, a última vez deve
Ter sido num ano há muitos anos antes dos que me cobriram a vontade de cansaço,
Ainda aquela boca no meu dedo, quente, tão húmida e eu com uma curiosidade penetrante,
Eu com ganas de me ocultar no interior escuro de uma cona disposta a esconder toda a minha
Vergonha, disposta a absorver num vórtex de hemisfério norte, toda a incerteza e dar-me
Na sua dinâmica de fluidos, todas as noites numa, sem promessas de suor e gemidos furtivos,
Mas ontem não, fui, eu, nem sede, hipnotizado por todos os fins, esqueci-me de recomeçar e
Não compreendi nem uma lição das que se diz aprender com as derrotas, talvez a lição só uma,
No final serás vencido e nem deus, nem o seu espaço vazio, a ignorância, te poderão salvar
Da tua condenação a ti mesmo, podias ter bebido algo para te acordar, mas não, como seria
Possível se nem lá estive, apenas me escondi no barulho das estrelas, em cima, que com jeitos
Frios ocultam humildemente ou falsamente que são infernos, milhões de infernos num só céu,
Cujas chaves, dizem, são guardadas por um morto que negou o amigo três vezes, por isso
Prefiro fingir acreditar nas três cabeças daquele cão, neste Cérbero de sombras e outros.

Torre de Dona Chama

29.06.2013


João Bosco da Silva

Despejar O Lixo

Despejar O Lixo

Tu, que com promessas impossíveis e portanto de nada, me fizeste perder nesta pedra à deriva no infinito,
Tu que me fizeste acreditar que era aqui, onde estavas, a minha casa, tu que desconheces
Todas a cinzas que tinha guardadas como recordações, porque sou afinal uma fogueira apagada,
Tu que me trancaste dentro do teu coração e continuaste lá fora, onde sempre viveste,
Tu a quem dou a carne e toda a sua vontade, não queiras ser a razão da minha eternidade,
Não me convenças então que a imortalidade se esconde num beijo, já que o meu cepticismo
Se limita aos sonhos dos outros, nos olhos dos outros, deixa-me dormir à minha maneira
E se me quiseres acordar, recolhe antes a tua roupa do chão, não deixes nenhum bilhete
Ou mensagem no espelho, o batom custa a limpar, e ao saíres fecha a porta com a certeza de uma morte.

Torre de Dona Chama

29.06.2013


João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Dissecação De Sombras Ao Sol

Será que os poetas vão à praia e mostram as suas pernas brancas, será que fodem além
Das dadas nos gabinetes bolorentos, será que bebem cerveja em tascas de aldeia e jogam às
Cartas com velhos que nunca leram um verso, será que ouvem também as histórias desses
Velhos, andarão de transportes públicos contribuindo para o cheiro azedo a virilha suada,
Também usarão o olhar para desviar as cuecas ou só a influência que conquistaram a dar o
Deles a quem se despede dos últimos tesões, será que são fiéis ou infiéis a si mesmos, sempre,
Terão marcado com passos inocentes o caminho de terra para lado nenhum e salpicado o pó
Com sangue infantil, será que vêem adaptações de Chuck Palahniuk ou de Don Delillo, ou
Viram Salo antes dos dezasseis, comerão pipocas no cinema e levarão camisa e gravata,
Levaram ou levarão porrada, os poetas, sei que os há que merecem, será que também morrem
De acidente de carro, ou alvejados no meio da rua por um poeta rival, ou esfaqueados por
Ciúmes ou por uma infidelidade em nome da falta de imaginação, será que também sentem
O cheiro das casas de banho públicas e têm saudades de abrir um armário de naftalina,
Terão bebido eles sangue com vinho do Porto ou só escrevem aquilo a que nunca o seu corpo
Se atreveu, será que vão nus à sauna e metem conversa com quem estiver ao lado, ou terão
Medo do que quer que seja, perder um verso, será que têm pilas das que crescem ou das que
Não surpreendem quando aquecem, terão a prontidão de um louco para foder, em qualquer
Lado a qualquer hora sem outra razão a não ser a vontade, ou estarão todos cerimónias
E constrangimento, a tratar a cona por você e, a menina tem muito talento, enquanto a irmã
Da gaja que mete o dedo no cu finge dormir e espera que a recuperação seja rápida, do que
São feitos esses, os que escrevem o que todos dizem apreciar e fingem perceber, e nem eles
Conhecem o que lhes usa as mãos, os dedos e lhes obriga os olhos à solidão das palavras

Palheiros

26.06.2013



João Bosco da Silva

sábado, 22 de junho de 2013

Toca-te Antes De Vires

Ninguém acredita que escreves poesia sentado na mesma cadeira onde fazias os trabalhos de casa
Na primeira classe, nem deves saber tu, que até o Sol, que julgas conhecer tão bem e desde sempre,
Que te queimou tantas vezes com indiferença ao teu suor e te faltou em tantas manhãs sem luvas,
Geadas afiadas que cortavam os dedos pequenos, que até o Sol cada vez menos hidrogénio, escreves
Com uma caligrafia cada vez mais comprometedora e não te admires por ninguém te querer confiar a filha
Ou a mulher, contenta-te com as avós e as mães secas, os dentes estão caros para lambões e os teus livros
Tomam o cheiro do teu covil, perdes logo a vontade de os abrires e de lhes inspirares fundo o cheiro
A entranhas industriais, querias suor, sangue, fumos de outros tempos, secreções vaginais, o aroma
Das coxas quentes enquanto o esperma escorre traçando uma linha silenciosa até aos joelhos, que lambes
E usas mais tarde em forma de verso, sentado nessa cadeira onde aprendeste a desenhar as letras,
Para agora isto, nisto te teres tornado, leste o que tinhas para ler e deixaste a lista que tinhas feito
Aos dezasseis anos para a próxima vez que sacudires o líquido amniótico, nada te mudou na verdade,
Nada te trouxe algo de novo além de uma hipertrofia aqui e uma atrofia além, mijas mais do que o que choras,
Mas de forma anormal, o nariz tornou-se-te apurado e agora cheira-te a cabra em todo o lado, evitas
Os espelhos com medo a cornos e cabelo branco e quando te confrontas com um, concentras-te nas pupilas,
Procuras-te na profundidade escura que julgas ter, mas tu tão superficial, ao lado de todas as cicatrizes,
Tu todas as cicatrizes, as mais recentes e as mais antigas e pouco mais, o resto são páginas em branco
Onde te rasgas numa caligrafia de psicopata, sentado num trono de infância, onde sem esperares
Ser, eras ainda tudo, agora julgas conhecer o Sol, como julgas conhecer-te a ti mesmo, mas foste-te
Consumindo em treva, estás maior, cada vez mais frio, não mereces a carne onde te vertes, nem a cadeira
Onde escorres, negro à espera de mais uma vítima fascinada pela tua estranha familiaridade.

Torre de Dona Chama

22.06.2013


João Bosco da Silva
Gato Branco

Vinha da escola para almoçar, pelo caminho menos percorrido, só, e ao passar no posto da guarda,
Ouço um gato a miar como um pedinte num transe de fome, paro até ele me ver e vem ter comigo,
Mia, um olho verde e outro azul, sem cauda, um mutante branco, acaricio-lhe o pêlo com cuidado,
Ele mia e ronrona, continuo caminho e ele segue-me, até casa, mia, em casa, dou-lhe de comer,
De beber e ele mia, perto da lareira, olha tudo em volta com a mesma fome com que mia, as orelhas
Imóveis quando o chamo, chamo-o e ele mia, almoço e vou para a escola, ele fica porque não me viu sair,
À tarde quando regresso, vejo-o no meio do caminho do bairro, babado, mordido, silencioso, morto,
Os cães do bairro tinham-no calado e ele, nem notou o silêncio que lhe caia em cima, lhe esmagava
Os ossos, era surdo e eu cego, afinal comparado com a violência dos dentes e das patas, o que é
A pena e a piedade de um miúdo, crescer é trocar o coração por caninos maiores, é tornar-se cão.

João Bosco da Silva

Torre de Dona Chama


21.06.2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Deus De Uma Eternidade Pequena

Acordo em África, tudo tão familiar como sempre, as minhas mãos do tamanho que têm tido,
O cheiro diferente de um novo dia, a terra húmida dizem-me os pássaros e daqueles ventos
Que não tocam, tímidos, como um adolescente a caminhar sobre um pântano de uma
Tira-virgos profissional, que mal sabem por que drogas se hão-de meter, aqui fome
E uma estranha exigência de mais vida, quando lado a lado tanta vida a tentar matar-se,
Corro o fecho da tenda, descubro os membros quentes e o Sol parece tardar hoje,
Há cinza, corre pela água, alguém está a ser cremado na Índia, mais em baixo as mulheres
Lavam as cores da roupa, chega de insultos ao luto católico, o abandono dos cemitérios nas
Aldeias pequenas, extinguem-se os fogos-fátuos, já ninguém quer dormir em cemitérios rurais,
Escolhem morrer em Paris em banheiras e os leões a deixarem material para recordações
Ao lado da bosta dos búfalos, dói não ser beijado na pedra depois de morto, ou a ideia
Em vida disto tudo, acordo, mas parece-me que ainda sinto no hálito o gosto daquela
Promessa que ficou antes de se vir, e a sede, não me lembro de ter bebido mais de cinco
Tuskers ontem à noite, devo ter armado mal a rede e os mosquitos chuparam-me todo pelos
Dedos, não me apetece foder, apesar do tesão, daí estar nisto, escrevo os excessos do meu
Metabolismo, os meus olhos foram habituados a hipocrisias de catecismo e beatas apagadas
Em saias e mais saias e menos dentes para serem os mosquitos abençoados dos padres,
A frontalidade de África é olhar directamente o Sol ao meio-dia e a terra é vermelha,
Sem pretender esconder o sangue que a alimentou ao logo dos milénios, não como aqui onde
Durmo e finjo uma cegueira de burro de nora, seca, para lado nenhum, a água e os sonhos,
Furta-se a vida à vida e só se vive de morte, as ilusões estão mais vivas que os insultos da
Verdade, os búfalos mugem, mas se abrir realmente os olhos, sei que estou é rodeado de vacas.

Torre de Dona Chama

19.06.2013


João Bosco da Silva

Desconsolhos

Não peças mais do que isto, um alçapão para o infinito, um padre crente e um deus bêbado,
Tudo o resto é consentimento de cornos, desconfia dos vinte cêntimos que encontras no
Passeio e da legitimidade de uma saudação, ignora o sorriso dos desconhecidos no bar, são
Todos fugitivos de um manicómio para doenças psiquiátricas do futuro, não peças mais nada,
Já tens granizo de chumbo para tempestades e um sofá abandonado no meio daquele
Descampado para os lados onde ninguém te encontrará a asfixiares no teu próprio vómito,
Não esperes boa vontade, ou favores sem favores, tudo, mais cedo ou mais tarde, irá cair-te
No cu e será pago com humilhação e louvores, esquece a devoção, deus trai mais do que uma
Puta de aldeia no dia da festa no palheiro do patrão do pai, não arranques cabelos, tudo o que
Tens são os primeiros segundos para te fazeres valer, às vezes duram pouco, não sacudas a
Areia da ampulheta, não sejas tão exigente, chama-lhe gatinhar se preferires, mas evita pôr-te
De pé, ninguém diz que não a uma boa mamada ou a uma língua transmutadora de todos os
Valores, que no fim de contas não valem nada, empunha a garrafa como uma espada, poderá
Não te salvar, mas ao menos fecha-te os olhos e abre-te um abismo ao lado, e a garganta,
Agora vai e não percas a chave, destas só encontrarás em cemitérios ao lado de velas extintas.

Torre de Dona Chama

12.06.2013


João Bosco da Silva

Carta A Um Maldito Na Eternidade

“No, It´s not fair, but one man´s god is another man´s devil”
Chuck Palahniuk

Escrevo-te do galinheiro, ou se preferires, do inferno, só tenho Sol e uma cerveja como companhia
E ele já se põe, nas minhas costas, só o cansaço e o pó de todos os anos, desde os mais primitivos
Até esta actualidade onde me desfaço num ritmo sinusal, só para ficar bonito e facilitar interpretações,
Sabes que aparento pele de cidade quando estou calado, mas quando começo a abrir entradas e saídas,
Tirando os olhos, que esses são de outros infernos, revelo-me um verdadeiro javali alimentado com
Raízes de urze, granito e a carne da fome e por isto peço-te desculpa, também há rosas e as hóstias
Parecem sair nos pacotes de batatas fritas, por isso também aí falho e nada do que li me tornou mais,
Tudo me encolheu a um canto da minha alma vazia, que também não me pertence, vou pagando
A renda como posso, com fodas e outras limpezas cá na terra, juro-te que está tudo bem, às vezes
Há ovos, mas só para matar a fome imediata da manhã, o dia, vai-se durando encostado às sombras,
Até elas têm fugido, sabes, ao menos a mão já não me dói e a pele tornou-se um contraste da infância,
Também tu querias escurecer na eternidade, tornaste-te deus maldito e deixaste-te ser levado pela
Areia e outras amputações por correspondência, talvez a minha irmã me salve como a tua em chamas,
Enquanto lhe lias aquilo que escrevias e que queria dizer tudo o que estava lá escrito, espero que
Não te doa o vazio e tenho pena que o corpo te tenha abandonado, aqui há outros desertos, à noite
Lembram-me a tua cidade cinzenta que prateada quando chove, despeço-me com todo o mar
Que desejares e mais olhos para ver além do além, ó anjo maldito de asas de papel.

Torre de Dona Chama

12.06.2013


João Bosco da Silva

quarta-feira, 29 de maio de 2013


Pão Fresco

para a Diana,

Ela traz-me pão fresco da padaria do lado, o cheiro da manhã no cabelo e a frescura
Do orvalho de Junho preso aos lábios, ninguém me consegue matar a fome como ela faz
E basta-me um sorriso, a mais nutritiva de todas as luzes e que me desculpem as estrelas,
A semear esperanças no vazio, mas ela atravessa o chumbo que me tranca o coração
E o protege de todas as radiações amarelas e amizades de baixa frequência,
Tinha-se colado a agulha do contador Geiger, até que o Sol decidiu ser carne e doçura,
Do tamanho de um abraço, tão quente que me faz querer voltar a ser dentro, dela,
Pequenino, envolvido por uma luz líquida e murmúrios que ridicularizam a espuma das ondas
Do mar, que se afasta, se torna distância, ausência, quando as portas se fecham
E fica apenas o cheiro a pão fresco da padaria do lado, o cheiro da manhã uma recordação
Na almofada e o orvalho de Junho a secar no inferno árido que é a minha pele, quando o Sol
Se põe, e a saudade aparece de imediato, arrastando com ela correntes de incerteza e medo.

29.05.2013

Coimbra

João Bosco da Silva

terça-feira, 28 de maio de 2013


Marco Quilométrico

Expõem orgulhosamente nas varandas a arte da sua limpeza, tudo tão amarelo como o branco
Possível, às páginas tantas, parece sentir-se o cheiro a algo real, mas numa inalação mais apurada,
Não passam de palavras secas ao sol, até as moscas zombam da consistência de tais emoções,
Sentam-se com o tamanho dos seus óculos a ser o currículo daquilo que não viram além de umas
Páginas áridas, medidas e desmedidas até à exaustão da alma, sentam-se sobre as sombras que nunca
Reconheceram, feitos de luz, dizem, nós, donos da quilometragem entediante, da hipnose
Para a foda de misericórdia, porque eu sou as palavras que crio dentro, eu por outro lado, por dentro
Crio merda, esperma e um golden shower vitaminado para quem quiser fortalecer os sentidos
Da pele, aborrecida de tanto esperma cáustico e gorduroso, nem uma cerveja sabem beber, tão
Concentrados nas suas queimaduras interiores, imagino as sanitas deles cheias de papéis amassados,
De saliva frustrada, empurrando clisteres e engolindo laxantes em busca de uma depuração, lixívia,
Para os versos que sinceramente, preferia com uma coloniazita, algo que me desse ao menos uma caganeira,
Não só nojo de sebo e sebentas, ursos pelados a tentar vender o seu salmão, só espinhas, porque
Nunca o engordaram, nunca o deixaram engordar, já que só as lentes comem e comem e engordam.

Coimbra

28.05.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 27 de maio de 2013


Carne Em Promoção

Compra-me, diz um carro, o mesmo dizem uns saltos, toc toc, só em hotéis de luxo, bonecas
De porcelana recheadas com leite azedo e mutante, tudo cheira a interesse e cegueira, usados
Como novos, onde se terá que entregar a decência da indecência sincera, tudo trancado em
Aparências hipócritas, custa sorrir com os dentes todos sem um aparelho a medir caninos e
Aligeirar ângulos, número de contribuinte quer, com o hálito ainda a escorrer algarismos do
Cliente regular, é que não tenho necessidades, tenho exigências, criei classe na miséria,
Entretanto cresceram-me as carnes e posso alimentar-me de trufas e champanhe, que nem
Gosto, mas é caro, e pouco me custa submeter-me aos desejos do poder de papel, compra-me,
Uma indecência oferecer flores a monstros ilusionistas, espera a barba ao Sol por mais um
Pouco de poder para o esquecimento, a vida acordada é demasiado cara, mais vale parar, sair,
Dormir e ignorar quem caga de alto para os nossos ídolos e deuses de pobre, faz cara séria
Que as hortas à beira de estrada sempre vazias e do tamanho de mãos bem pagas com calos
E uma mesa com pouco mais de nada, compra-me e não me deixes passar perto da miséria visível,
Eu mijo-te em cima, mas pinta-me com uns sapatos novos, toc toc, veste-me com sonhos pequenos,
Sacos cheios de máscaras brilhantes, uma esperança para pôr ao peito, que outra nunca vi, bom preço, toc toc.

21.05.2013

Viseu

João Bosco da Silva

Quase Poema Sobre Poeta

Perguntam-me se conheço nome e eu respondo quem é, que não estou a ver, é um poeta de uma
Terra pequena que não assume como sua, premiado com um nome de uma escritora morta qualquer,
Isso dos prémios é uma questão de concorrer, e engulo que não participei naquele prémio, por exemplo,
É jovem, dizem-me, queixam-se que eu sou demasiado jovem, trabalha noutra coisa além de escrever,
Quem quer morrer de fome, admira-me que o tenham deixado entrar na sopa de letras, geralmente
Não aceitam omnívoros, entretanto lembro-me de um poema sobre gaivotas, areia, algo que me aborrece
Imenso, não me reconheço nos espelhos dele e com ar de ofendido, como se estivesse a ser ingrato
Ou presumido, despedem-se de mim com prontidão. Obrigado, mas sou um poeta que se alimenta
De abismos e os abismos são feitos de sombras, deixem-me habitar nas sombras e ignorar os que são alérgicos ao anonimato.


31.10.2013

Turku

João Bosco da Silva